No outro dia deu-me uma coisa qualquer e entreguei uma das minhas sementes a uma pessoa.
Escrevi, como escrevo tudo, a passar para o papel o que me passa pela cabeça. E pelo coração.
Decidi mostrar-lhe ao que me tinha inspirado. Inédito. As minhas impressões ficam só para mim e nunca mostrei a ninguém o que escrevi sobre os próprios, a não ser à minha irmã, porque essa sei que me ama seja lá o que for que eu pense ou sinta ou escreva ou decida fazer da minha vida.
Hoje decido não ter vergonha de ser sensível e por isso partilho também no Jardim uma página do meu jornal diário, com o seguinte conselho: não deixem nada por dizer, por mais absurdo que possa soar. É assim que se faz a selecção do que é para ficar para trás e do que é para continuar connosco - mostrando quem somos na verdade. Por mais absurdos que nos sintamos.
É assim que também se pratica tomar atenção ao Outro e aproveitar a oportunidade para fazer algum Bem porque nunca sabemos até que ponto são precisas as nossas palavras ou as nossas acções...
A jeito de anúncio da Sumol - pratica o quero lá saber e sê.
É assim que também se pratica tomar atenção ao Outro e aproveitar a oportunidade para fazer algum Bem porque nunca sabemos até que ponto são precisas as nossas palavras ou as nossas acções...
A jeito de anúncio da Sumol - pratica o quero lá saber e sê.
Então foi isto que entreguei:
"Mereces mais do que ler o que escrevo a pensar noutros. Mereces-me a escrever para ti. De ti. Assim. Que é a minha maneira de falar do que nem sempre consigo dizer. Apesar das longas horas de conversa e dos muitos sóis que vimos tombar lá fora (como desabafas a brincar) há coisas que não te digo. Não são muitas. És dessas pessoas com um não sei o quê de barman. Ou de padre. Com quem naturalmente se fala até mesmo o que calamos dentro de nós. Pensando melhor, acho que tens mais de padre, já que eu mesma e sem álcool à mistura, me confessei diante de ti em tantas tardes.
Mas não confesso tudo.
Não te falei das viagens a que me levas. À tua infância. Ao teu país. À vida que jamais imaginarias vir a passar por desenhar pessoas numa vila pequena, onde o mar mais azul de todos esperaria por ti, para te ensinar uma lição ou duas sobre andar sob algumas águas. E das rochas que também é preciso pisar para alcançar certas margens. Tão escarpadas e perigosas, plantadas de propósito e com um Propósito, a meio do Trajecto, pedindo que escolhas entre a fé e a inteligência. Também não te falei disso. Que ouvir-te é ter vergonha de todas as vezes que o medo me vence e volto para trás, ao mesmo sítio morno onde Deus dorme porque não o quero acordar. Tu és mais barulhento que eu. Mesmo em silêncio, gritas ao teu. Que te ajude. Que não te deixe. Que não se esqueça de ti, para aqui perdido neste lugar onde a mentira e a maldade têm uma pronúncia diferente, mas também existem.
E depois existe a amizade. O carinho. A preocupação sincera de quem te quer bem. Conseguiste tudo isto. Do lado menos quente de um oceano onde te fizeste, te foste fazendo e te desfizeram. Apenas para te refazeres. Com um pé num andaime e o corpo todo num amor que justificou o frio, a gente parva e as saudades de casa… Até ter deixado de justificar. O rapaz que aqui chegou deu a vez ao homem que ficou. Pergunto-me porquê. Terá sido porque sim? Porque não se desiste assim, sem dar um pedaço da mesma força que usaste para arrancar as tuas raízes e vir? Ou foste só ficando? Sem pensar em grandes porquês porque as contas não deixam tempo para parar e meditar?
Eu medito. Tenho meditado em ti. No porquê de nos termos conhecido. E agora. Não tenho todas as respostas porque estou certa que ainda há muito para me mostrares. Não és um qualquer. Esperei por ti para me marcares. Deixaste-me cheia de azul e cor-de-rosa, para os meus dias cinzentos. Ofereceste-me uma Estrela, para eu olhar quando a terra me cansar. Linda, a coroar o céu exclusivo que trouxeste para morar em mim. Agora não preciso de olhar para cima para me lembrar Infinita porque me pousaste o Firmamento nos braços. Obrigada.
Retribuo-te com este quadro pintado com palavras. Não tenho mais nada para te dar em troca das ideias que agarras e preenches tão bem com as cores, os tons e contrastes da tua própria sensibilidade. Viajo de novo, para a tua sala, onde o talento está para ali espalhado como se o dom de transformar sentimentos num namoro de linhas e traços com sentido, com tanta beleza, fosse vulgar. Normal. Não é. Tu não és normal. Como bem sabes. E sentes.
Acredito até que deves ao peso dessa diferença a tua solidão consciente. Madura. No fim das contas, talvez a anormal seja eu, por tirar de ti lições quando te limitas a viver como podes. E como te permitem.
É claro que este quadro em prosa ficaria incompleto sem uma pincelada no sorriso. Esse sorriso… Não sou a primeira a falar-te dele. Eu sei. Quem sorri como tu sorris já fez sonhar. E se faz escrever, aposto que já fez corar. Tens um sorriso que cheira a Verão. Brilha. Espalha um calor amoroso que manda embora o cansaço, o aborrecimento tolo, aquela palavra feia e injusta. O teu sorriso assopra a Sombra...
Encontrei a melhor forma de te descrever! És um homem-Verão. Convidas a sair da toca, a dar a face ao sol. A descontrair porque amanhã também é dia e tem de ser um de cada vez. Tu entras e segue-te uma claridade que aquece os lugares. As pessoas. Transportas uma espécie de luz que atrai muitos. Assustando outros. É a tua luminosidade que te denuncia, tornando-te visível a todo o tipo de olhos. De olhares. É por isso que o teu nome saltita por aí. No bom e no mau.
Se soubessem…
Se soubessem que o homem-Verão tem tantos Invernos…Talvez te levassem uma manta e se sentassem contigo no sofá a falar sobre a Primavera. Contavam-te histórias sobre ciclos mágicos a que tudo obedece para que tudo se renove. Ou ficavam calados, mas contigo, lado a lado. Emprestavam-te as pernas e acompanhavam-te por um bocado, só até atravessares a parte mais difícil e escura do caminho. Se soubessem dos teus dias gelados, talvez te agasalhassem naquele abraço que não resolve tudo mas faz acreditar que há uma solução.
Eu não sei muito. Sei apenas o suficiente para te dar as minhas mãos, também elas nem sempre quentes, mas sólidas, amigas, estendidas para ti homem-Verão, em qualquer uma das tuas estações.
IdoMind
About you

















