Durmo pouco. Em consequência, penso demais. É como se tivesse um contrato de trabalho com o meu cérebro e todos os dias fizesse horas suplementares. Fui então percebendo que é importante para a minha saúde estar feliz. Ou pelo menos tranquila. Tantas horas acordada podem levar-me a desaparecer no precipício que espreitei. E temi… Muito do que conheço de mim foi-me apresentado às escuras. Nas noites fundas, em que sozinha comigo, tive de achar o regresso ao sítio iluminado onde habita a minha Ordem.
Fui descortinando, sem drama, quem sou eu afinal. O que faz me bem, o que não me faz bem nenhum e o mal que vou fazendo sempre que não me compreendo e, apavorada, me defendo dos moinhos de vento que só eu vejo. Qual teria sido a minha pressa para apanhar boleia deste céu poeta que tento chamar à razão? Estava bom de ver que ia dar confusão casar uma lua sereia com um sol apaixonado pelo chão…
Sou traçada por uma linha que quando não me corta, desune-me. Ando que tempos desaparecida a juntar-me nalguma parecida com uma pessoa inteira. Alguém com cabeça, com tronco e com membros a ir nalguma direcção. A saber como fazer para chegar sem se distrair com o arco-íris que aparece, os sem-abrigo encostados num canto e o cão que atravessa na passadeira ao pé da farmácia.
Como será caminhar com os pés?
O pior é que está a ficar pior. Apetece-me cada vez menos olhar para baixo. Doem-me os campos verdes, onde se pisam irresponsavelmente as flores atrevidas que exibiam a recompensa pela certeza numa luz lá mais em cima. Vejo-os devassados pela gente que passa arrastando os seus pedaços de madeira, que, na exaustão, chamam de cruz. Doí-me a minha fé derrotada a ceder terreno para a renda que tem de ser paga. Doí-me o Amor de malas na rua despejado pela cobardia. Doí-me todo este preto-claro que me fere os olhos quando procuro uma planície para aterrar.
Isto é o que me tira o sono e me põe uma caneta na mão.
As minhas noites sem dia à vista ensinaram-me a racionar. A guardar uma porção da minha força para o momento em que tiver de a ter. Outra porção, ou várias, para quando tiver de a repartir. E aquela porção guardada para oferecer…
Não vale tudo a nossa pena. E nem todos nos valem. Sem penitência, há que arrancar as nossas próprias tábuas das costas e fazer delas os remos dos nossos sonhos. Afastarmo-nos das margens escorregadias, passar sem atracar. Continuar até sabermos que chegámos. Quando chegarmos vamos saber. Não é frase feita. É o conhecimento que vai sobrevivendo, passado pelos que chegaram.
Eu quero chegar. Sentar-me na cadeira de embalo à porta de casa. Beber o chá preparado enquanto aguardavam avistar o meu barquinho a aproximar-se no horizonte. Quero chegar bem. Como? Cuidando de mim. Desde que tive a ousadia para ser Eu tornei-me reservada. Por andar mais destapada, agarra-se tudo à minha pele. Só o percebi às tantas da madrugada debaixo do chuveiro a esfregar sujidade que não era minha. Agora só me dou em lugares limpos. A pessoas bonitas. E limpas também. Tapo os ouvidos a algumas palavras e calo os lábios a outras. Rio. Muito. Com satisfação pois o pecado está atento à falta de alegria. E também me recolho para chorar, porque há sentimentos que só se lavam assim.
Aproveitei as insónias para estudar como funciono do meu meio para cima. Para me estudar. Descobri-me interessante. Trabalhosa é verdade. Mas é assim que gosto de mim. A partir o vidro para ver o que está do outro lado do espelho. A partir-me, se for preciso, para me descobrir afinal quebrável. Ou mais resistente do que julgava.
Tenho-me andado a inventar para ver se chego gira. Divertida. Tão leve que dê vontade de pegar ao colo.
É assim que me quero. Como alguém que se quer. Perto. Dentro.
IdoMind
About getting some rest

















