setembro 30, 2010

Liberdade





- Liberdade, que estais no céu... 
Rezava o padre-nosso que sabia, 
A pedir-te, humildemente, 
O pio de cada dia. 
Mas a tua bondade omnipotente 
Nem me ouvia. 
— Liberdade, que estais na terra... 
E a minha voz crescia 
De emoção. 
Mas um silêncio triste sepultava 
A fé que ressumava 
Da oração. 
Até que um dia, corajosamente, 
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, 
Saborear, enfim, 
O pão da minha fome. 
— Liberdade, que estais em mim, 
Santificado seja o vosso nome.    


Miguel Torga, in 'Diário XII'
Porque é a única que alguma vez poderemos alcançar...

IdoMind
about fresh starts

setembro 29, 2010

Sou muito nova para isto

“Deve ser assim que as pessoas morrem afogadas perto da margem – de cansaço. De tanto esbracejar para se manterem à tona. São anos a esbracejar. A espernear. A Abraçar. A falar. Já não aguento mais. Acredita se lhe disser que nem força tenho para me zangar? De repente já não há zanga. Não há nada.”
E continuou. Percebi que estava a falar para ela própria e quando falamos alto para nos ouvir-nos não devemos ser interrompidos. Não a interrompi.

“Sabe, aproveitei para tirar a manhã e vim a pé. Passei por ali, junto à praia do Algodio. Gosto da Ericeira quando o tempo arrefece e todos vão embora. Era isso que no fundo eu gostava, que fossem todos embora. Nem que fosse só por uns tempos. Talvez o tempo que fosse preciso para eu sentir qualquer coisa. Saudades ou alívio. Qualquer coisa que me fizesse perceber como é que estou bem. Em paz. Ocorreu-me que a minha vida seria melhor sem dependências. Sem vínculos. Olho para mim e vejo fios por todos os lados. Todos os movimentos estão condicionados pelos fios que teci e que deixei que me enredassem. Sinto-me enredada. E sinto-me mal por me sentir assim. Afinal é a minha teia”

Sorri. Ambas percebemos que ser mulher é nunca parar de sentir. E ambas percebemos que quando deixa de haver festa no nosso coração, a cabeça vem pôr a casa em ordem. Ou pelo menos tentar.

“Hoje em dia tornou-se comum pensar em nós primeiro. Eu ainda sou do tempo em que o sentido de responsabilidade calava os pequenos desejos que vêm e vão em determinadas alturas da nossa vida. Que o bem-estar do outros era importante. Eu ainda sou do tempo dos compromissos…”
A cabeça estava a fazer um bom trabalho. Ao lembrar-se de todos os motivos honrosos que a levavam a manter-se enredada, a infelicidade tornava-se mais tolerável.
Olhou para mim. De repente tinha sete anos e estava a pedir a um adulto que lhe ensinasse o que é bom e o que é mau. Quase a ouvi a dizer “ por favor diga que isto vai passar, que é normal ter dúvidas, que a vida é feita de altos e baixos ou qualquer outra daquelas frases feitas, que acalme este motim no meu peito. Diga-me que uma boa pessoa abdica de si pelos outros”.

“ Somos todos do tempo do medo.” - foi a resposta que consegui dar-lhe porque é a resposta em que acredito.
“ Por temermos tanto a perda acabamos por nos perder. E muitas vezes afastamos-nos tanto, tanto, tanto de nós que nunca mais conseguimos voltar.
Não tenho nenhuma fórmula secreta infalível para fazer sempre as escolhas certas e o que posso partilhar consigo é que todas as suas decisões sejam reflexo da sua mais profunda verdade. Seja honesta consigo e nada poderá ser perdido. Nem nada deverá ser temido…
E se tiver de esperar que as nuvens se afastem para ver melhor o horizonte, espere. E se tiver de pedir a todos que vão embora para se sentir, para se perceber, peça. Por si e por eles.
Onde há amor há compreensão. Sempre…”

E foi assim que começou o meu dia de trabalho. Esta semana vai longa!
IdoMind
About ...whatever...

setembro 15, 2010

Dar

As cordas caíram de velhas e agora já posso chegar lá, onde o meu calor é preciso. Dar o colo que afasta as nuvens negras estacionadas na cabeça. Trazer-lhe o bom tempo, soprando a tempestade com uma gargalhada, porque o único Inverno que existe é o que inventamos para nós. Tirar do bolso um punhado de pensamentos radiosos, iguais à luz escondida em tudo que é, os que iluminam o próximo passo. E todas as etapas menos claras.
 

Este mimo guardado que deixa o cheiro a esperança no capítulo seguinte. Num desfecho que não poderíamos imaginar melhor. Rompe agora livre dos medos que o mantinham escravo. Enquanto houver Homens haverá sempre Horas diferentes. É preciso aceitar a velocidade de cada um, sem questionar o amor que respira a outra cadência. Que ainda dorme, esperando, quem sabe, o carinho que o acorde. Há amores que temos de ir acertando até que se vejam como são – um número pintado no mesmo relógio a olhar para o ponteiro que lá vem, quase quase a chegar…

Que bom dar beijos! Encostar os lábios, e sem falar, dizer o que pede para ser dito. Juntamente com as mãos, algumas palavras também andaram reféns da imagem oca a que nos atracámos. Como se fosse falta de educação dizer “ Adoro-te” ou ofensivo confessar que o mundo é um sítio muito mais bonito desde a tarde em que se partilhou a mesma secretária na Biblioteca Nacional. Há sentimentos que são grandes que deixam de caber dentro de nós. Vertem.


Desde que dou beijos com as mãos soltas, tornei-me mãe de muitos obrigados, desculpa e gosto tanto de tis. Não nos diminui sentir. O que nos reduz é ocultá-lo. Fingir que não foi nada e correr para a casa de banho apanhar os cacos de uma auto-estima estilhaçada. Ignorar quem tem sempre tempo para nós sem nunca arranjar um minuto para lhe perguntar – “como tens passado?”. Olhos nos olhos, porque é um ser humano que está à nossa frente.
 

Tratamos tão mal quem nos quer mais bem. Pode ser que um dia alguém explique esta tendência de distribuir sorrisos na rua e pedradas em casa… Não é por nos conhecerem melhor que têm de desculpar tudo. Não é por saberem que “somos assim” que ganhamos o direito de não tentar ser de outra maneira. Não é porque nos amam que suportam melhor a nossa falta de amor. Ou de respeito…É ao contrário. É por isso tudo que lhes dói muito mais.

Eu sou a favor dos braços que me aninham. Dos peitos feitos à minha medida em que me encaixo e caibo tão bem. Daqueles que carregam memórias de uma expedição feita a quatro pernas. A dois corações. Que contam sobre os rigores, algumas alegrias e merecidos  triunfos que foram sendo escritos no mesmo diário da viagem. Há peitos onde pertencemos…

Porque acredito que sou toda a gente, dou a toda a gente aquilo em que acredito - bondade, compreensão e a minha verdade.
Porque prefiro andar levantada, escolho estender a mão em vez de apontar o dedo.
Porque sou responsável por Ti, cresço olhando por Nós…

IdoMind
about this hands of mine

setembro 08, 2010

Decisions Decisions

Já não sei dizer sim ou não como os miúdos dizem. Porque sim ou porque não. Porque querem ou porque não querem. Porque têm tempo ou não têm. Porque lhes apetece mesmo isso ou têm fome de outra coisa. Nãos ou sins rápidos, daqueles que ganham sempre aos “mas”.
Os meus estão assim, precedidos de muitos mas. Pergunto-me se estou a crescer ou só a ficar velha. Cuidadosa. A olhar para o semáforo antes de atravessar a estrada esperando que fique total, inquestionavelmente verde. Bem devagar, porque as correrias podem fazer cair. E magoar. Com a idade tudo fica mais lento, até sarar as mazelas de uma queda. O crescimento ensina-nos isso. A velhice faz-nos temê-lo.
Neste país de ninguém, entre a sabedoria e o medo, nascem as minhas decisões. E os nãos e sins que preferia manter talvezes…até não haver carros, nem gente, nem passeios, nem o perigo de tropeçar, alcançando, ilesa, o outro lado.



“Se viver fosse para ser seguro, serias inquebrável” – diz a sabedoria. “Terias vindo feita de matéria que não deita nem sangue nem lágrimas”. É para doer. É para correr. É para sentir… E continuar. Mais crescida. Nunca só mais velha.
É para lembrar a sorrir da tragédia que foi o primeiro amor não correspondido. O namorado impotente que veio depois e nos fez sentir “comível só em caso de necessidade”. O Natal em que soubemos que o ex-marido era pastor… E abanar a cabeça pensando como eram importantes os detalhes que não tinham importância nenhuma. E outros que foram tão importantes que nos mudaram e nos deram um par de olhos novo. As pessoas às quais pedimos ajuda na definição de quem somos. E como as amaldiçoámos por toda a raiva, desespero e frustração, que nos atiraram para lugares escuros. Bastava ter acendido a luz do respeito por nós. Dizer, com a serenidade que a compreensão sempre traz, que não estamos, naquele momento, capazes de fazer diferente. E assumir as nossas escolhas de pé…

Se viver fosse para ser seguro não haveria Amor.
Pelos pais que têm o dom de espetar as facas onde ferem mais. Pelos irmãos que nos fazem agradecer estarem aqui connosco a partilhar o mesmo sobrenome e um caminho nem sempre relvado. Os filhos que ensinam a dar. Mesmo quando não dão nada. Mesmo quando não merecem receber. O homem de outra que abana as prateleiras de uma moralidade, afinal, não tão bem arrumada.
É porque há Amor que sabemos que estamos vivos. Quanto mais cresço, ou envelheço, mais acredito que ele está na origem e no fim de tudo. E no Meio, onde vamos sendo obrigados a fazer opções. A ir ou a ficar.
Tudo passa. Todos passam. Ficamos nós. Com os frutos da nossa colheita. Gostava plantar um vasto campo de trigo que amadureça e dê semente para o meu pão.  Gostava de me orgulhar do trabalho que fiz. De ter cumprido a missão com mérito. E agradecer com o coração cheio de emoção ter estado cá. 
Alma com pele de mulher a dizer sim ou não como os miúdos.
IdoMind

About Righteousness

setembro 06, 2010

Sempre em frente



Este Verão foi comprido. Muito mais comprido que todos os outros Verões. E esquisito. O passado veio a correr lá de trás e sentou-se ao nosso lado na praia. Toalha com toalha, forçando conversas que tinham ficado esquecidas entre uma noite mal dormida ou outra. Entre uma ferida ou outra. Entre um “ não faz mal”, “paciência” “ou outro.
O passado estendeu-se ao sol connosco e tornou-se presente.

O meu veio aos gritos. Parece que já tinha tentado falar antes, mas o barulho dos meus planos calou-o. Queria dizer-me que sou o que sou por tudo o que já fui. E que é verdade, também sou o que deixei que fizessem de mim. Lembrou-me do silêncio que sempre preferi porque algumas palavras foram, simplesmente, demasiadamente dificeis de ouvir. Foram palavras terremoto que me estremeceram e abriram fendas do tamanho da indiferença com que passei a defender-me. E que esta solidão onde tanto gosto de me perder, tornou-me mais pobre porque não enriqueci nem fiz enriquecer. O passado mostrou-me que a solidão é um vício – satisfaz corroendo por dentro. E afastando-nos do que está fora.


Fiz muito mal os meus enterros. Percebi-o na noite deste Verão comprido em que desci do castelo para jantar com a vida. Apanhei desprevenidos uns amigos habituados aos meus muros. Ali, naquela noite, com aquelas pessoas fui quem sou antes das noites mal dormidas, das feridas e dos “ não faz mal”.Nunca o meu coração apanhou tanto ar. Todas as portas foram abertas e lançado o convite para entrarem.

Estive muito tempo sem escrever no Jardim. Quis que o primeiro artigo depois das férias fosse para eles. Foi a primeira vez que consegui falar com sobre algumas experiências que mudaram o rumo da minha vida e da minha familia. O que senti com isso. Como foi doloroso. Nem eu, até àquele momento tinha percebido como foi de facto doloroso. Ouviram-me. Calados. Impressionados. Estupfactos. Era fácil ler nos olhos deles a surpresa, enquanto pensavam “fogo..”.Eu,  era como se estivesse a ser atropelada por um camião. Sentia a força do embate enquanto lhes contava quem era eu afinal. Claro, chorei. Muito. E choraria mais porque naquela noite aproximei-me um pouco mais de quem quero ser.
Tive direito a um curativo no dedo, de fazer inveja a muito enfermeiro. Tive amor do melhor que há – aquele que nos aceita tal como somos. E tive o respeito de pessoas que admiro. Até parece conversa de revistas cor-de-rosa ou destes livros que agora andam na moda, mas há coisas que temos realmente de senti-las na pele para percebermos que as verdades mais simples, são as únicas verdadeiras.

Eles não sabem mas eu vou aqui dizer que aquela noite só foi possível por causa dos mexilhões. Ainda que viva 100 anos vou lembrar-me sempre da satisfação do meu Amigo a atirar-me com um saco de mexilhões aos pés. Foi pescar todo o dia enquanto ficámos na praia. Havíamos comentado que o que sabia bem eram uns mexilhões para petisco, mas isso não ia ser possível por um motivo qualquer que não me recordo.
No final do dia lá começa a desenhar-se no horizonte o perfil do nosso pescador enquanto se dirigia a nós com o equipamento todo (há coisas com que não se brinca). Trazia alguns peixes e…um saco cheio de mexilhões!
 “ Era isto que querias?” E atira com os mexilhões aos meus pés. Todo satisfeito. Ficou feliz por nos poder fazer feliz. Ele nem gosta de mexilhões…
Guardarei sempre a expressão dele e este gesto de quem se preocupa. De quem está atento. De quem ama amar. E cuidar...
Nunca ninguém seria tão digno dos meus segredos como estas pessoas. Partilhei, por isso, o impartilhável com elas. O passado ainda não passou. Talvez não passe.
Passei eu.
Alguma coisa mudou. Apetece-me ficar por aqui, fora do castelo, a apanhar mexilhão…


IdoMind

about cleansing


julho 22, 2010

Let´s talk about sex, baby



Quando foi que se tornou tão complicado fazer amor? Deitarmo-nos com alguém só porque é bom sentir outra pele. Outro coração a bater no nosso peito. Entoar a dois a música que cresce entre um carinho e uma palavra.
Quando foi que misturámos tudo? A vontade com manipulação. O prazer com culpa. O desejo com controlo. Como se a maior força em nós fosse controlável. Mais fácil seria domar uma tempestade.
De onde veio a necessidade que tornar feio o Belo?
Dois corpos com duas almas a celebrar a Criação. É vida que damos e vida que recebemos com a Entrega. Mas levámos o tempo para a cama e só é verdadeiro o que dura. O que sobrevive a uma noite. A mais que dois ou três telefonemas. 
Esta nossa incapacidade de aceitar que o eterno não se congela num momento. Numa pessoa. Num sentimento…Tiremos deles o que tivermos de tirar. E demos tudo o que tivermos para dar. Este é o segredo. Eternizar cada momento naquele momento. Não haverá qualquer outro igual. É só vivê-lo porque a existência não se repete. Nada podemos perpetuar além dos sorrisos deixados nos arquivos da nossa história. A transformação é uma graça. Negá-la é dizer não a nós mesmos. É ficar sempre do mesmo tamanho. Muitas vezes, perder o que é Nosso para manter o que não Nos pertence. Nos lençóis faz-se, então, um campo de batalha.

Preparamos as nossas armas. Antevemos os movimentos do adversário. Planeamos tantas estratégias. Munimo-nos de toda a informação possível que achamos que nos possa a ajudar nesta guerra, como todas, sem sentido.
O sexo tornou-se um jogo. Perigoso. Doloroso. E o divino foi manchado pela nossa humanidade insegura e pequena. Ficou tudo mais cansativo. O antes e o depois. Muitos antes não chegam sequer a ser por causa dos depois que ainda não são. Entrar e sair de um quarto é hoje um trajecto arriscado. Não basta querer ir. Estar. Não. Há regras. Implacáveis. Podemos ficar o resto dos dias a pagar o preço por sermos homens e mulheres com fome do Invisível. De tocar a Essência de todas as coisas, no momento único em que os portões se abrem e a Perfeição se revela.

O sexo foi acorrentado a uma morada. Como Deus a uma religião. Porque temos de ser únicos. Especiais. É por isso que reduzimos sempre o que mais amamos. À exacta medida dos nossos braços. Confinado às fronteiras que tanto lutamos depois para defender. Uns dias perdemos terreno. Outros avançamos uns metros. A vida passa. Uma discussão, outra mentira, aquele grito que causa aquela lágrima. O brilho vai-se apagando…
O Amor é rebelde à exclusividade. O Amor também está no sexo. Mesmo naquele que não partilha as mesmas contas. Basta querer. 
IdoMind
About Heavenly Things

julho 11, 2010

Eclipsando-me



Já não sou a menina assustada a tentar merecer amor.
Já não preciso de ser a melhor aluna da turma. A mais quieta. Escondida no fundo da sala.
Já não tenho de ser Invisível para me proteger. Nem de me proibir de gritar quando sinto que está demasiado difícil. Já posso chorar…As pessoas choram.
Percebi agora que a fragilidade só incomoda quem é incapaz de abraçar.
Já posso perdoar. Quem não me abraçou. Nem me deu a mão no caminho para escola.
Não faz mal. Foi no desamparo que fundei os meus pilares. Para que nunca estivesse desamparada. E cedo percebi que ninguém pode emprestar pernas. Cada destino é Único e tem de ser trilhado sozinho.

Agradeço ao Meu Destino. Tudo o que não percebi e reconheço agora perfeito. A minha solidez que é filha de uma infância curta. Esta força nascida e criada da severidade. De tantas tardes a ser adulta. Da ausência de pequenos almoços levados à cama ou de um beijo de boa noite. Já não acho que isso é normal.

Já não sou a que dispensa beijos de boa noite.Ou de bom dia. Ou outros quaisquer. O Amor é demasiado bonito para ficar guardado. Já posso mostrá-lo. Não é fraqueza. Nem me faz menor. Já não preciso ser indiferente. Escudar-me dos sentimentos porque também há aqueles que fazem doer. Já posso arrumar alguma memórias…

Deito fora as mágoas antigas. De nada me servem a não ser impedir o novo. Como uma barragem a travar a corrente da vida. Nunca ninguém me fez mal porque hoje eu gosto de mim. Então cheguei como e quando devia chegar. Agradeço a todos. Os que me viram. Os que não me viram. Os que fingiram não me ver. Os que ficaram… Do fundo do meu coração obrigado por terem aceite a vossa parte na minha história. Espero ter encantado a vossa.

E é assim que quero ser. Encantadora de histórias. A deixar estrelas a brilhar por onde passo. Gargalhadas que afastam a escuridão.  Oferecer, a quem quiser apanhar,  as palavras que me nascem dos lábios e das mãos. Falam do milagre que somos. Do nosso Dom. Da vastidão de onde viemos. E para onde nos dirigimos. Essa é a minha e a tua natureza – Vasta. Infinita. Nada há que queiras que te seja negado. Nada há que necessites que te esteja vedado. Nada há que que seja Teu, que percas. Ou nunca encontres.

Que eu saiba querer. E pedir.
Sejam poucas as necessidades, pois é grande a Abundância.
Que eu reconheça o que é Meu.Quer encontre, quer seja encontrada. 

Que a Verdade me guie em todos os momentos porque sou a voz do céu. E tu também. Não me mintas. Não me omitas. Não me faças perder. Não me leves ao erro. Vamos demorar mais a chegar. E levaremos dor. Permite-te escolher em consciência. E eu farei o mesmo.
Que a Fé seja o farol das noites mais negras da minha alma. E me mostre o caminho seguro por entre as rochas. Que seja o Sol na manhã seguinte. E na outra, e na outra, e na outra…
Que o Amor esteja em mim.
No que penso, no digo  e no que sinto para que esteja em ti, em todos e em tudo.

Que assim seja
IdoMind
About cycles

julho 08, 2010

E não é que sou humana?



Bastou pedir. Bastou sonhar. Bastou querer com toda a força desamarrar a voz deste Desejo. Meio inconfessável. Por pouco, quase pecado. Bastou assumir que sou mulher e que a lua não está assim tão lá alto. Parece que a trago no bolso às vezes. Ou num pendente junto ao peito. Bastou confiar na Ordem que tudo governa. Bastou dizer que é a minha vez.

Tirar os sapatos e sentir a vida aos pulos. Deixar-me ir. Eu não tenho sempre de ficar. Nem assistir da janela à festa que passa diante da minha casa, branca e arrumada. Talvez saia para a rua e me junte à multidão que se deixa apaixonar. Que anda nas nuvens sem asas.Talvez passe todos os dias por uma caixa de correio e deixe lá um beijo num pedaço de papel. Sem dizer que é meu… E vá o resto do caminho pelo passeio a rir sozinha porque estou mais parva e é tão bom. Talvez me junte à multidão que paga o preço por todos os instantes em que foi mais importante mostrar Amor que ter razão. Vergonha. Ou medo. Por cada minuto que valeu a pena esquecer o feitio. Mudá-lo até. E não conseguir voltar a lembrar como era antes, porque quem ama só tem o depois.

Apeteceu-me largar a carapaça e correr para o mar mais depressa. Uma tartaruga nudista. Livre. Feliz por não ter porque se esconder. Nem carregar nada às costas. Guardo apenas o que é leve e que cabe no coração. Bastou perceber que nem toda a carga me pertencia. E arranjei espaço dentro de mim. Esvaziei-me.  Ficam-me mal as culpas. As memórias antigas dos erros que até o tempo já se esqueceu. Menos eu. Bastou perdoar-me para ver que nada havia afinal a perdoar. Mesmo quando penso que falho, o alvo é atingido e o planeta gira mais uma vez.

Bastou perceber que não há nuncas nem sempres. Por isso deixei de dizer adeus. Tudo é um eterno até já. Não há perdas. Definitivos. Coisas irreparáveis. Tudo tem uma função. Tudo. Cabe-nos relembrar qual. Se quisermos. Podemos adiar as nossas tarefas, mas ninguém as fará por nós. Bastou sorrir a cada arregaçar de mangas. Olhar para as peças dispersas do puzzle e  aceitar o desafio de as unir. Com paciência. Com confiança que  encaixamos num sítio. Numa pessoa. Que vamos encaixando em muitos sítios. Noutras pessoas.

Depois de olhar para cima, respirei, e dei um passo cá em baixo. Aquele que estava suspenso. E não é que o Universo de facto conspira!
Parece que estava mesmo ali, à espera que eu chegasse outra vez, com uma nova oportunidade, embrulhadinha com um laçarote,  para me oferecer. Obrigado. Ao que quer que seja que me acompanha na demanda sagrada de Ser inteira. E me permite não acertar à primeira. Nem à segunda. Que não desiste e me resgata uma e outra vez pousando-me docemente no lugar que é o meu lugar.

Bastou aceitar que não estava preparada. Talvez não fosse a hora combinada. Com as pressas cheguei adiantada e não esperei. E fui lenta a reconhecê-lo.
Hoje estou aqui de novo. E tu também. Se é que alguma vez foste embora. Sabe bem saber-te por perto. Incluído no meu Plano. 
Suponho que bastou não teres conseguido avançar sem aquela peça que sou eu que guardo. 
A que encaixa.
Basta agora experimentar…

IdoMind
About loose ends

junho 29, 2010

Pode ser que passe!

Agora só falta povoar o silêncio.Tapar com risos o barulho do vazio que se faz ouvir mais que nunca. Cobrir as paredes com fotografias parvas do beijo à homem-aranha ensaiado no chão da sala. Ou do ramo lindo de túpilas oferecidas no dia em que fugimos à hora de almoço para fazer amor.
Falta que me sujes a cozinha toda, na tentativa esforçada de cozinhar uma refeição especial, porque vou à frente no Campeonato das Surpresas Privado que organizámos. E marcar meio ponto a mais pela sobremesa, deliciosamente surpreendente…

Falta partilhar a manta no sofá. As emoções da última temporada do Dexter. O colo em que repouso e, por fim, adormeço. O colo em que confio. E dar o meu. Passar as dedos, suavemente, demoradamente, pela cabeça que sei cansada com as exigências do mundo. Acariciar-te, porque sei das tuas batalhas e da força que inventas para pareceres bem mesmo quando não estás. E quanto mais te conheço, mais te respeito. Falta dizer-te isto.
Vem, deita-te aqui ao meu lado. Faltam umas mãos à volta da minha cintura na cama. A segurar-me como se ali fosse onde eu sempre devesse estar. Falta calor. A presença de outro corpo colado ao meu no encaixe perfeito de duas partes que são uma. Falta acordar e ver-te.







Andei tão enganada por tanto tempo. Tenho a vida que imaginei ideal. Silenciosa. Tão quieta. À minha maneira. Sem a intromissão de outras maneiras a atrapalhar. A desarrumar a minha vontade. A contrariar os meus apetites egoístas. Está tudo como eu quero. Quando eu quero.
Para descobrir,que afinal, assim não quero.
Já chega. Gosto muito de mim, mas estou a ficar sem assunto neste diálogos amonologados que tenho comigo própria. Falta a ajuda para o meu vestido azul, que nunca consigo apertar até ao fim. E para tratar dos grelhados nos fins-de-semana com os amigos. Não quero ser sempre eu a desligar a televisão. Ou a luz da casa-de-banho. Já não tem piada dormir de peúgas…

Falta medir a altura contigo. Crescermos os dois juntos, a ouvir cada centímetro nascido da nossa união. Falta compreender que há muito mais para lá das nossas grandes perdas ou pequenos ganhos. Que a vida não é o resultado de somas e subtracções. Falta entender que é a dividir que se dá o milagre e tudo multiplica.
Falta experimentar contigo esta magia. E todas as outras que sei. Levar-te pela mão ao mundo que já não quero só meu.
Falta amor.
Daquele tipo que me faz escrever sobre beijos à homem aranha e festinhas na cabeça. Esse amor. Que não tem vergonha. Que fala. Que se mostra. O Amor que se divide. E aumenta.
Estou aqui. Com o meu amor. Para ser dividido.
Agora, só faltas tu…


IdoMind
about loving and caring, hugging and kissig...and so what?


junho 16, 2010

A ver se nos entendemos

Não esperes por mim. Não dependas do meu não ou do meu sim. Por favor, não me obrigues a escolher por ti. Carrego já o peso suficiente de uma viagem que quis árdua. Não posso levar-te. Nem à bagagem que trazes contigo. Os desertos por onde já passei ficaram-me com tudo o que era inútil. E nas escarpas livrei-me do que podia levar-me ao abismo. Sei agora que o essencial não tem peso e que cada lugar tem uma pergunta para nós.

Ainda que quisesse, não oiço as tuas perguntas. Estão codificadas pelos pensamentos que pensas. Pelos sentimentos que sentes. Pelas lembranças que relembras. São perguntas para ti.  Por isso, não te percas nas soluções dos outros. Depressa compreenderás que o mesmo remédio produz efeitos diferentes. Não escorregues no vomitado lógico de ninguém. A razão só faz verdadeiro sentido quando é filha da tua experiência.
Nem sigas a luz de uma lamparina qualquer. De outra fé que não a tua. Aquela que te faz encostar o carro à berma ou esconder numa casa-de-banho e pedir baixinho “por favor, por favor ajuda-me, por favor”.  Essa fé. Que nem sabes a quem estás a dirigir. Talvez à vida que no fundo pressentes que cuida de ti. A fé que te vai revelar que não estás sozinho. E que tens sempre uma nova oportunidade.

A existência é demasiado vasta para que caminhes por cima das minhas pegadas. Firma as tuas. Imprime no Tempo o testemunho da tua vinda. E que as marcas que deixares falem da tua valentia frente a cada decisão de seres sagrado no profano.
É o que tento. Então, não me faças nem santa nem demónio. Sou só uma mulher a tentar chegar a Casa. Se soubesses da exaustão presa a alguns passos jamais me pedirias pressa. Jamais exigirias que chegasse à Hora que queres. 

Compreenderias que te compreendo mas que obedeço a outro ritmo. A outro relógio. E talvez fosses ao meu encontro. Talvez me trouxesses uma fatia de bolo de chocolate que partilharíamos sentados junto a uma árvore. Sem perguntas. Sem esperar nada. Só porque é bom comer uma fatia de bolo de chocolate comigo. Só porque gostas de me ver feliz. Só porque brilhas sempre que amas. Só por Ti.
Por nós, vive por Ti.
E deixa-me viver por mim.
Não me atinjas com a culpa de ter outros desejos. De sonhar. De ser Eu.
E eu não sou o que tu esperas. Nem posso.
Porque quem seria Eu, se todos esperamos coisas diferentes?

IdoMind
About getting things straight

junho 02, 2010

Estava eu tão sossegada!

Acabei de receber um pedido de ajuda por fax .
Alguém a narrar os seus infortúnios junto da Banca e das Finanças que conduziram à penhora do vencimento e da sua habitação. Alguém que desabafa que já não tem o que dar de comer aos filhos.
Não conheço a pessoa.
Explica que está a enviar este SOS para escritórios e empresas, reconhecendo que não tem vergonha de dizer que precisa de ajuda. O desespero engoliu o orgulho.
Pede-me 1 Euro.
Fiquei a olhar para o fax. Na parte final, senti a honestidade angustiante de quem já nada tem a perder e tenta, o que provavelmente nunca lhe havia passado pela cabeça,  expor a sua miséria. E esperar que alguém responda ao grito.
Pode ser logro. Pode ser mentira. Pode ser oportunismo.
Pode não ser.
E aqui fico eu, a tentar perceber que escolha me está a ser pedida.

As voltas que obrigámos o Universo a dar para que paremos. A vida que foi já não pode ser mais. Descurámos do essencial tão distraídos que ficámos com o supérfluo. A alma foi esvaziando à medida que enchemos os nossos frigoríficos com comida que deixamos passar de prazo.  Levámos o coração à fome para alimentar um vaidade fútil. Insaciável. Como ficámos pequenos nas nossas manias egoístas da uma grandeza oca.Tornámos-nos surdos uns aos outros ouvindo só aqueles e aquilo encaixável na nossa realidade de faz-de-contas.
Afogados na nossa fartura nem vimos que mesmo ali ao lado havia uma mulher com dois empregos...
Deixámos de nos preocupar com tudo excepto connosco. Até quando Damos pedimos factura para o IRS.
Guiados pela ambição, os pais abandonaram os filhos. Para lhes dar o melhor, deixaram de lhes Amor. E agora temos crianças que não sabem amar. E tão pouco sabem ser amadas. Não deixam. Negámos o dever sagrado de segurar as mãos das crianças. Aprenderam por isso a andar sozinhas.
Que esperávamos? Que confiassem? Que crescessem fortes? Seguras? Pois se não sabem quem são. Inventámos uma nova categoria de paternidade – Monoparentalidade. O nome é tão assustador quanto as suas consequências. Que estamos a receber.
E também temos agora uma nova categoria de Filhos – os Filhos de Fim-de-Semana. Criámos uma geração de crianças sem norte. Sem Pais. Mas com muitos brinquedos e roupa de marca. E ensinamos-lhes o que é competir logo no infantário…

Porque nos afastámos demasiado, estamos a ser forçados a fazer o regresso. Então a vida está a encarregar-se de nos nivelar. De nos trazer de volta a Nós. Perdemos-nos na viagem. Encantámos-nos tanto tanto com o fogo de artificio que não vimos a Terra a rachar ao meio. E lançámos mais umas canas. Para entretenimento, enquanto a dor de muitos era abafada pelo barulho da nossa festa particular.
Calou-se o ruído. Acabou-se o conforto do emprego estável e ordenado certo que nos mantinha na mediocridade de fazer só o necessário. Nunca mais. Nunca melhor. Nunca bem. Apenas o indispensável para afastar a atenção de nós.
Acabou-se o dinheiro para comprar os mesmos analgésicos contra a solidão.  Contra a falta de coragem para tomar as decisões que se impõem. Contra as noites mal dormidas a pensar noutra pessoa que não aquela que ali está a dormir ao nosso lado. Já não dá para esquecer o assunto com um par de botas novas ou aquela viagem ao Brasil.
Caímos dos nossos pódios feitos de areia e ficámos todos da mesma altura.
A tua aflição é agora a minha. E a minha a de todos. Eu e tu e todos a perceber, finalmente, que somos IGUAIS.
Agradeço por isso a crise. Este pedaço difícil de estrada. Todos os fins de mês que parecem nunca mais chegar. 
Abençoo a dura prova de aceitar o que não podemos mudar. 
A impermanência que nos leva a pedir milagres.
E a enviar faxes a pedir 1 Euro.
IdoMind
about all the good hidden in the worst  

maio 31, 2010

Uma Limpeza

Vai. Mas vai mesmo. Não te fiques pelo conforto desse chão que pisas em círculos, sem que te leve, na verdade, a lado algum. Substitui as paisagens já gastas, para que os teus olhos de novo se abram. E de novo Vejam. Há todo um universo que te está a escapar. Do lado de fora da tua caixa aguarda-te o Infinito.
Não ouves o barulho distante das alternativas que desprezaste? Não te assaltam por vezes à noite, enquanto descansas? Enquanto desligas do programa seleccionado, a funcionar em automático. Não ouves? Aquele ruído miudinho a rondar-te a cabeça mesmo antes de adormeceres?  Não é cansaço. Não é stress. Não é nenhum dos motivo que inventas para justificar uma vida menor. E injustificável.
São as vozes abafadas de quem és realmente. Daquilo que queres quase desesperadamente. De quem amas a sério. É a felicidade que congelaste a gritar para se estilhaces o gelo. Ali está ela, suspensa, à espera que te tornes Homem. Não queres ser feliz? Deixa então de ser cobarde e vai.
Vai romper com o que já não te serve. Vai dizer adeus a quem nunca na verdade quiseste. Ou simplesmente deixaste de querer porque tudo tem o seu prazo e a sua função. 
Este é o tempo de regressar ao Caminho. E devolver o Outro ao seu. Ousa Ser quem te sonhas, porque acabaste de acordar com vontade de Viver. 
Não te escondas atrás dos teus filhos. Das tuas contas. Do mártir que habituaste a alimentar-se de piedade. Das obrigações famintas de reconhecimento. Parte o espelho e mostra-te sem distorções.
Vai cortar os fios das dependências que te adoecem antes que te matem. Ninguém precisa de ti ao meio. Se estiveres, está por inteiro. Quando saíres, sai de vez. Cura ou desiste mas não fiques a infectar. Amputa se necessário todos os cordão que te agarram os pés e impedem de crescer. A alma mirra a cada certo que não é o teu.


És ímpar. Assim como o teu Destino. E o de todos nós. O meu Destino precisa do teu.
Preciso que tenhas a Coragem de dizer: “Este sou eu”. E sejas.
Que ponhas os teus lábios ao serviço do meu anjo.
Não anules uma vida que pode ser… a Nossa vida.

Sê responsável contigo. Com os teus sentimentos. Mesmo com os infantis. Sobretudo com esses. Com os despropositados. Que nem sabes de onde vieram. E com aqueles que te assustam tanto que os injurias com mil nomes só para os manteres à porta do teu coração. Como se conseguisses. Cuidado para quem levas os teus últimos pensamentos à noite. E para quem vão os primeiros logo pela manhã. Não fujas. E não te ponhas a antever um filme de guerra ou um drama. Podes estar enganado, sabes. Pode ser afinal uma história de amor pendente de um capítulo escrito por ti.
Sente-TE. E tudo estará bem se for para teu bem.

Pergunto-te se não queres conhecer o Amor. Mas aquele que é mesmo amor. Livre! 
Aquele que não tem de fingir uma vontade que não tem. Nem de carregar nos botões de controlo que já conheces tão bem. O amor incompatível com a manipulação das culpas e dos erros que não deixas que se esqueçam. Sempre que te convém. O amor que não tem de mentir. Nem vir no carro a pensar numa desculpa qualquer, para mais uma falta de amor...
Fica atento a ti. 
Estás a Amar?
IdoMind
about clean souls
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