agosto 13, 2012

Quem Conta um Conto



- Eu era a excepção. Quando os meus peitos começaram a ficar atrevidos e as minhas coxas impossíveis de ignorar, dos trezentos mil pensamentos ondulantes que por dia se me espraiavam na cabeça, nenhum deles era acerca de casar, de ter um casalinho de filhos e um emprego numa repartição pública ou numa empresa de renome nos circuitos comerciais. Nada disso.
Nada disso, não como uma manifestação simplória de oposição só pela oposição. Nada disso, porque isso era sinónimo dos silêncios da minha mãe. Daqueles que velavam uma espécie de raiva metabólica que em alguns dias a transformava numa mulher qualquer que levava a minha mãe para longe e ficava a fazer as suas vezes. Nos olhos daquela estranha ardiam dois fogos feitos de sombra e de veneno. Ora, a minha mãe tinha olhos aveludados. Com umas cortinas opacas. Só se abriam quando o meu irmão mais velho lhe entrava pela alma adentro pois nunca precisou de autorização para encharcar de alegria o dia de alguém, nem os da nossa mãe. Penso que foi a única forma de amor que ela conheceu. Quando o meu irmão não estava, as cortinas dos olhos aveludados da minha mãe estavam corridas. Depois aparecia esta outra pessoa a quem a minha mãe parecia ter arrendado um bocado de espaço dentro de si. Eu temia esta. Era como certos animais com pêlo sedoso em tons de malícia paciente, esperando atrás de arbustos o momento perfeito do ataque mortífero para voltarem a desaparecer na mesma penumbra tenebrosa que os vomitou.

No primeiro, e muito insuspeito, domingo do mês de Maio, testemunhei um ataque feroz da pessoa-animal que levava a minha mãe de vez em quando. Estávamos na cozinha, nós as mulheres, falando de coisas de mulheres. A minha mãe não falava muito e sobre coisas de mulheres não falava nada, cumpria o seu destino e executava-as. Apenas. Com os olhos a arder em sombra e veneno, claro.
Queixava-se a minha tia, casada com o irmão do meu pai, das manias do marido, dos roncos do marido, do detestável hábito de obrigar toda a família a juntar-se ao pequeno-almoço antes do início “das glórias de um novo dia”- disse parafraseando-o – no mais agoniante desprezo pelo matutino ritual migratório, instituído pelo doce e, inegavelmente, único tio Carlos. Na casa do tio Carlos tomava-se o pequeno-almoço às sete horas da manhã e terminava-se às oito menos quinze. E fora sempre assim.
- Estou tão saturada! – soltou com enfado, virando-se para a janela com o mesmo drama corporal ensaiado e encenado no teatro baptizado de casamento em cena há quinze anos.
Sem erguer a cabeça do forno onde o almoço se desmanchava em odor pecaminoso, a mulher, que às vezes era a minha mãe, fez-se águia e num voo rasteiro sobre o espírito da minha tia, cravou-lhe as unhas sem piedade:
- Suponho que ainda assim te cansou mais viver em humildade que viver sem virtude. Afinal é uma troca sensata, não é? A honra por lençóis de cetim. O mesmo marido ignóbil (e abastado) que tanto te cansa é o mesmo que te abriu as portas depois de o teres deixado para ires conhecer de forma mais…intima, os meandros da lei com o Dr. Teles. Não te parece, francamente, que devias estar caladinha? Na minha casa, pelo menos, agradeço que o faças.

O silêncio tem peso e quem disser o contrário é porque não sabe nada de pessoas-animais combatendo-se sem intervalos para que não pereça nem o homem, nem a besta. Naquele domingo, na cozinha da casa dos meus pais, eu podia ter cortado um bocado de silêncio depois do ataque da mulher- águia e guardado numa caixa só para provar que as palavras têm massa. E a sua ausência também.



Esta era a minha mãe.
Um ser indecifrável em estado puro de qualquer coisa que assustava e atraía simultaneamente. Misteriosa, com aquele quê de inacessibilidade provocador. A presença distante da minha mãe suscitava o desejo quase masoquista de tentar aceder às suas riquezas interiores ocultas, que pontual e brevemente saiam para arejar. Apetecia subir as escadas invisíveis que levavam até ela e espreitar para ver o que lá estava a circular-lhe pelo sangue dissimulado de frio. A minha mãe era terrivelmente fascinante na seriedade fugidia e no rigor irresistivelmente fora de moda a pedir que o testassem. Em segredo admirava-a e cresci a querer ser sua cópia. Eu queria ser Intocável. Como ela. Ostentar o mistério a olho nu sem porém permitir jamais que o desvendassem. O “estou aqui mas nunca na verdade me verás, nunca me alcançarás” chamariz dos intrépidos, dos ocos, dos mal-tratados e da eterna incompletude.

Foi já tarde que vim a entender que secretismo e charme são outros nomes para manipulação. Que funcionam. Mas sobre isso podemos falar noutra altura.

Estava a dizer-te que eu era a excepção. Eu não ansiava segurança. Pelo contrário, ficava insegura com as implacáveis exigências da segurança. Com o que era necessário entregar para garanti-la. A segurança era fraudulenta, não se ganhava, comprava-se. Havia gente por todo o lado a vender-se para a obter. Eu estava disposta a pagar qualquer preço, sim, mas pela minha liberdade. Ainda que insegura, inconstante, incompreendida. Tinha era de ser livre. Fiz disto a minha causa e, sem desatar a correr por campos de batalha afora de bandeira hasteada, acabou por ser como eu quis e como fiz para que fosse. A minha emancipação foi reputada de desobediência e durante mais de dois anos após ter saído de casa dos meus pais, estes não quiseram ter o mínimo contacto comigo. Entenda-se, o meu pai proibiu e a minha mãe que, com os olhos em fogueiras de sombra e muitos venenos, cumpriu as ordens dadas.
Não deixa de ser curioso que tanto e nada mudou. Estes anos todos depois, este progresso todo depois e tantos electrodoméstios, ginásios e formas alternativas de estar depois, ainda haja pessoas à venda por segurança. Homens e mulheres. Os homens vendem-se a homens e as mulheres vendem-se a tudo. Vejo a minha mãe em tantas… Na mesma resignação efervescente. Corrosiva. Já dei por mim a pensar se não demos a volta toda para voltar ao princípio e regressarmos a casa. Ao lar. Ao nosso Gral vazio esperando que lhe vertamos valores, amor...tempo. 
Ser mulher não é para todos. E não é sempre ser gente.



Lembrou-se que eu estava ali e constatou com agrado que recebi com serenidade e respeito o que acabara de professar.  
- Fico contente que não te tenham chocado as minhas afirmações. Hoje em dia é praticamente ofensivo sustentar este tipo de ideologia, como se ser apenas mulher fosse redutor. Eu não acho que seja e tu, pelos vistos, também não. Vejo cada mulher como o bailado simbiótico da Imperatriz com a Alta Sacerdotisa, alterando o avental com o vestido preto curto, no cumprimento honroso dos nossos votos eternos e isso é algo magnifico...
Perante a minha surpresa, inclinou-se e fixando-me nos olhos com ternura (que aposto nunca viu nos olhos da sua mãe) disse-me que só estava a permitir-me que a Visse. Que aproveitasse porque ninguém se deixa Ver e que é por essa razão que temos de voltar ao mesmo sítio tantas vezes. Tão magoados.

Se aquela mulher fosse um homem, ter-me-ia apaixonado por ela fulminantemente naquele instante, pedindo-lhe que ficasse comigo para sempre e me ensinasse a Ver.


- Cortei o cordão com as marcas que me fizeram a cópia e tenho andado a lapidar-me noutra obra. Original. Autêntica. Nunca vou ser perfeita para todos portanto vou-me fazendo gira para mim. Deixei de me querer misteriosa para me ir encontrando completa. Hoje ninguém precisa de me adivinhar e, casualmente, falhar porque optei por ser honesta. O mais que consigo e sei. A honestidade às vezes não é assim tão honesta. Ou talvez seja apenas ignorante…Uma aluna permanente.
Acho que o trabalho que nos compete é só mesmo este, dizer quem Somos. Mudar se deixamos de ser aquilo e ir sendo depois o corpo confortável com a alma a que dá boleia. Não é nada de especial, de grandioso, de televisivo. É um trabalho privado, diário, árduo, consciente, de nos perguntarmos “ Quem sou eu e este sou mesmo eu?” Ir atrás, à frente, a todos os lados para ver em que terra de alguém trouxéssemos o que não era nosso. Vermo-nos livres dessas cargas e reaprender a dar passos sem muletas. Nem desculpas…

Decidir num dia qualquer ressuscitar sem morrer.

As mágoas são espertas. Sabem esconder-se e mudam de nome. É difícil descobri-las. Curá-las então…Há que ter mesmo muita vontade de fazer o melhor possível as pequenas missões de todos os dias para que a vida se revele naquilo que é – um processo. Contínuo. Sequencial.
Infalivelmente justo. 
Demorou-me anos, algumas relações, uma solidão que não te consigo nem qualificar, nem quantificar tal foi o seu tamanho, até me ter encontrado pequenina, embrulhada, cheia de nódoas negras num canto escuro do meu estômago. Tem demorado outros tantos a sair de lá e revelar à luz do dia que não sou diferente de ninguém. Só mais uma pessoa armada em arquitecta com um único projecto em mãos - Eu mesma. Como é que me faço? Com um toque aqui, outro toque ali, conforme os toques que me vão dando. Estou toda retocada
Hoje sei, nunca irrepreensivelmente acabada.

O meu amor por ela deu uma explosão que deve ter curado, feito crescer ou parido alguma coisa algures neste universo infinito de Deus feito de linhas cruzadas.
Ela reparou.
- Ainda não me calei! Hoje tenho a língua destravada! Obrigado. Obrigado por este café na taberna mais ranhosa cá do sítio! Não te vou pedir desculpa pelo monólogo esquizofrénico. Estive a rezar contigo este tempo todo e a prece foi ouvida. Obrigado, minha querida, por esta revisão da matéria dada.
Rimos. Rimos sem ruído. Despedimo-nos sem leveza. 
A vida também tinha massa. Para ser trabalhada. Como quiséssemos.
A liberdade era possível. Mas será que a queríamos mesmo?

IdoMind
About… I forgot what

julho 25, 2012

Nós importamos



- Estás tão calada. O que achas? Duvido que não tenhas opinião sobre o tema. Isto deve mexer com essas tuas convicções, que tão fogosamente defendes – desafiou com o ar- de- alfinete, como que a querer uma reacção, uma qualquer, mas uma reacção.
Já havia, é claro, pensado sobre o assunto. Ele tinha razão. Muitas e muitas vezes. Todas as conclusões a que chegara, travaram à porta dos domínios do inexplicável. Aceitara-o. Há campos onde crescem mistérios conforme amadurece a fé de cada um e a vontade, também ela nem sempre explicável, de perguntar porque temos pernas e não patas, jardins-de-infância e não campos relvados de perder de vista. Porque é que temos culpa a tingir-nos o instinto. Quem foi afinal que deu à luz, dentro de nós, aos sentimentos? Já vêm agarrados a uma célula rebelde qualquer ou são plantados a cada colherada de sopa, às letras que se aprendem a juntar e aos saltos altos que se calçam? Onde e quando nos separámos do resto da criação e decidimos desenvolver uma consciência de quem somos. Como foi que isto que isto aconteceu e, talvez mais importante, para quê?

Nunca chegou a saber bem se dormir pouco era um poder, como aqueles dos super-heróis, que os tornam pessoas melhores e ao serviço dos outros ou se era uma doença, dessas esquisitas que criam um sentido de divisão tão grande entre o doente e o resto do mundo, que à medida que a doença avança, fica mais difícil regressar ao sítio onde não estão as coisas selvagens.

Porque ainda precisava de comer e pagar mensalmente ao banco a concha na qual se recolhia para filosofar consigo mesma, guardava para si a maior parte das questões, tocando, nalgumas noites mais compridas, a compreensão de que é sabedoria e não elitismo preservar em arcas fechadas alguns conhecimentos. Seria cobardia disfarçada? Medo camuflado?
É que na falsa Era da Liberdade, a única que existe é a de ser igual a toda a gente. Há uma normalidade padrão que acusa a diferença, como um alarme sonoro, muito ruidoso, que só se cala quando todos decidirem como é cada um deve viver a sua experiência única. Tão pessoal. Todos os dias ocorrem atropelamentos e, quer por acção, quer por omissão, os registos criminais da humanidade estão manchados pelo desrespeito pelo próximo. É assim, a correr em círculos sobrepostos que nunca se sabe onde se está, o que se quer e se esquece porque viemos até cá. A atenção ainda fica presa em quem pergunta e não na própria questão, em quem afirma e não na afirmação. 

Não. Não era cobardia. Não era medo. Apenas espírito prático. Desenvolvera a sensibilidade de falar menos e ouvir mais para discernir quando iria honrar a magia das palavras ou só usá-las em benefício próprio.Como acontecia naquele momento. 

Falava-se de suicídio. E falava-se de suicídio como se falava das últimas medidas governamentais. Talvez fossem similares, de facto… A doutrina pós-farto jantar e “vamos lá falar de qualquer coisa e servir como sobremesa uma solução instantânea para os problemas mundiais” dividia-se entre os que achavam um suicida alguém muito corajoso e os que quase rezavam para que a ressurreição fosse verdade só para esse medroso (ou merdoso, não entendera bem) nascesse de novo para ser castigado por tão vil acto.
Preferia ter ficado calada, mas só o iria conseguir depois falar porque pararam à espera da sua opinião.

- Não me compete julgar as escolhas dos outros, apenas reflectir nas minhas próprias.
Não acho que alguém acorde, se espreguice, levante da cama, olhe pela janela e pense para si:
- “ Que belo dia para me matar.”

Excepto casos patológicos, acredito que o suicídio é o culminar de um estado de profundo desespero interior. E se estão numa de ir mesmo, mesmo ao fundo da questão, é, sem rodeios,  a solidão que conduz ao frasco de veneno, ao gatilho nervoso, à corda que faz o nó.
Por isso, o que quer que pensem do suicida é o que devem pensar de vós mesmos. Em que medida é cobarde ou corajoso viver com olhos tão pregados no umbigo que não se vê o que está à frente. Ou não se quer ver… Essas pessoas dão sinais.
O sentimento de separação, de rejeição, de impotência ou qualquer outro que a tenha levado a considerar pôr termo à própria vida como a única alternativa, é responsabilidade de todos. Do peso que descarregamos nos outros, das expectativas, quase cruéis, com que os investimos. Da falta de amor, de interesse. Da ausência da palavra simpática, do gesto carinhoso, do “parabéns, excelente trabalho” que fica por dizer, do “ vem até lá a casa” que nunca arranja tempo para ser verbalizado. Ou realmente desejado.

Juro, não estou a criticar. Eu já tive vergonha por estar tão distraída fora de mim, a visitar motivações alheias, que me esqueci de perguntar se eles próprios precisavam de alguma coisa. Companhia, talvez. Às vezes é quanto basta…Por isso, quem sou eu para qualificar uma decisão tão atroz em termos de sofrimento pessoal, como desistir de viver…?

E já agora, quem somos nós para obrigar alguém a continuar? Pior, a condená-lo por isso.
A nossa obrigação termina na amizade, na mão estendida e nos ouvidos disponíveis. O resto não é connosco. É respeito.

E sabem que mais, o suicídio não aparece adulto. É semeado, é nutrido, é vigiado. É uma ideia que cresce e um dia, como uma erva daninha, o suicídio matou a vida dentro da gente. Prefiro ter boas ideias, boas conversas, boas atitudes. É assim que mantemos a nossa plantação sadia.
Vamos por isso brindar à vida, aos laços que não nos deixam cair, ao silêncio onde falam os anjos dos outros e à coragem… à coragem de assumir que conseguimos mais que pagar impostos e fazer reciclagem. E fazê-lo.

IdoMind  
About true honesty

julho 13, 2012

Danças?


Apesar de saber que já deveria estar a caminho, o corpo discordava recusando-se ao mais pequeno movimento para iniciar a marcha. Ficou um bom quarto de hora sentada no carro com as mãos no volante. Viu o casal da frente, na ginástica matinal do costume, a arrumar os três filhos dentro do valente Renault Clio, há muito a merecer um enterro digno.
No jardim ao lado, o Sr. Vítor resmungava do mundo, sobre o mundo, para todo o mundo. Nem ela, nos cinco anos a que ali morava, tinha conseguido largar uma singela gota de mel na disposição daquele viúvo, que ao contrário do Clio do casal da frente, já se havia enterrado vivo à nascença. 
Ainda conheceu a esposa, a Dona Laura, e muitas vezes se perguntou se seriam do tempo dos casamentos arranjados pois estavam um para o outro como Vénus estava para Plutão. Sem ser inconveniente, perguntara-lhe certa vez como fazia para não se deixar atingir pelo mau-humor do marido. Respondera a rir que a felicidade se cozinha com a dose certa de cegueira e falta de audição. E que o sexo era razoável…As gargalhadas explodiram, é claro. A Dona Laura era uma pessoa-primavera. Agradável, bonita, com uma frescura que preenchia cada uma das suas muitas rugas com flores e com sol. Exalava o ar puro de quem se basta a si mesmo para encontrar todos os bons motivos para estar vivo. Gostava-se de estar perto da Dona Laura. Partira para florir o céu há uns meses, após uma gripe mal curada que se transformou noutra coisa e no pretexto que foi preciso para justificar a missão cumprida e a necessidade de ir cumprir outra.
Estava tão atrasada!!
Regressou à Terra e percebeu que tinha mesmo de tomar uma decisão. Agora! Ou a decisão seria tomada de qualquer maneira porque a vida tem horários para cumprir. 


Se por um lado lhe agradava a ideia de pular para dentro do sonho, por outro lado os sonhos têm isso de desfechos imprevisíveis. Têm desvios esquisitos para terras nunca vistas. Personagens que não conhecemos de lado nenhum que nos dão conselhos, enviam mensagens estapafúrdias e, às vezes, só estão ali, connosco, como se afinal nos conhecessem desde o tempo das fraldas. Ou mesmo antes. Do tempo que não se mede pelo relógio porque não tem uma hora a partir da qual se contam todas as outras horas. 
Os sonhos são perigosos. Como portas entreabertas daquela divisão que nos advertiram para não abrir e não espreitar…

Ir para Moçambique como voluntária era o sonho a pedir o pulo. A proposta para ir em Setembro era a porta aberta. Escancarada. Mas ela ainda estava na parte da advertência.
Sempre fora obediente e pouco dada a meter os dedos nas tomadas eléctricas para descobrir se davam esticões. Comedida e prudente, grande parte do conhecimento adquirido proviera mais da observação, do que da experiência directa. Será razoável dizer que a sua personalidade era produto da soma de 70% de ver e aprender e 30% de fazer e saber. Sim, também gostava de cálculos. Contas com resultados positivos. Encontrava paz em operações matemáticas inteligíveis e cristalinas. Aborrecidas para muitos talvez, mas para ela absolutamente necessárias ao seu sono e à sua saúde física e mental. Calculou a idade com que estava, os preços das suas responsabilidades, o já conseguido e o a conseguir. Calculou o a perder... 
Porém, a regra dos três simples não estava a resultar. Nem qualquer outra regra. Percebeu mais tarde porquê. A fé não entrava na equação. A fé era a equação.  
“Mas porquê é que eu fui àquele jantar - chegou a perguntar-se num misto de arrependimento e fatalismo bom – Se tivesse ficado quietinha em casa a ver os Simpsons ou ido à praia, nada disto estava a acontecer”.
Mas não tinha ficado e não tinha ido. O jantar acontecera e o convite do Presidente da Associação de Ajuda Humanitária que promovera o evento, para ser voluntária em Moçambique a partir de Setembro, também.
A ponte do mundo dos sonhos para o mundo do Homem tinha sido estendida e cabia-lhe agora escolher em que margem continuar a contar as horas do relógio que não marca o tempo.
A indecisão arrasava com ela. Não era o aceitar ou o recusar que a consumia. Isso era simples. Penoso era o calvário até pedir que lhe marcassem a viagem ou antes informar  que agradecia muito, mas que ficava para uma próxima oportunidade. 
Todo aquele processo de prós e contras, de “o que tens a perder” e o “estás doida?” era muito desgastante. Já tinha passado por aquilo uma vez - uma decisão que não era uma simples decisão, mas uma Senhora Decisão. Com letra grande. A negrito!

“Se estás à espera que te dê uma palmada nas costas e diga que deves, sem qualquer relutância, arriscar, não vieste procurar a pessoa mais indicada. Antes de escolher a estrada pergunta-te porque precisas da viagem. É tudo o que tenho a dizer-te. Querida, a resposta está no motivo e é o motivo que te vai levar a fazer a verdadeira pergunta – quero fazer isto por este motivo?

Deu à chave, engatou a primeira e arrancou com um sorriso infantil cinzelado na alma. Agradeceu em pensamento àquela amiga e àquelas palavras entornadas anos antes numa esperança, para hoje regarem providencialmente uma outra.
Queria ir por Aquele motivo. Queria muito.

IdoMind
About where we should be

julho 10, 2012

Saltos de Fé

Para onde pensavas que ias? Pára, para que a lembrança de que o mundo é redondo te apanhe e te faça rir. Em que canto julgaste ser possível observar a vida passar, sem dar por ti, ali, sentado e sozinho sem ter vontade de inventar uma nova viagem e um novo destino?

O que fizemos este tempo todo? Andámos às voltas. Com as mesmas coisas. As mesmas pessoas mas com outros rostos. As mesmas dores nos mesmos sítios. As mesmas perguntas feitas de muitas formas diferentes. A mesma resposta. Andaste a fazer o mesmo que eu – atrás do teu Lugar. Aquele Lugar. Com sombra e água perto. Com os pássaros a falar sobre a felicidade na língua que os pássaros falam. O Lugar onde se entra nú e assim se fica porque não é preciso esconder nada. Nem há frio. Ou vergonha. Basta chegar. Querer ficar. E depois basta ser.

Andei, como tu, a aprender que o Lugar não existe. Constrói-se. De sins e de nãos e de talvezes. De cedências e desistências. De adeus que não se dizem, executam-se. Fria, dolorosamente. Ou não. De sacríficos afinal só estúpidos, desnecessários e prorrogados para lá do prazo razoável a entender que não há dignidade no martírio. E que é só isso que a Vida espera de nós. Que sejamos dignos dela, vivendo-a com a mesma Graça com que nos é oferecida.
Esta foi a lição mais complexa. E tive mesmo de parar. A pergunta era demasiado séria para ser feita em andamento ou a correr. Estava a questionar o meu direito à Liberdade.


Quando parei, percebi que Deus era ridículo. Despejei Deus do meu Lugar e deixei o espaço aberto e limpo para O que viria amorosamente pedir-me apenas que fosse feliz. O que não fica contente se eu não estou. Que não me pede feridas em troca de uma absolvição que só Ele precisa, já que sou Sua criação. O que nunca ouviu falar doutro pecado que não o de desconhecer o Amor. Ou de não o levar connosco e apregoá-lo em toda a parte, a todas as nossas partes. 
A minha primeira volta aconteceu com este divórcio do Deus dos outros para descobrir o meu próprio.
Não te iludas. Não ficou mais fácil. As decisões estavam agora por minha conta e deixou de haver recompensas para depois da morte, só colheitas em vida. Como sou regrada e ainda preciso de um fio que me guie até onde a luz se acende, segui a Lei que manda amar os outros como a mim mesma e, pelo menos tentar, não lhes fazer o que não gostaria que me fizessem. 


Não tem corrido sempre sempre bem, mas sei que tem sido sempre para meu bem. Como é que sei? Porque me sinto bem. Bem melhor. E porque faço o Bem, não por medo, porque tem de ser ou sei lá porquê. Faço o Bem porque me faz bem.
Sei, porque escrevo com a mão solta sobre a leveza que me vai no coração. Na alma. Perdi peso nestas minhas voltas e até a alma ficou em forma. Estamos as duas muito bem. Falamos e tudo. Às vezes até a percebo. Fazer o que me sugere, o que me berra, por vezes, isso é outra questão.... Ainda tenho dietas a fazer e regimes a seguir. Depois do Verão… Quando começar outra volta. 
Eu e a minha alminha, juntas no regresso às aulas para um ano cheio de lições para o Grande Livro da minha humilde, bonita e cada vez mais abençoada Existência.


O que fizemos este tempo todo? Dissemos adeus. Esgotámos prazos. Chegámos a conclusões quase clarividentes enquanto conduzíamos. E abanámos a cabeça no “como é que eu fui capaz de achar que aquilo era o melhor” um pouco incrédulos connosco mesmos e com os limites que se foram alargando sem darmos conta ,até que os limites deram conta de nós…
Andámos a mover acções de despejos ao Deus de toda a gente e de ninguém.
Estivemos a arranjar espaço, a criar cores, a chamar os passarinhos.
Estivemos a construir o Nosso Lugar.

IdoMind
About...not minding

junho 14, 2012

Não Se desistam

Hoje queria ser capaz de escrever uma coisa que tocasse num sítio tão escondido dentro de ti que fosse mais ou menos obrigatório chorares. De emoção. Lágrimas boas que te lembrassem, quem sabe, ao que vieste. E porque vim contigo. Era o que gostava de conseguir hoje, tocar-te. Ir onde só uma Parte está autorizada a ir quando a Outra pára na Ilusão de que chegou. Quando confunde o Fim, que nem sequer é feliz, com um intervalo. Só um pequeno intervalo. Mais um. De tantos que se fazem porque a certa altura, depois de certos erros, dói mais falhar do que fazer de conta que acertámos. E então faz-se de conta. É aí que estou. No limiar da tua desistência a pedir-te que venhas. Que voes para aqui, para casa. Que, por favor, não te esqueças de mim. Do acordado. Tenho saudades tuas e ao ninho que fui ajeitando no meio do meu peito, falta a tua metade. 
Vem…


Espero por ti no lugar do costume. Acendi a fogueira para estar quentinho quando chegares. Espero por ti numa destas manhãs a acordar-me com um beijo e um pedido de desculpas pela demora. Espero por ti para te dizer com alívio que não faz mal e que ainda bem que chegaste. Vou abraçar-te até te sentir real e soltar-te só quanto te ouvir a rir enquanto me prometes que no dia seguinte e no outro e no outro ainda vais estar ali, comigo, debaixo da nossa árvore à beira do rio.
Descansaremos finalmente. Arrumados um no outro perceberemos que seria impossível cabermos noutro lado. Noutro alguém. Foi por isso que apesar de todo o esforço, da vontade sincera de fazer com que resultasse e de alguma dose de preces quase mordidas, nunca na verdade coubemos. Nem ninguém teve a medida exacta do nosso espaço por ocupar. É que os nossos recortes são gémeos. Ímpares. Filhos das mesmas despedidas que nos separam à nascença para que nos procurássemos. Nos reconhecêssemos e fosse cumprida em nós a palavra do profeta que anuncia que o que Deus juntou nada pode separar. Nada. Nem o tempo. Os outros. A vida que se complica. Que ajudamos a complicar. Tudo servirá esse momento celeste da fusão destes dois nossos corpos em nome da unidade do espírito. Teremos o céu inteiro a celebrar connosco porque conseguimos. E as estrelas irão descer sobre nós para nos dizer obrigado por as termos seguido.
Não te vou mentir. Tenho receio que não estejas desenvencilhado do mundo quando nos avistarmos. Que andes distraído a ser marido. Pai, sei lá. Responsável Respeitável. Homem sério a acreditar que o que existe é o que se vê. Que isso dos sonhos é para as mulheres e os tolos. E se não te apetecer abandonar o que conheces para te entregares a uma desconhecida, com o mesmo tipo de fé guardada para os amores incondicionais, intemporais. Podes ignorar-me. Permanecer igual e seguro longe das nuvens para onde aponto. Podes recusar o meu convite…
Também receio por mim. Daquilo que te digo debaixo da coberta e que não entendo nem me lembro. Depois disso não te vejo mais. Temo partir. De novo. Ir embora sem me importar com o vazio impreenchível que sei que vai ficar. Eu já não sei ser feliz e posso não querer o presente que tens para mim. Se estás a ler isto, guarda. Pode chegar a altura de seres tu a pedir-me para não me esquecer de ti. Do acordado. Não me deixes ir assim. Segura-me contra ti. Cola-me ao teu coração e diz-me para não ir. Com os teus braços fundidos à minha volta, relembra-me onde pertenço. Diz-me baixinho que estás cansado de sentir a minha falta e de me procurar por aí. De sonhares comigo à tua espera algures… do toque, do cheiro, de todos os meus centímetros que já conheces e que darias tudo para contar mais uma vez.

Se estás a ler isto, e se és tu, talvez tenha conseguido tocar-te.
Espera por mim…Numa destas voltas havemos de nos encontrar porque a força que nos empurra é a mesma que nos junta.
Guarda isto para lermos os dois, enrolados um no outro, no sítio do costume iluminado pela fogueira que não vou deixar que se apague.
IdoMind
about happy endings and happy lives

maio 21, 2012

Lê-me




Faz de conta que é proibido pedir.
Como um feitiço lançado à voz,
Um travão à queixa a querer fugir
Diante da lâmina veloz,
colada na língua feroz,
Pronta para ferir.
E cortar-me toda, antes de partir.

Faz de conta que não aprendi a chorar,
Se sentia fome, sede ou uma dor.
E que ainda mal sabia andar,
Quando o colo se fez vapor
Ensinando-me o valor
da arte de largar
o que quer ir e o que não é para ficar.

Faz de conta que não cresci mal.
E num desses sítios onde se sente,
Sem pecado, peso ou moral.
Livre e diferente,
No meio da gente,
Cheia de medo afinal
Do que veio e do que se faz desigual.

Não faças de conta…

E não me faças envelhecer
Muda, atrás desta montanha.
Atravessa-a para me dizer:
- Anda daí estranha,
completar A campanha
Desta vez não te vou perder
Outra vez, sem te ter...

IdoMind
about The Box

abril 17, 2012

Parágrafo

Havia um homem que podia tudo. O que queria obtinha. O que sonhava concretizava. O que pedia aparecia-lhe quase do ar. Não tinha explicação para o facto, só uma vida desobstruída por pura sorte. É claro que não equacionava o seu êxito nestes termos. Limitava-se a fazer como o resto das pessoas e levantava-se, trabalhava, comia, dormia… No final do dia o resultado era invariável: perfeito.

Mas este homem que podia tudo tinha vergonha da sua dávida. Não exibia o menor orgulho em obter sem esforço o que outros perdiam noites a preparar, que derretiam velas a suplicar. Ele nunca tinha acendido nenhuma e no entanto, se essa fosse a moeda de troca dos desejos, era como se o pavio da vela acesa quando nasceu, fosse inapagável. Encontrou na mediocridade a forma de compensar a indignidade da sua boa fortuna. Sim, sentia-se indigno. O mínimo que podia fazer era minimizar-se. Reduzir as suas acções às indispensáveis a manter o frágil equilíbrio entre ser ignorado e temido. Aprendera a fazer-se ignorar. Não era difícil, sobretudo quando havia fila para os lugares dos pódios premiados a medalhas de uma proeminência qualquer e regalias salariais. Cedia o direito à participação na corrida sempre que conseguia, sem levantar suspeitas, garantir a imagem que criara a partir da cadeira. Para si era justo que assim fosse. Deixar os outros correr, perder as suas noites e acender as suas velas. A pouca tranquilidade que tinha era esta - poder não fazer nada por si.

Entre as alternativas disponíveis escolhia a mais baixinha, como aconteceu com o gabinete. Podia ter ficado com o maior ao fundo do corredor mas pediu o que asfixiava junto ao elevador. Perante a surpresa, expectável, dos colaboradores rapidamente inventou uma dor crónica nos joelhos que a deslocação diária até ao gabinete mais afastado iria agravar. Mas até punir-se parecia uma tarefa impossível já que o seu gesto foi considerado de tamanha modéstia que obteve a simpatia generalizada do escritório, assegurando-lhe café fresco pela manhã, uma casa de banho transformada em privativa, como compensação, e uma citação fixada atrás da porta, com um penso rápido colorido e diferente todos os dias, por uma admiradora secreta. Assinava LL.

Os seus superiores, orientados por princípios diferentes, consideravam a humildade no caso do homem que podia tudo, um desperdício. Recusara o cargo que lhe foi proposto e no qual teria feito diferença, atenta a capacidade invulgar de casar com equidade interesses divergentes, obtendo acordos tão originais quanto surpreendentes. Depois dos primeiros acordos, que conseguira resolver com duas singelas reuniões, os seus chefes deixaram de tentar perceber a estratégia comercial, ou outra, ou sequer se havia estratégia, conducente à formalização das parcerias que se iam somando, passando a atribuir-lhe apenas as situações mais delicadas. Deixaram também de tentar perceber porque preferia manter-se na penumbra dos triunfos nos quais o seu contributo havia sido determinante. 

Chegaram a recorrer a informação privilegiada e sigilosa do homem que podia tudo, vasculhando-lhe secreta e prudentemente o passado. Assim como o registo criminal, já que andar fugido da justiça afigurava-se a razão plausível para tanta discrição. Não encontraram nada além de um percurso tão normal que chegou a deprimir o sócio maioritário, fã de teorias da conspiração rocambolescas, alimentadas por personagens de fazer inveja ao óbvio e ganancioso mordomo, afinal ressentido filho bastardo, ou a míuda gorda da terceira classe entretanto crescida, magra e avinagrada pelo ódio (ou pelas dietas).

Nada. Nada de excepcional Nada de anormal. Nada de ilegal. Um tédio. O homem que podia tudo permaneceu um mistério.Talvez fosse só tímido. Não lhes ocorreu, por ser tão fantástico como as fadas dos dentes, e igualmente ingénuo, que há pessoas sem ambição. Pessoas numa relação pacata e estável com o mediano desde que suficiente. A quem não desassossega e não seduz o cargo mais cobiçado, holofotes sobre a cabeça e toda a espécie de excentricidades que a perda de respeito pelo dinheiro, por haver em excesso, possibilita. Escapou-se-lhes aquela percentagem da gente na base da pirâmide e que, salvo um pico ou outro de desvario emocional, estão bem consigo na vida que aceitam proporcional às suas capacidades e aos limites dos esforços que estão dispostos a empreender. Era isso, o homem que podia tudo não era ambicioso. Ao fim de tantos anos aos serviço da companhia não havia notícia de ter tentado trapacear alguém, valer-se da sua competência para passar três degraus de uma só vez ou de qualquer outra atitude que indiciasse intenções veladas de ameaçar, em benefício próprio, a ordem estabelecida. 

Com esta conduta reservada e de bastidores, constituía um trunfo a ter à mão, de modo que a sua presença era solicitada, quer em assembleias, quer em reuniões, nas quais a importância dos assuntos na dinâmica e nos destinos da sociedade requeresse um parecer isento e inteligente. A sua neutralidade, a par da recusa sistemática à sua fatia do bolo, valera-lhe o apreço sólido dos sócios. A sorte de novo…
A sorte não o acompanhava, perseguia-o. Apesar das diversas manobras, não havia como a despistar.

O homem que podia tudo estava cansado de não sonhar com nada.

IdoMind
about  weirdness


Para quem quiser cantar:
I keep my head uptight
I make my plans at night
And I don't sleep I don't sleep I don't sleep 'til it's light
Something's flowing, someone buried alive
There is an awful sound
This haunted town
And it will not it will not it will not just be quiet
Some ghosts sing. Someone get called to the life

Spend boring hours in the office tower
In a bus on a bus back home to you and
That's fine I'm barely alive
It's just a matter of time
No one gets out alive
And I'm content I'm content I'm content to be quiet
It's only six. Someone get called to the life

You know our hearts beat time out very slowly
You know our hearts beat time
They're waiting for something that'll never arrive

I keep my head on tight
I make my plans at night
And I don't sleep I don't sleep I don't sleep 'til it's light
Pulse flowing, someone buried alive
And if that head opens we built a life of work
Where we're chain chain chain chain, chained to the life
But that's fine, our blood is alive

You know our hearts beat time out very slowly
You know our hearts beat time
They're waiting for something that'll never arrive

abril 09, 2012

O Tempo perguntou ao Tempo...

Mas precisas de mais tempo para quê? Não entendo. Disseste-me que estavas pronta. Disseste-o com tanta certeza que na minha certeza de querer estar contigo comecei a separar roupa e arrumar as malas. Não queria estar desprevenido quando me ligasses a dizer “ Vamos?”
Não havia a menor sombra nos teus olhos enquanto me falavas dos fios que prendem os pés, dos fios que nos ligam à luz e de como pela primeira vez conseguiste arrancar uns, sem trazer atrás os outros. Não te interrompi apesar de não ter acompanhado sempre os teus raciocínios porque me apercebi que estavas numa conversa monologada e séria contigo. Mas ouvi-te. Ouvi-te muito claramente a estender-me a mão na chamada a repartir comigo isso em que acreditas, de vidas que se suspendem para continuarem noutra vida. Recuei na cadeira e tudo. Não te lembras? Estavas a levar-me para territórios que nunca considerei pisar, diabos, que nem sabia existirem! Não soube que fazer ou dizer. Depois olhei para ti e de algum modo isso deixou de importar. 



Estão em causa duas felicidades e talvez este seja o meu último teste. Largar os restos do homem que me treinei a ser para dar provas da minha lealdade com o compromisso de nascer outra vez. Julguei que seria eu a fraquejar porque venho sozinho. Tu trazes Deus e a fé inabalável, que já assisti a pegarem-te ao colo e largarem-te na outra margem. Seca e segura. Trazes conhecimento. Vislumbro-o nessas duas passagens para dentro de ti e que viram o que não vi e vêem o que eu não vejo. Tu trazes essa força que me assusta tanto. É como se não houvesse nada que temesses perder. Como se passasses bem sem aquilo que o mundo tem para oferecer. Terás tu uma capacidade imensurável de suportar dor ou uma incapacidade tremenda de amar? 
Assumo o risco de descobrir a resposta ao teu lado. Assumo o risco de me largares onde e quando menos esperar porque és assim, tão rigorosa contigo que prossegues desamparada, para que não te vejam os fardos atrás dos sorrisos. Que ingrato o caminho que escolheste. Nem todos te despem como eu e não compreendem que para te ter é preciso largar-te. Constantemente. Só nisto és coerente. Tenho-o observado e assumo o risco de partir contigo. Não nos falhes agora que estávamos tão perto.
Queres dizer para que precisas de tempo? E de quanto tempo? 
Sentes o meu coração? Ouve-o. Não disparou. Bate tranquilo. Estás a ensinar-me a confiar e ainda que fosse só por isso, que não é, já estaria compensado do que deixo, para me ir buscar em ti e contigo. Não nos fujas. 



- Sentes o meu coração? Ouve-o. Disparou. Bate descontrolado. Dei-me conta que o tinha naquela manhã, com aquela frase. Preciso de tempo para me convencer que o meu tempo chegou. Que mereço isto... Preciso de tempo para desfazer o que foi feito. Voltar atrás e partir com palavras novas as que foram firmadas sob o testemunho dos elementos. Preciso de tempo para me reconhecer digna de parar um bocado e permitir o afago da paz. É dela que fujo. Não tens culpa da culpa que preciso para me sentir viva. Dá-me tempo para me libertar dela.

Se for agora, incerta do que é egoísmo e do que é Caminho, é certo que te vou largar, porque não fiz por nos merecer e castigo-me assim. Preciso de tempo para converter a responsabilidade no rasgo da teia que é preciso rasgar.Vejo-me enredada e não podes ajudar-me. Não há saída fáceis nem elegantes das dependências que se criam e que alimentam colherada a colherada, renda a renda, domingo a domingo. Preciso de tempo para me desenredar. Ou para me continuar a enrolar.
Estou tão perdida…Entre a vontade e o dever preciso de tempo para encontrar a luz que me leve daqui para aí. Para ti.

- Estamos no meio meu amor e é aqui que o tempo se faz maré ou o próprio mar. 

Afastou-se. Ela ficou. Dessa praia imaginária onde o tempo acerta os ponteiros com a eternidade, só era capaz de ver o imenso areal entre eles.
IdoMind
About too much

abril 04, 2012

Planagens


Mais um almoço animado. Toda a gente com uma opinião a dar, uma posição a defender ou, como agora se diz, algo para partilhar. Fosse qual fosse o assunto a ser servido já alguém o havia provado antes, noutra casa, noutras férias, noutra discussão. Estava farto das bocas cheias sem espaço para garfadas de uma iguaria diferente, doutro tempero. Ocorreu-lhe que ainda tinham muito por provar e muitas digestões a fazer. Penitenciou-se no mesmo instante. Quem se julgava para julgar? Também tinha a boca cheia…
Penitenciou-se de novo por se ter contrariado e estar ali. Há muito tempo que não o fazia, que não estava contrariado onde e com quem quer que fosse. A solidão é um lugar perigoso onde nos desabituamos a nos habituarmos aos outros. Sabia-o. Porém, os outros ainda eram necessários e havia uma capa de normalidade a ser polida ainda que ocasionalmente. Para não o verem tinha de estar à vista. Também o sabia. Devia ter prestado mais atenção àquelas divagações soltas dela. Agora desejava tê-lo feito. Sentia a sua falta. Tanto. Era mais suportável o esforço de pertencer quando a tinha por perto. Até estes fins-de-semana haviam perdido o paladar enriquecido pelo toque dela.   

Deixou de ouvir o ruído e de pensar em bocas cheias. Estava a vê-la entrar pelo escritório de óculos, os boxers às riscas, que já eram mais dela que dele, e peúgas. A divina trindade como lhe chamava às risadas. As risadas… Se soubesse que ia precisar tanto de as ouvir de novo, teria gravado umas quantas para dias como este. Ter-lhe-ia dado razões para continuar a rir. Deixou o trabalho todo do lado dela e investiu-a da obrigação de inventar maneiras, renovadas a cada barreira, de os manter coesos, independentemente dos puxões exteriores. Assumiu que a força dela era mais forte que a dele e também inesgotável. Não era.

O que sabia sobre o amor tinha aprendido com ela. Aliás, a primeira vez sequer que o pronunciou, foi sem querer a meio de uma troca de impressões sobre um método controverso de tratamento da patologia objecto da sua investigação. Deu por si a falar de amor enquanto falava de trabalho. O amor tornou-se vulgar à mesa, no quarto, nas compras, na roupa para lavar. Quase equiparável a “ passa-me o sal” ou “que horas são” e igualmente proveitoso. O amor estava em todo o lado. Antes dela havia vocábulos ridículos e amor era um deles. Dor era outro. Não se amava nem se sofria. Não abertamente. Não expressamente. Dava-se um grito com mais facilidade que se dava um abraço e a critica afiada ultrapassava sempre a queixa sentida. Com a presença dela, a necessidade de defesa vigilante foi sendo dispensada pela ausência de qualquer ataque. Compreendera que ridículo é usar capacete, joelheiras e luvas dentro de casa.

Fora de casa também. Mas ela já ali não estava para lhe mostrar como é sair sem protecção. Também ainda precisava de sorrisos amestrados, dos sins neutros, de desculpas credíveis para as suas preferências que pareciam nunca coincidir com as dos demais. Só agora compreendia que ficou pelo primeiro nível de leitura e interpretou imprudência onde se falava de coragem. Só agora compreendia que ser genuíno é ser inteligente. Aparentar implica o esforço repetido de manter a aparência. É mais ou menos impossível fingir só por uma vez. Quando se finge vai ter de se fingir mais para escorar o fingimento. Vai ter de se continuar a sorrir, a dizer sim, a apresentar desculpas por tudo e por nada. Quer apeteça ou não. Talvez ao fim de alguns reconhecimentos profissionais, de umas amizades convenientes ou de problemas estrategicamente adiados, se perca o rasto à verdade a favor do que se chama saber-viver. Ela não. O rasto dela era íridescente. Ela sabia bem onde estava. Como voltar quando se afastava.

Não era como ele, ali hoje, deslocado. As pessoas que se vão colocando no lugar estão sempre bem colocadas. Quando não estão ou deixam de estar, deslocam-se de novo. Procuram outro lugar. Mesmo que muito muito deslocado do lugar de onde o querem colocar. Ouvira-a dizer várias vezes que o caminho do eremita é para alguns e do louco para a maioria mas que o Diabo nos prendia a todos enlouquecendo os eremitas e amadurecendo os loucos. Era por isso que uns nunca partiam e outros nunca ficavam. Poucos estavam. O segredo era estar.
Ele não Estava. Não queria ser louco, nem eremita e com o Diabo não queria mesmo nada. Queria só Estar. No seu lugar. Onde seria o seu lugar?

"A cada um de nós é confiado um extracto das nossas autobiografias. Só nos completamos na posse das partes dispersas, por aí, sob a guarda de quem menos esperas. Ou de quem esperas. Foi a forma que Deus arranjou dos irmãos falarem uns com os outros. Faz parte da nossa missão devolver essa parte ao seu dono. Ouve por isso com atenção os teus irmãos, procurando no que entregam o que te completa. E não retenhas o que não te pertence, vai fazer falta a alguém.”

Regressou à mesa, mais completo, porque aqueles irmãos lhe estavam a devolver a parte que contava da ilha longínqua onde há muito não se faziam entregas.

IdoMind
about places
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