março 29, 2012

Parar sem congelar

- Eu enfrento o medo. Não te enerves. Mas não te parece razoável que primeiro conheça a cara do inimigo? Se sair por aí a esgrimir contra tudo o que me exige algum trabalho interior posso acabar por ferir de morte o que me sustenta na hora da luta. Lembras-te do vick vapospray? Horrível! Dormir com o mentol aos pontapés no nariz e aquele frio pavoroso no peito. No entanto, de manhã, estávamos tão frescos como o vick para irmos para escola, mal nos lembrando das dores de garganta e a abusar do ar aspirando-o nas doses xxl, que antes do creme só entrava na versão xs.
- Tu és impossível! Eu estava a falar a sério de coisas sérias e era vick vaporub!
- Só porque tem graça não pode ser sério? Se engraçássemos com as coisas sérias da nossa vida, viveríamos em Graça.
- Eu estou mais para o desgraçado. Queria tanto ter a certeza que estou a agir correctamente. Pelos motivos certos e não por medo.
- Queres-me séria, não é? Vamos então a isso que ficas muito mais engraçado sem sombra. 


Não tenho talento para psicóloga e chego a duvidar se tenho jeito para ser pessoa mas, uma vez que pedes, dar-te-ei a minha opinião honesta e, provavelmente, vais concluir que quem precisa de ajuda profissional sou eu. Só te posso falar de mim e repartir contigo como é que foi seguir em frente com aquilo que ficou lá trás. Com o que decidi trazer e com o que veio sem convite. A mulher que tens diante de ti, considera o que acabaste de dizer bastante infantil.
Não tens dez anos para precisares de supervisão para viver. De uma validação exterior para os teus actos. Só as crianças que ainda não tiveram nem tempo, nem espaço para irem construindo o seu próprio quadro de valores,  necessitam de conformar as suas decisões pelo que lhes dizem os adultos. Por aqueles que já tiveram muito tempo e muito espaço para distinguir o trigo do joio e transformar um em pão e outro em lume. Mas até as crianças crescem e o quadro de valores dos pais, dos avós e de gente com réguas, a melhor razão  e todas as respostas, fica apertado e deixa de servir. Grande parte da nossa existência, se não mesmo toda, é passada entre o esboçar e o apagar das nossas heranças morais. E imorais.



Os míudos tipo aqueles do fundo da sala, libertam-se do quadro ao murro. À rebeldia, à desobediência, ao aleijar o mais possível porque agora é a minha vez e à minha maneira. Têm graves problemas auditivos, do pouco uso que dão aos ouvidos, e estilhaçam o quadro com os pulmões. Muitas destas crianças não chegam a crescer. Não se soltam do quadro nem constroem o seu próprio. Vivem desenquadrados.
Os míudos da fila da frente, esses tomam antidepressivos. Levam uma vida a libertar-se do quadro, do qual pensaram ter saltado fora com o primeiro emprego ou a primeira casa. Ao quinto emprego ainda não são capazes de dizer que não, de  pedir um divórcio, de partir de propósito o copo no restaurante. Têm problemas de expressão. Questionam o quadro. Odeiam o quadro. Culpam o quadro pela inércia e pela cobardia que os mantêm enquadrados. Acabam quadrados.
Conheci um caso triangular, porém. Foi para o Egipto porque estava convencido de ter sido sepultado numa pirâmide com o Faraó e precisava de lá voltar para perder o medo reverencial que tinha pelo pai actual. Pois...

Essa certeza que queres, és tu à procura da porta, dentro do teu quadro, para o corredor a seguir. Não tenho a certeza que a alcances enquanto não abrires outra porta, a da saída.


É preciso correr, cair, abrandar e cair na mesma porque há pedras com o nosso nome inscrito. É preciso aprender a saltar… Estender as mãos, largar outras, dar os ombros e pedir por um. É preciso ficar sozinho. Abandonar e ser abandonado. Terias de ter sido pai e filho, preto, chinês, gostado de homens, mulheres e tudo à mistura. Terias de ter sido mal-entendido e entender mal. Não te quereres dar a entender. Precisavas de ter entrado em todas as casas e ficado uns tempos. Sentares-te na sala de estar doutros quadros e ficar à conversa sobre a correcção e incorrecção do que por lá se pratica.

É louvável a vontade de agir bem. É a mesma que me motiva. Tens aí a tabela que me emprestes? Essa das duas colunas com um risco de alto a baixo a separar o mau do bom. Já agora, como é que te veio parar ao colo?

Para teres  “certeza” é preciso ires à Origem. Se lá chegares a única certeza que encontrarás é que não há uma certeza mas tantas quantas as almas e quantos os caminhos e quanto as dores e quantos o melhor que se conseguiu, a coabitar nesta bola forrada com uma noite e um dia a revezar-se, no mesmo beijo fugaz de olá e adeus.
Percebes o que te quero dizer? A certeza com dois lados ainda é certeza?

Eu enfrento o medo. Claro. Já me basta ser teimosa. Não quero ser maricas. Enfrento o medo se for de falhar. Se for de perder. Se for de não gostarem de mim. De decepcionar ou de dar um beliscão em expectativas estrangeiras. Enfrento todos os medos que estrangularem a liberdade de me experimentar ser todas as coisas que precise de ser para chegar à origem e constatar que estive sempre certa…

Entretanto, sem certezas, vou escolhendo, de entre todas as escolhas, a que se aproximar mais daquela que eu gostava de ser se, em vez de humana e ainda por cima mulher, fosse perfeita. Angelical..
Como seria eu de asas em vez de génio? E tento sê-lo, um verdadeiro anjo.
Tinha de acabar com graça… ;)

IdoMind
about not being paralyzed by doubt

março 26, 2012

Mercúriozinho

Ele de novo. Já o tinha visto ali algumas vezes. Entra com as mãozitas nos bolsos e nunca se senta no mesmo lugar apesar dos bancos estarem praticamente todos vazios. Umas vezes fica ao fundo, outras nas filas da frente. Raramente no meio. Fica sentado a olhar como se estivesse numa sala de aulas, atento, sereno, com as pernas a balouçar, ouvindo o professor a ensinar uma maravilha qualquer que ele nunca havia reparado ou pensado ter uma explicação bem mais plausível que as fantásticas que lhe ocorriam para justificar certos fenómenos.
Lembro-me que houve apenas uma ocasião em que saí antes dele. Costuma ficar cerca de vinte e trinta minutos, dá um pulo do banco e vai embora com o mesmo ar imparcial e indescortinável com que chega. Para alguém tão baixinho tem uma presença notável. Passa por mim à saída e tem-me lançado um rascunho de sorriso. É desconcertante. É quase hilariante.
Numa destas quartas-feiras, autorizei-me o impulso de me dirigir a ele e sentei-me ao seu lado. Agarrou-me com os olhos gigantes, negros, pestanudos e mostrou-me os livros guardados à volta da íris. Acho que ele também viu os meus. Mas na altura não pensei nisso. Nem em nada. Deixei-o ver-me. Se o tivesse impedido com os subterfúgios habituais, quem perderia era eu porque aquela criança tinha coisas para me dizer. Um recado para me entregar. Soube-o no instante em que me sentei com ele.
- Ando a escolher um Deus. Ainda não me decidi com qual dividir os meus segredos e os meus sonhos. Preciso de um em que possa confiar e que não me falhe quando precisar mesmo da ajuda dele. A minha avó diz que antes de pararmos num sítio temos de correr o mundo inteiro porque só assim é que sabemos que não há sítio melhor em lado nenhum para nós. Com Deus é igual. Ando a ver qual é o melhor para mim. Cada Deus tem seis meses para me dizer o que tem para me oferecer. No fim vou escolher. Preciso de um Deus porque quando for grande vou ser viajante e assim não vou nem sozinho, nem sem protecção.

Das milhares de razões que me poderiam ter ocorrido para aquele menino vir à capela meio esquecida numa das poucas ruas da aldeia também ela calcada por uma contemporaneidade pouco dada à nostalgia de compassos antigos, eis a que jamais constaria da lista.

- Antes de ter escolhido os meus dois amigos tive muitos. Fui à procura dos diferentes de mim porque ser como eu sou já sei como é. Só consegui fazer amizade com uma menina. Elas são mais difíceis. Mas a minha avó disse-me para não me preocupar muito porque as meninas são diferentes dos meninos e diferentes umas das outras. Que eu teria de dar três voltas ao mundo para encontrar a melhor menina para mim. Mas que iria valer a pena. Não percebi bem mas a minha avó fala apenas quando está certa do que diz. Tem acertado comigo e por isso acredito, por agora, nas palavras dela. Ela podia ser o meu Deus. Perguntei-lhe se queria. Se aceitava ser o meu Deus. Riu-se tanto que até uns passarinhos vieram à janela ver o que passava. Depois ficou séria e respondeu-me que somos emprestados pelas nuvens aos Homens para fazer da terra outro céu. Que o nosso Pai é feito de estrelas e a nossa Mãe da luz que as faz brilhar. Para a gente não se esquecer onde pertencemos, os nossos Pais dos céus deram-nos as lágrimas. Quando a gente chora é a nossa parte de nuvem a chover uma coisa importante. Não sabia? Devemos ficar quietos quando choramos para ouvir o que diz a chuva que vem dentro de nós. Da nossa parte de nuvem.

A minha avó também tem nuvens que chovem dentro dela. É por isso que não pode ser o meu Deus.

Venho aqui há quatro meses. O tempo deste Deus está quase a acabar. Ainda não me disse nada. Fico aqui calado à espera que fale comigo. Nem sempre vou mesmo até aos seis meses, ao fim de dois ou três percebo logo que nunca vou perceber alguns deuses e vou-me embora. Este, deste sítio, ainda não falou apesar de eu me esforçar e mudar até de lugar porque pode querer falar baixinho só para mim ou sem ser com a voz. Deus usa tudo o que a dá vida para falar em seu nome. Todos os deuses fazem isto, de acordo com a minha avó.
Mas até agora nada. Até hoje. 

Não é só a senhora que olha para mim e pensa. Eu também já olhei para si e fiquei a pensar.  
Já me distraí consigo e espero que Deus não me tenha falado dessas vezes em que começava a imaginar porque é que senhora estaria aqui. As outras pessoas que encontro cá são todas como a minha Flor, de cabeça esbranquiçada e muitos traços na cara, que ela diz que são mapas. Mapas das viagens que mais marcaram. Se quisermos saber com foi é só olhar bem o desenho da marca. Ela conta. Se foi a direito, se teve curvas, se acabou de repente. Onde acabou, se perto dos olhos, dos lábios… A minha Flor anda a escrever a história das suas linhas e disse-me que um dia vou lê-las mas que primeiro, eu mesmo tenho de ganhar alguns traços, os que ensinam a ler os mapas da face.
Para além das pessoas velhas com medo de morrer, só vem cá outra que não é muito velha mas que não anda. Também a viu. É aquela da cadeira de rodas que fica com a cabeça para baixo até ir embora. Faz-me impressão. Como é que ela sabe se Deus está a olhar para ela se ela está a olhar para a barriga? Um dia pergunto-lhe.
Reparei em si porque trazia uma rosa enorme na camisa e fez-me pensar na minha avó, a Flor. Também gosto daqueles sapatos que trouxe com um laço verde, os seus pés pareciam duas prendas. São muito giros. A senhora não tem marcas na cara. É nova. E é bem bonita. Consegue andar. Porque é que precisa de ouvir Deus? Este Deus?
No outro dia, à mesa com a minha avó, contei-lhe sobre si. Quer saber o que ela disse?
A tentar com toda a força travar a minha parte de nuvem a querer chover, respondi-lhe que sim.
- A Flor disse que a senhora sabia qual era o melhor sítio do mundo para si e que estava a pedir desculpa a Deus por não ir. Ou coragem para o fazer.

Virei-me para a frente e chovi... 

IdoMind
About God´s funny ways

março 20, 2012

"A" Primavera

Pensavas que era só conversa? Não era. Olha à tua volta e vê. Está a acontecer. Estamos a mudar. Mas ainda não mudámos. Desconfio que não vamos sequer a meio. Está a custar muito, bem sei. Também a sinto, a infindável maré vazia dentro de nós a levar-nos tudo. Como é que se agarram as ondas? Como é que se pára o mar? Consegues…?
No outro dia, num daqueles em que me apetece escavar o fundo do poço de joelhos, acabei por desenterrar a responsável pelos crimes que nos fazem penar. É a liberdade.
A Humanidade experimenta hoje uma liberdade histórica. Entre nós e a vida que sonhamos está apenas a vontade de a criar. De começar, pelo menos. Nós estamos nas nossas mãos. Inteiramente por nossa conta. 


Os nossos dedos viram-se é para nós agora que a sorte e o azar se reformaram. Foram com eles a indiferença, a maldade, o poder dos outros. O conhecimento expulsou toda a gente e fez-nos ficar sozinhos com os efeitos das nossas decisões. Do que fizemos e deixámos por fazer, sabemos lá porquê. Do que sabemos porquê mas que ainda não foi desta que conseguimos fazer de outro modo.  O nosso inimigo, os insucessos, toda a nossa infelicidade somos nós com medo. E com culpa. Muita culpa.Se nos encostarmos por um momento, nos aliviarmos por um momento, nos perdoarmos por uns breves instantes por termos carne que pede carne, ossos que não aguentam tudo e corações que partem e param, talvez arrisquemos olhar no espelho e ver que estamos a envelhecer sem nos termos estreado…


A vida está a acontecer-nos  a todo o momento, em todos os instantes que se despedem assim que chegam. Do tempo só ficam as rugas na face se não cuidarmos de deixar outras marcas na alma. É preciso cuidado a viver. Sobretudo connosco. É preciso cuidarmos de nós, para, se quisermos, estarmos em condições de cuidar de outros. 

Está à mostra o que resulta de nos forçarmos a aceitar o que as nossas entranhas repudiam, aos berros. O drama está na consciência desta nossa cobardia de ser egoísta o bastante para sairmos à nossa procura. Falta-nos exercer o direito à felicidade e a faculdade de errar nas tentativas. A  margem de engano inibe-nos de experimentar. Pouco mudámos e ainda nos julgamos o centro de muitos sistemas solares. Que tudo depende de nós. Comida na mesa, tecto na cabeça, sorrisos na cara, um futuro melhor… Troca por troca, a tua vida como mereces vivê-la, por outras vidas como achas que é melhor serem vividas. No entanto, até esta data, conheço apenas um caso de alguém que morreu por amor. De saudades…A vida continua mesmo quando nós já não estamos. As soluções aparecem. Buscam-se. Descobrem-se capacidades que estavam toldadas pelas tuas. Tantos começam a viver quando outros decidem morrer. Não é crueldade. É assim. A vida encontra mesmo uma maneira de prosseguir. Independentemente de ti.

Estas e outras revelações encontram-se hoje em qualquer prateleira de supermercado ou expositor giratório de uma papelaria. O acaso afinal não existe e está previsto. Ou é previsível. Deus olha por nós mas não se importa connosco. O céu não é o limite. E na terra os limites não estão do lado de fora. Até as fronteiras se mexem para que o Homem caminhe. Livre. Por onde entender. Por onde decidir ir. Ficar.

Hoje não se pagam formas de pensar com a própria cabeça. Não é preciso esconder um amor, porque todos os amores deixaram de ser proibidos. Hoje podemos nascer pobres e governar um país. Inventar uma fórmula para as laranjas serem todas doces, as batatas-fritas boas para a saúde e o chocolate adelgaçante. Hoje não há mulheres nem homens, há pessoas. A poder fazer tudo igual. O bem e o mal reconheceram-se irmãos e hoje existem apenas escolhas…


Hoje posso estar a jantar contigo. Ou a tomar o pequeno-almoço amanhã. Posso largar a toga e vestir um avental. Posso ir atrás da minha visão no Brasil. Posso permanecer onde estou e dar a volta. O que não posso é matar-me nas suaves doses diárias de resignação.

Hoje é bom para o que quisermos. Ontem também foi e amanhã será de novo. Qualquer dia será bom para Te escolheres. Para começares, pelo menos. Mas hoje é Primavera!
Há um Equinócio enamorado pela luz que faz os dias maiores só para a ter mais um bocadinho. Hoje é dia de sair ao jardim e plantar as sementes da tal vida sonhada. O solo está fértil e o sol carinhoso. Hoje é dia de ir às estrelas e lá deixar desejos. Projectos. Ideias para ser feliz. Alcançar a tal paz . Descobrir o tal Amor. Reconhece-lo...
Hoje o Universo tem os portões abertos e a esperança está a ser oferecida. É só levá-la. Mantê-la perto de nós para quando a noite nos puxar para si.

Na minha estrela deixo desejos para ti também. Queres saber quais são? 
Anda até cá. Sobe. Vem deixar os teus e podemos ir falando no regresso de como vamos marcar a alma. Cortar a fita vermelha e dar o primeiro passo num novo caminho ou outro passo noutro e novo caminhar.

IdoMind
                                                                            about Spring, flowers, butterflies, hope and lots of love

março 14, 2012

Intenções, desatenções e distracções

Tenho um vizinho a enviar-me flores. Papeis na secretária, código aberto, fotocópias de documentos aqui e ali, quando o telemóvel avisa a chegada de uma mensagem. Malmequeres brancos num campo verde. Geribérias cor-de-rosa num canteiro. Uma flor linda, vermelhinha, à beira da estrada. Por onde passa, assumo eu, tira uma foto e envia-me.

É estranho atendendo que não conheço ninguém no sítio onde moro a não ser a rapariga a quem pago o condomínio. Que não sabe nada de mim. Entro e saio pela garagem. Não encontro vivalma e tenho quem me represente nas maravilhosas reuniões que isto de viver em comunidade impõe para se estabelecer algumas regras de convivência pacífica. E asseada.
Então como é que o vizinho tem o meu número de telemóvel, não é? Porque lho dei. Um dia cheguei e tinha o meu lugar na garagem ocupado. Deixei um bilhete. No dia seguinte o meu lugar novamente ocupado. Deixei outro bilhete e o meu carro no lugar de garagem desse vizinho. “ Já havia pedido que não estacionasse o SEU carro no MEU lugar. Não me deixa alternativa que não seja ocupar a sua garagem. Deixo o meu contacto…”
À noite ligou diluindo-se em desculpas e com a promessa que não voltaria a acontecer. Não voltou a acontecer. Mas agora é isto, recebo flores electrónicas. É claro que não deixa de ser curioso que um estranho envie flores para uma vizinha cujo nome não sabe e muito menos que tem um Jardim…

Evito confrontos. Mas adoro paz. Sobretudo na minha vida pessoal. Estou sozinha há muitos anos e como não tenho a quem dizer “ olha, o vizinho do bloco ao lado anda a querer colo” que remédio senão calçar-me e ir resolver o que quer que seja que me incomode. Foi o que fiz.
É mais fácil ser antipática com quem é parvinho. Que não é o caso. As mensagens que me enviou foram todas elas marcadas por educação, gentileza e até sensibilidade. Ia eu a caminho do bloco C e a pensar “IdoMind não sejas tractor e aplica a diplomacia que geres tão bem” Ainda me ocorreu tornar a utilizar a mentira sobre a minha orientação sexual. Resultou antes. Mas este mora ali, mesmo ao pé de mim, e ainda poderia surtir um efeito diferente do pretendido, pelo que me decidi pela honestidade.
De regresso a casa só me ocorria que de facto está tudo no lugar certo. Se eu nascesse homem ainda seria virgem…É que não tenho o que é preciso para levar a alguém a sair de si mesmo, de um certo conforto emocional, ir ao encontro de outra pessoa e dizer-lhe “ gosto de ti” ou “gostava de estar contigo” ou “ agradas-me”.
Será que é uma reacção meramente instintiva para eles? Reminiscência dos tempos de caçadores? Talvez nem equacionem e seja tão natural como beber água quando se tem sede. Ou não? Também lhes custará a incerteza da resposta? O coração deles também acelera? Também escrevem e apagam e reescrevem e voltam a apagar, pousam o telemóvel, vão à casa de banho, pegam de novo no telemóvel e acabam por enviar uma mensagem que diz exactamente o contrário do que se queria dizer? Também têm medo da rejeição…?
É coragem ou falta de presença de espírito que os move?
Independentemente de nos quererem levar ao altar ou só para a cama, precisam de dar esse passo até nós. 

É uma tendência moribunda, mas ainda se espera que sejam eles a dar esse primeiro passo. A maioria dá. Outros dão muitos passos nas mais diversas direcções. E ainda há os que correm. E se cansam rápido.
Gosto dos que passeiam…

Não foi há muito tempo que abandonámos a caverna. Temos menos pêlos e mais peças de roupa mas nem por isso escondemos as nossas origens primitivas. Quem sair à noite pode verificá-lo…
Porém, acredito que somos capazes de dar um pulo maior. Largar a pele animal que nos oculta a transparência. E reluzir. Ficarmos tão claros que seja possível verem através de nós. É deste modo que vamos poder pousar o bastão. Não vai mais ser necessário tê-lo à mão para nos defendermos ou atacarmos.
Cada um sabe de si e o que quer. É uma questão de o assumir. Não estou a julgar.
O mundo é suficientemente grande para todos nós na nossa irónica diversidade.
Mas como ainda não estamos transparentes, da minha parte, agradeço clareza quanto ao que querem de mim. E que sejam poucos os passos mas firmes.

Agradeço que me poupem o constrangimento de ter de me calçar e tocar uma campainha para dar os parabéns pela valentia de ir atrás do que se quer, pedindo sobriedade para saber quando parar.
Agradeço que na minha direcção venha quem se dirige para o Sublime. Que tenha como destino tornar-se melhor e por mapa a verdade íntegra que o conduzirá lá.
Dispenso quem anda muito sem sair do lugar.
Agradeço que não me queira tirar do meu…

IdoMind
About all this whys in the hows

março 13, 2012

Get up Carmen

Só posso dizer que lamento. Tento encontrar outras palavras, mais ajardinadas, que te levem um cheirinho a dias melhores e a pessoas que mudam. Mas não estou a conseguir. Este meu realismo está muito realista e da minha experiência floriu o conhecimento, entretanto feito tronco da árvore que vou podando, sobre cuidar da vida com, por e em Amor.
Pode soar-te idiota. Vazio até. Só mais uma frase bonita para um artigo inspirado, poético e inútil. Faço a minha poesia com os olhos no mundo e o coração em Deus. Que vejo em toda a parte. Perfeito. Benevolente. Amigo. Um bocado parvo às vezes. Parece que não sabe o limite de certas brincadeiras. Indiferente, a que já não esteja a ser divertido e que por nós seria hora de voltar para casa, insiste em brincar connosco. Não Lhe acho graça nenhuma quando se põe aos empurrões. A força que faço para me equilibrar. Para me aguentar e não cair. Mas de tudo o que inventa para me entreter, o que menos gosto é quando se esconde e me obriga a ir à procura Dele. Fico assustada, sozinha no meio da rua, sem saber se estou perto, se estou longe, onde estou. Não sei se por piedade ou enfado, acaba sempre por Se mostrar para me mostrar que quem se escondeu fui eu. Vou-me encontrando. E subindo à minha árvore para fazer poesia.

Imagina-me assim, sentada num galho de uma árvore que envelhece a brincar. Lê-me assim, a entregar-te os meus olhos para que me vejas a tentar ser útil. Ainda que poética. É com Amor. Por Amor. Em Amor. Por mim. Por ti. Pela Vida.
Só posso dizer que lamento se não o consegues ver. Se não estás a ser capaz de o escolher.

Lamento-te sozinho numa casa com gente. Lamento o teu calor arrefecido na cama que congelou. Os braços dormentes e cruzados na almofada, sôfregos por se esticaram nos afectos desperdiçados noite após noite. Encolhendo-se, destroçados. Adormece-se no embalo de uma ideia só para não aleijar mais. Lamento o silêncio a usurpar o lugar das gargalhadas. Das confidências que unem. Das palavras certas que nos fazem brilhar. Lamento a distância intransponível de uma cozinha para uma sala. Lamento o sofá saudoso de pernas que se misturam, de livros que se lêem com cabeça num colo e do “ é tão estar aqui” dito em tom de segredo peito com peito. Lamento tanto que não te vejam…E não te calem a cantoria matinal com um beijo. Te agradeçam com mais beijos, muitos e sinceros, o jantar que preparas à tua maneira. Lamento que morras todos os  dias... da mesma morte.

Eu lamento. A minha parte. Aquela que sabe que estás aí. Por Amor rezo para que tu não lamentes. Que estejas em paz com a felicidade agendada para daqui a um tempo. Que vás a tempo. E estejas em condições de a conhecer quando a vires. Que ainda a queiras viver.
Ontem puseste-me a lamentar. Não me lembro da última vez que isso aconteceu. Quando me aceitei filha do meu Pai, deixei de lamentar para passar a agradecer. E a agir. Os milagres não vêm de cima. Vêm de dentro. Foi por o saber que há pouco tempo fiz um. Fiquei.

Mas desde ontem que lamento
Lamento por todos que amam amar os que não sabem como fazê-lo. Os que não querem e os que nunca amaram nada além de si mesmos. Os que se odeiam tanto que odeiam tudo o resto. Lamento que amor e sacrifício sejam utilizados na mesma frase. Lamento a escala de bens maiores e menores, usada para medir o valor de uma dor. De uma mágoa. De uma humilhação. De várias e cada vez mais requintadas. Lamento por todas as almas que definham  por aquilo que se confunde com amor…
Das maiores violência que conheço, desprezar um gesto de amor é a mais violenta. É preciso dignidade para amar. Mas é preciso ser ainda mais digno para saber tratar do Amor que nos dão.

Não ia acabar assim só que entretanto deu-te para ser poeta. Obrigado por não calares as vozes que se têm servido de ti para falar comigo. Também tu és mais filho do teu Pai do que estás disposto a aceitar.
Ainda achas indecente pedir que espere? Que me venhas buscar tudo o que tenho? E me entregues tudo o que tens? Temos uma dança para dançar. Muitas manhãs para acordar devagarinho com as mãos enlaçadas e risos a encher o quarto com as nossas músicas a competir. Temos uma história para acabar.

Bem vindo ao meu jardim. Não cheguei a sair porque não queria estar fora quando chegasses. Ouvi-me e esperei.Oiço-me de novo. E espero outra vez.
A próxima aventura é a dois. Se essa for a tua escolha.
Se for outra, que eu não a lamente porque te sei feliz e dono do teu tesouro.
Tudo é possível.Os milagres não vêm de cima. Vêm de dentro.

IdoMind
about sorrow 

março 07, 2012

Numa casa perto de si

Vai longe o tempo das mães coitadinhas que se despediam do mundo para serem o mundo dos seus filhos. Em regime de exclusividade. Era impensável perder as crias de vista por um segundo, quanto mais por uma noite. Por um fim-de-semana. Perdê-las para os pais, nem pensar!
As Regulações do Exercício do Poder Paternal acabavam, quase invariavelmente, da mesma forma na Conferência de Pais, com um acordo mais ou menos dentro deste género:
1. Os menores ficam confiados  à guarda e cuidados da mãe, que exercerá o poder paternal.
2. O pai poderá estar com os menores aos fins de semana, alternados.

Em virtude de casos mais problemáticos e para evitar chamadas para a Polícia de Segurança Pública, previa-se logo onde e a que horas de que dias:
3.  Para tanto o pai irá buscar os menores a casa da mãe pelas 20 horas de sexta-feira e entregá-los-á pelas 19 horas de domingo no mesmo lugar.
Ou na versão "não te quero ver nem de raspão": 
3. O pai irá buscar os menores à escola ( a casa da avó, da vizinha, à piscina) na sexta-feira, onde os entregará na segunda-feira de manhã.
Continuam a haver casos problemáticos, pelo que continua a prever-se como realizar a entrega e recolha das encomendas.

Depois dava-se um rebuçado ao progenitor-pai. Mas com papel:
4. O pai poderá estar com os menores sempre que quiser desde que avise com antecedência a mãe e não perturbe as horas de estudo e de descanso dos menores.

Li umas coisas sobre um Kryon. Não. Não é nenhum jurista famoso na área de direito da família. Uma amiga falou-me deste Kryon e das mudanças planetárias que já estavam em curso e da alteração da energia da Terra etc etc etc etc…
A ficção científica é o meu ponto fraco e lá fui eu, curiosa e expectante,  à procura do que seria o Kryon. O que li na altura sobre o assunto começava desta forma: “Saudações, Eu sou Kryon do serviço magnético”.
Até me arrepiei! E fiquei a ponderar se arrumava o livro com uma cruz por cima ou se me arriscava a  umas  gargalhadas. Adoro rir e tento não ter preconceitos de nenhuma espécie. Decidi por isso ler. Até ao fim. 
Calma. Não me perdi. Não vou falar de um par de menores que tenham sido levados por uma nave, nem de uma mãe que tenha ingressado numa seita maluca qualquer.
Acredito que está tudo ligado e de uma forma que só a nossa ignorância intitula de bizarra, mas que ainda espero ver explicada da maneira que os ignorantes gostam: cientificamente.
Li então, há cerca de 11 anos atrás, sobre as alterações na rede magnética da Terra operada por esta entidade (não vão embora, fui ao médico em Dezembro e está tudo bem comigo). 
Foi também por essa altura que comecei a ver as relações humanas mudarem. Todo o tipo de relações. No meu trabalho foi notório que estávamos a rumar noutra direcção. Não importa se melhor, se pior. Estávamos a mudar de atitudes, de formas de estar, de personalidade até. Estávamos a despedir-nos do que já não funcionava. Só muito depois o vi com clareza.
O direito acabou por acompanhar a tendência. Na área específica do poder paternal, os progenitores homens foram exigindo mais tempo com os filhos. Foi sendo frequente recusarem-se a aceitar ver as crianças apenas de quinze em quinze dias e serem afastados do crescimento dos menores só porque se afastaram da infelicidade de um casamento. Deixaram de aliviar a culpa com o pagamento de uma pensão de alimento e metade das despesas escolares e médicas. Quando pagavam.  Queriam estar, queriam participar, queriam ser Pais mesmo que já não fossem maridos…

Foram tempos gloriosos. Fazia pelo menos uns quatro divórcios por semana.
Entretanto os homens e as mulheres foram percebendo que saía mais barato juntar apenas as escovas de dentes. E esta opção de vida que era vista com algum desmérito, foi-se tornando uma prática social aceite. O que antes era só para os audazes que não precisavam de um papel para se unirem a outro ser, nem da aprovação de ninguém para viverem como entendiam ser melhor, tornou-se uma solução conveniente para os forretas, para os medrosos e os divorciados sem ter para onde ir.  
No entanto continuou-se a fazer filhos, a tê-los e, sem surpresas, no final do romance, a dividi-los.

Hoje em dia, o regime legal obriga mãe e pai a entenderem-se. As responsabilidades parentais (já que foi para mudar, mudou-se também o nome) são agora exercidas por ambos os pais, em conjunto, sendo que as questões principais da vida dos menores têm de ser decididas por acordo. Os menores passaram também a ter duas casas em vez de uma. Tornou-se comum as crianças estarem uma semana em casa de um dos pais e outra semana na casa do outro.
Francamente, não posso com segurança opinar a favor ou contra esta moda. Aguardo que o tempo nos mostre o resultado das nossas escolhas. Eu fui criada por um pai e uma mãe que celebraram 37 anos de casamento no mês passado e aqui estou eu sob um nome esquisito, num jardim virtual a falar com estranhos como se estivessem aqui. E a ouvir-me…
Devem estar a perguntar-se se eu vou parar a alguma conclusão com esta conversa toda. Espero que sim. Mas não prometo.

Tenho em mãos a regulação de umas responsabilidades parentais que deram em ofensas à integridade física no fim-de-semana passado. O pai decidiu ir buscar os filhos, onde lhe apeteceu, às horas que lhe deu jeito, fazendo-se acompanhar da pessoa por quem deixou a mãe, há cerca de 4 meses atrás. Não correu bem.

Mudámos tanto, ficámos tão modernos, tão tolerantes, tão segue o teu coração mesmo que se esteja a seguir um órgão um bocadinho mais abaixo ou outro muito mais acima, e no entanto ainda não conseguimos realmente mudar o que importa: a nossa conduta.

Observo com a imparcialidade que consigo esta situação, igual a tantas, e concluo que podemos mudar o que entendermos, gastar todos os nossos recursos emocionais e outros a convencermo-nos que assim é que está bem, mas a nossa Essência, essa, não conseguimos enganá-la. Nem calá-la para sempre.
Nós somos essencialmente Amor. O que ferir a nossa essência vai gerar, essencialmente, rebeldia.
Iremos sempre reagir a desamor com desamor.Mesmo que passivo. Mesmo que adormecido a Xanax, em muitas camas ou no lento amargar da nossa alegria de viver.

É por isso que não conseguimos ser coerentes e viver de acordo com as regras que estamos a criar e que dizemos que são as melhores para nós.
Não se pode ser moderno e deixar depois que um beliscão no ego leve a nossa mão, de modo ruidoso, à cara da outra. Não se pode ser tolerante e admitir uma “normalidade”, na minha opinião, completamente anormal, e depois extorquir a qualquer custo um “ eu tenho razão” orgulhoso, egoísta, idiota. Não podemos, definitivamente, estar seguir o coração amassando,  pisando e mal tratando outros.
Muito menos corações mais pequenos - o dos míudos. O dos filhos que se vêm de malas sempre prontas atrás da porta das duas casas, que juntas não fazem um Lar.
Idomind
About us losing our way

março 06, 2012

"Porque eu só estou bem aonde eu não estou.Porque eu só quero ir aonde eu não vou"

Daqui, deste lado, parou-se. Tenta-se, até agora sem sucesso, compilar muitas páginas de razões para domar o que se soltou e atar bem atado para que fique sossegado. Mudo. A um canto sem estorvar. Nem fazer tropeçar. Pode ser que ignorando se esqueça que está ali. Até deixar mesmo estar. É assim que se matam os sonhos, sobretudo os que estorvam – num canto, à fome. Também é assim morrem as fadas, os anjos, a bondade…o amor.


Por cada pensamento que escapa e vai a voar desenfreado pousar em ti, largo o caçador abrigado na minha sombra para que o alcance antes que te consiga dizer que daqui, deste lado, se adormece numa dança. Em espiral. Etérea. Nossa. Que se fecham os olhos e o abraço acontece. Desculpa se te acordei alguma vez com o barulho da saudade. Do desejo. Calha de escaparem e nem sempre vou a tempo de lhes amputar as asas. Talvez os tenhas ouvido. De repente, a meio do teu dia e princípio da minha noite, enquanto confiro o inventário dos meus actos. Das minhas palavras. Das minhas muitas, ajuizadas, omissões. Das contas que presto com as mãos juntas e dos pedidos que torno verbo com o coração num altar. E trago-te ao meu quarto. Será que já me ouviste daqui, deste lado, a perguntar-te se queres pedir comigo? Por nós. Que os nossos caminhos se beijem se as nossas almas se apaixonarem. Outra vez. Ou de novo. Vejo-nos. Estás ali ao meu lado e tenho a cabeça no teu ombro. Sinto-te…
Ficamos assim, sem dizer nada, a dizer tudo.

O quando e o como não me importam. Tenho andado a poupar tempo para o gastar à tua espera. Tenho muito. Preferia passa-lo contigo que longe de ti, mas sei que não se apressa, nem se atrasa o destino. Tem um horário próprio e que é cumprido. O destino chega mesmo sempre a horas. Ainda que pareça que se distraiu ou se perdeu para aí noutra pessoa qualquer. Confio nele. Levou-me onde tive de ir. Levou-me o que teve de partir. A horas. Só na minha Hora o percebi. E pedi-lhe perdão pelo mal que pensei dele e dos nomes feios que lhe chamei enquanto essa hora não chegou. É mais velho que Eu e tem-me dado umas lições. Aceito por isso que sabe o que faz. Quem traz…
A horas te trouxe. A ti. Poderia ter trazido outro. Há tantos a pedir-lhe boleia. Foi a ti que abriu a porta e mostrou o lugar. E agora? Vais entrar? Essa é a tua pergunta. A única.

A minha é esta: E agora que sei que estás aí?

Mato o sonho à fome ou estendo o solo à semente? É fácil. Sou jardineira. Escolho a vida que cresce. Que dá flores com cheirinho ou fruta que apetece. Escolho a vida que amadurece…E fica com outro sabor.
Eu cuido. Quando e como? Agora. Neste momento em que estou sentada a mostrar-te que estou aqui. Larguei quem me acho para te dizer quem sou. O que te fiz, não sei. A mim fizeste-me valente. Não voltei a mesma da tua Viagem. Descobriste-me trilhos apagados e estou pronta a conhece-los contigo. É a tua mão que quero segurar. É pela tua mão que quero ir.
E não é em sonhos...
Agora que sei que estás aí…
IdoMind
About pragmatism

fevereiro 29, 2012

Exigências das Existências

- Mas está no contrato. Ela leu e assinou. Paciência. Não vou prescindir do meu direito. Tenho pena mas é a vida. Todos temos problemas – dizia, desfiando o terço de frases telegráficas que se entoam para calar com a mente o que a alma não aceita.
Continuou a rezar.
- Já viu o que seria se fossemos todos esquecer aquilo a que as pessoas se comprometeram? Como se não tivessem o dever de cumprir o que disseram ou assinaram? Era o caos.
- Pois, eu dava-lhe um nome diferente.
- Qual?
- Um excelente recomeço…

Ficou em silêncio à espera que eu desenvolvesse. Eu desenvolvi.
-  Diga-me,  quantas vezes, enquanto conduzia, jantava ou fingia que via televisão, não estava a desejar,  interiormente e angustiado, que alguém lhe desse a oportunidade de voltar atrás e o libertasse de uma obrigação. Quantas vezes não pediu por um milagre e ser perdoado de uma dívida, de um erro, de uma escolha feita às pressas e de costas contra uma parede? Encurralado pela falta de alternativas. Quantas vezes ficou sem dormir, doente, quase agoniado de tanto medo por um prazo que viu a aproximar-se depressa demais para ser parado a tempo. Sinceramente, quantas vezes não se arrependeu de ter dado a sua palavra e dar depois tudo para o não ter feito?

Os olhos cresceram-lhe. Fiquei com a impressão de ter acordado memórias das etapas feitas com cordas à voltas das mãos. Enroladas no pescoço. Talvez por isso tenha engolido em seco...
- O que faço? – perguntou-me já sem terço nos lábios.
- Não sei. Eu acredito que nenhum bem perdura se assente no mal de outro. O meu bem é altamente contagioso. Daqueles que se pega ao meu próximo e ficamos todos melhor. Mas isto sou eu. O senhor saberá que bem é o seu. Ou qual quer que seja.

Foi embora e, não percebi, se aborrecido comigo ou triste com ele. Suponho que saberei para a semana, na próxima reunião que me pediu para agendar.
Eu fiquei. Parei e fui beber café frente ao meu mar que tem sempre alguma coisa para me dizer. Talvez tenha pisado outro limite. Tenho cada vez menos. Ou não os vejo. Mas a verdade é que só testemunhei a minha verdade. E aquela pessoa não procurou outra pessoa. Procurou-me a mim para o ajudar a resolver aquele problema. A minha verdade é essa, o bem não causa mal. O bem não oprime, liberta. Não carrega, alivia. Não obriga, pergunta “ ainda é o que queres”?


Sei que podemos, mas ainda não sabemos como, criar o nosso amanhã. As promessas só podem ser cumpridas por quem já fez o futuro hoje. São poucos. E esses não precisam de prometer porque é no compromisso consigo que se fazem livres.

Se alguém não cumpre o que diz é porque não quer ou não pode. Em qualquer uma das hipóteses, porquê obrigá-la? Porquê forçar outro ser humano a fazer o que não quer ou não pode? Está a escolher o seu caminho e num destes quilómetros vai parar para colher. Connosco fica a decisão de seguirmos o nosso próprio ou de abrir trincheiras e ficar a disparar razões. Direitos. Vidas que nem sempre correm como se esperava… Queixamos-nos do que nos cobram sem porém abdicarmos de um cêntimo, de uma vírgula, de uma hora ou dia a mais do que nos prometeram.

Parece subversão. Mas não é. Tão pouco tolerância idiota. Sou compreensiva, não estou morta. Bato o pé, dou aquele murro na mesa ou um belo grito para defender quem sou. Sem qualquer problema ou mossa na auréola. Mudo. Peço desculpa. Algumas vezes. Outras não. Dou mais murros e mais gritos pelo direito à mudança. Que tanto preciso. Vou fazendo o que posso, como sei. Não é assim que fazemos todos? Mas tenho esta mania de me andar sempre a remodelar. Gostava de fazer Bem. Mesmo bem.
Este homem veio dar-me uma sugestão: rever as promessas que me fizeram e perguntar “ ainda é o que queres?”
Idomind
about losing my job for a better world

p.s. não mudei a música porque continua a ser adequada

fevereiro 27, 2012

Com tantos dias para nascer

Durmo pouco. Em consequência, penso demais. É como se tivesse um contrato de trabalho com o meu cérebro e todos os dias fizesse horas suplementares. Fui então percebendo que é importante para a minha saúde estar feliz. Ou pelo menos tranquila. Tantas horas acordada podem levar-me a desaparecer no precipício que espreitei. E temi… Muito do que conheço de mim foi-me apresentado às escuras. Nas noites fundas, em que sozinha comigo, tive de achar o regresso ao sítio iluminado onde habita a minha Ordem.
Fui descortinando, sem drama, quem sou eu afinal. O que faz me bem, o que não me faz bem nenhum e o mal que vou fazendo sempre que não me compreendo e, apavorada, me defendo dos moinhos de vento que só eu vejo. Qual teria sido a minha pressa para apanhar boleia deste céu poeta que tento chamar à razão? Estava bom de ver que ia dar confusão casar uma lua sereia com um sol apaixonado pelo chão… 
Sou traçada por uma linha que quando não me corta, desune-me. Ando que tempos desaparecida a juntar-me nalguma parecida com uma pessoa inteira. Alguém com cabeça, com tronco e com membros a ir nalguma direcção. A saber como fazer para chegar sem se distrair com o arco-íris que aparece, os sem-abrigo encostados num canto e o cão que atravessa na passadeira ao pé da farmácia.
Como será caminhar com os pés?

O pior é que está a ficar pior. Apetece-me cada vez menos olhar para baixo. Doem-me os campos verdes, onde se pisam irresponsavelmente as flores atrevidas que exibiam a recompensa pela certeza numa luz lá mais em cima. Vejo-os devassados pela gente que passa arrastando os seus pedaços de madeira, que, na exaustão, chamam de cruz. Doí-me a minha fé derrotada a ceder terreno para a renda que tem de ser paga. Doí-me o Amor de malas na rua despejado pela cobardia. Doí-me todo este preto-claro que me fere os olhos quando procuro uma planície para aterrar.
Isto é o que me tira o sono e me põe uma caneta na mão.

As minhas noites sem dia à vista ensinaram-me a racionar. A guardar uma porção da minha força para o momento em que tiver de a ter. Outra porção, ou várias, para quando tiver de a repartir. E aquela porção guardada para oferecer…
Não vale tudo a nossa pena. E nem todos nos valem. Sem penitência, há que arrancar as nossas próprias tábuas das costas e fazer delas os remos dos nossos sonhos. Afastarmo-nos das margens escorregadias, passar sem atracar. Continuar até sabermos que chegámos. Quando chegarmos vamos saber. Não é frase feita. É o conhecimento que vai sobrevivendo, passado pelos que chegaram.

Eu quero chegar. Sentar-me na cadeira de embalo à porta de casa. Beber o chá preparado enquanto aguardavam avistar o meu barquinho a aproximar-se no horizonte. Quero chegar bem. Como? Cuidando de mim. Desde que tive a ousadia para ser Eu tornei-me reservada. Por andar mais destapada, agarra-se tudo à minha pele. Só o percebi às tantas da madrugada debaixo do chuveiro a esfregar sujidade que não era minha. Agora só me dou em lugares limpos. A pessoas bonitas. E limpas também. Tapo os ouvidos a algumas palavras e calo os lábios a outras. Rio. Muito. Com satisfação pois o pecado está atento à falta de alegria. E também me recolho para chorar, porque há sentimentos que só se lavam assim.

Aproveitei as insónias para estudar como funciono do meu meio para cima. Para me estudar. Descobri-me interessante. Trabalhosa é verdade. Mas é assim que gosto de mim. A partir o vidro para ver o que está do outro lado do espelho. A partir-me, se for preciso, para me descobrir afinal quebrável. Ou mais resistente do que julgava.
Tenho-me andado a inventar para ver se chego gira. Divertida. Tão leve que dê vontade de pegar ao colo.
É assim que me quero. Como alguém que se quer. Perto. Dentro.
IdoMind
About getting some rest

fevereiro 22, 2012

Só quero saber de ser

No outro dia deu-me uma coisa qualquer e entreguei uma das minhas sementes a uma pessoa.
Escrevi, como escrevo tudo, a passar para o papel o que me passa pela cabeça. E pelo coração.
Decidi mostrar-lhe ao que me tinha inspirado. Inédito. As minhas impressões ficam só para mim e nunca mostrei a ninguém o que escrevi sobre os próprios, a não ser à minha irmã, porque essa sei que me ama seja lá o que for que eu pense ou sinta ou escreva ou decida fazer da minha vida.

Hoje decido não ter vergonha de ser sensível e por isso partilho também no Jardim uma página do meu jornal diário, com o seguinte conselho: não deixem nada por dizer, por mais absurdo que possa soar. É assim que se faz a selecção do que é para ficar para trás e do que é para continuar connosco - mostrando quem somos na verdade. Por mais absurdos que nos sintamos.
É assim que também se pratica tomar atenção ao Outro e aproveitar a oportunidade para fazer algum Bem porque nunca sabemos até que ponto são precisas as nossas palavras ou as nossas acções...
A jeito de anúncio da Sumol - pratica o quero lá saber e sê.

Então foi isto que entreguei:

"Mereces mais do que ler o que escrevo a pensar noutros. Mereces-me a escrever para ti. De ti. Assim. Que é a minha maneira de falar do que nem sempre consigo dizer. Apesar das longas horas de conversa e dos muitos sóis que vimos tombar lá fora (como desabafas a brincar) há coisas que não te digo. Não são muitas. És dessas pessoas com um não sei o quê de barman. Ou de padre. Com quem naturalmente se fala até mesmo o que calamos dentro de nós. Pensando melhor, acho que tens mais de padre, já que eu mesma e sem álcool à mistura, me confessei diante de ti em tantas tardes.

Mas não confesso tudo.
Não te falei das viagens a que me levas. À tua infância. Ao teu país. À vida que jamais imaginarias vir a passar por desenhar pessoas numa vila pequena, onde o mar mais azul de todos esperaria por ti, para te ensinar uma lição ou duas sobre andar sob algumas águas. E das rochas que também é preciso pisar para alcançar certas margens. Tão escarpadas e perigosas, plantadas de propósito e com um Propósito, a meio do Trajecto, pedindo que escolhas entre a fé e a inteligência. Também não te falei disso. Que ouvir-te é ter vergonha de todas as vezes que o medo me vence e volto para trás, ao mesmo sítio morno onde Deus dorme porque não o quero acordar. Tu és mais barulhento que eu. Mesmo em silêncio, gritas ao teu. Que te ajude. Que não te deixe. Que não se esqueça de ti, para aqui perdido neste lugar onde a mentira e a maldade têm uma pronúncia diferente, mas também existem.
E depois existe a amizade. O carinho. A preocupação sincera de quem te quer bem. Conseguiste tudo isto. Do lado menos quente de um oceano onde te fizeste, te foste fazendo e te desfizeram. Apenas para te refazeres. Com um pé num andaime e o corpo todo num amor que justificou o frio, a gente parva e as saudades de casa… Até ter deixado de justificar. O rapaz que aqui chegou deu a vez ao homem que ficou. Pergunto-me porquê. Terá sido porque sim? Porque não se desiste assim, sem dar um pedaço da mesma força que usaste para arrancar as tuas raízes e vir? Ou foste só ficando? Sem pensar em grandes porquês porque as contas não deixam tempo para parar e meditar?
Eu medito. Tenho meditado em ti. No porquê de nos termos conhecido. E agora. Não tenho todas as respostas porque estou certa que ainda há muito para me mostrares. Não és um qualquer. Esperei por ti para me marcares. Deixaste-me cheia de azul e cor-de-rosa, para os meus dias cinzentos. Ofereceste-me uma Estrela, para eu olhar quando a terra me cansar. Linda, a coroar o céu exclusivo que trouxeste para morar em mim. Agora não preciso de olhar para cima para me lembrar Infinita porque me pousaste o Firmamento nos braços. Obrigada.

Retribuo-te com este quadro pintado com palavras. Não tenho mais nada para te dar em troca das ideias que agarras e preenches tão bem com as cores, os tons e contrastes da tua própria sensibilidade. Viajo de novo, para a tua sala, onde o talento está para ali espalhado como se o dom de transformar sentimentos num namoro de linhas e traços com sentido, com tanta beleza, fosse vulgar. Normal. Não é. Tu não és normal. Como bem sabes. E sentes.
Acredito até que deves ao peso dessa diferença a tua solidão consciente. Madura. No fim das contas, talvez a anormal seja eu, por tirar de ti lições quando te limitas a viver como podes. E como te permitem.
É claro que este quadro em prosa ficaria incompleto sem uma pincelada no sorriso. Esse sorriso… Não sou a primeira a falar-te dele. Eu sei. Quem sorri como tu sorris já fez sonhar. E se faz escrever, aposto que já fez corar. Tens um sorriso que cheira a Verão. Brilha. Espalha um calor amoroso que manda embora o cansaço, o aborrecimento tolo, aquela palavra feia e injusta. O teu sorriso assopra a Sombra...
Encontrei a melhor forma de te descrever! És um homem-Verão. Convidas a sair da toca, a dar a face ao sol. A descontrair porque amanhã também é dia e tem de ser um de cada vez. Tu entras e segue-te uma claridade que aquece os lugares. As pessoas. Transportas uma espécie de luz que atrai muitos. Assustando outros. É a tua luminosidade que te denuncia, tornando-te visível a todo o tipo de olhos. De olhares. É por isso que o teu nome saltita por aí. No bom e no mau.
Se soubessem…
Se soubessem que o homem-Verão tem tantos Invernos…Talvez te levassem uma manta e se sentassem contigo no sofá a falar sobre a Primavera. Contavam-te histórias sobre ciclos mágicos a que tudo obedece para que tudo se renove. Ou ficavam calados, mas contigo, lado a lado. Emprestavam-te as pernas e acompanhavam-te por um bocado, só até atravessares a parte mais difícil e escura do caminho. Se soubessem dos teus dias gelados, talvez te agasalhassem naquele abraço que não resolve tudo mas faz acreditar que há uma solução.
Eu não sei muito. Sei apenas o suficiente para te dar as minhas mãos, também elas nem sempre quentes, mas sólidas, amigas, estendidas para ti homem-Verão, em qualquer uma das tuas estações.
IdoMind
About you

fevereiro 13, 2012

Ai ai

Pudera eu encostar a minha cabeça à tua e dizer-te, por transmissão de sentimento, que sei quem tu és. Conheço-te desde o início e, se tempo fosse coisa que existisse, poderia dizer que te conheço desde sempre. Sei-o quando me puxas para ti e a rendição acontece. É que o meu corpo também te conhece e recebe-te com a saudade que bem tento disfarçar. Mas ele trai-me e diz-te, contra a minha vontade, como é bom receber-te de volta. Que sejas bem vindo e que é ali o lugar onde podes pousar as malas e sossegar, porque chegaste… Era o que te diria por transmissão de sentimento, se pudesse encostar a minha cabeça à tua, numa destas noites em que não me importasse que desaparecesses e eu tivesse depois de levar uma vida a esquecer-nos...Outra vida.
Por enquanto importo-me e tenho de seguir as regras. Estas mandam que me mostre muito menos frágil do que na verdade sou. Obrigam-me a ser compreensiva quando, quem me dera, pudesse ser só mulher. Dar-me um ataque e pedir-te num beijo, daqueles que falam, que não tenhas medo do amor. De mim. Sou Aquela que não deves temer. Sentei o meu coração nas tuas mãos. Não o vês aí tão quieto, como se estivesse em casa? Não Me vês?

Diante de ti cai-me a roupa. E a espada. Se eu te ferir, serei eu a sangrar. Não te posso fazer mal meu amor, sem me magoar a mim própria. Tenho marcas a lembrar-me disso. Das vezes que te evitei. Que olhei para o lado ou para a multidão apenas para não olhar para ti, sabendo que estavas à espera de me prender com olhos e levar-me. Ou de tentar perceber onde andavas tu dentro de mim. Se ainda por lá andavas. Fiz de conta que o teu espaço estava ocupado. Cheguei a cantarolar, como se não tivesses sido nada, deixado nada e não estivesse a doer-me ver-te tão perto porém mais longe do que nunca. Neguei-te e perdi-te para não me perder. Achava eu.
Mas foi ao contrário. No encontro, encontrei-me. É sem ti que me perco. Distraio-me. Suspendo a procura e a esperança e choro algumas vezes porque chego a acreditar que todos os barcos afundam no mesmo porto. Inevitavelmente. Lamentavelmente. Que há corrente que os vai levando e só vêem que naufragaram quando fome e a sede gritam a uma dispensa vazia. É nisto que penso quando me afasto de ti. Que só há uma espécie de felicidade – a que se finge.

Pudera eu que me lesses nas entrelinhas. É aí que eu estou. É aí que me encontras a amar-te, há tanto que me esqueci há quanto. Tenho-te mentido. Tu não és igual a toda a gente. Não és somente um homem. Mais um. Não és um sábado à noite com nada melhor para fazer. Poderias ser a minha semana inteira. Eu e tu poderíamos ser muitos anos. Se o tempo fosse coisa que existisse. Eu e tu somos o passeio pela Eternidade como a Parte um do outro.

Repara. Até me fazes escrever em forma de letra de música! Dessas populares, que fazem suspirar e se partilham no facebook como recado para alguém que se quer arrecadar. Também fazes isto. Acrescentas-me alegria. Abres-me o sorriso um pouco mais que a medida habitual. Dás-me a vontade que balança a perna para o passo a seguir. Na direcção que a voz diz que é para ir. Sonhos. Dás-me sonhos. Ou motivos para sonhar. Em histórias que resultam. Em pessoas que combinam. No que está escrito…

Devo-nos verdade. És muito importante para mim. Tanto que preciso de me preparar para te ver. Fico a respirar no carro uns minutos chamando por aquela que cumpre as regras e que passa por ti, meio indiferente, meio ausente, muito moderna, mas que se desfaz logo que consegue ficar um bocadinho sozinha. A recompor-me de não ter ido simplesmente encaixar-me nos teus braços e dito “sinto tanto a tua falta”. Porque essa é a verdade. Sinto a tua falta.
Percebes agora? Não posso parar e ficar contigo porque, sempre que te vejo, tenho de correr atrás do meu ritmo cardíaco, que salta muitos batimentos, a querer denunciar que está ali, a bater por ti. Se fico, vais conseguir ler-me a desejar que também fiques. E que não vás.
Talvez um dia, quando não me importar que desapareças, quebre as regras todas, encoste a minha cabeça à tua e te diga num murmúrio sentido “ Amo-te”.
IdoMind
The way we mess things up

janeiro 11, 2012

Cinco Tempos

Nem o ar era o mesmo. Sabia a ar. Dantes não sabia a nada. Era só ar. E estava ali. Por todo o lado. Para respirar e deitar fora. Agora não. Tinha gosto a ar. Eu sentia-o. Entrava por mim adentro anunciando-se. Sem querer, apercebi-me que estava a inspirar mais devagar. A expirar também. Como se num sinal de respeito pela substância invisível que me mantinha viva sem que eu lhe pedisse esse favor. Quando me fui embora não se ligava muito à vida. Era isso, vivia-se. Respirava-se. Não se dispensava grande atenção ao que me parece ser agora reconhecido como um milagre. Desde que se abrandou a respiração, viver ficou mais importante. Com essa noção, muitas outras sofreram alterações. Ainda há pouco me cruzei com duas mulheres que caminhavam lado a lado e pude ouvir uma delas dizer à outra que necessitava de acalmar-se para evitar a produção de veneno no organismo. Pegou-lhe na mão e virou-a para si. Começaram então a respirar ao mesmo ritmo, numa espécie de operação de resgate da respiração alterada de volta à regularidade. Tive de parar e ficar a observar o que deveria ser um procedimento normal em casos de descontrole emocional. Expectável até, já que só eu ficara imóvel e estupefacta, a admirar duas mulheres de mãos dadas no meio da rua a acertar respirações… Não fosse o Palácio Nacional de Mafra, julgava ter-me enganado de planeta, tão diferente que encontro esta nossa Terra. E os seus habitantes. Se pudesse conversar com alguém que me explicasse o que aconteceu enquanto estive ausente…


Vagueio perdida por aí a sentir-me um David Attenborough da espécie humana. Camuflada nas árvores a observar e a registar um meio de vida totalmente novo e desconhecido.
A questão da respiração é o elo original da cadeia de comportamentos na base desta forma de estar que por enquanto ainda não consigo qualificar de tão atordoada que me deixam os ritos praticados espontâneamente a todo o instante. Talvez esse seja um bom adjectivo. Esta sociedade que encontrei é ritualista.

Durante o dia há três períodos nos quais todos param para respirar. Toda a gente sabe que toda a gente está parada a respirar naqueles intervalos de tempo. Ficam assim uns quinze, vinte minutos. Nos primeiros dias tive tanto medo! Não sabia que estavam a fazer e olhava sempre para o céu esperando ver raios hipnóticos verdes florescentes ou uma assembleia de velhinhos de barbas brancas a pairar envoltos numa luz, a falar directamente para as mentes dos humanos. De todas as vezes que paravam eu pensava “ É agora!”  
Mas não. Ficam só parados a respirar ao mesmo tempo. Foi assim que começaram a dar valor à existência. Afinal, bastava ficarem sem ar para que deixassem de existir. A qualidade do ar passou a ser um assunto prioritário então. Grandes medidas foram tomadas face à impossibilidade química de transformar papel e metal em Oxigénio. Se tiver tempo, um dia, conto como foi que o Dia 5.   
Durante a Religação (nome destas paragens colectivas) as pessoas visualizavam o ar a entrar e a passar pelas vias respiratórias até aos pulmões, retinham-no por uns segundos e depois libertavam-no visualizando-o a sair, já como dióxido de carbono e levando consigo pedacinhos de toxinas e outros detritos que andavam por ali, dentro de cada um, a circular. Faziam isto várias vezes. Pausada e conscientemente. Percebiam a sacralidade do processo e sabiam-se eles próprios sagrados. Viam depois o ar a oxigenar todo o corpo, a levar-lhe a energia vital que tudo sustinha. Aproveitavam ainda para agradecer. Cada um sabia das suas bênçãos.
Achei interessante o facto de ninguém dirigir quaisquer pedidos à Entidade a que se Religavam. Dizia-se apenas obrigado.
Os últimos minutos da Religação eram destinados a uma reflexão comum. A cada quinhentos metros havia um dispositivo, o Cálix, onde se colocavam as mãos e se pensava numa intenção especial. Os pensamentos particulares deixados no Cálix eram coligidos e todos os dias era anunciado O Propósito. A parte final das Religações era então dedicada ao Propósito anunciado. Vim a saber mais tarde que, no inicio da nova Era, durante três anos o Propósito não mudou – curar a Terra.
IdoMind
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