junho 13, 2013

Um+Um=Dois


Deus pode juntar.
Santo António dar uma mão.
São pessoas que se levam ao altar
mas é das almas a união.

Porque se assim não for,
o sonho a dois está condenado
a morrer de desamor
todos os dias um bocado.

A regra é simples e antiga:
dá o que gostarias de receber.
È assim que a vida liga
o que o egoísmo leva a perder.

Fala doce e amorosamente,
pois há sempre uma solução.
Escuta quieto, honestamente
a voz sábia do teu coração.

É ele que indica o caminho
e a forma de caminhar.
Se o rei da casa for o carinho
nada há que vos possa separar.


O Céu ajuda.
Eu colaboro


IdoMind
about relationship's wealthy management.

Desculpa -cada um com a sua



E depois a gente cresce.
Retira-se um pouco do mundo para conversar com as mágoas antigas e as reacções do costume. 
Lá, no sítio onde dói sempre muito.
E depois a gente pergunta-se.
Melhora-se...
Larga as desculpa e, se for bem feito, até agradece as bofetadas que nos moldaram o caracter. 
Todas elas, mas sobretudo as que não usaram mãos para nos ferir.
E depois a gente percebe.
Finalmente.
Que é mais confortável viver escondido atrás dos outros
...que darmos a nossa própria carne à Vida.

E depois a gente escolhe....
Compreender. Perdoar. Seguir.
Ou não.


IdoMind
about responsability for my actions. Mine alone.

Por baixo



Só me viste despida. 
Para me veres nua, 
tens de passar para lá da pele 
e encontrar-me misturada nas feridas.

IdoMind
about being undressed

Uns


De onde eu venho,
somos todos iguais
tudo o que tenho 
é também dos demais.

Não há lados,
nem oposições.
Estamos ligados 
em todas as direcções.

O que fui e sou
também és e serás
se aqui estou
é porque tu aqui estás.

Só regresso contigo
e vamos a voar
pelo trilho antigo
rumo ao Lar.


IdoMind
about minding

junho 01, 2013

Extensões



Agora,
Sim, neste instante,
vou fazer por estar
onde tu não chegares...

É hora,
e só o Tudo é bastante
nessa parte que te faltar
toma-me, para te segurares.

Porque é assim que está feito
para que o plano se cumpra,
quando um está desfeito
há outro se lhe junta.

Não vês?
A vida só acontece,
ainda apetece,
porque tudo o que É
veio aos pares...


IdoMind

                                                                                                                              about being there for you.

maio 16, 2013


Sopa, mezinha
ralhete breve,
dizeres antigos
tão engraçados,
canja de galinha,
cabeça com neve
olhos amigos 
sangue herdado.

A prece singela
contra o diabo
A sesta da tarde
a palmada no rabo
a fé numa vela
luz que me guarde
de todo o pecado.

Este é o meu obrigado
a jeito de oração
ainda te queria ao meu lado
avó do meu coração.


IdoMind
about who always cared

maio 15, 2013

Em português


Diziam-lhe: livrou-se você de uma coisa má. Mas ela tinha saudades. Imaginava-o sem a sua protecção. Pensava que talvez estivesse sem comer bem, sem dormir, talvez não tivesse cuidado com o frio da noite, com o peso das batatas, com o zangado de algum animal. O seu menino mau podia estar todo errado, mas perto dela era corrigido nos perigos.


 Valter Hugo Mãe, in " O Filho de Mil Homens"

Tão bom que é encontrar nas palavras dos outros, os nossos sentimentos.

IdoMind
about beautiful writings

O Próximo




Proponho que me protejas
sem qualquer condição.
e nos meus medos te revejas,
cordeiro largado à multidão.

Pois não sabes que a inocência
precisa do teu rugir,
que lhe afaste a violência
daqueles cães de feroz latir.

Dá-me assim o que mais desejas,
e eu ensino-te a mansidão.
Será a ti, que em mim beijas
consumando a União.


IdoMind
about injustice

Perto do fim



Quando a minha vez chegar
já de pele enrugada,
de alguém me perguntar
- Que tal foi a jornada?

Vou responder com alegria,
que só levo gratidão
não foi só sangue, foi poesia
a alimentar-me o coração.

- Essencialmente um passeio -
vou dizer comovida -
de uma forma resumida,

trata-se de andar pelo Meio
numa Estrada tão partida
e chegar mais inteiro, 

do que à Despedida.

IdoMind

about this, oh so short,life of mine

maio 09, 2013

1-2-3 Diga lá outra vez


Nunca quiseste roubar-me os sapatos.
Estiveste a pedir-me que me descalçasse para sentir as nuvens debaixo dos pés.
O céu esteve guardado em cada pedra, mas eu só lhes senti a dureza.
Esmagaste-as uma por uma e fez-se areia porque eu preciso sempre de um deserto.
De uma travessia...
De sede e de visões.
De ti.
Eu preciso de toda a fé que um copo de água contem.
E do amor na mão que o segura.

Nunca quiseste arrancar-me as roupas.
Ver-me a morrer de frio ou de vergonha. Nenhuma nudez é consequência, mas sim condição.
Como poderias tu tingir-me de arco-íris, se te escondo a pele à cor? 
Não me deixaste por isso nua. Aliviaste-me, porque eu preciso sempre de um limite.
De uma dor.
De culpa e de punição.
De fim.
Eu preciso da força que vem, sem saber bem, se só minha ou de mais alguém.
E do mistério de cada tentar que sucede a queda.

Outro Maio e outra contagem.
Este ano aceito o teu presente - o meu futuro.
Que pode ser sem desertos e sem limites.
Fracassos.
Boicotes.
Paragem.
Chicotes.
A idade não é a mesma e a sabedoria também não.
Nem a canção,
nos lábios da maresia desta manhã de aurora.
Sinto-te. Sinto-me. Como sempre me quiseste, livre e leve.
Como as meninas, as almas e tudo o que é simples.
A voar.


IdoMind
about B-days

abril 23, 2013

Livre


O meu pai, que hoje celebra 61 anos, queria chamar-me Zoraida. Ou talvez com "u". Nunca lhe perguntei.
A minha mãe, ligeiramente mais contida, foi quem me levou ao registo e deu-me outro nome.
Mas na verdade eu deveria ser Alice.

Gostei sempre do outro lado de tudo. 
E gostei sempre muito de fugir deste lado desta vida.
Os livros foram as portas secretas para a minha liberdade.
Espelhos feitos de água em que mergulhei para esses outros lados de quase tudo.

Quando deixei de caber na modesta estante do meu quarto, descobri que na biblioteca da minha escola também era permitida magia. Foi onde me apaixonei pela primeira vez. Ao percorrer cada légua do mar e participar na descoberta do centro da Terra, caí de amores pelos magos que sabem como criar portas que dão para sítios, corações e histórias obrigatórias onde ainda não chegou o impossível.

Desde então, o que me satisfaz é o que me fala de alternativas. De véus para verdades maiores. De reinos onde só se usa a Espada e se acredita na Honra. De Faunos. De pequenos almoços na Lua. De pessoas a fingir que são gente e se revelam bichos.Monstros... Satisfaz-me o Bem encarnado em heróis que podemos ser nós. 

As viagens na biblioteca da minha escola, alargaram-me o horizonte até ao Infinito.
E nunca mais se fechou. A nada.

Sem livros, acho que teria morrido de humanidade aos 11 anos.
Presto por isso esta homenagem singela a todos os autores, agradecendo-lhes a companhia nesta Viagem, bem mais fantástica, graças aos livros-portas que dão para o Esclarecimento, para a Imaginação, para o Amor, para a Liberdade.
Obrigado.

Deixo aqui uma passagem, curta, de um dos livros que mais me marcou e que continua a ser dos meus preferidos. Aqui vai:

"..there is an idea of a Patrick Bateman, some kind of abstraction, but there is no real me, only an entity, something illusory, and though I can hide my cold gaze and you can shake my hand and feel flesh gripping yours and maybe you can even sense our lifestyles are probably comparable: I simply am not there.” 
- Bret Easton Ellis, American Psycho


IdoMind
about Books and Writers

abril 11, 2013

Mínimos


Havia uma criança e um pacote de arroz. Havia eu especada olhar para ela a olhar para a etiqueta do preço. Dava-me um pouco acima da cintura, pelo que as prateleiras mais altas obrigavam-na a esticar o pescocito, dando a impressão de um pássaro bebé a confirmar se o mundo acabava nas paredes do ninho ou se havia mais qualquer outra coisa que lhe merecesse esforço de desembrulhar as asas para ir descobrir.
Depois de algum tempo desapareceu na curva dos enlatados. Eu andava de volta da massa. Voltou acompanhada por outra criança, mais velha e mais alta, mas com o mesmo ar, algo majestoso, aquele que têm todas as criaturas seguras de quem são e de como chegar onde querem. Deviam de ser irmãs. Após a verificação rápida de duas etiquetas de arroz agulha, trocaram o pacote e afastaram-se as duas num caminhar tranquilo, claramente satisfeito com o bom negócio que haviam acabado de concretizar. A missão fora cumprida e os passos orgulhosos indicavam estar preparados para o corredor seguinte.
Sorri para dentro. Acho eu. Espero eu…Sorri. Isso eu sei. Na minha cabeça surgiram duas equipas de crianças, uma formada pelas que os pais impedem de crescer e outra pelas que os pais não poupam ao crescimento. Aquelas duas, que não teriam mais de 7 e 11 anos, sabiam que o arroz não nasce na despensa lá de casa mas que se vende em prateleiras de supermercado. Que custa alguma coisa. É certo que muitas das nossas crianças estão familiarizadas com o custo da vida. Algumas até demais. Talvez me tenha apenas surpreendido o facto de se tratar de arroz. Que criança se preocupa com arroz? Se neste momento perguntassem às vossas  “Sabes quanto custa um pacote de arroz” elas saberiam responder ou iriam gritar “ Oh mãeee, o pai está esquisito outra vez!”?

Eu tive a sorte (hoje consigo chamar-lhe assim) de ser educada por uma mãe que desconhece o significado da palavra tabu. Assim, desde cedo que sei que existem realidades iguais e realidade diferentes da minha. Muitas, melhores. Outras, nem por isso. E umas ainda, nas quais já então suspeitava, que precisaria de ver-me envolvida para poder com legitimidade dar-lhes um adjectivo qualquer. Certo é que enquanto aprendia a ler, a escrever e a comportar-me, aprendia exactamente ao mesmo ritmo que a vida tinha Invernos e era preciso saber sobreviver-lhes. Com a roupa que se tinha.

Muitas crianças só conhecem o Verão. O Inverno não passa de um capítulo curto e ilustrado nos contos que lhes lêem antes de dormir. Isento-me de juízos de valor quanto à estação em que cada um cria os seus filhos. A questão é que eles crescem e saem de casa. Celebram contratos de trabalho, casam, namoram, fazem as duas coisas ao mesmo tempo, compram, vão ao cinema, têm um carro, fazem filhos…Asneiras.
Andam por aí e em certo ponto, cruzamo-nos. Esta é a parte que já me diz respeito.
Algumas crianças-Verão, quando crescem, nunca cresceram muito para lá do umbigo e é por isso que não se cruzam connosco, trespassam-nos.

Oiço-as a pedir sacríficos como se soubessem o preço do arroz. Governam-nos, dirigem empresas, têm vidas nas mãos, como se brincassem ao monopólio e não fizesse mal nenhum tanta irresponsabilidade.
Mas faz. Faz muito mal.
As crianças-Verão que só cresceram até ao umbigo, deviam ser mandadas para a primeira classe de novo para que experimentassem na própria pele uma lição ou duas sobre respeito. Sem brinquedos. Sem favores. Sem privilégios. Sem passadeiras vermelhas nem certezas. Fazer por merecer. Ter de lutar. Provar. Não conseguir mais. Chorar. Guardar as lágrimas para mais tarde quando o estômago dos filhos se calasse ou o banco parasse de pressionar. Inventar dedos para tapar buracos numa barragem que não pára de rachar. Escolher qual o medicamento que este mês não se pode comprar. Temer..Temer muito o amanhã.

Ah crianças-Verão, se soubessem o que quer dizer Exemplo não nos pediam o sangue sem dar uma gota do vosso. E nós talvez o déssemos de melhor vontade por uma Primavera que chegasse a toda a gente...
Como pode falar de cortes alguém que não sabe a cor do seu próprio sangue?
E agora, como é que vamos educar adultos tão baixinhos?

Havia uma criança e um pacote de arroz que me deram esperança na humilhação cansada que começa a sonhar com a Dignidade merecida.

IdoMind
about Our boat



abril 09, 2013

Sem querer, querer-te




Amor, como estás? 
Quis perguntar-te mil vezes. Sentei-me outras tantas aqui, como hoje, na esperança que os meus dedos fizessem o que fazem sempre e se largassem a dançar magicamente sobre o teclado, gerando a poesia que te fala de mim e pergunta por ti, num género de diálogo solitário. Anónimo. Recebido.
Mas acho que esgotei a minha quota de magia. Os meus dedos não monologam há meses. Não se movem, nem mesmo diante da página em branco que outrora possuíam bestialmente. Avidamente, a emprestar voz ao meu coração. Davam-se tão bem. Vejo-os agora de costas voltadas e quem paga sou eu, que me levanto a meio da noite para pôr a alma a gritar e nem a ponta da mordaça descubro para que possa ao menos suspirar.
Às vezes parece que vou desaparecer num estrondo e por todo o lado vão haver bocados de prosa colados às paredes, a escorrer pelas portas, derramados pelo chão. Os meus bocados por dizer que não aguentaram mais e transbordaram-me sem pedir licença. Quem sou eu, incapaz de escrever?
Se calhar sequei mesmo. Finalmente. Como naquele filme, de tanto bater o meu coração parou...

Talvez tenha andado a mandar muito em mim. Ordeno-me a esta vida com pessoas de carne e osso e cheiro e coisas para dar e para me tirar. Obrigo-me a ficar e a dizer aos sonhos que já não são bem-vindos. Que me deixem em paz à procura do lugar que sempre rejeitei. Sabes, penso que a liberdade é a mais engenhosa invenção de Deus. Para não morrermos de tristeza, temperou-nos com insatisfação. É por isso que continuamos. Uma e outra uma vez, depois da que jurámos ser a última. Porque um dia… 

Um dia…Vamos ser livres para sermos nós! Para, sem culpa, escolher uma existência simples na margem de um rio. De todos os rios que desaguam em nós há imenso tempo, indicando por onde e quando ir. Um dia vamos. Até à exaustão e até ao fim e ao fundo das interrogações suspensas a cada viagem feita no sofá. Das perguntas a pairar nas ausências que temos sem mexer sequer um pé. Na cama. Ao lado de alguém. Que não é ao encontro de quem o espírito sai para ir tocar. 
Um dia…Um dia vamos amar a sério. Acordar logo a cantar. Ter vontade de dar beijos que entram pelos outros adentro e lhes espreitam as dores. E os tesouros. 
Um dia vai estar tudo certo...
E um dia vamos esquecer todos estes dias da falta daquilo que ainda não conseguíamos dizer o que era.

Um dia vai ser fácil ser eu sem ti.
Estar na minha vida, sem me ocorrer assim de repente como estará a tua. Desculpa. Perdoa-me a delonga em desprender-te. Em apagar-te. De uma vez por todas. Comecei por forçar o exorcismo, apenas para acabar por aceitar que é aos poucos que os fantasmas se expulsam.
Às fugidas. Como faço quando vejo o teu carro estacionado pelos lugares que já foram comuns.
Mas esta noite sonhei contigo e precisei disto, de vir à superfície tornar verbo o que passa na profundidade na qual não voltei a ser encontrada.Ninguém voltou a descobrir-me o caminho que tu fazias de olhos fechados.
Por isto tudo - Amor, como estás?

IdoMind

about you fading away

março 06, 2013

Eu sou, tu és, nós todos somos - Medricas.

Faz frio no alpendre. A noite escureceu há muitos dias e deixei de te ver. Perdi-te o rasto na garganta do medo que veio e te levou. Não o apanhei já a mastigar-te, mas ouvi o barulho da tua alma a partir-se e a réplica apagada do grito de despedida do homem que poderias ter sido. Esse foi desfeito.Bocado por bocado. Sei-o porque um bocado era Eu e era também minha, misturada com a tua, a carne que ele comeu. Senti-lhe os dentes a dilacerar-nos o sonho e às vezes acordo com a tua imagem, preso no estômago de um monstro, aceitando que não há fuga possível além da que o teu coração te permite...

Também faz frio aí? Vais ao alpendre mirar o infinito, procurando-me na tua noite que não sei há quantos dias escureceu? Agarras de vez em quando a memória de uma piada, do querer como nunca se quis antes, de roupa encharcada, um furo no pneu e uma manhã em que não ficou nada por mostrar. Agarras? 


Agarras no que podes para me manter viva? Para fugir e vir ver como estou? Se penso em ti...? Se me encontro no alpendre com os olhos no mesmo infinito à procura dos teus. De vez em quando, lembras-te de mim? Ou o medo que te levou convenceu-te de que eu nunca existi? Que adormeceste por uns instantes, mas que agora está tudo bem.
Esse é o meu medo.
O monstro tem um quarto cá em casa e a mim convenceu-me a crescer. Tem-me partido a alma com a razão, quebra-me o espírito assim, racionalmente. Exige-me que sinta o chão e desça aonde a vida não faz uma pausa à espera que o golpe feche e a sorte aconteça e a gente acorde e um dia regresses. A ti. Para mim. Por nós.
Virou-me contra o espelho e fez-me ver só mais uma na multidão. Eu e o meu medo num espelho a selar um pacto. Era isso ou uma espécie de loucura, porque me perguntou se fazias sentido e só lhe consegui dizer que me fazias falta.
Sem sentido, é o que sinto. E lógica alguma desdiz a saudade concreta de nos ter outra vez. 

Se ao menos eu soubesse melhor o meu roteiro. Por onde estou apenas de passagem e onde tenho uma parcela de terra para fazer a minha casa. Quem me dera ser livre da ânsia de fazer tudo bem. Ando cansada da dúvida constante sobre ter falhado ou perdido o juízo. É que o respeito por ti pode não passar de orgulho com muita maquilhagem. Quanto do que não faço, não tento, não quero, é, nua e crua, uma cicatriz coberta de pó de arroz? Das roupas com que gosta de se vestir, a que melhor assenta à dor ainda é o " era porque não era para ser"...
Por tudo, tomara eu lembrar-me se era só para te visitar ou para acabar de me construir em ti.

Ao frio no alpendre juntam-se duas ou três gotas de chuva que encontram o seu fim na capa do livro que tento acabar e está difícil. Vejo as letras mas não as acasalo e não as leio. A literatura virou cinema e o filme em exibição nos meus livros é o mesmo há várias semanas.
Não corro como de costume para me abrigar da tristeza do céu, antes fico e espero que se rompa inteiro e chore comigo a existência da incerteza. No amor. Na decisão mais correcta. No porquê. No porque não. Na coragem que teme. Nos monstros que nos comem. Na dor. Nas rejeições. Nos assuntos mal resolvidos. No afinal não era bem isto. No melhor dos fins. Num futuro. 
A incerteza atrás da escolha que virá atrás de nós. 
Escolher-te-ia na certeza do bem que te quero. Fico-me pela humildade do pouco ou quase nada do que sei e pela esperança de que seja verdade tudo o que dizem sobre a escrita de Deus.

Continuo, incerta de ter acertado e cumprido o esperado.
No meu filme, estamos os dois no alpendre, ao frio e à chuva e, voltada para ti, estou a perguntar-te se também te fazes estas perguntas.
E é assim que acaba.Comigo, uma pergunta, num intervalo.Que diabo de fim para uma história. 
Se nos visses num filme, sem monstros, como seria a cena final?

IdoMind
about nihilists being right

fevereiro 27, 2013

Possibilidades


- Para quem duvida que a Terra tem alma, que a percorra com o intelecto e pode ser que a encontre afinal gente. Talvez lhe descubra, nas mãos velhas que lhe pisamos, as marcas de um destino próprio. Entre os seus vómitos e as suas febres, estamos nós, fixos às contestáveis certezas que o formato redondo, pendurado na vastidão, nos acostumou. Só que tudo mudou. E continua a mudar. Os últimos arrepios da Terra tiraram-na do lugar. A nossa Casa tremeu… E desencaixou-se. Contagiámos a Terra com as nossas doenças, seguros de que continuaria a girar, graciosa, infalivelmente, ainda que doente e carregada com o peso da gula sem fim que nos faz gordos, escravos e muito estúpidos.
Temos agora mais pressa e menos tempo. Um roubo quase imperceptível no nosso prazo, que trouxe urgência na cura. E a precipitação para uma morte. Quem não sente? Quem não vê? Dura menos uma mentira. Uma má-acção. Um segredo… há holofotes por todo o lado a acusar a presença dos nossos infernos. Cada vez que a terra se mexe, há um esconderijo a menos. Coitados dos amantes de tocas, cavernas e buracos, empurrados, assim à bruta, para a superfície e para este novo Sol que aquece. Ou queima. 
Lembras-te quando me perguntaste, no dia seguinte ao funeral do Carlos, quais seriam os meus três desejos se desse por aí um pontapé numa lâmpada mágica onde um génio morasse? Na altura não te respondi, tão vazia que estava de desejos. De sonhos. E de Deus.
Um. Tenho apenas um desejo. Se daqui a bocado, lá em baixo na praia, o vento zangado de hoje desmascarasse uma lâmpada mágica, na areia cujo cheiro sei de cor, teria um único desejo – Um novo começo para todos.
Sem dívidas. Sem registos. Sem promessas. Sem culpas…
Um recomeço, cá fora e lá dentro. Pediria, para quem o pede para si mesmo, a Liberdade para se Recomeçar.

O sorriso carinhoso dele dispensava qualquer resposta. Entre a honra de se saber especial para ela e o paternalismo que o fazia preocupar-se com os golpes mais ou menos inevitáveis de um idealismo ingénuo, espelhava no rosto a imensa admiração por aquela mulher, que apesar dos anos de íntima convivência, suspeitava, haveria sempre de o surpreender.

- Não achas então que as pessoas tenham de pagar pelos seus actos? – perguntou, após a empregada de mesa se afastar, deixando-os abandonados ao prazer da personalidade forte do Dão que repousava nos dois copos de pé muito alto e barriga dilatada e à discussão existencial a combinar com o dia melancólico e frio.

- Pagar o quê? A quem? Para mim, o preço mais alto é a minha paz e pago-o sempre que me comporto em desconformidade com o que acredito ser o correcto. Detesto-me quando me contrario e, por cobardia, limitação ou só porque a vida é assim mesmo, entro até à cintura no rio acastanhado de incoerências e falsidades que mantêm as coisas as funcionar. Odeio-me quando sou maricas e menor do que sei que sou. Fico infeliz. Deixo de conseguir fazer piadas. E quando perco o meu humor sei que estou a pagar um preço. Ficas realmente melhor quando vês alguém a ser castigado? Em termos práticos podes até obter algum tipo de reembolso, mas é minha convicção que o que obtens com as lágrimas de outro, devolverás com as tuas próprias. O caminho nunca poderá pela imposição. Não é o livre arbítrio o supremo direito que  nos é conferido? Quem somos nós para o impedirmos aos outros?

- Advogas então a impunidade - constatou com a franqueza de quem estava mais a querer entender do que a julgar- e consequentemente a anarquia. 

- Advogo a Imparcialidade. Viver e deixar viver. Cada um de nós faz a cama em que se deita, não é assim? É evidente que se faltares ao trabalho todos os dias, serás despedido porque o trabalho precisa de ser feito e de alguém que o faça. Se fores desagradável, mal-educado, rude, egoísta,  é certo que alguns se afastarão de ti, enquanto outros te responderão na mesma moeda. Somos, essencialmente, criadores. O patrão não está a ser “ mau” quando despede um funcionário que não cumpre as suas funções. Uma esposa não está a ser intransigente ou exagerada quando pede o divórcio por ter sido traída. Várias vezes. Ou apenas uma com a dor de muitas. Um amigo não está a ser injusto quando deixa de te ligar depois de meses sem que te preocupes sequer em tentar saber como ele tem passado. Estas decisões, traduzidas em acções que podem parecer punitivas, reflectem apenas o fim que é necessário com o que, à falta de se transformar, acabará por intoxicar.
Além do mais, o patrão que permite ao funcionário faltoso que continue, para usar o teu advérbio- impunemente, a aparecer ao serviço quando lhe apetece, está a descurar dos seus interesses, dos demais e o regular funcionamento da unidade. A bondade é muito diferente da fraqueza de espírito e o respeito pelas escolhas dos outros só ainda é respeito se não violar as nossas próprias e não nos corromper.  
A esposa traída que pede o divórcio, tem o direito a não viver para sempre na desconfiança perpetuada a cada atraso, a cada telemóvel desligado, a cada silêncio estranho do marido…Perante o reconhecimento sincero de uma suspeita inultrapassável, não será mais saudável cortar de modo definitivo aquela relação ao invés de consentir o envenenamento lento do que resta? O verdadeiro castigo, como eu o vejo, seria sujeitar os dois ao interrogatório diário “ Onde estiveste? Almoçaste com quem? Só agora?”. Isto sim seria fazer pagar. Esperar que chegasse a casa para olha-lo com “aquele” olhar. Soltar ocasionalmente uma insinuação maldosa. Fazer sentir àquela pessoa que agiu mal, em cada oportunidade ou beliscadela de medo num ego dorido. 
Isto é que para mim é fazer pagar e é disto que te estou a falar. Da necessidade, nem sempre consciente, de fazermos justiça pelas nossas mãos usando para isso a culpa que sabemos que o outro sente ou que o Todo votou como condenável. O que gente gosta de palmadas nas costas…
É esta a liberdade que advogo- de sermos responsáveis por nós. E apenas por nós. Permitir que os outros se criem e colham de acordo com o que querem, conseguem ou podem…Advogo a revogação de todas as fidelizações. Que sejamos todos livres uns dos outros. E que cada um seja livre de nós. Dos nossos julgamentos. Das nossas carências. Das nossas projecções. Da adolescência do nosso autoconhecimento. Frequentemente esquecemos que até os anjos caem. 

Afagou-lhe a mão.
- A redenção parece-me sempre possível diante da simplicidade com que vestes a vida. Faz sentido. Algo em mim festeja essas verdades que o cérebro, porém, ainda não processou inteiramente. Só o relance dessa tua visão de Liberdade já me deu alento para os perdões que quero e que vou distribuir. Compreendo agora a tal máxima que manda dar aos outros o que o queremos para nós.
Brindemos à nossa Imparcialidade e à revogação de todas as fidelizações! Que a tenacidade nos acompanhe e a memória desta fatia de tempo em que desejamos à Terra boa-sorte na procura de um novo Equilíbrio.

Ergueram os copos barrigudos e desejaram, no silêncio dos seus corações, boa-sorte a todos naquele mesmo processo.
IdoMind
about a truly new brave world
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