Numa manhã clara, muito mais
clara que todas as outras manhãs desse ano, enquanto encaixava na respectiva casinha, o último
botão da camisa branca de linho, a que tinha pelo menos duas histórias
interessantes para contar, sentiu-se despida. Com frio até. Um arrepio invasivo
apalpou-lhe a pele e foi como se tivesse deixado de estar sozinha. Havia
mais alguém ali. O espelho mostrava a mulher composta do costume, pronta para colocar o pé fora da porta e, sem embaraços, enfrentar a avalanche de reuniões, telefonemas
e aquele almoço para cujo adiamento já não havia mais desculpas.Porém, nessa manhã clara, nasceram
olhos ao espelho e diante de si viu-se morta.
Recuou um passo. Não se assustou, assombrou-se…Tinha falecido sem perceber.
Por baixo da roupa a condizer,
dos adereços que lhe conferiam o toque de distinção e do aspecto sempre cuidado,
jazia uma defunta já sem cor a implorar o enterro. O descanso merecido.
Cumprira com mérito a sua função e gostaria de partir com a dignidade de não
andar arrastada e a deitar cheiro.
Ao contrário do que acontecera
noutras manhãs, que não tiveram a claridade daquela, não passou o lip-gloss
rápido e foi embora. Não. Ficou. Para onde iria naquele estado? Será que alguém
já havia percebido que carregava um cadáver? Com frequência somos os últimos
ver o óbvio no que nos diz respeito. Porque fizera para manter a sua vida privada,
muito privada, seria natural que mesmo que tivessem reparado, ninguém lhe
tivesse dito que estava a cair aos bocados. A sua personalidade forte criava um
círculo bem definido dos limites permitidos. E da área extensa, protegida da presença alheia, inteiramente
impenetrável. Qualquer personalidade forte sofre de solidão e tem de aprender a
lidar com isso. Umas tornam-se mais fortes e mais sozinhas. Outras traçam novos
círculos. Outros limites. Mas nunca é simples para quem é forte vencer a sua
própria força. Entregar, sem resistir, o corpo ao movimento perpétuo e invencível dos ciclos da vida. Dói tanto a metamorfose aos fortes.
Foi no limbo entre o que tem de ser e
a verdade que sobreviveu. Até ter morrido. Deve ter sido de tristeza. Morrera
triste e rouca. Pobre alma aos berros por socorro, refém de uma trapaceira
bem-disposta e sem um único problema neste mundo. Arranjara sempre forma de
colocar toda a gente no topo das suas prioridades para não ser obrigada a fazer
alguma coisa por si mesma. Além de triste e rouca, partiu exausta com toda a
certeza. Como conseguira chegar tão longe sem pedir ajuda...Onde fora ela buscar
os mantimentos, assim sitiada em si…
Talvez os fortes sejam afinal
imbecis.
Tinha andado a viver ao avesso. O
que não é aceitável é ignorar as nossas necessidades mais íntimas, condenando-as à
cave da nossa essência. Procurar falar com elas. Estudá-las. E depois satisfazê-las.
Ou não. Inadmissível é suster e
silenciar aqueles minutos de desespero latente, inoportuno, até que caiam no
esquecimento, substituídos por outras preocupações, por esta ou aquela
exigência urgente e impreterível. Por um desespero renovado. Isto é que é
inaceitável.
Recebera parabéns por condutas das
quais tinha agora vergonha. Que vitória ter morrido sem ter desapontado
ninguém. Que orgulho ter conseguido, independentemente da contrapartida, estar
à altura do que esperavam de si. Pode-se sempre ruir mais tarde. Pode ficar
para depois o já não aguento mais porque, com o sacrifico que redime, se aguenta mais um
quilo ou dois. Toneladas, se for preciso para não expôr os nossos calcanhares enfraquecidos
pelas emoções.
Se não nos dominarmos alguém o
fará. A morta sabia-o. Controlava-se por isso. E controlava. Tudo quanto fosse
controlável. Apesar de ambiciosa, esta tarefa era executada com relativa
facilidade, uma vez que vinha equipada com a sensibilidade necessária para
quase imediatamente identificar o tipo de combustível com que cada um se
abastecia. Agradecia esse dom. Fizera um bom uso do mesmo levando entendimento
onde a intolerância queria fazer estragos. A pouca paz na passagem para a que
havia de vir no lugar daquela, residia nas raivas que aplacou com a brandura
das suas palavras e o convite sempre estendido a visitar as aflições que
moravam do outro lado da guerra. Tinha sido uma boa mensageira. Sem controlo
teria sido impossível fazer chegar a mensagem intacta. Chegaria corrompida pela
desordem das próprias fragilidades. Amassada e deturpada pelos próprios medos e
inseguranças. Estas fraquezas tinham de ser controladas. O que ela conseguira
com sucesso.
Que pena não ter percebido que a
sua própria reserva estava com a luz vermelha acesa. A dar alarme…
Não havia nada a fazer. Morrera. Tinha de deixar ir a pessoa do espelho. Coitada. Que diabo de purgatório ser obrigada a morrer todos os dias. A perder todos os dias…E fingir que não.
Como a manhã estava muito clara,
passou na mesma o lip-gloss e saiu. Foi investigar a causa da sua morte para
poder começar a pensar em nascer outra vez.
IdoMind
about the 8th House

























