julho 25, 2011

A dois desconhecidos

“E se um desconhecido de repente lhe oferecer flores?”
Ficava tudo tão cor-de-rosa cada vez que passava este anúncio. Nunca nenhum estranho me ofereceu flores. O que não me roubou a esperança. Acredito em tudo o que é maravilhosamente inesperado. Que nos vira ao contrário quando já só olhamos mas não Vemos. Conhecer um estranho pode ser, só por si, um maravilhoso presente. Mesmo que não traga flores à vista.
O planeta está a encolher mas as pessoas estão a afastar-se. Ficam tão longe, que se perdem de vista. Dispersam-se. Esquecem-se de gostar umas das outras. De se apreciarem. Optam por nadar à superfície receosas de mostrar a sua própria profundidade. Ninguém está interessado em conhecer ninguém. Traz problemas, exige tempo, tomadas de posição que ainda não somos capazes de tomar. Nem queremos. Falamos tanto mas dizemos muito pouco. Ou mesmo nada. Como convém.
Já fui assim, medrosa. Com medo de todos. De não gostarem de mim. Mantinha as minhas ideias apenas minhas, porque até nem eram grandes ideias. Eu não tinha nada de Grande, aliás…E com medo de ser pisada, mais de metade da minha vida foi passada escondida dos olhos do mundo. E dos meus...

A perda trouxe-me a valentia. Fiz-me visível. Fiz-me audaz o suficiente para entender, entendendo, que viver é uma bênção. E temos a obrigação de a viver bem. De ir para onde ela nos chama. Ou pedir-lhe que nos acompanhe no rumo que perpétuamente definirmos.


Hoje, e porque pressinto que morrerei de velhice, concedo-me o pequeno prazer de falar com toda a gente. Distribuo sorrisos, não guardo a simpatia só para os sei que a merecem, respondo sempre com gentileza sem pensar se vou acabar cortada aos pedaços nas traseiras de um carrinha ou ofendida por palavras menos educadas. Até porque é quem nos é mais próximo que mais mal nos faz…e que sabe com que palavras nos ofender.
Largaram-me há muito as preocupações sobre a impressão que vou causar ou não. E esforço-me por agradar apenas à cozinheira do sítio onde almoço porque ela mexe com a minha comida. Todos os cozinheiros são temperamentais e gostam que lhes agradem. Já que vou ingerir o fruto do trabalho dela prefiro que venha temperado de Amor.

Entendi ainda que só cresço na medida em que faço crescer. Para isso é preciso largar a mesa do canto, o dia semanal da limpeza, o telefonema obrigatório de domingo ou o almoço impreterível em casa dos pais, sogros e afins…
Eu adorava a minha professora da primária. Mas a professora Lurdes não tinha mais nada para me ensinar. Nem conseguia ainda que quisesse. Tive de largar a minha sala de aulas e aventurar-me no temível preparatório. O meu medo só foi superado pela ânsia de conhecimento. E foi assim que avancei. Todos nós só avançamos quando largamos as nossas salas de aulas e nos lançamos na aventura de conhecer outros professores. Aprender outras disciplinas. Chumbar. Tentar de novo. Desistir…Reconhecer as nossas limitações e inventar outros sonhos. Ser bem sucedido e voltar a largar. Satisfeitos connosco. Maiores. E a seguir, prosseguir…Assim, até ao fim.

Em cada estranho está o professor por reconhecer. O amigo por descobrir. O desconhecido é só o disfarce da Oportunidade. Da Nossa oportunidade de também nos re-conhecermos, descobrirmos e, prodigiosamente, avançarmos. Cuidado. É fácil protelar o degrau a seguir, mas não sai barato.
Eu prefiro o risco de uma má surpresa de vez em quando que uma vida pouco surpreendente.
Quero-a encantada de gente diferente, divertida ou nem por isso, inteligente ou bons a enganar, emocionais ou sovinas com as lágrimas, generosos ou a caminho disso... brancos, pretos ou nem uma coisa nem outra.
É na diversidade que desenho a minha individualidade. Que me escolho.E gosto de muitas opções. Amplas e variadas.
Mantenho a ânsia de conhecimento e só o tenho encontrado no que não conheço...
IdoMind
about movement

julho 18, 2011

Uma questão de espaço

Não vim para te tirar a vida mas para te mostrar que estás vivo. Ainda não chegaste onde escolheste chegar. Por isso levanta-te se faz favor desse buraco enfeitado em que te sepultaste. Estou aqui para te libertar do feitiço da terra. Soltar-te da prisão dos sentidos onde te iludes que és convidado. Cegaste à verdade e eu venho cegar todas as mentiras. Santa é a minha foice que limpa o campo para as novas sementes.


Aguardei a tua decisão. A que não tomaste. Mesmo quando a meio da tarde já não ansiavas pelo fim do dia para regressar a casa. E pensavas com enfado em quem lá encontrarias, desejando alguma paz, algum silêncio, em vez das exigências do costume, da ajuda obrigatória ao remo do barco, da renúncia tácita de ti a favor dos miúdos, da mulher, das responsabilidades… Preciso de te lembrar do teu desempenho no trabalho que já não suportavas? Parece-te bem, fazer mal o que nos é exigido? Para o que nos pagam. Dar pouco mais de razoável do excelente de que somos capazes? Desonrar um lugar que algures, alguém merece ocupar? Estar triste. Irrealizado. Num espaço que partilhas com outros…A tristeza envenena, sabes…

Apesar do estrangulamento, não deste uma folga à corda e mantiveste-te em bicos de pés, em cima do banco, equilibrando-te para não cair. Para aguentar. Só mais um bocado. Só mais um ano. Ou dois. Só até as crianças serem maiores, acabares de pagar o carro ou um golpe de sorte te salvar do sufoco que chamas viver. Aspirar bocados de ar não é respirar. Não é viver. É chamar por mim.
Aqui estou. Sou quem mais te ama e por isso quem mais dor te traz. É por Amor que te quero livre.
Não duvides disso na hora em que te vier buscar tudo. Não estou a roubar-te nada, apenas a devolver-te a Ti mesmo. Chora o que tiveres de chorar. Desespera. Mas pouco. Confia. Muito mais. Vai ao fundo se quiseres mas volta depressa. O lodo não é lugar para os homens.

Estamos todos a olhar por ti, mas é minha a Missão de visitar-te. Acordar-te dos sonos mais profundos. Recordar-te que não és o que tens. O que controlas e o que permites que te controle. Venho para acabar com que já acabou.
Eu sou a Morte que anuncia o Fim a favor doutro Principio.
Não me maldigas. Não me temas. Estou a cumprir a tua vontade e a levar-te mais perto do teu Propósito. Acredita em mim e prepara-te para o vem, agradecendo ao que foi.
É sempre melhor…
Acreditas?
IdoMind
about endings

julho 08, 2011

Ao falar com um Homem

Hoje escrevo para as mulheres. Todas. As que se queixam. As que aguentam. As que choram. As que fingem que não. As que se escondem para chorar e as que se escondem para viver. Escrevo para as mulheres que se demitem de ser mulheres e se perdem, acabando por não saber o que são. Ou o que querem ser…Escrevo para as resistentes que se dão aos pequenos luxos de serem sensíveis e demonstrá-lo, de esperarem que lhes abram a porta e se lhes dirijam com delicadeza porque são mulheres e as mulheres são delicadas.
O logro está em achar que não. Nós não somos pesos-pesado e não temos, não devemos, levantar nem carregar, as mesmas cargas que os homens. Temos outras, ajustadas às nossas medidas de Cinderelas. E benditas sejam as nossas cargas… São dons, na verdade. Ser mulher é ter dom.  E como todos os dons, completa-se com uma pequena parcela de maldição.
Mas oh mulheres - só somos malditas quando nos recusamos a ser sagradas. Nascemos para albergar. Para dar hospedagem à vida e depois largá-la. Em nós cabem dois. No começo e até ao fim...que vai para lá do nosso fim. Cuidando, nutrindo, vigiando. Que gloriosa missão. Não acham? Metade do peso e o dobro da vida…Eu acho. Glorioso e mágico!

O pecado? Negar a dádiva de ser mulher e vestir calças por baixo da pele. Que belo resultado conseguimos com a Igualdade. Firma-se a minha convicção de que quem inventou o feminismo foi um homem. Agora, não só fazemos o que sempre fizemos, como ainda o que eles fazem. E mais…E mais…E mais…até ser humanamente impossível fazer mais…de forma humana… Como o dia não tem género e tem as mesmas vinte e quatro horas para todos, falta então o tempo para acompanhar a vida a geramos. A paciência para amar quem escolhemos. A humildade para reconhecer que apesar de tudo, há em tudo, um gosto eterno a insatisfação…

E passamos a pular. De tentativa em tentativa. De comprimido em comprimido. De grito em grito e má disposição em má disposição. De noite em noite. De homem em homem. De cama em cama…os mesmos “depois eu ligo-te”, “ amanhã falamos” e “ tenho de ir” que vão envenenando a fé em coisas e pessoas bonitas. Lá vamos ficando menos mágicas e mais reais. Concretas como paredes.

Não os culpem. A responsabilidade é nossa. Vamos ser mulheres e assumi-lo. A autorização para o devasse vem de nós. Chega-se até a levar os formulários e indicar aos homens onde assinar. É sempre com grande tristeza que observo uma mulher armada em caçadora. Parece que nos tempos modernos, se mede o grau de modernidade das mulheres pelo número de experiências.E também parece que é mais moderno ser infeliz que ser verdadeira…consigo mesma.

Da maneira que vejo, ser Mulher é um assunto sério. Lindo, mas sério. Nós convidamos pessoas para dentro de nós. É isso que acontece quando oferecemos o nosso amor. O nosso corpo. Alguém entra dentro de nós. E deixa lá uma parte sua. Em nós, mulheres. É assim que vejo e é assim que sinto. 
Desenganem-se, não pretendo incitar uma legião de activistas pro-pudor, castidade e muito menos, Deus me livre, proclamar a abstinência como solução para os males do mundo. Apelo à consciência. Do que se faz. E com quem. Do que se diz. E a quem. Do que se quer. E com quem…

Apelo aos sonhos e à Nossa verdade. Feminina, leve, alva e mesclada de fragilidade. Apelo à dignidade. Falo à princesa que mora em cada mulher e apelo à sua nobreza…A carpete vermelha e os sapatos de cristal são um direito, mas que tem de ser conquistado…todos os dias, por nós - Mulheres.
IdoMind
About turning things around…for our own good

julho 07, 2011

Cláusulas Particulares

Faria por ti, tudo o que faria por mim. Com isso podes contar. Na realidade talvez até fizesse mais por ti do que faço por mim. Mas nem sempre estou atenta, focada, por cá…os meus pés gostam tanto da lua. Nem sempre ligo muito ao que se diz, às discussões que preenchem as necessidades individuais,  e tão prementes, de cada um de ter razão, de marcar uma posição, de obter um reconhecimento. Sou um balão sem atilho e desprendo-me com facilidade. Vejo tudo de longe. Quando vejo. É por isso que tens de me tocar no ombro e pedir-me os braços. Pousar a cabeça no meu colo obrigando-me a pousar por ti. Afinal o plano é manifestado para que nós nos manifestemos…
Farei igual. Calarei o medo e chamarei por ti mesmo sem saber se vais ouvir-me. Se queres. Darei o passo que falta para que a minha mão alcance a tua, mesmo sem saber se ainda falta muito. A que distância estás de mim. Se tens espaço…Farei por esquecer as lembranças do mal que guardo aqui, no arquivo das frustrações, das escolhas que podiam ter sido diferentes, das decisões incessantemente tardias, que feriram...Tanto.Nada disso entrará na nossa equação. Farei para assim seja.

Tens-me ao teu lado. Mantém-me cá. É fácil. Deixa-me ser. Evita tratar-te como barro ou plasticina colorida. Não tenho forma porque a cada momento me faço Eu. Estás a pensar que já entrei no modo lírico, derretido, até, pelo retoque poético que dou àquilo que sinto. Espero que ainda penses o mesmo quando descobrires que mais que palavras bonitas, é a verdade. Não tens e não terás o poder de me transformar. Só eu sei como funciono. Quando funciono. Se preciso mudar de pilhas. Ou de canal...
Olha o que te digo. É o mesmo que te direi lá para a frente. Se chegarmos lá à frente.
Sou lenta. Tenho de entender o meu lugar na vida para dizer à vida que lugar quero. E isto leva tempo. É o trabalho do Eremita caminhando a passos pequenos, à luz da sua lamparina oscilante. Ocupa-te de te entender a ti mesmo e despreocupa-te de me entender a mim. Até porque se entendesses eu já me teria desentendido. E tínhamos de começar de novo com metade da força. Da disposição. E do amor…

Não o permitas. Vamos divertir-nos enquanto amadurecemos. Tirar o melhor um do outro. E entregar o melhor um ao outro. Aceitar esse melhor agradecendo a oportunidade de ascender à perfeição. Às nuvens! Leva-me às nuvens…Diz que levas! Eu dou-te boleia até às estrelas. Aceita-me, por isso, aérea, despistada, tagarela, inquieta, curiosa…meio gente, meio outra coisa qualquer a esvoaçar por todo o lado. Eu valho a pena. Comigo irás sempre um bocadinho mais além, porque aqui é giro, mas… o que haverá ali?
Comigo não terás paz. Porém estarás em paz. Tenho para te dar a confiança que dispensa mentiras. O respeito que prescinde de desculpas. A brandura que tolera a diferença. Também podes contar com isso.
No fundo é só para te dizer:conta comigo para sermos felizes…
IdoMind
About doing it right or growing trying

julho 05, 2011

Parvos e Gigantes

No corredor de mármore ouviam-se apenas os passos dela. Firmes, determinados, batendo contra o chão no anúncio ruidoso de que estavam a chegar. E de que não vinham em paz. Olhámos todos. A aparência irrepreensível do costume. Cabelos domados, indumentária  muda, acessórios parcos e inexpressivos. Nada naquela mulher tem a marca daquela mulher. Nada permite adivinhar que de que género é, do que gosta ou sequer se gosta do que quer que seja.
Ela corta. É áspera. Há sabor a ácido nas suas palavras. Tem uma espécie de presença acutilante que nos faz recuar para evitar os picos.
Sem ser especialmente bonita, é atraente. Sabe disso. Usa-o a seu favor. Foi assim que manteve um emprego para o qual não estava minimamente talhada. Um casamento para o qual nunca esteve vocacionada. Uma vida que não queria mas que dava jeito ter. E agora o cheiro da pessoa que morreu dentro dela começava a notar-se…

Estávamos todos ali por ela. Recusou-se ao diálogo. Não propôs soluções e contestou todas as que lhe foram e são apresentadas. Inspirada certamente pelas vozes que saem à noite procurando quem as oiça, consegue ainda inventar mais um problema ou outro que, mais que enlouquecer, faz sofrer toda a gente.   
Passou por nós vomitando um bom dia que poderia arruinar com o nosso, não estivéssemos já imunizados contra a estupidez daquele ser. Ao vê-la afastar-se com desprezo pelas mesmas pessoas que mantinha reféns há alguns, dei por mim a desprezá-la também e pensei “ Não é má, é parva”. 
Era isso mesmo, ela gostava de ser parva! O objectivo daquela cabeça torpe era ser parva o bastante para ser diferente de todos os outros e assim conseguir a atenção que pessoas não tão parvas têm de fazer por merecer. Como era parva há muito, muito tempo confundiu esse estado triste de existência com a sua personalidade. Fez-se parva e apaixonou-se por essa imagem…

A vontade de lhe cuspir em cima, como se faz nos filmes e me parece sempre triunfante, foi substituída por um imenso sentimento de piedade. Ter de ser parva para dizer “Estou aqui” é trágico. Claro que ela já não tinha o discernimento para destrinçar quem era ela e quem era a parva. As duas estavam já demasiado fundidas para se distinguirem.

Caminhei na direcção dela. Foi o meu momento parvo…Não sabia o que lhe dizer mas sabia que havia algo a ser dito.
“Sim?” – perguntou-me no tom altivo a combinar com o cabelo arrumado. Pensei de novo na cuspidela. Sentei-me.
“Está tudo bem?” - perguntou-me, agora, com menos altivez e um toque a defesa- “ Tem alguma proposta, é?”
Continuei em silêncio porque continuava sem saber o que dizer.
Acabou por sentar-se ao meu lado.
“ Tem sido quem mais frieza tem mostrado e quem mais frente me tem feito. Sem sequer me dirigir a palavra. Somos parecidas. Estamos aqui e os outros todos ali. Bem longe de nós porque ainda que quisessem não saberiam e não conseguiriam alcançar-nos. Você fez isso comigo durante todo este processo, manteve-me longe de si frisando bem essa distância. Isso irrita-me, mas é a única por quem tenho alguma consideração.Tão jovem e tão forte. Penso em si como uma barragem.”
“E eu penso em si como o Gigante.”- disse eu por fim.
“O gigante?”
“ Sim."
Em miúda deram-me um livro sobre um gigante que adorava tudo o que era belo. Era um gigante muito sensível…Como no castelo já não havia mais que embelezar começou a plantar um jardim. Trabalhou, trabalhou, trabalhou e o jardim ficou tão lindo que Deus teria vergonha do Éden. Começaram a vir as borboletas, os pássaros e outros animais da floresta atraídos pelo cheirinho das flores e pela beleza daquele jardim. Começaram também a vir as crianças da aldeia…brincavam e rebolavam na relva. Riam. Estavam felizes por puderem ter um lugar tão maravilhoso para brincar.
O gigante, pouco habituado a companhia e muito menos a partilhar, decidiu construir um muro muito alto à volta de todo o jardim para que nem as borboletas, nem os pássaros, nem as crianças pudessem lá entrar.
E assim foi. O Verão passou. O Outono também. O Inverno. A solidão é sempre mais solitária no Inverno. O gigante começava a sentir saudades do barulho, das gargalhadas, dos desafios vocais entre os passarinhos.Veio a Primavera e o gigante convenceu-se que a melancolia daria lugar à alegria de ver o seu jardim de novo coberto de flores. Mas o jardim não floriu. O muro era tão alto que nem mesmo o Sol conseguia entrar.
O gigante olhou e tudo o que viu foi escuridão…dentro e fora de si.
Destruiu o muro até à última pedra.
A força da Primavera operou o seu milagre.O Gigante fez o resto – organizou uma festa e convidou toda a aldeia. Pediu a cada convidado que trouxesse sementes da sua flor favorita para que no ano seguinte houvesse um bocado de cada um no seu jardim…”

Ficámos caladas. Não olhei para ela. Estou certa que a veria descomposta, talvez mesmo emocionada e aquela gigante ainda não estava pronta para partir a última pedra. Todos temos os nossos tempos. Respeitei o dela.
Levantei-me sem olhar para trás.
O processo foi suspenso a fim de chegarmos a um acordo. 
Enquanto isso pergunto-me que parvoíce é a minha…
IdoMind
About rocks

junho 21, 2011

Próxima Paragem..?

Mana, lembras-te de cantar para ti? Sob a ameaça veemente que se contasses, eu negaria e todos te chamariam mentirosa? Ontem, mais uma insónia. Suave, foi só até às 4 e pouco da manhã…tive muito tempo a pensar em muitas coisas. Ocorreu-me essa memória de nós. Eras tão gira. Amorosa até ao enjoo. Eu fria. Até ao arrepio... Vai bem longo o caminho desde esses tempos de te infiltrares na minha cama quando fazias asneira, tinhas medo ou querias só que eu te amasse…É tarde e rio comigo mesma porque no fundo nada mudou assim tanto. Mantenho nestes ossos, agora mais sólidos e já consolidados, esse registo de rigidez e um desejo de ausência de tudo o que me peça alguma entrega.

A cama continua resistente a infiltrações. Assim como Eu. Dou por mim a dizer-me que sou assim. Como se “ser assim” justificasse o conforto de não tentar ser melhor. 
Continuo muito desperta. Nem um bocejo a anunciar a chegada de sono. Não me apetecia muito pensar no quero disto tudo. Bom era adormecer e amanhã quando acordasse isto tivesse passado.
Cheguei a uma estação que não me permite sentar-me a observar as chegadas e as partidas. Vou ter de embarcar. Vou ter de escolher um destino. Não gosto. Prefiro estar em todos os lados sem ter de estar em nenhum. Ou apenas num. A vida está a falar comigo e a dizer-me “Compromete-te. Aceita esta possibilidade de descobrir que uma existência enlaçada pode ser uma existência livre. Leve. Que ficar não significa parar. Nem entregar significa perder. Dar multiplica. É uma espécie de milagre que acontece a quem tem a fé suficiente para viver a sério. Não queres experimentar? Anda. Desembala-te e anda Encaixar-te”.

Como sinto uma pressão na barriga, sei que o meu desafio está aqui, no compromisso. Na chegada a horas ao trabalho de construir alguma coisa. De colocar depois todo o meu empenho nessa construção. De persistir. A luta para mim é manter-me com as costas viradas para trás. E o peito para a frente. Cravar pés na terra e aguentar os embates, sem desvios airosos. Descer o meu balão de ar e fazer algum turismo por aqui, onde anda toda a gente. Quem sabe até pedir um visto de residência…

Minha irmã, hoje cantaria para ti de novo. Se pedisses, é claro. Bem mais solta, sem as vergonhas ou os acanhos que tinha quando não gostava nada de mim. Mas continuaria a proibir-te de contar. Falta esse passo em direcção ao resto do mundo que não faz parte do meu mundo.
Só ainda fiz metade do percurso. Com muitos intervalos pelo meio. Encontrei-me com pessoas que não precisam de Deus para aceitar o combate de fazer o bem seja qual for o mal que as possa atacar. Pessoas que não precisam de ninguém para ser Alguém. Pessoas que baixam os braços de vez em quando e aprendem o valor da ajuda. Mostraram-me que todos temos as nossas lições. Feitas à medida.
Vi nos “ não consigo” delas os meus próprios e inspiraram-me a conseguir.
Consigo isto. Plantar sementes. Muito íntimas. Impregnadas de mim. Não conseguia até ter começado.
E afinal é assim, a felicidade não se espera, começa-se.
E eu começo por dizer sim.
IdoMind
about going a little bit further 

junho 15, 2011

Num eclipse qualquer

Ajuda-me. Não quero ser feia. Nem fazer coisas feias. Daquelas que aleijam e marcam e mudam as pessoas de formas que não imaginamos. Que quase nunca prevemos. Não quero andar por aí a ensombrar a luz de ninguém, acesa e mantida às vezes a tanto custo. Se adivinhássemos o peso de alguns sorrisos, chorávamos. Eu não quero ter de adivinhar o que carregas com esses olhos doces. Os mil desesperos agrilhoados na tua voz amiga. O que levas para a almofada e abafas lá, nesses sítios que precisam de palavras-passe.
Salva-me do egoísmo de me julgar a única filha de uma Mãe austera. Diz-me que também tens medo. Seja do que for. Ou não digas nada e pede-me só um abraço… Mas desaperta-me o nó da venda que te tolda de mim. Ajuda-me a Ver-te.

Desembaraça-medo arame farpado e segura-me enquanto dou o pulo para o teu lado da cerca. Recebe-me com carinho. Estou em bruto e também embrutecida. Desenvolvi sentidos apurados de defesa e de ataque porque em tempos me vi gazela numa selva feroz. Aprendi a misturar-me. A passar despercebida para não ter que lutar. Tornei-me hábil a criar distracções para evitar respostas urgentes, escolhas arriscadas e, no fundo, assumir quem sou. Fui sendo conforme me foram permitindo, de modo mais ou menos indolor, de todas as cores sem mostrar a minha. Este foi o meu plano de fuga do que se chama viver. Não me apetecia o incómodo da conquista e fiquei-me pela indiferença.

Revelei-te o meu esquema. E ainda oiço o seu apelo ao longe, algumas vezes. Com algumas pessoas...Ainda é fácil gelar as emoções e desligar-me da corrente. Desunir-me de tudo o que exige a exposição da minha fragilidade. E ficar fechada na caixa. Mas não quero. Cá fora estás tu…
A alegria pelos sucessos dos que amo. O companheirismo que se revela naquela etapa mais dura. A felicidade de um convite. De uma descoberta. De um Encontro…
Vou ficar. Ajuda-me estimar-te. A tratar-te bem. Sem fios que se puxam para fazer mexer a cabeça ou o coração. Sem leituras de pensamento. Sem esperar nada. Nem palavras, nem gestos, nem a chegada das pessoas que não somos. Eu e tu a sermos eu e tu. Só. A partilhar idiotices inconfessáveis. A confidenciar mágoas e ecos de episódios com finais pouco felizes. A entregar a chave que nos abre a Alma.
Esta é a minha. E podes entrar…

IdoMind
about nudity

junho 09, 2011

Príncipes: precisam-se


O Amor está poluído. Coberto de nódoas. Dos restos das decisões mal decididas. Do perdão que não nos concedemos. Das sobras das decepções e dos despojos do que fomos perdendo. Tijolo a tijolo, erguemos as paredes que, tijolo a tijolo, temos de demolir. Vamos embatendo nas paredes uns dos outros. Partindo a cabeça. Rachando o coração.
Juntamos os pedaços, enquanto juramos que “nunca mais” nos vamos empenhar tanto. Dar tudo. Fazer isto e muito menos aquilo. Que vamos ter mais cuidado. Há quem jure nunca mais amar…Há quem o consiga. São os que vão estando sem estar. Aqueles dos beijos sem a troca e dos truques aperfeiçoados de cama em cama. Deixam os lençóis com o cheiro a nada e os braços pendurados a abraçar o vazio. São os Vazios que nos esvaziam.
Damos por nós a consentir que nos manchem a alma. Autorizamos o roubo da nossa essência. Dos nossos sonhos. Do que desejamos que a vida nos ofereça. Escondemos bem escondidos os sentimentos porque sentir é coisa de gente fraca e todos queremos ser fortes. Temos de ser fortes. Então, com o peito destroçado, acenamos a cabeça e dizemos que está tudo bem. E dizemos que compreendemos, o que não tem qualquer compreensão.

O Amor escapa das etiquetas. Não se cataloga. Não tem preço. Não é um produto como outro qualquer ao alcance da nossa mão e das nossas posses. Não se compra, não se permuta, não se usa e deita fora depois de bem amarrotado e pronto para a reciclagem. O amor não é negociável. Não obedece a termos, condições… a prazos. O amor não é nosso, é o que somos.

É uma dádiva que devemos dar se é a dádiva que queremos receber. Exige respeito. Viagens para fora do nosso umbigo, ao lugar onde mora a sensibilidade do outro. Não vale atropelar sem sequer olhar para um lado. Não vale mentir. Não vale tudo…
Deve ser simples. Digno e dignificante. Deve ser bonito…
Mas suponho que faça parte complicar até termos perdido noção das regras e já nem sabermos porque começámos o jogo. Esquecer por uns tempos a honra em nome de uma vitória oca. Tão fugaz que precisamos de lançar os dados outra e outra vez só para sentir qualquer coisa.

Sei que a minha valentia não é em vão. Eu mereço o risco de nem sempre acertar. E o de ser atingida…
Quando chegar vai ser simples. Digno.Cheio de Beleza. Eu sei.
IdoMind
About getting on track

maio 27, 2011

Mania das visões

Agradecia que parasses. Por ai mesmo. Encontraste o sentido da vida e fico feliz por ti. Não me tires o prazer de descobrir o Meu. E então se for mais a Norte? No Oeste? Noutro planeta rodeada de gente verde-alface com antenas? E então? Os traços das nossas mãos são diferentes porque a nossa Viagem não é mesma. Deixa-me desviar-me, andar às voltinhas, perder-me até. Julgas que esta fé foi encontrada numa rua bem iluminada? Que dei de caras com esta coragem, sem lutas, sem máculas? Por cada escolha há um atalho. Ou muitos. Alguns com a placa de sinalização, outros que só se revelam quando nos livramos das silvas e regressamos à nossa rota. Há atalhos tão largos que se confundem com a Estrada Principal…

Com um pé no Desvio e outro no Caminho, cheguei aqui assim – mais Mulher. 

Aquela que dizes que gostas. Que respeitas. Então porque te esforças tanto para me mudar? Poisa o martelo e espera que seja eu a quebrar a minha casca. Cá dentro a transformação ainda está a acontecer. As minhas entranhas ainda se revolvem muito a ajustar-se à pessoa em que me torno. Permite-me sentir-me a mudar. Por mim. Ouvir a pele velha cair e a nova a romper, por vezes furiosa, outras timidamente. Eu e a Mudança não nos damos bem, uma de nós é sempre violenta para a outra. Não queiras estar no meio porque serás tu a perder…

Podes desejar-me o melhor, mas sabes lá se me fará bem. Desconheces o meu propósito. Os mil seres que hospedo neste peito, cansado e confuso. Por isso, espera. Fica só por perto. Se te apetecer. De lanterna acesa e ombro preparado nos becos por onde me sitiar. Por acaso já conseguiste dividir uma dor? Cortar lágrimas a meio e entregar uma parte a alguém para não teres de chorar tudo sozinho? Eu não. Caminha comigo então, não por mim.
Pára de me empurrar. De me apressar. De me deixar na mesa-de-cabeceira os desenhos do trajecto por onde achas que devo seguir. Só conseguirás que siga por outro, o mais distante possível de teu… Esta sou eu, a autodidacta. Partilha comigo a vitória sobre todos os labirintos. Festeja as minhas feridas porque me trouxeram até ti, até aqui, assim…Partilha comigo a tolerância pelas desigualdades. Todas elas. Principalmente as que te foram mais difíceis de entender. De aceitar. Nelas está o trabalho que tenho para te oferecer: amar mesmo sem nem sempre compreender.
IdoMind
About patience and patient people

maio 19, 2011

Vem tudo abaixo, vem tudo de Cima

Que eu não tema nunca os raios paridos das nuvens negras que se abraçam a avisar-me do que aí vem. Qualquer tempestade se anuncia. Que eu retribua com igual educação e não a ignore. Nem aos gritos dos trovões ordenando que me mexa. Busque eu o guarda-chuva e poise o comando da televisão. E a desligue em vez de lhe aumentar o volume. Que eu não tema o fogo que consume o telhado. Que come as portas de todos os quartos.
Esta é a casa de Deus e estremece quando eu me fixo, porque o chão é morada para as árvores. A minha é no céu. De quando em quando caio na tentação de penhorar as asas em troca de raízes. Apenas para perder ambas. E depois descer a correr, com os pés nus, a escadaria da torre que erigi, com uma janelinha para a vida. 
Foi o Diabo que me levou ao colo, cantando-me as mentiras destinadas a ruir. E agora que caem, Eu caio também. Há pedaços de mim misturados com os escombros. O meu coração. Meio partido, meio perdido, muito ferido. Mas limpo. Livre do que não É. Do que nunca foi, nem Meu, nem para Mim. E do ego desfeito no solo, solta-se a alma. Sacode-se e grita o meu nome, para que de novo me junte a Ela na busca de Nós.
Perdi-me no orgulho de achar que tinha chegado, cega aos círculos em que me cerquei. À estrada infinita estendida à minha frente. Fiz da estalagem um lar e deixei-me ficar. Com as portas bem fechadas sem perceber que não estava segura, mas apenas trancada. Sufocaria no meu próprio ar não fosse esta gloriosa perda.

Estou só a levantar-me e já vou. Naquele amontoado de destroços estão expectativas, muito trabalho, alguns maus bocados, o saldo dos fracassos e dos sucessos. Estão lá os desejos que desejei. Os silêncios doados por um bem maior, o que fiz e deixei de fazer para que as coisas corressem bem. Quanto investimento pessoal na manutenção da estrutura... Estão ali soterradas as recordações da pessoa que me esqueci que era. Naquele monte de pedras está a minha fotografia…

Vou olhar só mais um momento. O suficiente para conseguir agradecer à providência a queda inesperada da farsa. Preciso de encontrar a Ordem no caos que ficou depois desta Intervenção.
Morri antes de morrer. Talvez não morra ao morrer.
Agora é só nascer. Outra vez.
Ser de novo... Sem ficar Velha.
IdoMind
about the best for me even hidden in the worst

maio 16, 2011

Mas qual será o bendito do planeta?

Desculpem. Não me deu para a seriedade nem para análises filosóficas sobre a vida. Estou meio aérea e com grande dificuldade em ser adulta. Não me apetece. Desde sexta-feira que estou nisto. Espero que passe rápido. Enquanto não passa, hoje dou-vos música.

Adoro música. Deixar-me levar por ela. Ou ficarmos as duas na minha sala, despreocupadamente, a dançar. A dança puxa o canto. Claro. Em menos de nada estou a fazer duetos. Empenhadíssima em acompanhar a voz do outro, esforçando a garganta para não o deixar mal nos agudos. E o que eu canto! Posso não encantar, mas divirto-me muito. Dá-me um certo prazer fazer estas figuras tristes… E assim, com o espírito preenchido de boa disposição, agradeço terem inventado a música.


Nas minhas piores telhas – música.
Se preciso de ideias – música.
Quando já não aguento o ruído todo cá fora – música.
Naquele jantar - música…muita música…

Há uma melodia agrafada junto ao registo dos meus momentos marcantes. Quer sozinha, quer com companhia, quer completamente sozinha com companhia, de fundo houve sempre qualquer coisa a tocar. E toca até hoje. Como se as notas desses momentos tivessem conquistado a vida eterna, ecoando para lá do efémero. Sempre que oiço Jeff Buckley inevitavelmente lembro-me que enquanto assinava o meu divórcio, de um rádio qualquer dentro da conservatória, só se ouvia “ Aleluia, aleluia”…
O doido de um cliente que me enviou um CD para o escritório com o “Princesa” gravado umas trezentas vezes acompanhado com uma carta onde escreveu o seguinte trecho: 
Tu és... tudo aquilo que um homem pode querer 
Dás-me prazer, 'tás ao meu lado para me defender 
Adoro o teu sorriso, quando me olhas com ternura 
Acredita, eu paraliso 
És bonita, simpática, tão atraente 
Derretes-me todo, com o teu olhar inocente 
Palavras doces na tua boca parecem brisas 
Tu não andas, tu deslizas

Na altura não achei piadinha nenhuma. Ia à igreja todos os dias, apertava o último botão da camisa e ainda não jardinava. Mas hoje, se calha de ouvir isto, atiro-me para o chão a rir.
É claro que Anthony and the Jonhsons me leva ao Coliseu, à minha irmã…
O samba ficou associado a um kumbáya, danças do mundo lover, a querer convencer um grupo de alternativos que aquele ritmo era espiritual.” Uma cena muita profunda” na expressão dele. Do meu ponto de vista, foi a fuga mais rápida de uma sala de estar a que já assisti.

A música que ouvimos, diz quem nós somos. A música que ouvimos diz como é que estamos. Uma espécie de barómetro de humor. Revela como vai o nosso coração. A nossa cabeça. A nossa vida. Em quem pensamos.E em quem gostávamos que pensasse em nós.
Eleva-nos ou ajuda-nos a abrir o buraco onde nos afundamos. Alegra-nos ou vai buscar o lenço. Põe-nos a sonhar ou deixa-nos perdidos no nosso próprio pesadelo. A música reflecte-nos. 
Quase instintivamente, quando conheço mal alguém, tento perceber que música gosta. E adivinhem lá qual é a primeira informação que vejo nos perfis do facebook…
A música combina com banho. Velas e vinho. Com conduzir. Com esplanadas. Parvoíces e amigos. Rima com beijinhos. E mais qualquer coisa.
A música tem uma alma. Que fala com a nossa. É só calarmo-nos e Ouvir o que dizem.
O diálogo hoje deve ser interessante, oiço a Fiona Apple cantar ..

IdoMind
About everything that surrounds me
P.S. Eu avisei que não estava para seriedades.

maio 06, 2011

Profundidade ou só Idade?

Tudo espremido sobra o sabor. O gosto que fica depois da prova. O sorriso que se abre ao lembrar ou a cabeça que se esconde entre as mãos a jeito de se querer esquecer. A vista sobre o pomar fecundo que cresce para lá da cerca ou a maça caída na terra a morrer sozinha. No fim disto tudo fica o que deixamos… O legado é dado em vida e nele se encontra, ou se perde, a nossa imortalidade.
É agora que estamos a fazer a nossa história. Depende de nós registá-la em vários volumes ou resumi-la na inscrição simples duma pedra tumular. 


Deve ser porque gosto de escrever, mas quando me ponho a pensar no fim, que pode vir inesperadamente amanhã, imagino o resumo desta minha vida espalhado em diários arquivados numa fila de prateleiras infindável. Vejo-me sentada no chão a ler os capítulos escritos pelos que se cruzaram comigo. Tento adivinhar a narração que fariam do encontro imediato de terceiro grau, aqui com a jardineira. O que pensaram, o que sentiram. Que diferença fiz. Que gosto deixei…

Não ando com ideias estranhas, só com muita consciência do que é realmente importante. A qualidade dos nossos dias é definida por nós. E só por nós. Esta é a verdade. A que nos custa a aceitar porque isso de ser diferente e sair por aí a fazer impossíveis por nós e pelos outros é coisa de super-heróis. Identificamos-nos melhor com o cidadão anónimo e desprotegido à mercê de um vilão qualquer. Disfarçado num chefe qualquer. Numa mulher ou marido qualquer. Num azar. Pode ser mais fácil acreditar que O poder está fora de nós, não necessariamente menos doloroso.

Celebrei o meu aniversário ontem e parece que tive uma ameaça de epifania. 
As mensagens de parabéns vieram de todas as maneiras. Até por correio! Normal, aquele que ainda leva selo. Amigos de longa data e outros mais dentro do prazo, clientes que não vejo há anos e clientes que vejo mais que aos meus pais, pessoas a quem compro coisas (como a senhora que tem o melhor pão de Mafra do mundo!) tiraram minutos do seu tempo para me dizer “ Lembrei-me de ti”. E com carinho.

No fim do dia, já deitada, dei por mim a concluir “Nós somos aquela parte que também fica a fazer parte dos outros.
A parte que quero dar é a melhor. A mais compreensiva. A mais solidária. A mais madura. A que pensa no que está por detrás das acções e das coisas que nos fogem da língua, antes de agir. Ou de reagir. Que faz perguntas a si própria e procura entender antes de julgar. A que está lá por amor. Por nenhuma outra razão. A parte de mim que entrego é, seja a que for, a verdadeira.
Farei HOJE para que, tudo espremido, sobre sempre uma gargalhada ou a alegria por ter deixado esta Parte na Vossa parte…
IdoMind
About my writing

maio 04, 2011

O tempo não tem asas, comprou um jacto particular!


Hoje deu-me para parar. Seguir de olhos abertos, o que já ouvi tantas vezes de olhos fechados, e ver-me como uma personagem de uma história. Sem me envolver. Sem me identificar com a pessoa que me fui fazendo. Observar-me. De longe.
Só ainda passou meio-dia e já me fartei de rir. Gosto do que vejo. Gosto de mim nesta pele. Sou boa pessoa. Genuinamente empenhada em melhorar o que me rodeia. Acordo geralmente a cantar e confiante que todos os dias serão grandes dias. Faço rir. E rio também porque viver é muito giro. E dá prazer. Há a cama feita de lavado, o café fresco e o peculiar vizinho que antes do jogging matinal faz o seu aquecimento, mesmo em frente da janela da minha cozinha, de calçãozinho, meia branca e uma fita à rambo do fitness encaixada na cabeça.

O mar acompanha-me. Viver aqui, tão perto deste azul todo, faz-me sentir agradecida e lembra-me a menina, que conheci num dos meus voluntariados, perguntar-me como era a praia. Lembra-me que chorei nesse dia. Ninguém devia partir sem saber como é a água salgada a namorar-nos o corpo. Ou o som das ondas aos murmúrios. Ela partiu.

E vejo outra coisa que me agrada: eu gosto das pessoas. Por razão nenhuma em especial. Gosto delas. Desejo-lhes bem. Ajudo no que posso. E sobretudo no que me apetece. Recusar ajuda é muitas vezes a melhor forma de ajudar. Ninguém pode caminhar o Caminho alheio. E ainda que sofram connosco ninguém pode sofrer por nós. Acho que gosto da sensatez desta gaiata que arrendei…
Vejo-me a lidar tranquila com o meu lado menos luminoso. Ou iluminado.Com o facto de não ser perfeita. De ainda andar de grosa na mão a alisar arestas. Bem cortantes algumas delas. Eu sei. Observo isso daqui. As minhas palavras têm força. Que eu domino e direcciono com mestria. Porque algumas me fizeram mal também a mim, sou agora selectiva no meu vocabulário. Escolho expressar-me com e em Amor. Porque o Amor não dói. Nem destrói. Só a sua ausência. Eu escolho construir.
Agora vem a parte a engraçada. As noites em claro. As lágrimas queixo abaixo. O peito às palpitações descontroladas. Sem ser daquelas boas. As outras... Como se não bastasse ser humana, ainda sou mulher! Tenho a menstruação, a lua e uma série de processos bioquímicos a empurrar-me para o chocolate, para o charco aos beijos aos sapos e para o sexo descomprometido quando a paciência é atropelada pela vontade…Tenho renda para pagar. A idade a avançar. A gravidade a actuar. Ahhhh! São três quilos de Toblerone se faz favor!
Rio de novo. Sou divertida quando estou bem, mas sou hilariante quando estou mal.

Vejo daqui a minha irmã. E brilho muito. Ora ao abraço, ora ao palavrão, ela é a minha bomba de gasolina no meio do deserto. Reconheço daqui quem me ama. Só porque sim. Tanto, que até dá a sua paz quando a minha vai de férias. Ou emigra mesmo por uns tempos. Mais um palavrão, uns copos valentes em pura partilha ou aquele alinhamento dos chakras e fica tudo bem. Volto a rir pelo bom trabalho que os nossos pais fizeram… Duas e ambas destrambelhadas…
Vale a pena. Com tudo e por tudo, vale a pena. 
Gosto deste truque de olhar de cá cima para mim lá em baixo. Subo mais um degrau e quando mais alto estou, melhor vejo que a Vida é só uma perspectiva. Se mudarmos de lugar vamos vê-la de outra forma…
IdoMind
about random and apparently meaningless thoughts

abril 21, 2011

Foram as vozes...

Reedito hoje um texto que me saiu lá das profundezas quando o escrevi.
Os tempos negros de então, deram lugar a maior claridade. Sei hoje que assim é. Sempre. Tudo se sucede, permanentemente. Ou nas sábias palavras da minha querida avó Bernardete " Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe."
Porque estamos na época certa, aí vai.
A todos uma Santa Páscoa.


Fui homem como tu. Sei tudo sobre os teus cansaços. Senti o peso da pele que se oferece aos rigores da Terra. A mesma pele que recebe a carícia e a ofensa. Conheci a bondade e a intolerância. Comi com santos e falei com demónios. Lutei com os meus. Fui tentado. Tive medo. Tive tanto medo. 

A lua estava quase cheia no Olival quando pedi que fosse afastado de mim o cálice. Já lhe adivinhava o sabor…Foi de joelhos que aceitei que fosse feita a Sua vontade e não a minha, porque era homem e não lembrava que a vontade Dele é a Nossa.
Fui espada como tu. Dividi. Feri.Trouxe guerra a cada casa conforme as batalhas a travar. As prisões a derrubar. As escolhas a fazer. A Vontade Maior a cumprir.
Fiz a minha Mãe chorar…

Eu ateei o fogo que queima e que limpa. Eu fui desordem.
Ensinei. Quem quis ouvir ouviu. Falei perigosamente. Livremente. O poder das palavras reside no seu uso oportuno. Necessariamente corajoso. Ideia alguma foi plantada sem as forças do vento contrário. Atirei as pedras que agitaram a placidez da ignorância. E as que deram Vida.
Fui homem como tu, no meio de outros homens como nós. Escarneceram de mim. Tantos dedos apontados. Tantos braços levantados. Só porque me atrevi a ser Eu. Porque permaneci fiel ao meu plano. Porque Me ouvi e fui até ao fim do caminho. Só porque a verdade assusta. Sendo pequenos como podemos fazer coisa grandes? Se formos só homens como podemos agir como Deuses?

Fui isto e muito mais. Este é o meu testemunho. Tudo faz parte. Aceita quem és e para onde vais. Decide quem queres ser e para onde irás a seguir. Escolhe. Tranquilamente. Amorosamente. Tudo faz parte. Tecer a coroa de espinhos e usá-la.
Olha para o Alto, de onde vens, sempre que a noite estiver demasiado escura para ver os sinais. Fala comigo quando olhares ao teu redor e te achares sozinho. Escuta-me à hora do almoço naquele banco virado para a praia dos pescadores. Eu não páro de existir porque não acreditas em mim mas só o saberás quando o quiseres saber.
Reconhece-me em todas as faces… e verás.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”. E fui só um homem. Como tu.
Se tens ouvidos, ouve…

IdoMind
About The Exemple

abril 08, 2011

"Deslarga"


Queres manter o quê afinal? O conforto pequenininho de uma vida assim-assim ou a imagem no espelho da casa-de-banho que penteias para o mundo. O que merece afinal esse esforço todo para manter? Esse amassar do coração todo. Esse sacrifício todo. Esse desespero íntimo todo. Esse medo todo. Dependes. Delegaste a responsabilidade de ser feliz em mãos alheias. Aceita então as bofetadas.
E aceita que podem acabar no instante em que decidires que queres que acabem.
O meu instante foi numa fila de trânsito. Encostei assim que pude e estive muito tempo a chorar sentada na relva de um jardim. Tudo ficou tão claro. Como se houvessem dois Sois a iluminar a Terra. Estava mesmo cansada… De não ter orgulho de mim. De exigir o inexigível. De falar estrangeiro e de ser estrangeira. Da incapacidade de corresponder. Da culpa.Tanta culpa.
Cansada de esperar.

Mas esperar o quê? Era ao contrário: estava tudo à minha espera. Está sempre tudo à minha espera. Que eu vá. Simplesmente vá. De preferência sem malas. Fazer o que me apetece. O que considero correcto ou aquilo que combinar melhor com aquela que a minha pele abriga. De seguir o meu grilo. Ser quem me traz paz e sonos tranquilos. Que eu ria. E que eu abrace por amor, amizade ou porque compreendo que é difícil ser Homem. Que diga sim ao compromisso de tratar da minha parte com o máximo respeito por mim. E, inevitavelmente, com o máximo respeito por todos.

Está tudo à espera que eu seja o exemplo. E para isso é necessário que eu seja livre...

Que tire do bolso as chaves das celas do estabelecimento prisional chamado “EU”. Que o faça voluntariamente. Antes do motim. Antes que a revolta instaure a Justiça, com uma zanga, que a honestidade escusaria. Que eu entregue as chaves antes que me sejam arrancadas. À força e no momento menos esperado.
Se eu conseguisse dizer-te no que acredito, começavas hoje a ser livre. Perguntavas-te se isso de que precisas é a causa da tua felicidade. Ou da tua infelicidade... 

Talvez concordasses comigo e te livrasses, agora, do que cumpriu o seu papel e está fora de prazo. A personalidade caduca que já só te traz dissabores em vez de sorrisos. O casamento morto sem a certidão de óbito emitida. O trabalho frustrante que te dá dinheiro para comprimidos. Ou cursos de pintura…Esses objectos todos que ocupam o TEU espaço e o tempo dos teus filhos. Da tua mulher, namorada ou da tua vizinha de cima gira como tudo. Do passeio junto ao rio enquanto o sol de põe e percebes como és abençoado.

É isso que queres manter? As chaves? Continuar cativo dentro de ti aprisionando também o resto? Ficar pelo mais ou menos. Oferecer o mais ou menos. É um direito que te assiste. Mas exerce-o pelo menos com rectidão e não reclames na hora de receber, porque a vida só existe devido ao justo equilíbrio de todas as coisas.
Eu escolho assumir o dever de ir. De largar. De desamarrar a alma dos pesos que a mantêm retida na mediocridade e procurar o Melhor. O Excelente. O que tem o meu nome escrito...
Conferindo também ao Outro essa sagrada possibilidade.
IdoMind
About making the necessary changes

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