- Eu era a excepção. Quando os meus peitos começaram a ficar atrevidos
e as minhas coxas impossíveis de ignorar, dos trezentos mil pensamentos
ondulantes que por dia se me espraiavam na cabeça, nenhum deles era acerca de
casar, de ter um casalinho de filhos e um emprego numa repartição pública ou
numa empresa de renome nos circuitos comerciais. Nada disso.
Nada disso, não como uma manifestação simplória de oposição só pela
oposição. Nada disso, porque isso era sinónimo dos silêncios da minha mãe.
Daqueles que velavam uma espécie de raiva metabólica que em alguns dias a
transformava numa mulher qualquer que levava a minha mãe para longe e ficava a
fazer as suas vezes. Nos olhos daquela estranha ardiam dois fogos feitos de
sombra e de veneno. Ora, a minha mãe tinha olhos aveludados. Com umas cortinas
opacas. Só se abriam quando o meu irmão mais velho lhe entrava pela alma
adentro pois nunca precisou de autorização para encharcar de alegria o dia de
alguém, nem os da nossa mãe. Penso que foi a única forma de amor que ela
conheceu. Quando o meu irmão não estava, as cortinas dos olhos aveludados da
minha mãe estavam corridas. Depois aparecia esta outra pessoa a quem a minha
mãe parecia ter arrendado um bocado de espaço dentro de si. Eu temia esta. Era
como certos animais com pêlo sedoso em tons de malícia paciente,
esperando atrás de arbustos o momento perfeito do ataque mortífero para
voltarem a desaparecer na mesma penumbra tenebrosa que os vomitou.
No primeiro, e muito insuspeito, domingo do mês de Maio, testemunhei um
ataque feroz da pessoa-animal que levava a minha mãe de vez em quando.
Estávamos na cozinha, nós as mulheres, falando de coisas de mulheres. A minha
mãe não falava muito e sobre coisas de mulheres não falava nada, cumpria o seu
destino e executava-as. Apenas. Com os olhos a arder em sombra e veneno, claro.
Queixava-se a minha tia, casada com o irmão do meu pai, das manias do
marido, dos roncos do marido, do detestável hábito de obrigar toda a família a
juntar-se ao pequeno-almoço antes do início “das glórias de um novo dia”- disse
parafraseando-o – no mais agoniante desprezo pelo matutino ritual migratório,
instituído pelo doce e, inegavelmente, único tio Carlos. Na casa do tio Carlos
tomava-se o pequeno-almoço às sete horas da manhã e terminava-se às oito menos
quinze. E fora sempre assim.
- Estou tão saturada! – soltou com enfado, virando-se para a janela com o
mesmo drama corporal ensaiado e encenado no teatro baptizado de casamento em
cena há quinze anos.
Sem erguer a cabeça do forno onde o almoço se desmanchava em odor
pecaminoso, a mulher, que às vezes era a minha mãe, fez-se águia e num voo
rasteiro sobre o espírito da minha tia, cravou-lhe as unhas sem piedade:
- Suponho que ainda assim te cansou mais viver em humildade que viver sem
virtude. Afinal é uma troca sensata, não é? A honra por lençóis de cetim. O
mesmo marido ignóbil (e abastado) que tanto te cansa é o mesmo que te abriu as
portas depois de o teres deixado para ires conhecer de forma mais…intima, os
meandros da lei com o Dr. Teles. Não te parece, francamente, que devias estar
caladinha? Na minha casa, pelo menos, agradeço que o faças.
O silêncio tem peso e quem disser o contrário é porque não sabe nada de
pessoas-animais combatendo-se sem intervalos para que não pereça nem o homem,
nem a besta. Naquele domingo, na cozinha da casa dos meus pais, eu podia ter
cortado um bocado de silêncio depois do ataque da mulher- águia e guardado numa
caixa só para provar que as palavras têm massa. E a sua ausência também.
Esta era a minha mãe.
Um ser
indecifrável em estado puro de qualquer coisa que assustava e atraía
simultaneamente. Misteriosa, com aquele quê de inacessibilidade provocador. A
presença distante da minha mãe suscitava o desejo quase masoquista de tentar
aceder às suas riquezas interiores ocultas, que pontual e brevemente saiam para
arejar. Apetecia subir as escadas invisíveis que levavam até ela e espreitar
para ver o que lá estava a circular-lhe pelo sangue dissimulado de frio. A
minha mãe era terrivelmente fascinante na seriedade fugidia e no rigor
irresistivelmente fora de moda a pedir que o testassem. Em segredo admirava-a e
cresci a querer ser sua cópia. Eu queria ser Intocável. Como ela. Ostentar o
mistério a olho nu sem porém permitir jamais que o desvendassem. O “estou aqui
mas nunca na verdade me verás, nunca me alcançarás” chamariz dos intrépidos,
dos ocos, dos mal-tratados e da eterna incompletude.
Foi já tarde que vim a entender que secretismo e charme são outros nomes
para manipulação. Que funcionam. Mas sobre isso podemos falar noutra
altura.
Estava a dizer-te que eu era a excepção. Eu não ansiava segurança. Pelo
contrário, ficava insegura com as implacáveis exigências da segurança. Com o
que era necessário entregar para garanti-la. A segurança era fraudulenta, não
se ganhava, comprava-se. Havia gente por todo o lado a vender-se para a obter.
Eu estava disposta a pagar qualquer preço, sim, mas pela minha liberdade. Ainda
que insegura, inconstante, incompreendida. Tinha era de ser livre. Fiz disto a
minha causa e, sem desatar a correr por campos de batalha afora de bandeira
hasteada, acabou por ser como eu quis e como fiz para que fosse. A minha
emancipação foi reputada de desobediência e durante mais de dois anos após ter
saído de casa dos meus pais, estes não quiseram ter o mínimo contacto comigo.
Entenda-se, o meu pai proibiu e a minha mãe que, com os olhos em fogueiras de
sombra e muitos venenos, cumpriu as ordens dadas.
Não deixa de ser curioso que tanto e nada mudou. Estes anos todos depois,
este progresso todo depois e tantos electrodoméstios, ginásios e formas
alternativas de estar depois, ainda haja pessoas à venda por segurança. Homens
e mulheres. Os homens vendem-se a homens e as mulheres vendem-se a tudo. Vejo a
minha mãe em tantas… Na mesma resignação efervescente. Corrosiva. Já dei por
mim a pensar se não demos a volta toda para voltar ao princípio e regressarmos
a casa. Ao lar. Ao nosso Gral vazio esperando que lhe vertamos valores,
amor...tempo.
Ser mulher não é para todos. E não é sempre ser gente.
Lembrou-se que eu estava ali e constatou com agrado que recebi com
serenidade e respeito o que acabara de professar.
- Fico contente que não te tenham chocado as minhas afirmações. Hoje em dia
é praticamente ofensivo sustentar este tipo de ideologia, como se ser apenas
mulher fosse redutor. Eu não acho que seja e tu, pelos vistos, também não. Vejo
cada mulher como o bailado simbiótico da Imperatriz com a Alta Sacerdotisa,
alterando o avental com o vestido preto curto, no cumprimento honroso dos
nossos votos eternos e isso é algo magnifico...
Perante a minha surpresa, inclinou-se e fixando-me nos olhos com ternura
(que aposto nunca viu nos olhos da sua mãe) disse-me que só estava a
permitir-me que a Visse. Que aproveitasse porque ninguém se deixa Ver e que é
por essa razão que temos de voltar ao mesmo sítio tantas vezes. Tão magoados.
Se aquela mulher fosse um homem, ter-me-ia apaixonado por ela
fulminantemente naquele instante, pedindo-lhe que ficasse comigo para sempre e
me ensinasse a Ver.
- Cortei o cordão com as marcas que me fizeram a cópia e tenho andado a
lapidar-me noutra obra. Original. Autêntica. Nunca vou ser perfeita para todos
portanto vou-me fazendo gira para mim. Deixei de me querer misteriosa para me
ir encontrando completa. Hoje ninguém precisa de me adivinhar e, casualmente,
falhar porque optei por ser honesta. O mais que consigo e sei. A honestidade às
vezes não é assim tão honesta. Ou talvez seja apenas ignorante…Uma aluna
permanente.
Acho que o trabalho que nos compete é só mesmo este, dizer quem Somos.
Mudar se deixamos de ser aquilo e ir sendo depois o corpo confortável com a
alma a que dá boleia. Não é nada de especial, de grandioso, de televisivo. É um
trabalho privado, diário, árduo, consciente, de nos perguntarmos “ Quem sou eu
e este sou mesmo eu?” Ir atrás, à frente, a todos os lados para ver em que
terra de alguém trouxéssemos o que não era nosso. Vermo-nos livres dessas
cargas e reaprender a dar passos sem muletas. Nem desculpas…
Decidir num dia qualquer ressuscitar sem morrer.
As mágoas
são espertas. Sabem esconder-se e mudam de nome. É difícil descobri-las.
Curá-las então…Há que ter mesmo muita vontade de fazer o melhor possível as
pequenas missões de todos os dias para que a vida se revele naquilo que é – um
processo. Contínuo. Sequencial.
Infalivelmente justo.
Demorou-me anos, algumas relações, uma solidão que não te consigo nem
qualificar, nem quantificar tal foi o seu tamanho, até me ter encontrado
pequenina, embrulhada, cheia de nódoas negras num canto escuro do
meu estômago. Tem demorado outros tantos a sair de lá e revelar à luz do
dia que não sou diferente de ninguém. Só mais uma pessoa armada em arquitecta
com um único projecto em mãos - Eu mesma. Como é que me faço? Com um toque aqui,
outro toque ali, conforme os toques que me vão dando. Estou toda
retocada
Hoje sei, nunca irrepreensivelmente acabada.
Hoje sei, nunca irrepreensivelmente acabada.
O meu amor por ela deu uma explosão que deve ter curado, feito crescer ou
parido alguma coisa algures neste universo infinito de Deus feito de linhas
cruzadas.
Ela reparou.
- Ainda não me calei! Hoje tenho a língua destravada! Obrigado. Obrigado
por este café na taberna mais ranhosa cá do sítio! Não te vou pedir desculpa
pelo monólogo esquizofrénico. Estive a rezar contigo este tempo todo e a prece
foi ouvida. Obrigado, minha querida, por esta revisão da matéria dada.
Rimos. Rimos sem ruído. Despedimo-nos sem leveza.
A vida também tinha massa. Para ser trabalhada. Como quiséssemos.
A liberdade era possível. Mas será que a queríamos mesmo?
IdoMind
About… I forgot what





















