Na sexta-feira fui almoçar com um cliente e amigo muito especial. Almoço descontraído. Restaurante perto da praia. Boa comida. Boa conversa. Dois copos de vinho. A conversa melhorou... Voltámos ao escritório com o astral lá para a cima e a vontade de trabalhar muito em baixo.
- Tenho aqui a solução dos teus problemas – anunciou orgulhoso abraçando uma revista e um jornal.
- Deixa-me estar sossegada se faz favor. A tua última brincadeira não correu bem, lembras-te? - Adverti no meu tom Aviso n.º 1
Ignorando o sinal, colocou diante dos meus olhos a Focus. Na capa da revista podia ler-se em letras garrafais “COMO FICAR RICO.”
Soltei uma gargalhada. Claro!
- Vês?!! E agora os outros problemas – disse enquanto se sentava comodamente mesmo à minha frente, de perna cruzada, indício que a coisa iria demorar. Abriu e jornal e começou a ler:
Não me contive. E rimos os dois que nem parvos. Determinado a testar os limites do meu conservadorismo, continuou.
- Tens outras alternativas igualmente interessantes:
Como as crianças que fazem uma gracinha bem sucedida, leu mais um, comentando:
- "Como sei que gostas de morenos"
Fiquei agarrada ao jornal, estupefacta com a variedade e quantidade de anúncios desta natureza. Desconhecia por completo. Ao constatar o meu entusiasmo com a novidade correndo o jornal com olhos enquanto ria sozinha, ele próprio reconheceu: “ O que é que eu fui fazer!!”
O meu interesse não se ficou a dever aos pretendentes nem à possibilidade de encontrar o príncipe via “Love Mail” (nomenclatura desta rubrica no jornal). Não. O meu interesse, como em tudo, prendeu-se com a motivação daquelas pessoas. O que leva alguém a levantar-se um dia, dirigir-se nem sei onde e pedir - “Quero publicar isto:
Para mim foi o escancarar da porta para uma nova realidade! Não é mito, anda mesmo tudo à Procura.
Ele procura Ela. Ela procura Ele. Ele procura Ele e Ela Procura Ela.
Pelos vistos toda a gente anda para aí desencontrada. Será isto serviço público?
Quando foi que se tornou tão complexo relacionarmo-nos uns com os outros que precisamos de procurar Amor no mesmo lugar onde se procura um emprego, uma casa ou um carro para trocar…
Desde o principio do mundo que homens e mulheres se conhecem. Se apaixonam. Desapaixonam. Choram e voltam a apaixonar-se. Cometem erros. Aprendem. Erram outra vez e mais outra e mais outra e é no erro que vão sendo felizes. Mas até hoje não conheci ninguém que desistisse de Encontrar. Mesmo os que acham e se tentam convencer que isso do amor já, ainda ou nunca foi com eles. No fim de tudo a única grande verdade é que “The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return.”
Como os animais (dos quais cada vez mais me convenço não estamos afinal assim tão distantes) sentimos necessidade de par. Julgava eu que diferíamos deles na forma como satisfazemos essa carência. Ao ler alguns destes anúncios pude perceber que não.
Alguns fizeram surgir de imediato na minha cabeça a imagem de um tigre. O predador “jovem cavalheiro, apresentável, honesto e sem vícios” à caça, ardilosamente esperando o telefonema que lhe irá garantir a refeição dessa noite…
Mas nisto de tratarmos do nosso umbigo, não há espaço para sexismos inconvenientes e eis que as predadoras também saem atrás da presa:
Necessidades diferentes, o mesmo método. A mesma forma de pensar. A mesma ausência de responsabilidade pelos próprios sentimentos e dos outros.
Vale tudo. No meu tempo acrescentava-se “menos tirar olhos”. Hoje em dia, e depois de algumas coisas que li, nem sei se esta segunda parte continua a fazer sentido.
É mesmo para aqui que queremos ir? Darmo-nos indiscriminada, inconsequente e (quanto a mim) inconscientemente uns aos outros? Sem no fundo estar a dar nada… Sem deixar nem trazer o que quer que seja de muito bom.
É isto que nos faz bem, que nos realiza? Usarmos e sermos usados. Não parar diante de cada pessoa que se cruza connosco e OLHAR para ela. É assim que gostamos que nos façam?
Estas minhas palavras não encerram qualquer tipo de censura às escolhas de ninguém. Não sou contra nem a favor do sexo casual. Não faço juízos sobre a solidão e o cansaço de cada um. E até onde se pode ir para tentar mudar esses estados.
É só preocupação sincera com o que está por detrás duma forma de vida que chamamos moderna mas na qual não vislumbro qualquer espécie de progresso.
É só preocupação sincera com o que está por detrás duma forma de vida que chamamos moderna mas na qual não vislumbro qualquer espécie de progresso.
IdoMind
About what we´re doing to ourselfs


















