Não há dinheiro. Não há prendas.
Não há prendas, não há correrias nos shoppings, hipermercados e companhias.
Não há gritos, nem “ não penses que para o ano vai ser assim!”.
Não há dinheiro para gastar.
Há tempo para parar.
Há uma casa nova, sem caixas de vários tamanhos debaixo da árvore, mas com uma nova postura em cima da mesa.
Há pais novos a aprender e a ensinar uma nova tabela de prioridades. E de valores.
Há filhos que vão crescer.
Sem dinheiro, o Natal vai revelar a sua verdadeira magia - o Amor que nos une aos nossos.
E que não tem preço...
E que não tem preço...
Vai demorar, mas um dia haveremos de entender como andámos desviados do que importa. Está a doer, mas lá mais à frente, compreenderemos que tínhamos tanto e éramos tão pouco…Tomara fosse mais suave a transformação. Que a pele estivesse só a cair ao invés de nos estar a ser arrancada.
É do fundo do meu coração, meio partido, que escrevo hoje. Particularmente hoje.
Nos últimos dois anos não me lembro de um só dia em que não tenha lidado com a perda. Não só de pessoas próximas, mas sobretudo em virtude do meu trabalho. Tem feito parte das funções assistir à ruína de famílias inteiras. De empresas. De sonhos. Pessoas e vidas destroçadas que me deixam a perguntar sobre o propósito deste sofrimento todo.
(um novo começo)
E lembro-me do momento em que o Sr. Joaquim perdeu a fé. Diz ele que foi numa noite na guerra do Ultramar. Com o cheiro da morte a intoxicar a esperança e os jovens, como ele, aos bocados por ali espalhados, viu-se a dar um ultimato a Deus: “ Se Existes, este é o momento de Te mostrares…”
É fácil deixar de acreditar no que quer que seja quando a dor nos parece só absurda. Imerecida…Estupidamente gratuita.
É então que empurro o Sr. Joaquim com a memória da cliente que um dia, em que a aflição dos de hoje ainda não se fazia adivinhar, me pediu para terminar a reunião mais cedo porque precisava de ir a casa, a cerca de 15 quilómetros, trocar a carrinha que conduzia, pelo Mercedes da família. É que não podia ir buscar o filho ao colégio, (mesmo ao lado do meu escritório) com a viatura de trabalho…Por isso, preferia “ir num instante” percorrer aquela distância, depois voltar e tornar a fazer os mesmos 15 quilómetros de regresso a casa… Na altura, este comportamento chocou-me de tal forma que comentei com a minha colega e lembro-me do que lhe disse: “ Ela está a dizer àquela criança que há algo de tão vergonhoso em ter menos que um Mercedes, que nunca será aceite se não tiver sempre o último modelo. Que herança pesada…”
É assim que temos vivido. A aparentar. Só que a aparência de repente ficou demasiado cara para nós e deixámos de ter como a manter. Fica a verdade. Ainda somos alguém mesmo sem Mercedes ou casas de mais assoalhadas dos que as que utilizamos.
Não. Não me perdi. Estava a falar do Natal. E das prendas emagrecidas pela dieta forçada que a viragem implica. Da fome imposta às carteiras. E do medo… de não ter o que ter.
Pode não haver dinheiro. Mas continua a haver Natal. Ou, finalmente, há Natal…Em que o abraço e o copo de vinho ganham muito mais valor que as coisas que se compram porque parece mal não dar uma lembrança a quem não tem importância nenhuma. A ceia vai saber a aprendizagem…a lições de coragem, de força e de saber largar.
Este ano será para muitos, o primeiro Natal, do verdadeiro Natal. E isto merece celebração.
IdoMind
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