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outubro 03, 2009

Blogonovela - 2.º Episódio


Capítulo II
A Origem
Nada haveria de extraordinário neste acontecimento se o velho carvalho não tivesse ficado despido de metade da sua roupagem com uma precisão milimétrica. Um traço invisível dividi-o agora ao meio, separando uma parte totalmente coberta por ramos e folhas, da outra parte atingida pelo raio, que ficara sem o menor vestígio de vida.


Além do insólito penteado da árvore, de referir que desde a morte de José, por coincidência ou não, nunca mais chovera na pequena vila. À notícia de chuvas nas regiões vizinha, os habitantes enchiam-se de esperança, mas as nuvens, se por capricho ou ordens superiores, nunca entenderam, mudavam o seu trajecto e passavam mesmo ao lado sem sequer deixar cair, ainda que tímidas, uma ou outra gota.
Depois do incidente, Benjamim passou a visitar com uma assiduidade religiosa o carvalho e lá ficava sentado durante horas. Nunca falara sobre o sucedido. Cresceu quieta e silenciosamente, tornando-se uma pessoa muito reservada. Mesmo com o seu emprego no Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, a esposa e o filho, Benjamim peregrinava pelo menos uma vez por semana até ao local onde o amigo desaparecera de forma tão reluzente.


Este comportamento transpirava a doença para o Joaquim Belverde, pelo que foi com algum alívio que que vendeu " O Reino" à autarquia e com ele, o rei - o malfadado carvalho. Todavia, quando Benjamim advertiu o pai que nunca mais o veria, nem ao neto se o ”Sustus” desaparecesse do local, Joaquim tratou de envidar todos os esforços no sentido de garantir a sua sobrevivência. Mesmo depois do "Reino" se tornar na lixeira do município.
E assim começou o litígio.

O Sr. Presidente reclamava que não fazia sentido manter a solitária e ancestral árvore no meio de lixo. Joaquim Belverde argumentava que esta fazia parte da história local e deveria ser mantida incólume, atendendo à sua respeitável idade e a todas as vicissitudes porque já passara e estoicamente sobrevivera.
Será que se tinham esquecido de Aurélio Campos?
Ainda sob o choque da comunicação da sua pacata esposa informando-o que ia a Espanha com a vizinha da frente frequentar a Universidade de Belas Artes, o dono da drogaria local, já em avançado estado de embriaguez e depois de ter arrancado todos os caixotes de lixo e caixas de correio entre a Rua do Perdigueiro e a Avenida S. Bernardo, estatelou-se contra o "Sustus" com a Lindinha, a lambreta de estimação na qual dava sempre uma volta quando precisava de pensar na vida.
As palavras da mulher não lhe saíam da cabeça: “Aurélio, sabes que sempre tive habilidade para o desenho e esta cidade abafa a minha criatividade. Quero crescer”.
Aquela maneira de falar atacou-o de forma totalmente inesperada, já que a esposa, com perto de cinquenta anos e a instrução escolar limitada à antiga 3.ª classe, nunca dera indícios de conhecer tão copioso vocabulário. Soube mais tarde que Emília frequentara durante três anos um curso especial promovido Governo nas zonas do país com maior índice de alfabetismo. Esta iniciativa educativa visava incentivar os adultos daquelas regiões a completar o ensino escolar obrigatório, ou seja o 9.º ano de escolaridade, para depois os reencaminhar para cursos especializados e, assim, a par do crescimento pessoal dos habitantes destas zonas, promover-se o crescimento das próprias zonas.

Emília foi um caso exemplar do sucesso da iniciativa. De tal modo que face à sua particular facilidade para a aprendizagem e um talento indesmentível para a pintura, a pedido dos dois responsáveis pelo projecto na freguesia, foi implantado um ano extra para que Emília obtivesse a equivalência ao 12.º ano e a possibilidade de ingresso na faculdade.

Aurélio perdera Emília e com ela o chão firme em que sempre caminhara. Pior, Aurélio soube então que nunca tivera Emília mas apenas a sombra de alguém que ele nunca iria saber quem era. Onde estava ele quando a mulher decidiu “crescer”? Mingando, definhando confortavelmente sentado no sofá, ora ocupado com os dramas de Priscilla e Marco António, o casal-maravilha da novela das 7, ora mergulhado na lista de encomendas que tinha de fazer todas as quartas-feiras.

O despertar fora violento demais para a mente rudimentar de Aurélio que habituada a processar informação simples, entrou em conflito perante o imparável, e por vezes cruel, movimento giratório da Terra.

O volante da Lindinha ficou cravado no carvalho como um selo lacrado numa carta e Aurélio, caído no chão de barriga para cima, não teve tempo de evitar um braço do Sustus que se deixou desprender do tronco em queda livre e só parou na testa do pequeno comerciante. Do acidente resultaram para Aurélio Campos: dois meses de internamento; uma pequena bossa na testa; um tique incontrolável no olho esquerdo em momentos de tensão e perdas inexplicáveis e temporárias de memória, que os seus conterrâneos habilmente souberam manipular.

O incidente servira para reforçar a crença popular no que ficou apelidada “ A Maldição do Carvalho”. Os habitantes da cidade acreditavam que “Sustos” – o infame - tinha uma espécie de vontade própria e que exercia um magnetismo insondável sobre quem estivesse infeliz. Uma antena, em forma de árvore, para captar miséria e desapontamento.

Pois que o caso de Aurélio Campos não fora isolado. Assim nasceu e se frutificou o mito.
to be continued...
IdoMind

setembro 28, 2009

A Extraordinária História de um Lugar Deveras Extraordinário - blogonovela por IdoMind

Capítulo I
Sustus

Foi apenas com os seus tenros 10 anos de idade e no despontar da sua primeira crise existencial, que Benjamim descobriu o conforto de ser deixado sozinho. Era filho único mas tinha uma mãe siamesa. Onde quer que fosse, o que quer que fizesse, lá estava a sua sombra em forma de mulher.

Um dia Benjamim começou a correr. Há medida que se afastava de casa, transformava-se numa corrente de ar empurrada pelo vento. Era o Benjamim Leveza e sentia-se tão bem! Só uma hora depois de ter levantado voo e a uma distância considerável de casa (na medida de quem tem 10 anos de idade, claro), começou a sentir o peso das pernas a pedir terra sólida, de preferência um pedaço de relvado verde e fresco onde pudessem recuperar até a próxima partida.


Ofegante, deu por si num cemitério. Não daqueles em que há mortos, mas um cemitério de bocados de vidas. O último lar dos despojos, que a dado momento e com um determinado objectivo, passaram pela vida de alguém, para terminar ali, num amontoado confuso de plásticos, pedaços dilacerados de roupa e papéis, onde as palavras outrora dignas de registo esvoaçavam agora sujas e perdidas - a lixeira. Melhor dizendo, o espaço onde havia funcionado a lixeira, agora transferida, sob um nome muito mais pomposo, longe de fazer lembrar lixeira, para os confins de uma terra fronteiriça, mais pequena e quase desabitada.


Era ali que Benjamim se refugiava desde então. Fez da ex-lixeira o seu recatado jardim, ainda que o único vestígio de vida vegetal fosse o velho carvalho que, resistindo com inigualável valentia às incessantes e esforçadas tentativas da Junta de Freguesia de o decepar, permanecia, teimosamente, de raízes bem fincadas no solo castanho que o lixo tornara estéril.

A batalha judicial havia sido longa, desgastante e apaixonada. A questão sobre o abate ou não do voluntarioso carvalho acabou por ser ganha por Joaquim Belverde, o proprietário do terreno, que conseguiu convencer o Sr. Presidente da Junta a reconsiderar a sua decisão. Recorreu para o efeito, não uma qualquer artimanha jurídica, mas à sobejamente conhecida superstição do autarca.

Acontece que uma criança estava refém do carvalho.
Numa noite abafada de Verão, libertando a inquietude que o calor parece causar, sobretudo nos mais pequenos, José e Tomás foram até ao seu sítio favorito – “O Reinado”.

Os cerca de dois hectares de terra dourada outrora camuflada por longos e densos braços de feno, eram desde sempre, ou pelo menos desde que se lembravam de existir, a segunda casa dos dois amigos. O lugar que era só deles, onde engendravam os esquemas que punham em acção no dia seguinte na escola, onde trocavam as experiências das suas curtas, mas já riquíssimas, vidas e partilhavam as parvoíces que acreditavam ser as verdades mais absolutas sobre o funcionamento do universo. Claro que como qualquer esconderijo digno desse nome, foi também no “Reinado” que deram os primeiros bafos nos cigarros corajosamente roubados ao temível talhante da rua onde moravam.

José subiu então à árvore para verificar se o perímetro estava livre. Sem que ninguém previsse, uma forte chuvada fustigou a vila e ao sinal do primeiro relâmpago Tomás pediu-lhe que descesse, o que este recusou respondendo-lhe:
- “ A chuva não me molha e os raios não me podem atingir aqui. Já te esqueceste, esta é a nossa casa Tomás e os ramos do “Sustus” são o nosso telhado. "
Assim haviam baptizado o carvalho depois de terem afugentado um pastor, que ao invés da sombra da árvore, encontrou cerca de uma dezena de esquelos de vaca ao redor do tronco. Escondido num dos oríficios do Sustos estava um gravador, que os amigos accionaram quando no horizonte viram o pastor a aproximar-se. E foi como se um coro de seres bestiais tivesse emergido da terra gritanto " Claro que estamos loucas. Parem de nos comeeeeer!". O pastor voltou a desaparecer, agora mais rápido, do horizonte.

Quando voltou mais tarde, desta vez acompanhado, não havia vestígios das ossadas, nem ecos das vozes.
As últimas notícias que tiveram, davam conta que tinha aberto uma ervanária na cidade.

A chuva engrossava e o céu vestira-se de luto, mas o jovem José, que ainda se via infinito, empoleirado no Sustos assistia do seu camarote ao espéctaculo da natureza, respondendo ao seu amigo:

" - Aqui nada nos atinge. Nem mesmo os gritos de Deus. E riu.”
Neste instante, um trovão ensurdecedor acompanhado de uma luz brilhante que clareou toda a noite com uma intensidade invulgar, fulminou José, que morreu a sorrir e a acreditar.

to be continued...

IdoMind

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