fevereiro 29, 2012

Exigências das Existências

- Mas está no contrato. Ela leu e assinou. Paciência. Não vou prescindir do meu direito. Tenho pena mas é a vida. Todos temos problemas – dizia, desfiando o terço de frases telegráficas que se entoam para calar com a mente o que a alma não aceita.
Continuou a rezar.
- Já viu o que seria se fossemos todos esquecer aquilo a que as pessoas se comprometeram? Como se não tivessem o dever de cumprir o que disseram ou assinaram? Era o caos.
- Pois, eu dava-lhe um nome diferente.
- Qual?
- Um excelente recomeço…

Ficou em silêncio à espera que eu desenvolvesse. Eu desenvolvi.
-  Diga-me,  quantas vezes, enquanto conduzia, jantava ou fingia que via televisão, não estava a desejar,  interiormente e angustiado, que alguém lhe desse a oportunidade de voltar atrás e o libertasse de uma obrigação. Quantas vezes não pediu por um milagre e ser perdoado de uma dívida, de um erro, de uma escolha feita às pressas e de costas contra uma parede? Encurralado pela falta de alternativas. Quantas vezes ficou sem dormir, doente, quase agoniado de tanto medo por um prazo que viu a aproximar-se depressa demais para ser parado a tempo. Sinceramente, quantas vezes não se arrependeu de ter dado a sua palavra e dar depois tudo para o não ter feito?

Os olhos cresceram-lhe. Fiquei com a impressão de ter acordado memórias das etapas feitas com cordas à voltas das mãos. Enroladas no pescoço. Talvez por isso tenha engolido em seco...
- O que faço? – perguntou-me já sem terço nos lábios.
- Não sei. Eu acredito que nenhum bem perdura se assente no mal de outro. O meu bem é altamente contagioso. Daqueles que se pega ao meu próximo e ficamos todos melhor. Mas isto sou eu. O senhor saberá que bem é o seu. Ou qual quer que seja.

Foi embora e, não percebi, se aborrecido comigo ou triste com ele. Suponho que saberei para a semana, na próxima reunião que me pediu para agendar.
Eu fiquei. Parei e fui beber café frente ao meu mar que tem sempre alguma coisa para me dizer. Talvez tenha pisado outro limite. Tenho cada vez menos. Ou não os vejo. Mas a verdade é que só testemunhei a minha verdade. E aquela pessoa não procurou outra pessoa. Procurou-me a mim para o ajudar a resolver aquele problema. A minha verdade é essa, o bem não causa mal. O bem não oprime, liberta. Não carrega, alivia. Não obriga, pergunta “ ainda é o que queres”?


Sei que podemos, mas ainda não sabemos como, criar o nosso amanhã. As promessas só podem ser cumpridas por quem já fez o futuro hoje. São poucos. E esses não precisam de prometer porque é no compromisso consigo que se fazem livres.

Se alguém não cumpre o que diz é porque não quer ou não pode. Em qualquer uma das hipóteses, porquê obrigá-la? Porquê forçar outro ser humano a fazer o que não quer ou não pode? Está a escolher o seu caminho e num destes quilómetros vai parar para colher. Connosco fica a decisão de seguirmos o nosso próprio ou de abrir trincheiras e ficar a disparar razões. Direitos. Vidas que nem sempre correm como se esperava… Queixamos-nos do que nos cobram sem porém abdicarmos de um cêntimo, de uma vírgula, de uma hora ou dia a mais do que nos prometeram.

Parece subversão. Mas não é. Tão pouco tolerância idiota. Sou compreensiva, não estou morta. Bato o pé, dou aquele murro na mesa ou um belo grito para defender quem sou. Sem qualquer problema ou mossa na auréola. Mudo. Peço desculpa. Algumas vezes. Outras não. Dou mais murros e mais gritos pelo direito à mudança. Que tanto preciso. Vou fazendo o que posso, como sei. Não é assim que fazemos todos? Mas tenho esta mania de me andar sempre a remodelar. Gostava de fazer Bem. Mesmo bem.
Este homem veio dar-me uma sugestão: rever as promessas que me fizeram e perguntar “ ainda é o que queres?”
Idomind
about losing my job for a better world

p.s. não mudei a música porque continua a ser adequada

fevereiro 27, 2012

Com tantos dias para nascer

Durmo pouco. Em consequência, penso demais. É como se tivesse um contrato de trabalho com o meu cérebro e todos os dias fizesse horas suplementares. Fui então percebendo que é importante para a minha saúde estar feliz. Ou pelo menos tranquila. Tantas horas acordada podem levar-me a desaparecer no precipício que espreitei. E temi… Muito do que conheço de mim foi-me apresentado às escuras. Nas noites fundas, em que sozinha comigo, tive de achar o regresso ao sítio iluminado onde habita a minha Ordem.
Fui descortinando, sem drama, quem sou eu afinal. O que faz me bem, o que não me faz bem nenhum e o mal que vou fazendo sempre que não me compreendo e, apavorada, me defendo dos moinhos de vento que só eu vejo. Qual teria sido a minha pressa para apanhar boleia deste céu poeta que tento chamar à razão? Estava bom de ver que ia dar confusão casar uma lua sereia com um sol apaixonado pelo chão… 
Sou traçada por uma linha que quando não me corta, desune-me. Ando que tempos desaparecida a juntar-me nalguma parecida com uma pessoa inteira. Alguém com cabeça, com tronco e com membros a ir nalguma direcção. A saber como fazer para chegar sem se distrair com o arco-íris que aparece, os sem-abrigo encostados num canto e o cão que atravessa na passadeira ao pé da farmácia.
Como será caminhar com os pés?

O pior é que está a ficar pior. Apetece-me cada vez menos olhar para baixo. Doem-me os campos verdes, onde se pisam irresponsavelmente as flores atrevidas que exibiam a recompensa pela certeza numa luz lá mais em cima. Vejo-os devassados pela gente que passa arrastando os seus pedaços de madeira, que, na exaustão, chamam de cruz. Doí-me a minha fé derrotada a ceder terreno para a renda que tem de ser paga. Doí-me o Amor de malas na rua despejado pela cobardia. Doí-me todo este preto-claro que me fere os olhos quando procuro uma planície para aterrar.
Isto é o que me tira o sono e me põe uma caneta na mão.

As minhas noites sem dia à vista ensinaram-me a racionar. A guardar uma porção da minha força para o momento em que tiver de a ter. Outra porção, ou várias, para quando tiver de a repartir. E aquela porção guardada para oferecer…
Não vale tudo a nossa pena. E nem todos nos valem. Sem penitência, há que arrancar as nossas próprias tábuas das costas e fazer delas os remos dos nossos sonhos. Afastarmo-nos das margens escorregadias, passar sem atracar. Continuar até sabermos que chegámos. Quando chegarmos vamos saber. Não é frase feita. É o conhecimento que vai sobrevivendo, passado pelos que chegaram.

Eu quero chegar. Sentar-me na cadeira de embalo à porta de casa. Beber o chá preparado enquanto aguardavam avistar o meu barquinho a aproximar-se no horizonte. Quero chegar bem. Como? Cuidando de mim. Desde que tive a ousadia para ser Eu tornei-me reservada. Por andar mais destapada, agarra-se tudo à minha pele. Só o percebi às tantas da madrugada debaixo do chuveiro a esfregar sujidade que não era minha. Agora só me dou em lugares limpos. A pessoas bonitas. E limpas também. Tapo os ouvidos a algumas palavras e calo os lábios a outras. Rio. Muito. Com satisfação pois o pecado está atento à falta de alegria. E também me recolho para chorar, porque há sentimentos que só se lavam assim.

Aproveitei as insónias para estudar como funciono do meu meio para cima. Para me estudar. Descobri-me interessante. Trabalhosa é verdade. Mas é assim que gosto de mim. A partir o vidro para ver o que está do outro lado do espelho. A partir-me, se for preciso, para me descobrir afinal quebrável. Ou mais resistente do que julgava.
Tenho-me andado a inventar para ver se chego gira. Divertida. Tão leve que dê vontade de pegar ao colo.
É assim que me quero. Como alguém que se quer. Perto. Dentro.
IdoMind
About getting some rest

fevereiro 22, 2012

Só quero saber de ser

No outro dia deu-me uma coisa qualquer e entreguei uma das minhas sementes a uma pessoa.
Escrevi, como escrevo tudo, a passar para o papel o que me passa pela cabeça. E pelo coração.
Decidi mostrar-lhe ao que me tinha inspirado. Inédito. As minhas impressões ficam só para mim e nunca mostrei a ninguém o que escrevi sobre os próprios, a não ser à minha irmã, porque essa sei que me ama seja lá o que for que eu pense ou sinta ou escreva ou decida fazer da minha vida.

Hoje decido não ter vergonha de ser sensível e por isso partilho também no Jardim uma página do meu jornal diário, com o seguinte conselho: não deixem nada por dizer, por mais absurdo que possa soar. É assim que se faz a selecção do que é para ficar para trás e do que é para continuar connosco - mostrando quem somos na verdade. Por mais absurdos que nos sintamos.
É assim que também se pratica tomar atenção ao Outro e aproveitar a oportunidade para fazer algum Bem porque nunca sabemos até que ponto são precisas as nossas palavras ou as nossas acções...
A jeito de anúncio da Sumol - pratica o quero lá saber e sê.

Então foi isto que entreguei:

"Mereces mais do que ler o que escrevo a pensar noutros. Mereces-me a escrever para ti. De ti. Assim. Que é a minha maneira de falar do que nem sempre consigo dizer. Apesar das longas horas de conversa e dos muitos sóis que vimos tombar lá fora (como desabafas a brincar) há coisas que não te digo. Não são muitas. És dessas pessoas com um não sei o quê de barman. Ou de padre. Com quem naturalmente se fala até mesmo o que calamos dentro de nós. Pensando melhor, acho que tens mais de padre, já que eu mesma e sem álcool à mistura, me confessei diante de ti em tantas tardes.

Mas não confesso tudo.
Não te falei das viagens a que me levas. À tua infância. Ao teu país. À vida que jamais imaginarias vir a passar por desenhar pessoas numa vila pequena, onde o mar mais azul de todos esperaria por ti, para te ensinar uma lição ou duas sobre andar sob algumas águas. E das rochas que também é preciso pisar para alcançar certas margens. Tão escarpadas e perigosas, plantadas de propósito e com um Propósito, a meio do Trajecto, pedindo que escolhas entre a fé e a inteligência. Também não te falei disso. Que ouvir-te é ter vergonha de todas as vezes que o medo me vence e volto para trás, ao mesmo sítio morno onde Deus dorme porque não o quero acordar. Tu és mais barulhento que eu. Mesmo em silêncio, gritas ao teu. Que te ajude. Que não te deixe. Que não se esqueça de ti, para aqui perdido neste lugar onde a mentira e a maldade têm uma pronúncia diferente, mas também existem.
E depois existe a amizade. O carinho. A preocupação sincera de quem te quer bem. Conseguiste tudo isto. Do lado menos quente de um oceano onde te fizeste, te foste fazendo e te desfizeram. Apenas para te refazeres. Com um pé num andaime e o corpo todo num amor que justificou o frio, a gente parva e as saudades de casa… Até ter deixado de justificar. O rapaz que aqui chegou deu a vez ao homem que ficou. Pergunto-me porquê. Terá sido porque sim? Porque não se desiste assim, sem dar um pedaço da mesma força que usaste para arrancar as tuas raízes e vir? Ou foste só ficando? Sem pensar em grandes porquês porque as contas não deixam tempo para parar e meditar?
Eu medito. Tenho meditado em ti. No porquê de nos termos conhecido. E agora. Não tenho todas as respostas porque estou certa que ainda há muito para me mostrares. Não és um qualquer. Esperei por ti para me marcares. Deixaste-me cheia de azul e cor-de-rosa, para os meus dias cinzentos. Ofereceste-me uma Estrela, para eu olhar quando a terra me cansar. Linda, a coroar o céu exclusivo que trouxeste para morar em mim. Agora não preciso de olhar para cima para me lembrar Infinita porque me pousaste o Firmamento nos braços. Obrigada.

Retribuo-te com este quadro pintado com palavras. Não tenho mais nada para te dar em troca das ideias que agarras e preenches tão bem com as cores, os tons e contrastes da tua própria sensibilidade. Viajo de novo, para a tua sala, onde o talento está para ali espalhado como se o dom de transformar sentimentos num namoro de linhas e traços com sentido, com tanta beleza, fosse vulgar. Normal. Não é. Tu não és normal. Como bem sabes. E sentes.
Acredito até que deves ao peso dessa diferença a tua solidão consciente. Madura. No fim das contas, talvez a anormal seja eu, por tirar de ti lições quando te limitas a viver como podes. E como te permitem.
É claro que este quadro em prosa ficaria incompleto sem uma pincelada no sorriso. Esse sorriso… Não sou a primeira a falar-te dele. Eu sei. Quem sorri como tu sorris já fez sonhar. E se faz escrever, aposto que já fez corar. Tens um sorriso que cheira a Verão. Brilha. Espalha um calor amoroso que manda embora o cansaço, o aborrecimento tolo, aquela palavra feia e injusta. O teu sorriso assopra a Sombra...
Encontrei a melhor forma de te descrever! És um homem-Verão. Convidas a sair da toca, a dar a face ao sol. A descontrair porque amanhã também é dia e tem de ser um de cada vez. Tu entras e segue-te uma claridade que aquece os lugares. As pessoas. Transportas uma espécie de luz que atrai muitos. Assustando outros. É a tua luminosidade que te denuncia, tornando-te visível a todo o tipo de olhos. De olhares. É por isso que o teu nome saltita por aí. No bom e no mau.
Se soubessem…
Se soubessem que o homem-Verão tem tantos Invernos…Talvez te levassem uma manta e se sentassem contigo no sofá a falar sobre a Primavera. Contavam-te histórias sobre ciclos mágicos a que tudo obedece para que tudo se renove. Ou ficavam calados, mas contigo, lado a lado. Emprestavam-te as pernas e acompanhavam-te por um bocado, só até atravessares a parte mais difícil e escura do caminho. Se soubessem dos teus dias gelados, talvez te agasalhassem naquele abraço que não resolve tudo mas faz acreditar que há uma solução.
Eu não sei muito. Sei apenas o suficiente para te dar as minhas mãos, também elas nem sempre quentes, mas sólidas, amigas, estendidas para ti homem-Verão, em qualquer uma das tuas estações.
IdoMind
About you

fevereiro 13, 2012

Ai ai

Pudera eu encostar a minha cabeça à tua e dizer-te, por transmissão de sentimento, que sei quem tu és. Conheço-te desde o início e, se tempo fosse coisa que existisse, poderia dizer que te conheço desde sempre. Sei-o quando me puxas para ti e a rendição acontece. É que o meu corpo também te conhece e recebe-te com a saudade que bem tento disfarçar. Mas ele trai-me e diz-te, contra a minha vontade, como é bom receber-te de volta. Que sejas bem vindo e que é ali o lugar onde podes pousar as malas e sossegar, porque chegaste… Era o que te diria por transmissão de sentimento, se pudesse encostar a minha cabeça à tua, numa destas noites em que não me importasse que desaparecesses e eu tivesse depois de levar uma vida a esquecer-nos...Outra vida.
Por enquanto importo-me e tenho de seguir as regras. Estas mandam que me mostre muito menos frágil do que na verdade sou. Obrigam-me a ser compreensiva quando, quem me dera, pudesse ser só mulher. Dar-me um ataque e pedir-te num beijo, daqueles que falam, que não tenhas medo do amor. De mim. Sou Aquela que não deves temer. Sentei o meu coração nas tuas mãos. Não o vês aí tão quieto, como se estivesse em casa? Não Me vês?

Diante de ti cai-me a roupa. E a espada. Se eu te ferir, serei eu a sangrar. Não te posso fazer mal meu amor, sem me magoar a mim própria. Tenho marcas a lembrar-me disso. Das vezes que te evitei. Que olhei para o lado ou para a multidão apenas para não olhar para ti, sabendo que estavas à espera de me prender com olhos e levar-me. Ou de tentar perceber onde andavas tu dentro de mim. Se ainda por lá andavas. Fiz de conta que o teu espaço estava ocupado. Cheguei a cantarolar, como se não tivesses sido nada, deixado nada e não estivesse a doer-me ver-te tão perto porém mais longe do que nunca. Neguei-te e perdi-te para não me perder. Achava eu.
Mas foi ao contrário. No encontro, encontrei-me. É sem ti que me perco. Distraio-me. Suspendo a procura e a esperança e choro algumas vezes porque chego a acreditar que todos os barcos afundam no mesmo porto. Inevitavelmente. Lamentavelmente. Que há corrente que os vai levando e só vêem que naufragaram quando fome e a sede gritam a uma dispensa vazia. É nisto que penso quando me afasto de ti. Que só há uma espécie de felicidade – a que se finge.

Pudera eu que me lesses nas entrelinhas. É aí que eu estou. É aí que me encontras a amar-te, há tanto que me esqueci há quanto. Tenho-te mentido. Tu não és igual a toda a gente. Não és somente um homem. Mais um. Não és um sábado à noite com nada melhor para fazer. Poderias ser a minha semana inteira. Eu e tu poderíamos ser muitos anos. Se o tempo fosse coisa que existisse. Eu e tu somos o passeio pela Eternidade como a Parte um do outro.

Repara. Até me fazes escrever em forma de letra de música! Dessas populares, que fazem suspirar e se partilham no facebook como recado para alguém que se quer arrecadar. Também fazes isto. Acrescentas-me alegria. Abres-me o sorriso um pouco mais que a medida habitual. Dás-me a vontade que balança a perna para o passo a seguir. Na direcção que a voz diz que é para ir. Sonhos. Dás-me sonhos. Ou motivos para sonhar. Em histórias que resultam. Em pessoas que combinam. No que está escrito…

Devo-nos verdade. És muito importante para mim. Tanto que preciso de me preparar para te ver. Fico a respirar no carro uns minutos chamando por aquela que cumpre as regras e que passa por ti, meio indiferente, meio ausente, muito moderna, mas que se desfaz logo que consegue ficar um bocadinho sozinha. A recompor-me de não ter ido simplesmente encaixar-me nos teus braços e dito “sinto tanto a tua falta”. Porque essa é a verdade. Sinto a tua falta.
Percebes agora? Não posso parar e ficar contigo porque, sempre que te vejo, tenho de correr atrás do meu ritmo cardíaco, que salta muitos batimentos, a querer denunciar que está ali, a bater por ti. Se fico, vais conseguir ler-me a desejar que também fiques. E que não vás.
Talvez um dia, quando não me importar que desapareças, quebre as regras todas, encoste a minha cabeça à tua e te diga num murmúrio sentido “ Amo-te”.
IdoMind
The way we mess things up

janeiro 11, 2012

Cinco Tempos

Nem o ar era o mesmo. Sabia a ar. Dantes não sabia a nada. Era só ar. E estava ali. Por todo o lado. Para respirar e deitar fora. Agora não. Tinha gosto a ar. Eu sentia-o. Entrava por mim adentro anunciando-se. Sem querer, apercebi-me que estava a inspirar mais devagar. A expirar também. Como se num sinal de respeito pela substância invisível que me mantinha viva sem que eu lhe pedisse esse favor. Quando me fui embora não se ligava muito à vida. Era isso, vivia-se. Respirava-se. Não se dispensava grande atenção ao que me parece ser agora reconhecido como um milagre. Desde que se abrandou a respiração, viver ficou mais importante. Com essa noção, muitas outras sofreram alterações. Ainda há pouco me cruzei com duas mulheres que caminhavam lado a lado e pude ouvir uma delas dizer à outra que necessitava de acalmar-se para evitar a produção de veneno no organismo. Pegou-lhe na mão e virou-a para si. Começaram então a respirar ao mesmo ritmo, numa espécie de operação de resgate da respiração alterada de volta à regularidade. Tive de parar e ficar a observar o que deveria ser um procedimento normal em casos de descontrole emocional. Expectável até, já que só eu ficara imóvel e estupefacta, a admirar duas mulheres de mãos dadas no meio da rua a acertar respirações… Não fosse o Palácio Nacional de Mafra, julgava ter-me enganado de planeta, tão diferente que encontro esta nossa Terra. E os seus habitantes. Se pudesse conversar com alguém que me explicasse o que aconteceu enquanto estive ausente…


Vagueio perdida por aí a sentir-me um David Attenborough da espécie humana. Camuflada nas árvores a observar e a registar um meio de vida totalmente novo e desconhecido.
A questão da respiração é o elo original da cadeia de comportamentos na base desta forma de estar que por enquanto ainda não consigo qualificar de tão atordoada que me deixam os ritos praticados espontâneamente a todo o instante. Talvez esse seja um bom adjectivo. Esta sociedade que encontrei é ritualista.

Durante o dia há três períodos nos quais todos param para respirar. Toda a gente sabe que toda a gente está parada a respirar naqueles intervalos de tempo. Ficam assim uns quinze, vinte minutos. Nos primeiros dias tive tanto medo! Não sabia que estavam a fazer e olhava sempre para o céu esperando ver raios hipnóticos verdes florescentes ou uma assembleia de velhinhos de barbas brancas a pairar envoltos numa luz, a falar directamente para as mentes dos humanos. De todas as vezes que paravam eu pensava “ É agora!”  
Mas não. Ficam só parados a respirar ao mesmo tempo. Foi assim que começaram a dar valor à existência. Afinal, bastava ficarem sem ar para que deixassem de existir. A qualidade do ar passou a ser um assunto prioritário então. Grandes medidas foram tomadas face à impossibilidade química de transformar papel e metal em Oxigénio. Se tiver tempo, um dia, conto como foi que o Dia 5.   
Durante a Religação (nome destas paragens colectivas) as pessoas visualizavam o ar a entrar e a passar pelas vias respiratórias até aos pulmões, retinham-no por uns segundos e depois libertavam-no visualizando-o a sair, já como dióxido de carbono e levando consigo pedacinhos de toxinas e outros detritos que andavam por ali, dentro de cada um, a circular. Faziam isto várias vezes. Pausada e conscientemente. Percebiam a sacralidade do processo e sabiam-se eles próprios sagrados. Viam depois o ar a oxigenar todo o corpo, a levar-lhe a energia vital que tudo sustinha. Aproveitavam ainda para agradecer. Cada um sabia das suas bênçãos.
Achei interessante o facto de ninguém dirigir quaisquer pedidos à Entidade a que se Religavam. Dizia-se apenas obrigado.
Os últimos minutos da Religação eram destinados a uma reflexão comum. A cada quinhentos metros havia um dispositivo, o Cálix, onde se colocavam as mãos e se pensava numa intenção especial. Os pensamentos particulares deixados no Cálix eram coligidos e todos os dias era anunciado O Propósito. A parte final das Religações era então dedicada ao Propósito anunciado. Vim a saber mais tarde que, no inicio da nova Era, durante três anos o Propósito não mudou – curar a Terra.
IdoMind
about what you´re about to say about this

dezembro 22, 2011

Feliz Natal? Que dizes...?


Não há dinheiro. Não há prendas.
Não há prendas, não há correrias nos shoppings, hipermercados e companhias.
Não há gritos, nem “ não penses que para o ano vai ser assim!”.
Não há dinheiro para gastar. 
Há tempo para parar. 
Há uma casa nova, sem caixas de vários tamanhos debaixo da árvore, mas com uma nova postura em cima da mesa.
Há pais novos a aprender e a ensinar uma nova tabela de prioridades. E de valores.
Há filhos que vão crescer. 
Sem dinheiro, o Natal vai revelar a sua verdadeira magia - o Amor que nos une aos nossos.
E que não tem preço...

Vai demorar, mas um dia haveremos de entender como andámos desviados do que importa. Está a doer, mas lá mais à frente, compreenderemos que tínhamos tanto e éramos tão pouco…Tomara fosse mais suave a transformação. Que a pele estivesse só a cair ao invés de nos estar a ser arrancada.

É do fundo do meu coração, meio partido, que escrevo hoje. Particularmente hoje.
Nos últimos dois anos não me lembro de um só dia em que não tenha lidado com a perda. Não só de pessoas próximas, mas sobretudo em virtude do meu trabalho. Tem feito parte das funções assistir à ruína de famílias inteiras. De empresas. De sonhos. Pessoas e vidas destroçadas que me deixam a perguntar sobre o propósito deste sofrimento todo.

E lembro-me do momento em que o Sr. Joaquim perdeu a fé. Diz ele que foi numa noite na guerra do Ultramar. Com o cheiro da morte a intoxicar a esperança e os jovens, como ele, aos bocados por ali espalhados, viu-se a dar um ultimato a Deus: “ Se Existes, este é o momento de Te mostrares…”
É fácil deixar de acreditar no que quer que seja quando a dor nos parece só absurda. Imerecida…Estupidamente gratuita.

É então que empurro o Sr. Joaquim com a memória da cliente que um dia, em que a aflição dos de hoje ainda não se fazia adivinhar, me pediu para terminar a reunião mais cedo porque precisava de ir a casa, a cerca de 15 quilómetros, trocar a carrinha que conduzia, pelo Mercedes da família. É que não podia ir buscar o filho ao colégio, (mesmo ao lado do meu escritório) com a viatura de trabalho…Por isso, preferia “ir num instante” percorrer aquela distância, depois voltar e tornar a fazer os mesmos 15 quilómetros de regresso a casa… Na altura, este comportamento chocou-me de tal forma que comentei com a minha colega e lembro-me do que lhe disse: “ Ela está a dizer àquela criança que há algo de tão vergonhoso em ter menos que um Mercedes, que nunca será aceite se não tiver sempre o último modelo. Que herança pesada…”

É assim que temos vivido. A aparentar. Só que a aparência de repente ficou demasiado cara para nós e deixámos de ter como a manter. Fica a verdade. Ainda somos alguém mesmo sem Mercedes ou casas de mais assoalhadas dos que as que utilizamos.

Não. Não me perdi. Estava a falar do Natal. E das prendas emagrecidas pela dieta forçada que a viragem implica. Da fome imposta às carteiras. E do medo… de não ter o que ter.
Pode não haver dinheiro. Mas continua a haver Natal. Ou, finalmente, há Natal…Em que o abraço e o copo de vinho ganham muito mais valor que as coisas que se compram porque parece mal não dar uma lembrança a quem não tem importância nenhuma. A ceia vai saber a aprendizagem…a lições de coragem, de força e de saber largar.
Este ano será para muitos, o primeiro Natal, do verdadeiro Natal. E isto merece celebração.
IdoMind
About freedom

dezembro 14, 2011

Não é porque estão a pedi-las que devemos dá-las



Estavas longe de imaginar quando saíste hoje de casa que não voltarias a entrar a mesma pessoa. Estou imensamente orgulhosa de ti. Até me apetece deixar escapar algumas lágrimas por fazer parte da tua vida e ter estado aqui para te ver a desembrulhar as asas amarrotadas que escondias. Ou protegias…
Podias ter ido. Podias ter corrido. És bom nisso. Em fugir sem olhar para trás e largar para quem fica o trabalho de apanhar os pedaços partidos da alma que não volta a ficar a mesma. Há uma cola que devia ter o teu nome. Usa-se a chorar. Usa-se a jurar que nunca mais.

Podias ter feito igual. Pensar em ti. Só em ti. Não julgues que estou a julgar-se. Não estou. Tenho a minha própria conta para acertar. Os meus minutos estão contados e não tenho a mais para dispensar noutro conto que não o meu. É que já te vi daqui a fingir a tua altura apenas para diminuir o tamanho de outros. Baixaste-te para te dares com os mais baixos e ergueste-te para chegar ao que estava fora do teu alcance. O que poderia ter feito de ti maior ainda, se não te fizesse feito só egoísta. Entraste por vidas adentro sem limpar os pés e deixaste tudo sujo de pegadas. Podias ao menos ter pedido desculpa e, já agora, aprendido a tirar os sapatos…só para não magoar nem deixar marcas de lama no que encontraste imaculado.

Não baixes os olhos. Dá-me um abraço. Ninguém consegue caminhar sem pisar alguma coisa. Ou alguém. Mas tu tens abusado do privilégio, meu amigo… Para que conste “ tu sabias que sou assim” não faz ficar tudo bem nem retira um grau de dor ao teus golpes.
Sabes, há para todos nós um dia e uma pessoa que nos levam a fantasiar que “comigo vai ser diferente”. Um pirlimpimpim a serpentear pela barriga acima na certeza de que somos especiais. O ou A tal que vai mudar uma maneira de estar. Ou de não estar. Baptizamo-nos de novo como Luz que se vai acender para alguém num género de redenção providencial. Isto acontece. Acreditarmos que temos o poder de modelar a essência do Outro. De lhe meter as mãos na espinha e pô-lo a caminhar. Numa certa direcção…Por nós. Connosco.

É fácil sonhar isso contigo. Em redimir-te. Iluminar-te. Tens a rebeldia que apetece dominar. Exibes uma liberdade que convida a pagar para ver. E esses olhos…Carregas nesses olhos a solidão infinita a pedir um fim. Quem te pode resistir? Arruínas com o resto no sorriso perfeito que abres e outra bandeira branca é hasteada em rendição. Não te rias. A tua doçura pode vir a amargar-te. Também se paga pelo aluguer dos Dons. Do aproveitamento que deles retiramos. Qualquer um pode manipular. Apenas alguns conseguem ensinar…

O que não serve o Amor serve para nos condenar. A repetir. A não chegar. A perder.
Até servir para nos transformar. De dentro para fora…
Talvez te tenha acontecido o vazio. Aquele buraco que nada enche. Não sei. Quem sabe deixaste de achar graça a não te deixares conhecer. Pode ser que tenhas precisado de ouvir “ vamos passar isto os dois” e tenhas perdido a vontade de passar por isso sozinho. Se calhar encontraste, ou reconheceste, alguém mais importante para ti que tu mesmo. Não sei. Sei que te vi feliz a fazer por outro apenas para o fazer feliz.
E bastou-me para te saber a transformar. No que És.
IdoMind
About not taking advantage

dezembro 06, 2011

E agora?

Sou muito mais antiga do que os teus olhos possam deduzir quando me miram à procura de um sinal qualquer do sim que precisas para avançar. Não te deixes iludir pelos ares que dou. Cá dentro, estrelas nascem e morrem em silêncio para me darem à luz. Constantemente. Mas é um processo secreto. Só meu. Engulo-lhes por isso o brilho de todas as vezes para que não me percebas outra. Já mudada. Por nós mudo o que começou por ti. Tu és a pergunta difícil que Me questiona. Que fica e recusa calar-se mesmo depois de uma resposta idónea que arranjei ali assim, no meio dos princípios e dos valores que me convém fingir continuarem a ser meus. Parece que me pressentes para lá do que pareço. Como um espelho das minhas caducidades a denunciar versões ultrapassadas, adulteradas, repetidamente copiadas, de mim própria. Tu não me permites falsificar-me. Não sem reconhecer que essa é a minha opção. Minha. E que podia ser outra. Se eu quisesse. Se eu me achasse capaz de suportar certos pesos sem lamentos. Sem arrependimentos. Ressentimentos. Sem ferimentos…

É que as minhas memórias vão muito mais longe que o primeiro “olá, como está? É o meu corpo que o diz. São os sonhos que o confirmam. Estive aqui antes. Lembro-me que amar era mais simples. Muito menos vergonhoso. E a felicidade era isenta da taxa de culpa que hoje a agrava. Que lhe põe um preço tão alto que a maior parte de nós não se dispõe a pagá-lo. Venho de um tempo em que as mulheres e os homens se encontravam para dignificar a Vida. Sabiam-se eternos pelo que o adeus ainda não tinha sido inventado. Nem outro pronome possessivo além do Nosso. Porque o Meu e o Teu ainda não existiam os homens e as mulheres eram livres. Uns dos outros…

Estranhas agora o meu diálogo mas esta já foi a linguagem que entendíamos. A única. Quando nos deitávamos debaixo das árvores deslumbrados com a Criação. E o Céu ainda não era alcançável. Era só azul e bonito… A fruta sabia a sentimentos. Sem o pecado. Tinha gosto de inocência. E inocentes permanecíamos depois a provar. De a trincar. Morder. De a comer com prazer porque há fomes que são sagradas. E nunca podem deixar de o ser. O cheiro da terra tinha poder na altura. Celebrávamos o Mistério e com gratidão aceitávamos o Seu convite para a Grande Festa. Éramos iguais então…
Olha o que o fizemos ao Amor neste intervalo entre o estado puro e os instintos metidos num fato com gravata. Virámos o mundo ao contrário e é claro que andamos perdidos às voltas com a impressão de nunca chegar a lado nenhum. De não haver mais para onde ir. Ou fugir. Mexemos na Ordem a que tudo obedece e condenámo-nos com isso à procura que não acaba. Aos encontros que não satisfazem. Aos comprimidos que adormecem o Apelo…

Vieste lembrar-me que embarquei nesta evolução esquisita. Carcereira de almas e de caminhos. Também eu virei a minha natureza do avesso e uso-a com acessórios para esconder suas vontades. Anda contrariada e por uma vez ou duas dei por ela a tentar arrancar os não devos e os não posso que lhe visto. Foi por um triz que não se despiu diante de ti e disse o que não devia. O que não podia…
Fui para a casa de banho pôr-lhe as roupas de volta pedindo a Deus um Novo Começo.
Outra Eva. Outro Adão. Outro testamento.
Um que permita o Amor e não que o proibia…
IdoMind
about skins that meet  

novembro 15, 2011

Concentrado para mim, se faz favor

Fatigada desses amanhã-é-outro-dia, não-merecias-nada-que-isso-acontecesse ou aqueles deixa-lá-que-foi-melhor-assim, sempre à mão para nos salvar de uma intimidade que não pedimos. A cábula comum, de expressões-marcadores de linhas entre o espaço onde simplesmente queremos que nos deixem em paz e o espaço onde aparentemente essa paz tem de ser mantida.  Mais cedo ou mais tarde, temos de vir à rua e há sempre alguém por lá desejoso por falar. Por partilhar. Por nos convidar para qualquer coisa porque precisa de desabafar ou porque diz que tem saudades de estar connosco. É claro que não vamos negar o par de ouvidos. Nem responder que não sentimos o mesmo. Que por acaso até apreciaríamos, mais, estar sozinhos. Passear ao longo da Foz à hora de almoço, abandonados a pensamentos aleatórios, à fala do mar, a nós…
Não seria elegante afirmar “Fala menos e escuta-te mais. É o que estou a tentar fazer. Se me deixares…Não me leves a mal, mas há dois anos que tens o mesmo problema. Já paraste para perguntar se o problema não és tu?”


No gesto automático de sacar da cábula, acabamos por declamar “Tens de ter paciência. Continua a fazer um bom trabalho que alguém um dia vai reparar.” Ou, umas linhas mais abaixo “ Dá-lhe um tempo que vais ver é só uma fase, as mulheres são assim.” E o clássico, mas, nem por isso em desuso “Não ligues, isso passa.”
Ao longe, do mar uns vislumbres de azul e a hora de almoço já passou…

Não. Não é egoísta escolher ao que dar atenção. A quem. É lealdade.
Desleal é cabular…
Trezentos amigos e naquela noite ligaste ao teu irmão. Ao pai que sabes que, independentemente de todas e as mais dolorosas diferenças, vai a nado ter contigo à outra extremidade do planeta. Ligaste, ironicamente, a quem não ligas nenhuma. Naquela noite, foi um estranho que ficou contigo sentado na beira do passeio…
Não te faz pensar? A Lei é infalível na retribuição. Isso não te faz pensar? Isso não te faz parar?
De falar. De espalhar. De rir. Como um golfinho amestrado. Tão apropriadamente. E lá recolhes as tuas palmas. Pára de perguntar. Estás sempre a perguntar quando não queres ser questionado. Não há bichos-papão no silêncio, sabes…? Fica. Acalma esse impulso de te dispersares por aí. De enfraquecer a tua essência diluindo-a por copos alheios. Misturada com açúcar. Corantes e conservantes. Bebida às pressas, sem lhe tomarem o sabor. Deixada no fundo…
A qualidade é cara porque se escolhe a matéria-prima superior e depois trabalha-se com tempo, com dedicação, os detalhes que fazem o resultado ser diferente do vulgar. É o preço do excepcional. Do único…Do que dura.

Não sei se já te perdeste nas minhas divagações ou se estás encostado na cadeira do computador aos suspiros, mais ou menos abafados, porque te estás a ler nas minhas jardinagens. E agora a rir e a pensar que não te apetece nada ir buscar as calças à 5 á Sec. Sabes porque sei isto? Porque te seleccionei. És da melhor matéria-prima que existe. Autêntica. E dediquei-me. Trabalhei-nos. Dei-nos tempo.Por isso duramos.

Agradece-me não usar cábulas. Amar, por vezes, é não dizer nada. Ser amigo também é ir embora e fechar a porta do teu lugar sagrado onde todas as tuas respostas podem ser encontradas. Ter o egoísmo suficiente para pedir que nos deixem ir falar com o mar. Sozinhos..
Estamos aqui hoje porque Eu quero estar aqui hoje. Contigo. Eu e a minha lealdade.
No bom e no mau. É como tu, autêntica. E por isso única...
Pagas o preço? Tenho troco.
IdoMind
about shitty relationships

novembro 11, 2011

11-11-11: Porque não me lembro de outro título e porque hoje é 11-11-11


A roda girou. Completou uma volta perfeita. Tão redonda. Rodou por nós e connosco. Rodou-nos…Foi quando ficámos de cabeça para baixo. Lembram-se? Dos dias em que andámos ao contrário dos outros e foi difícil fazer e ter sentido. Arranjar um. Ou pelo menos um motivo, ainda que sem qualquer sentido. Às vezes o telhado inclina-se muito e é no beirado que suspendemos a nossa queda. Até ao limite da resistência que até julgávamos que não tínhamos. Pendurados e indecisos entre ascender, de novo, ou derrapar, finalmente.

Estive pendurada. Vim por aí abaixo e cai. Nem sempre de pé. Deixei-me ficar caída, a tentar agarrar o céu com as mãos cravadas na Terra. Procurando ouvir os ecos da linguagem desconhecida, subtil, a acontecer a todo o tempo que Eu não entendo o tempo todo porque ainda não sou só Alma. Ainda desejo. Desespero. Gosto e deixo de gostar. Ainda me faz diferença a indiferença. A dor… Importa-me o Mundo. As crianças que morrem. As lanças que se atiram de olhos vendados. Os peitos blindados. Importa-me quem não se importa. E abandona. Fere. Marca. Ainda me esqueço que o que está escrito deve acontecer. E que somos todos necessários. Até quem abandone, fira e marque.

Eu própria o fiz. É assim que a Roda se mexe. Muda-nos de sítio. De roupa. E depois dás-nos a Estação que precisamos para aprendermos acerca de julgamentos rápidos, de negligência e, por fim, sobre humildade, porque cada dia é todos os dias o primeiro dia.
Isto foi o que aprendi até aqui. Vim com uma caneta mágica para escrever uma história. A minha história. Reescreve-la. Fazer umas emendas. Dar-lhe um Fim. Ou uma continuação…

Posso, neste minuto, daqui a pouco, amanhã ou para o mês que vem, fazer um ponto final paragrafo e começar outro capítulo. Outro livro até. Nada me impede de nada. Excepto o medo.
Quando penso que já ouvi alguém confessar que não terminava com a sua própria vida porque temia depois não ter paz! Depois? Depois de quê? O depois só existe na medida deste Agora. Criado. Vivido. Sofrido, é verdade, algumas vezes. Mas apenas se quisermos. No Agora seguinte, meio Alquímico, podemos transmutar o sofrimento em sabedoria. A revolta em aceitação. As doenças em compreensão. Podemos confiar no Propósito em vez de pensar em morte. Ou noutras coisas que nos matam aos poucos…

A pergunta que se impõe é simples: quero, verdadeiramente, mudar?
E se, verdadeiramente, concluirmos que já chega, avisar a Vida que estamos prontos para outras brincadeiras. Como? 
Acordados, antes de mais. Evoluir faz-se de olhos abertos. É necessário olhar bem para dentro e para fora de nós para descobrir as deformidades mascaradas quase sempre de virtudes. Não é boa educação fazer o que os outros querem. Não é responsável viver infeliz porque há uma casa para pagar. Nem digno ficar para não fazer sofrer. 

Cada um só pode escrever com a sua própria caneta. Viver é um acto pessoal.
E quando decidirmos viver a NOSSA vida é aí que os nossos pensamentos, os nossos sentimentos e as nossas acções devem encontrar-se e partir na mesma direcção.
Este é o sinal de que estamos prontos. Para o que quer que seja. É nosso...
IdoMind
about  energies set in motion

outubro 04, 2011

Fronteiras

Oiço falar muito de apego. E da necessidade de o dominar a fim de alcançarmos estados de espírito próximos da perfeição. Li muitos livros. Aprendi exercícios. Magias. Truques para me desapegar. Desde desapertar fios a ver-me levitar. Não funcionaram lá muito bem. Parece que não mudei assim tanto desde os meus tempos de menina em que precisava de compreender para reter. Para apreender. E não compreendo a urgência do desapego como condição para ser perfeita.

Sou apegada. Não sei se muito. Se pouco. Se na medida certa para cada situação ou na dose exacta para cada pessoa. Sei que me preocupo. Que quero saber. Que oro e peço pelos meus apegos. Para que tenham sorte, sejam felizes, fortes, audazes o bastante para não se deixarem morrer entre as dez, doze ou mais horas de trabalho e outras tantas entre dar banho aos miúdos, fazer o jantar e varrer a cozinha. Fora as contas que engolem o pouco que fica para pequenos mimos. E fico ali, por perto dos meus apegos vigiando para que a esperança não os abandone porque tudo é necessário. Mas tudo é temporário. Sim, importam-me as suas lutas. E os respectivos desfechos.

Eu conservo o fio que me faz chorar e revoltar e revolver com as tristezas da minha irmã. E a comungar da alegria dos seus sucessos. Escolho quase levantar voo de tão insuflada pela vaidade de a ter aqui, como a minha companheira, com o mesmo sangue a circular-nos de alto a baixo até ao coração e do coração de alto a baixo, neste movimento que faz de nós as Catita. Escolho irritar-me com as imprudências do meu melhor amigo que o levam uma e outra e outra vez a rachar a cabeça mesmo ao meio. A sangrar muito. A sarar apenas para voltar a ser imprudente. Escolho ter saudades, tantas, de algumas pessoas e, superando o que as decepções me ensinaram sobre manter orgulho, telefonar só para saber como estão. Porque o meu maior desejo é que estejam bem. Independentemente do desejo delas quanto a mim…
Não foi sempre assim. Outrora julguei-me desapegada. Descobri que afinal era medrosa. A nossa coragem também se mede pela quantidade de nós que entregamos na mão do Outro e da quantidade do Outro que aceitamos nas nossa próprias mãos. Esta é a ciência do Caminho: percorrê-lo sozinho mas em partilha. Sincera e Amorosa. Total. A partilha com “P” grande só é grande porque não se divide. Não dá para partir e ir abonando em suaves e convenientes e razoáveis porções. Ou damos por inteiro ou o que fazemos não é Dar. Não é Entregar. Não é Partilhar. Geralmente não é Caminhar. Pelo menos, não o caminho com o “C” grande. Aquele que empresta os passos e empresta o ombro, que cola a outro, por um certo tempo em certas provas.

Este é o meu apego. O que ama. E por isso não vai embora, não enfraquece com algumas fraquezas, não se ofende com algumas ofensas e fica. Mesmo ao longe observa confiando que o “ era uma vez” acabará com o “ foram felizes para sempre”. O meu apego não me põe de caneta na mão a escrever a história de ninguém. Nem me dá o trabalho dobrado de fazer a minha parte e a parte de outros. Não sufoca. Não poupa. Não manda. Não sabe tudo. O meu apego não se avoca a justa causa para viver vidas que não me pertencem. Muito menos para impedir o seu legítimo proprietário de lhe dar o uso que entender no exercício sagrado do nosso do maior e único bem: a liberdade.

Não, não. O meu apego não se esconde, não se cala, não finge, não sabe jogar esses jogos esquisitos em que ganha quem mais constrange o outro a expectativas veladas. Tácitas. Forçando-o a agir como queremos e não de acordo com a sua própria vontade. Todas as mulheres magoadas sabem do que falo porque com mágoa todas jogam jogos esquisitos. E perdem com o tempo. Todos os pais e mães contrariados sabem do que falo porque usam o respeito e a autoridade para tolher o livre-arbitrio dos filhos, esperando deles o que eles ainda ou nunca querem na verdade para si. E é grande o sofrimento. Todos os amigos cobardes sabem do que falo porque oprimem com exigências e carências que eles mesmos são incapazes de suprir. E ficam sozinhos.

Nunca é amor se forçamos alguém às nossas escolhas. Nem de um lado, nem de outro. Esse apego é como um nó. Não é o meu apego. O meu apego é um laço. É isso mesmo. Eu não sou apegada, enlaço-me… 

Não sei se faço bem ou se faço mal. Ouvi dizer que isso das emoções também não é recomendável a quem quer ser perfeito. E ter o tal acesso estados maravilhosos de existência. Também sobre este assunto li muitos livros, aprendi exercícios, magias. Truques para dominar as emoções até as erradicar. De novo não compreendi. Logo não apreendi. E continuo a emocionar-me. A enlaçar-me com emoção. Concluo, que me prefiro apegada.

A minha paz visita-me quando me ligo e me vejo no Outro que, de alguma maneira e que por algum motivo, que nem sempre são o mais importante, aguardam por mim no meu Caminho, que tento caminhar com “C” grande.
Faço-o através do Apego desapegado por tudo o que Amo. É como consigo. É como sinto que está Bem. Para mim.
Que cada um descubra como está Bem, para si. E ouse caminhar em grandeza.

IdoMind

about feeling life, others and myself

setembro 19, 2011

Morrer - Parte I

Há pessoas a morrer mal. Abandonadas ao pânico da viagem que têm de realizar sozinhas. Sem saberem para onde vão. Se há um sítio para onde se vai. Se vão, sequer… E não é a morte que temem afinal, mas sim o “ e agora?” que não conseguem responder. Estão em cima da linha que divide o visível do Invisível e desejam tanto que o tivessem visto mais cedo. Que tivessem sido boas pessoas, bons maridos, melhores irmãs e irmãos. Ido à missa. Ajudado África. Ou aquele velhote do prédio da esquina de quem todos se esqueceram mas que também tem estômago. Fica doente. Só…e assustado. Nunca ter dito “não vales nada”,“nunca vais conseguir” e “ era só isso?” a quem teve de esforçar-se o dobro para acreditar em si depois.
E o profano ensina, pela última vez, que é Sagrado. Perto do fim, a palavra Desperdício faz-se entender. E faz chorar…E mete medo…E agora?
O Arrependimento junta-se à festa de despedida e o adeus fica mais escuro. Muito mais árduo. Lamentam-se as mentiras. As omissões. Todos os actos intencionais de desamor. Todo o esforço empenhado a treinar o ego no maneio da faca. O sorriso que não se deu porque não fizeram por o merecer. Cara-feia e meias-palavras ditas em jeito de frete para ver se aprende. Era o que mais faltava, ser compreensiva com a diferença. Paciente com crescimentos mais lentos. Era o que faltava…
Mas foi mesmo o que faltou. Aproveitar A oportunidade para nos inventarmos graciosos, porque é de Graça que somos feitos. Faltou ouvir a voz que nos pergunta como vai a nossa cabeça para o travesseiro diante das opções que fazemos. Que perpetuamos. As que deixamos de fazer por orgulho ou falta dele. Faltou coragem para viver a vida a sério. Para amar a sério. Para Ser a sério. É a morte que o mostra. E pede-se perdão…Com tanta tanta dor.
É assim que se morre mal – esmagados pelo remorso e a incerteza da pena.

Se eu morresse hoje, morria bem. Não porque fiz sempre tudo certo. Não porque fui sempre correcta. Uma boa menina. Filha exemplar ou amiga presente. Não estive sempre à altura da essência que trouxe aqui a passear. Fiz coisas más, das piores maneiras. Experimentei o que não me favorece para descobrir o que me assenta como uma luva. Pode ser que um dia escreva sobre todos os desvios e todas as paragens que me mantiveram longe de Casa. Será uma interessante trilogia… que sirva para me aproximar de todos que se acham dignos de arder numa fogueira qualquer porque não atingiram a perfeição dos mártires e dos que acham que pelo martírio evitam a fogueira.

Vou morrer bem porque aproveitei para pedir desculpa, ainda que algumas das vezes tarde de mais para reparar certos danos. Faz parte perder para aprender a ser humilde. Aproveitei para aprender isso. Aproveitei para dizer amo-te, para dar o tal sorriso. Para substituir a precipitação pela reflexão. Continuo a perder e a ter de pedir desculpa. Ainda me apetece fazer o que sei mal porque me sabe bem. Porque estou habituada e tem de ser aos poucos.

Sei tudo isto e sei que vou morrer bem porque o que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima”.Se posso escolher como quero viver é certo que posso escolher como quero morrer.
Vou por isso em paz. A flutuar enquanto largo os sacos da Terra na terra. Fiz o que pude como soube. E consegui. Quase sempre. Quanto às que não consegui, paciência. Na volta da roda poderei fazer diferente. Uma destas vidas, acerto…Morre mal quem acredita na Morte e não sabe nada sobre rodas que giram.
Eu não morro, mudo o tempo e o lugar da minha História Interminável.
IdoMind
about painful and quite silly ideias about God, Heaven and Hell 

setembro 16, 2011

Calma aí

Poupa-me. Quem pensas que és para me falar de pecado? Para esticar esse dedo direitinho em direcção do meu peito, como se andasse destapado. Como se o pudesses ver. Aos murros contra a pele…Que sabes tu de mim? Do que fiz porque tive de fazer. Porque era o que eu sabia fazer. Do que disse porque estava assustada. Cheia de dores. Porque queria que me deixassem em paz e há palavras boas para isso. Que eu conheço tão bem. Não te atrevas a largar culpa ao meu colo. Nem ouses manchar de arrependimento o fez de mim Melhor. E Mulher.
Está feito. Está dito. Está lá trás. E lá trás é aquele lugar que só vai quem se recusar a ir em frente.
Queres saber como cheguei aqui? Devagar. Graças às visitas imbecis e sempre tão severas lá trás. Nada passou num instante. Nada passou sem ser notado. Sem deixar marca grossa a assinalar a sua passagem. E derrapagem. O que eu crio é barulhento. Faz ecos. Longos. Ao fim de anos, se me encostar, em alturas como esta, ainda oiço os seus cochichos. Não preciso, por isso, que me lembres nada sobre castigos. Inventei tantos. Sim, castiguei-me. Dispenso Deus dessa tarefa. Sou adulta. Os adultos não culpam os santos surdos, os pais ausentes ou violentos, a sociedade ocupada a consumir, a vida que não espera, pelas consequências dos seus próprios actos. Os adultos sabem que a cama que fizerem é a cama em que se deitam. Foi o que me aconteceu. Escolhi o castigo quando escolhi fazer uma cama às pressas. Contrariada. Por medo. Infeliz. Fiz camas a chorar, acreditas...? Sem metáfora. A Lei funcionou de todas as vezes com a precisão matemática que usei, então, a meu desfavor. Já tiveste vergonha de ti? Eu já. Já quis não ser eu. Queres maior castigo?

Guarda para ti os teus juízos. Sobre mim. Sobre os outros. Sobre o que vês. Ouves. Acontece. Deixa a vida fazer o seu trabalho levando a cada um o que lhe pertence. Fá-lo por ti, porque a mesma medida te será aplicada. Assim é. Evita timbrar as tuas etiquetas por aí. Não conheces todos os rótulos. Nem a matéria de que cada um de nós foi coleccionando. Amontoando. Carregando. Transmutando no milagre alquímico do perdão a si mesmo.
Não sabes nada. Somos mistérios uns para os outros. Aceita-o.
Aceita-me. Com um percurso. Com camas mal feitas.Com histórias para te contar sobre pecados originais. Obrigatórios. Erros previstos. Escolhidos…Aprendidos. Esquecidos. Pagos…Males que foram os meus maiores Bens.
Aceita que o que julgas que é, pode não Ser.
IdoMind
about who doesn´t

setembro 08, 2011

Puro e Duro

Começo por fim a entender as frases feitas dos pensadores famosos, os delírios dos poetas e as utopias tibetanas, budistas e aparentadas. Encontrei-lhes outro sentido para além da beleza literária que enche o intelecto a uns e o facebook de outros… São os pensamentos de alguém imortalizados pela palavra. Nada mal para missão de vida, criar uma obra imortal…Uauu! Sobreviveram à mutabilidade dos tempos, das modas, inversões e subversões sobre o que vamos considerando certo ou errado, para chegaram até nós, incólumes. Quanto conhecimento se perdeu no sangue entornado pelos valores que afinal não tinham valor algum e que ardeu nas muitas fogueiras de fanatismo ateadas pela ignorância humana.
Cada livro é por isso um herói, que ao longo da sua história foi encontrando amigos, cúmplices, visionários corajosos, que lhe deram protecção para que o conhecimento não se perdesse, não ardesse, não se esquecesse.
Somos uns ingratos. Crianças mimadas e mal agradecidas. Tomamos por garantidos certos direitos que a lei hoje consagra, só porque ontem alguém deu a vida por eles. De direitos percebemos nós. Tanto, que sem termos feito grande coisa para os conquistar sentados na segurança da nossa cadeira no trabalho ou da poltrona de casa, nos achamos no direito de os desonrar, exercendo-os de modo egoísta, inconsequente e socialmente irresponsável. “ O que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha”- disse-me um livro.
Aliás, os meus heróis preferidos falam-me disto de agir com elevação. Com consciência. Dos nossos actos. Dos respectivos e, tão infalivelmente, pontuais efeitos. Com respeito. Por tudo quanto nos cerca.Com fidelidade. Para com a nossa verdade mais profunda. Os meus heróis contam-me sobre pessoas estranhas que não temem a morte mas sim a forma como escolhem viver…
Não lhes interessam os direitos. Não os move o reconhecimento, a riqueza, o poder. Dá-lhes repulsa os ratos escondidos em buracos, longe da luz do dia, sobrevivendo à custa do lixo, dos restos, da sujidade do Homem.

Não. Nos meus heróis encontro quem abriu o peito à espada para que as espadas deixassem de fazer sentido. Foi pelo exemplo que sublimaram a sua existência. E de tão forma tão sublime que o tempo os recompensou com a eternidade.
Abriram e preparam os caminhos que nos trouxeram aqui. Foram pioneiros no meio de seguidores. Mudaram mentalidades. Sociedades. Decapitaram despotismos. Fizerem frente, de frente, à injustiça. Ao que não era Bom para todos…E foi assim que chegámos aqui, à Era dos Direitos…
Que temos nós feito? Além de falar mal… Estou convencida que, se protestar pagasse imposto, também isso deixaríamos de fazer. Somos gatos gordos domesticados pelos frigoríficos cheios e prendas de Natal supérfluas e desnecessárias. Começam agora a ver-se algumas garras com os frigoríficos a esvaziar e dinheiro quase só para o essencial.
Estamos afunilados na única saída possível: Mudar. A forma de pensar. A forma de agir. A forma de estar. A nossa forma… Temos de sair da forma para ganhar uma nova. Muito maior. Muito melhor. É um privilégio estarmos aqui agora. Está a ser-nos concedida a oportunidade de também nós sermos pioneiros como as pessoas sobre as quais lemos e levarmos a Humanidade mais perto da Perfeição.
Não é preciso esperar por ninguém. É só dar o exemplo.

IdoMind
about what´s coming

setembro 06, 2011

Desculpa lá

Ela ainda não sabia nada acerca de renúncia e já tinha renunciado a quase tudo. Habituou-se a perder. O que até poderia ser positivo se em alguma dessas vezes tivesse equacionado a hipótese de ganhar. Se na outra ponta do arame se tivesse visto a conseguir.
Quando a conheci pensei que todos nós deveríamos andar com um espelho num bolso. Assim, a jeito de porta-chaves, sempre à mão, pronto a devolver a imagem diante dele. E no outro bolso, um livro de notas onde pudéssemos apontar o que tínhamos visto. Era capaz de se revelar interessante reler os nossos apontamentos um ano depois de os termos iniciado. O que seríamos capaz de ler e de retirar? O que encontraríamos nas entrelinhas do nosso jornal diário? A mesma pessoa de sempre? As mesmas situações de sempre com personagens diferentes? Ciclos?

Estou a desviar-me. Mas ela tem esse efeito em mim, desvia-me. Disperso-me entre as mil pessoas dentro dela, perco-me sem saber qual delas está ali comigo. Conhecia-a. Uma pessoa incapaz de dizer que não e de gritar o seu sim. Aquelas que rearranjam a sua agenda, movem para cima e para baixo a sua lista de "coisas para fazer” consoante a lista dos outros. Tão solícita a todo o tempo que as pessoas começaram a esquecer-se de lhe perguntar se pode. Pior, se quer. Acho que isso acontece quando nos esquecemos de nós, o mundo ocupa o nosso apertado metro quadrado e, sem querer, pisa-nos…Não reparam que estamos ali.
Não tenho por ela a menor empatia. Faz-me lembrar as protagonistas dos filmes de terror que eu gosto, a mulher mártir do marido ignóbil, de dia boazinha e à noite ocupada a enterrar cadáveres na cave, à frente do vizinho deficiente que mantém refém na mesma cave.
Assustam-me as pessoas que não lutam pelos seus sonhos. E assustam-me ainda mais as que não sonham. A terra faz-nos coisas esquisitas se nos mantivermos presos a ela. Até apaga a memória da nossa origem e prende-nos na ilusão de que não somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade. Ou infelicidade.

Com o tempo e o convívio fui percebendo que a disponibilidade dela não é inocente, nem desinteressada. É a sua moeda de troca. Ela permuta o seu tempo pelo afecto que de outro modo, julga ela, não teria. Faz-se amar às custas da falta de amor por si. Ainda que contrariada, ainda que cansada, ainda que desfeita por dentro depois de um dia daqueles, se lhe pedirem que passe pelo infantário para ir buscar o filho de uma amiga que tem cabeleireiro àquela hora, ela vai. Ainda que tenha conseguido, ao fim de três anos, combinar cinema com o colega de trabalho por quem nutre a mais acalorada e secreta atracção, desiste se a mãe lhe pedir para ir instalar a televisão nova que a Worten acabou de deixar lá em casa. Portanto só vive nos intervalos da vida dos outros.

Esta poderia ser só a minha percepção, alimentada pelo mau génio, ao que parece, genético, a retirar conclusões afiadas sobre o que considero fraqueza de espírito. Mas acontece que ela chorou. Calou a multidão dentro de si e permitiu-se chorar. De dor. Dói-lhe o coração. Finalmente. E as cortinas caíram. O teatro fechou por dor de coração da artista convidada.
Puxei-a para mim a rebentar de Amor por ela:
-“ Ninguém gosta de ti porque ninguém sabe quem és. Gostam da pessoa que lhes faz os favores, que está sempre pronta para ajudar, que não se exalta, que não diz “ vai tu”. Eu mesma só hoje estou a ver-te. Pela primeira vez, ao fim destes anos todos. Afinal és terráquea como eu! Juro-te que cheguei a pensar que tinhas vindo do espaço! Andava a estudar uma maneira de te ver o umbigo!”
O choro misturou-se com o riso na confirmação evidente que assim é a vida, nem muito isto, nem muito aquilo, mas uma receita onde se mistura um pouco de tudo. Daí o seu sabor agridoce...

Arrasou com a minha fantasia e explicou-me que não tem super-poderes. Que não consegue esticar o tempo, nem estar em vários lugares ao mesmo tempo. Nem sequer consegue adivinhar o que cada um quer ou busca  dela. Habituou-se a habituar os outros a precisar dela. Para isso, foi aos poucos desabituando-se de si mesma. Diluiu-se na corrente. A gota deixou de se ver maré.
Indagou-me sobre o motivo dessa necessidade de agradar a todos, da incapacidade de negar um pedido, do medo de ofender alguém se o fizesse. Não lhe soube responder porque não sei que pão ela já comeu. Certas respostas escondem certas recompensas, que nos cabe só a nós encontrar.
Pedi com toda a força ao meu Deus que tendo-lhe dado a lucidez para detectar o problema, lhe desse a sabedoria para criar a solução.
"Faz com que não seja vitimizar-se.Faz com que não seja vitimizar-me"- pedia eu cheia de fé, mais nela do que em Deus, a quem tanto faz como e quando chegamos até Ele.
Do outro lado do arame estamos muitos, os que ganham simpatia pela indiferença. Os que não fazem nada por ninguém a não ser por eles mesmos.
Algures no meio, onde os pássaros poisam para conversar uns com os outros, deve estar a formula para a  paz que foge dos extremos.
Idomind.
about balance
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