setembro 19, 2012

Lótus nos Pântanos



Numa manhã clara, muito mais clara que todas as outras manhãs desse ano, enquanto  encaixava na respectiva casinha, o último botão da camisa branca de linho, a que tinha pelo menos duas histórias interessantes para contar, sentiu-se despida. Com frio até. Um arrepio invasivo apalpou-lhe a pele e foi como se tivesse deixado de estar sozinha. Havia mais alguém ali. O espelho mostrava a mulher composta do costume, pronta para colocar o pé fora da porta e, sem embaraços, enfrentar a avalanche de reuniões, telefonemas e aquele almoço para cujo adiamento já não havia mais desculpas.Porém, nessa manhã clara, nasceram olhos ao espelho e diante de si viu-se morta.

Recuou um passo. Não se assustou, assombrou-se…Tinha falecido sem perceber.

Por baixo da roupa a condizer, dos adereços que lhe conferiam o toque de distinção e do aspecto sempre cuidado, jazia uma defunta já sem cor a implorar o enterro. O descanso merecido. Cumprira com mérito a sua função e gostaria de partir com a dignidade de não andar arrastada e a deitar cheiro.
Ao contrário do que acontecera noutras manhãs, que não tiveram a claridade daquela, não passou o lip-gloss rápido e foi embora. Não. Ficou. Para onde iria naquele estado? Será que alguém já havia percebido que carregava um cadáver? Com frequência somos os últimos ver o óbvio no que nos diz respeito. Porque fizera para manter a sua vida privada, muito privada, seria natural que mesmo que tivessem reparado, ninguém lhe tivesse dito que estava a cair aos bocados. A sua personalidade forte criava um círculo bem definido dos limites permitidos. E da área extensa, protegida da presença alheia, inteiramente impenetrável. Qualquer personalidade forte sofre de solidão e tem de aprender a lidar com isso. Umas tornam-se mais fortes e mais sozinhas. Outras traçam novos círculos. Outros limites. Mas nunca é simples para quem é forte vencer a sua própria força. Entregar, sem resistir, o corpo ao movimento perpétuo e invencível dos ciclos da vida. Dói tanto a metamorfose aos fortes.

Foi no limbo entre o que tem de ser e a verdade que sobreviveu. Até ter morrido. Deve ter sido de tristeza. Morrera triste e rouca. Pobre alma aos berros por socorro, refém de uma trapaceira bem-disposta e sem um único problema neste mundo. Arranjara sempre forma de colocar toda a gente no topo das suas prioridades para não ser obrigada a fazer alguma coisa por si mesma. Além de triste e rouca, partiu exausta com toda a certeza. Como conseguira chegar tão longe sem pedir ajuda...Onde fora ela buscar os mantimentos, assim sitiada em si…
Talvez os fortes sejam afinal imbecis.

Tinha andado a viver ao avesso. O que não é aceitável é ignorar as nossas necessidades mais íntimas, condenando-as à cave da nossa essência. Procurar falar com elas. Estudá-las. E depois satisfazê-las. Ou não.  Inadmissível é suster e silenciar aqueles minutos de desespero latente, inoportuno, até que caiam no esquecimento, substituídos por outras preocupações, por esta ou aquela exigência urgente e impreterível. Por um desespero renovado. Isto é que é inaceitável.
Recebera parabéns por condutas das quais tinha agora vergonha. Que vitória ter morrido sem ter desapontado ninguém. Que orgulho ter conseguido, independentemente da contrapartida, estar à altura do que esperavam de si. Pode-se sempre ruir mais tarde. Pode ficar para depois o já não aguento mais porque, com o sacrifico que redime, se aguenta mais um quilo ou dois. Toneladas, se for preciso para não expôr os nossos calcanhares enfraquecidos pelas emoções.

Se não nos dominarmos alguém o fará. A morta sabia-o. Controlava-se por isso. E controlava. Tudo quanto fosse controlável. Apesar de ambiciosa, esta tarefa era executada com relativa facilidade, uma vez que vinha equipada com a sensibilidade necessária para quase imediatamente identificar o tipo de combustível com que cada um se abastecia. Agradecia esse dom. Fizera um bom uso do mesmo levando entendimento onde a intolerância queria fazer estragos. A pouca paz na passagem para a que havia de vir no lugar daquela, residia nas raivas que aplacou com a brandura das suas palavras e o convite sempre estendido a visitar as aflições que moravam do outro lado da guerra. Tinha sido uma boa mensageira. Sem controlo teria sido impossível fazer chegar a mensagem intacta. Chegaria corrompida pela desordem das próprias fragilidades. Amassada e deturpada pelos próprios medos e inseguranças. Estas fraquezas tinham de ser controladas. O que ela conseguira com sucesso.
Que pena não ter percebido que a sua própria reserva estava com a luz vermelha acesa. A dar alarme…

Não havia nada a fazer. Morrera. Tinha de deixar ir a pessoa do espelho. Coitada. Que diabo de purgatório ser obrigada a morrer todos os dias. A perder todos os dias…E fingir que não.
Como a manhã estava muito clara, passou na mesma o lip-gloss e saiu. Foi investigar a causa da sua morte para poder começar a pensar em nascer outra vez.

IdoMind
about  the  8th House

setembro 11, 2012

Quesque tu pense, que viver não canse??



Pudeste brincar. Pudeste fingir. E pudeste ir quase até ao fim. Pudeste adiar. Pudeste mentir. Pudeste dizer sempre que sim. Pudeste mais ou menos estar lá. Mais ou menos dar de ti. Mais ou menos ser feliz. Ou assim-assim.
Pudeste arranjar desculpas. Cegar-te com terras e com pessoas inventadas. Pudeste evaporar nas saídas de emergência para as trevas encobertas de boas intenções. Colar a fotografia bonita no teu passe falsificado com acesso a todo o lado. Passar por portas desenhadas, rasuradas, alargadas ou oportunamente estreitadas. Friamente apagadas. Abruptamente encerradas. E pudeste deixar de fora quem pediste que te visitasse. E que se mudasse para ti. Pudeste abusar das brechas nalgumas paredes e fazê-las buracos. Grandes. Escancarados. Pudeste não ter cuidado. Ou muito pouco. O necessário para não te deitares uma má-pessoa, nem te detestares além da medida habitual.

Pudeste organizar uma festa no teu umbigo e juntar os sentimentos todos para lhes dar nomes novos. Mais modernos. O Amor, por exemplo, está ultrapassado e deixou de funcionar. Ficou para trás, aconchegado no tempo que não tem pressa de acontecer e que não tem medo de enfraquecer. Sabe que ficar maduro não é ficar velho, é ficar pronto…

Pudeste pôr o Amor à espera mas deixaste de o esperar. É por isso que deixou de ser amor e hoje lhe chamas “Espaço”. Tu no teu. Eu no meu. Ele no dele. Ela no dela. Cada um no seu espaço, sem espaço para receber o Amor. Cada um no seu tempo, ao seu tempo, sem tempo para o Amor. Fica mais bonito dizer assim. Que é a vida e andamos todos perdidos. Numa fase egoísta...
Não é que não se queira rasgar ao meio e pôr as tripas em cima da mesa, é só “complicado”.
Não é que não se tenha estrutura para outra rejeição, é só melhor sem compromisso e depois de lençóis trocados, a liberdade de novo.
Não é que seja cobardia, só não se sabe muito bem o que se quer. Ainda. Por enquanto.


Entretanto, no espaço sem espaço e no tempo sem tempo para o Amor, não se pára de existir e não se pára de sentir.
Pudeste perder-te por lá, nas escolhas fáceis terminadas com um “não faz mal” que fez todo o mal que podia fazer. Pudeste convencer-te que não. Que a tua leveza não faz pegadas quando passas. Onde pisas. Pudeste sossegar-te na sinceridade que te iliba da culpa, como se pedir para usar alguém fosse só por si sincero. Limpo. Digno…
Pudeste ignorar a tua responsabilidade na infelicidade que te grita na cara. Há enganos que vão embora calados. Outros, porém, partem com barulho. E partem tudo porque pudeste magoar.
Conheces mas não te reconheces nessas dores no peito que não é o teu. Apesar de ser. Só não o sabes. Um dia vais saber.

Como pudeste?

Somos teus, Agora, ao serviço do resto dos teus dias. Rompe-nos com carinho a virgindade das linhas vazias a encher pela tua mão. Pela tua acção. Escreve-nos bem, seres mágicos esquecidos e caídos numa vida complexa, exigente e rápida, sem varinha e sem poções. Só nós, na luta connosco pela paz dos outros. A dar o corpo e o que nem sempre temos, pelo menos, para não ficar pior. Nem virarmos os monstros que combatemos. Estes somos nós. A remexer a terra para não sermos enterrados vivos. É já tão difícil. Dispensamos todos os obstáculos que nos possas erguer. Prescindimos das mentiras em que nos possas prender. A cruz nós levamos, são os pregos na carne que nos roubam a força... Fica por isso quando nos vires passar, se não estiveres certo que vens para ajudar. Agradecemos a tua omissão honesta.

Nas minhas linhas vazias, que combinei guardar para ti, peço-te que me deixes uma história de Respeito. Marca-me assim. Que eu te lembre honrado. Verdadeiro. Pessoa…
Que associe a ti a esperança nos afectos e a força de duas mãos dadas em alto-mar numa tarde em que tudo correu mal. Que o meu coração se expanda ao som do teu nome e possa  falar com gratidão da tua travessia por mim. Faz por me fazer sorrir quando já não estiveres aqui e onde quer que te encontres, sabe que me respiraste e me devolveste sem detritos.

Pudeste dividir-te e guardar a consciência longe dos desejos. Das muitas carências. Da necessidade básica de te ouvires a viver. Compreendo tudo isto. E pudeste por tudo isto ceder e ser igual. Fazer igual. Dizer que é normal.
Mas podes parar se quiseres. Já. Junta-te a ti. Abraça-te inteiro para que sejas inteiro em todos os abraços. Traz-te e entrega-te como te descobriste até nos termos descoberto.
É o que basta para seres lembrado como um homem a aprender.
Apenas.

IdoMind
about that far, far away planet of Bullshittia 

agosto 28, 2012

GO(o)D FOR ME



Estava nitidamente nervoso. Pegava e largava pequenos punhados de areia como se lhe estivesse espremer alguma solução urgente, uma mensagem secreta encriptada grão a grão. E lá foi ele para uma terra distante seduzido, ainda não descortinara, se pelo aconchego da fuga ou pela expiação nas preocupações que levou para a praia connosco. A testa tensa denunciava que a fuga fora tentada, sem sucesso porém. Ele estava sitiado num beco rectangular com paredes matulonas, arruaceiras e sem intenção de se desviarem para lhe permitirem a passagem. Ele estava sozinho num beco rectangular que encolhia.
Eu não sabia como se ia ali ter. Tinha o casaco de cabedal, tinha o carro rápido, tinha o amor suficiente para não ver o perigo, nem sentir o medo e ir resgatá-lo. Tinha-o em mim o suficiente para colar o meu ombro ao dele e desafiar aquelas e todas as paredes que rompessem entre aquele homem e a sua felicidade. Mas eu não sabia a direcção da rua onde ele se perdeu da esperança e seguiu desprotegido. Tinha sido visto a rir pela última vez há cerca de um mês, à hora do lobo, no Cais, com o nariz escondido por gelado de chocolate. Foi entre essa espécie de sonho real e o acordar paulatino dos dois dias seguintes que se perdeu. E desapareceu.
De nada adiantava ir à procura de quem não sabe que quer ser encontrado. Esperei. Como não estava perdida, abri-lhe a mão que não torturava a areia por respostas e dei-lhe um euro:
- Eras tão lindinho se fosses buscar um café à doutora, cansada, preguiçosa e hipotensa… - coloquei depois vinte cêntimos em cima do euro que se transformaria em café  – vá, podes trazer rebuçados para ti.
Veio da terra distante à boleia duma gargalhada.
- Desculpa. Viemos para relaxar e ainda não parei de consultar e revisitar a agenda mental que tenho em vez do cérebro. Desculpa -  parou e deve ter-me visto, com certeza, arenosa e torturável:
- Sílvia, há Deus?


- Bom, agora é que preciso mesmo, mesmo do café! Vamos. Sentamo-nos ali na esplanada que essa questão não pode ser respondida de biquíni deitada numa toalha com chamas a dizer “ Hot Hot Hot”. Se Deus existe ainda se ofende e dá-nos cabo do dia com chuva e de nós com um raio na tola de alto a baixo.
- Ingrata! Era a única toalha que tinha no carro e além disso combina providencialmente contigo. Fica para ti.
- Não tenho mais euros… E não faço pagamentos em géneros.
- Estás por um fio míuda. Por um fio!- advertiu-me com carinho e uma dentada na bochecha.
Lembrei-me de narizes achocolatados numa noite de lua nova e percebi que a minha esperança e eu ainda não nos tínhamos perdido. Isso era tão bom.

- Gosto de me deixem em paz quando não sei se Deus existe ou não e por isso não te disse, nem perguntei nada, apesar de saber que andas desassossegado com alguma coisa. Não sei o que é e vou continuar sem te perguntar. Gosto também de resolver os meus problemas sozinha, pelo que me vejo sem legitimidade para te impor a minha ajuda. Que poderia até nem ajudar. Assim, e uma vez que pedes, vou dividir contigo a imensa sabedoria recolhida das muitas gastrites nervosas, de algumas situações esquisitas e dos milagres pessoais celebrados em privado.
O meu credo assenta neste terço que começa com a doença, sempre na alma, até às curas milagrosas que me restituem com mais saúde e mais inteira. Um pouco mais ousada.
Se Deus existe? Sei lá. Eu tenho um. Se Ele existe porque eu Lhe dou vida ou se Ele existe antes de toda a vida, para mim é irrelevante. Eu escolho ter um Deus. Porquê? Porque me faz sentir melhor. É só isto.
Não preciso Dele para o culpar pelo resultado das minhas péssimas decisões. Não preciso Dele para ser boa pessoa e fazer o que as boas pessoas fazem. Não preciso de Deus para me castigar. Nem castrar... Eu não preciso de Deus para justificar uma vida medíocre encostada à sombra da cobardia.
Só preciso de Deus para estar comigo.


Agora, daqui a meia-hora, amanhã, para o ano que vem, até ao fim. Sem folgas. Neste café, na tua dentada de há pouco, no processo que me tem tirado o sono, no futuro da minha irmã, no alto de cada poço em que caio e fico.
Eu preciso do Propósito que só Deus me dá.

- E se não há propósito nenhum. Não será mais cobarde inventar uma Força que criar a nossa própria força?
- Há diferença? Com Força ou sem Força, tens de forte. Tens de viver na mesma. Tens de pagar na mesma. Tens de assinar os papéis do divórcio na mesma. Tens de fazer mudanças na mesma. Tens de continuar…na mesma. Com diferenças… Entre atravessar isso tudo sem propósito e superar isso tudo POR um Propósito, escolho ter um Deus que não joga aos dados. E me quer no sítio certo à hora marcada. Isso faz-me sentir melhor. Duplamente mais forte.
Se Deus existe? Isso importa? Para quê? Talvez a verdadeira questão esteja no facto de a teres colocado e na necessidade de a veres respondida. Farias diferente se tivesses a certeza absoluta, cientificamente comprovada, que Deus existe? Não será esta afinal a questão que te dará a resposta que precisas e a orientação que buscas?
Tu existes.
Tu existes na minha vida. Foi o meu Deus que te trouxe mas fui eu que te convidei a permanecer. Mesmo quando todos os outros regressaram às suas casas. Ou vão indo e vindo. Tu continuas aqui. Com o meu consentimento. Esta é parceria que tenho com Deus. Ele traz-me os convidados e eu decido se há festa ou não.
Olha, eu existo. Eu existo na tua vida. Posso ser fruto do acaso ou filha de um Deus maior. Posso não ter propósito nenhum ou trazer-te uma carga de trabalhos ou de presentes que te vão pedir que largues a pele e aumentes de tamanho. Posso não servir para nada ou podes precisar da minha espada contra demónios, problemas com garras ou pessoas parvas.
O que te faz sentir melhor?
IdoMind
About means and meanings

agosto 24, 2012

"One Simple Idea"



Lembras-te há alguns anos atrás, naquela tarde às voltas velozes, aflitas e circulares lá no escritório? De trás para a frente na mesma linha imaginária no chão, ao pé do armário onde batia sempre com o ombro e dizia sempre que o mesmo palavrão. Lembras-te? Não consegui ver nada durante horas além do precipício esfomeado por mim. Foi horrível. Ficar sozinha e cega à beira de precipícios é horrível. Esqueci-me de ti. Esqueci-me que havia oceanos de outras palavras para além daquelas, impetuosas e insubmissas, à bulha na garganta  seca. Cheguei a sentir tonturas de tanta angústia. Lembras-te?
Tinha acabado de fazer asneira e a vida tinha acabado de me retribuir a gentileza. Mas nessa altura eu ainda não sabia nada acerca de retribuições. Nem que a Vida era um ser vivo.

Como de costume, não pude desesperar à vontade. Tive de segurar o pânico e pedir-lhe com maneiras que se aguentasse só até mais logo, à noitinha, quando chegasse a casa e pudesse consumir-me livremente. É sempre assim, não é? Nunca posso perder-me logo, entregar-me logo, cair logo. Ali. Redonda e derrotada. É como se estivesse proibida de me enamorar pelo medo e fugir imprudentemente com ele. Fui forçada a encobrir os meus escombros com a compostura necessária. Exigida. Sou sempre assim, não é? Exigente...
Na minha pior tarde, negaste-me meio minuto de luto. 
E como era, continua a ser.
Podias ter feito para que aquelas pessoas não tivessem aparecido. Precisado de mim. Podias ter arranjado uma avaria, outra urgência, um nascimento qualquer. Podias ter-me deixado sair antes que chegassem. Mas não. Fizeste-me ficar e fizeste-te ouvir:

Ama-me quando menos merecer porque será quando mais vou precisar”.

Foi a primeira vez que ouvi essa expressão. Depois dessa tarde, noutras voltas velozes na mesma linha imaginária doutro chão, voltei a ouvi-la. Dirigida a mim e a outros.
Acalmei. Lembras-te? Tinha-me esquecido o que queria dizer amar. Que esse verbo não bailava em nenhum oceano mas que era o próprio mar. Ouvi-te a passar-me a mão no cabelo...Ouvi-te a ensinar-me que há respostas que aguardam a sua vez em quandos. Respostas para nós em quandos nem sempre só nossos.
Hoje, não tão cega, menos surda e bem lembrada de todas as palavras-lição, peço-te que me ames neste quando em que não mereço, talvez, mas que é dos quandos em que mais preciso.


Tenho o indicador no interruptor e sabes o que quero fazer. Segura-me. Eu deixo que me agarres. Toma, rendo-te a minha mão direita. A esquerda fica livre para colher flores para ti enquanto formos andando. Ajuda-me a ficar cá fora.
Contigo. 
À luz. 
Empurra-me o Sol para o ventre e faz-me candeia..
É que está a escapar-me o tal Desígnio que dá pernas às pessoas e razão aos acontecimentos. Tenho de continuar mais uns metros, é isso? Um, dois, vários quarteirões ou nem sequer parar até estar o mais longe que conseguir para encontrar o porquê exilado num quando que não alcanço? Daqui e Agora…

Quando? Quando é que achas que já chega? 
Brinca comigo doutra coisa. Menos perigosa. Que não me esburaque a alma, não dê vertigens, nem acabe no alcatrão. Pura, para variar... Dá-me algo puro para eu brincar. Dá-me algo puro que brinque comigo com pureza. Com verdade.
Com a coragem que só o que é puro conhece. E usa. Ainda há disso?
Que seja a bem. Do bem. E me faça melhor.

Era aqui que me querias trazer? Aos limites evitados, às fronteiras respeitadas, ao meu confim? Estás a pedir-me que confie e continue para lá do que parece para encontrar o que é?
Até ia. Mas não estou a ser capaz. 
Em que quando guardaste a minha força? O meu Ar...
E quando pensas recompensar-me? 
Estava a pensar que o podias começar a fazer já. 
Salva-me quando menos merecer porque é quando mais vou precisar.
Falas comigo daqui a pouco? Envia-me uma expressão nova que me dê um novo sentido. Algum.
Senão, quando?

IdoMind
about keeping my eyes off the ground

agosto 13, 2012

Quem Conta um Conto



- Eu era a excepção. Quando os meus peitos começaram a ficar atrevidos e as minhas coxas impossíveis de ignorar, dos trezentos mil pensamentos ondulantes que por dia se me espraiavam na cabeça, nenhum deles era acerca de casar, de ter um casalinho de filhos e um emprego numa repartição pública ou numa empresa de renome nos circuitos comerciais. Nada disso.
Nada disso, não como uma manifestação simplória de oposição só pela oposição. Nada disso, porque isso era sinónimo dos silêncios da minha mãe. Daqueles que velavam uma espécie de raiva metabólica que em alguns dias a transformava numa mulher qualquer que levava a minha mãe para longe e ficava a fazer as suas vezes. Nos olhos daquela estranha ardiam dois fogos feitos de sombra e de veneno. Ora, a minha mãe tinha olhos aveludados. Com umas cortinas opacas. Só se abriam quando o meu irmão mais velho lhe entrava pela alma adentro pois nunca precisou de autorização para encharcar de alegria o dia de alguém, nem os da nossa mãe. Penso que foi a única forma de amor que ela conheceu. Quando o meu irmão não estava, as cortinas dos olhos aveludados da minha mãe estavam corridas. Depois aparecia esta outra pessoa a quem a minha mãe parecia ter arrendado um bocado de espaço dentro de si. Eu temia esta. Era como certos animais com pêlo sedoso em tons de malícia paciente, esperando atrás de arbustos o momento perfeito do ataque mortífero para voltarem a desaparecer na mesma penumbra tenebrosa que os vomitou.

No primeiro, e muito insuspeito, domingo do mês de Maio, testemunhei um ataque feroz da pessoa-animal que levava a minha mãe de vez em quando. Estávamos na cozinha, nós as mulheres, falando de coisas de mulheres. A minha mãe não falava muito e sobre coisas de mulheres não falava nada, cumpria o seu destino e executava-as. Apenas. Com os olhos a arder em sombra e veneno, claro.
Queixava-se a minha tia, casada com o irmão do meu pai, das manias do marido, dos roncos do marido, do detestável hábito de obrigar toda a família a juntar-se ao pequeno-almoço antes do início “das glórias de um novo dia”- disse parafraseando-o – no mais agoniante desprezo pelo matutino ritual migratório, instituído pelo doce e, inegavelmente, único tio Carlos. Na casa do tio Carlos tomava-se o pequeno-almoço às sete horas da manhã e terminava-se às oito menos quinze. E fora sempre assim.
- Estou tão saturada! – soltou com enfado, virando-se para a janela com o mesmo drama corporal ensaiado e encenado no teatro baptizado de casamento em cena há quinze anos.
Sem erguer a cabeça do forno onde o almoço se desmanchava em odor pecaminoso, a mulher, que às vezes era a minha mãe, fez-se águia e num voo rasteiro sobre o espírito da minha tia, cravou-lhe as unhas sem piedade:
- Suponho que ainda assim te cansou mais viver em humildade que viver sem virtude. Afinal é uma troca sensata, não é? A honra por lençóis de cetim. O mesmo marido ignóbil (e abastado) que tanto te cansa é o mesmo que te abriu as portas depois de o teres deixado para ires conhecer de forma mais…intima, os meandros da lei com o Dr. Teles. Não te parece, francamente, que devias estar caladinha? Na minha casa, pelo menos, agradeço que o faças.

O silêncio tem peso e quem disser o contrário é porque não sabe nada de pessoas-animais combatendo-se sem intervalos para que não pereça nem o homem, nem a besta. Naquele domingo, na cozinha da casa dos meus pais, eu podia ter cortado um bocado de silêncio depois do ataque da mulher- águia e guardado numa caixa só para provar que as palavras têm massa. E a sua ausência também.



Esta era a minha mãe.
Um ser indecifrável em estado puro de qualquer coisa que assustava e atraía simultaneamente. Misteriosa, com aquele quê de inacessibilidade provocador. A presença distante da minha mãe suscitava o desejo quase masoquista de tentar aceder às suas riquezas interiores ocultas, que pontual e brevemente saiam para arejar. Apetecia subir as escadas invisíveis que levavam até ela e espreitar para ver o que lá estava a circular-lhe pelo sangue dissimulado de frio. A minha mãe era terrivelmente fascinante na seriedade fugidia e no rigor irresistivelmente fora de moda a pedir que o testassem. Em segredo admirava-a e cresci a querer ser sua cópia. Eu queria ser Intocável. Como ela. Ostentar o mistério a olho nu sem porém permitir jamais que o desvendassem. O “estou aqui mas nunca na verdade me verás, nunca me alcançarás” chamariz dos intrépidos, dos ocos, dos mal-tratados e da eterna incompletude.

Foi já tarde que vim a entender que secretismo e charme são outros nomes para manipulação. Que funcionam. Mas sobre isso podemos falar noutra altura.

Estava a dizer-te que eu era a excepção. Eu não ansiava segurança. Pelo contrário, ficava insegura com as implacáveis exigências da segurança. Com o que era necessário entregar para garanti-la. A segurança era fraudulenta, não se ganhava, comprava-se. Havia gente por todo o lado a vender-se para a obter. Eu estava disposta a pagar qualquer preço, sim, mas pela minha liberdade. Ainda que insegura, inconstante, incompreendida. Tinha era de ser livre. Fiz disto a minha causa e, sem desatar a correr por campos de batalha afora de bandeira hasteada, acabou por ser como eu quis e como fiz para que fosse. A minha emancipação foi reputada de desobediência e durante mais de dois anos após ter saído de casa dos meus pais, estes não quiseram ter o mínimo contacto comigo. Entenda-se, o meu pai proibiu e a minha mãe que, com os olhos em fogueiras de sombra e muitos venenos, cumpriu as ordens dadas.
Não deixa de ser curioso que tanto e nada mudou. Estes anos todos depois, este progresso todo depois e tantos electrodoméstios, ginásios e formas alternativas de estar depois, ainda haja pessoas à venda por segurança. Homens e mulheres. Os homens vendem-se a homens e as mulheres vendem-se a tudo. Vejo a minha mãe em tantas… Na mesma resignação efervescente. Corrosiva. Já dei por mim a pensar se não demos a volta toda para voltar ao princípio e regressarmos a casa. Ao lar. Ao nosso Gral vazio esperando que lhe vertamos valores, amor...tempo. 
Ser mulher não é para todos. E não é sempre ser gente.



Lembrou-se que eu estava ali e constatou com agrado que recebi com serenidade e respeito o que acabara de professar.  
- Fico contente que não te tenham chocado as minhas afirmações. Hoje em dia é praticamente ofensivo sustentar este tipo de ideologia, como se ser apenas mulher fosse redutor. Eu não acho que seja e tu, pelos vistos, também não. Vejo cada mulher como o bailado simbiótico da Imperatriz com a Alta Sacerdotisa, alterando o avental com o vestido preto curto, no cumprimento honroso dos nossos votos eternos e isso é algo magnifico...
Perante a minha surpresa, inclinou-se e fixando-me nos olhos com ternura (que aposto nunca viu nos olhos da sua mãe) disse-me que só estava a permitir-me que a Visse. Que aproveitasse porque ninguém se deixa Ver e que é por essa razão que temos de voltar ao mesmo sítio tantas vezes. Tão magoados.

Se aquela mulher fosse um homem, ter-me-ia apaixonado por ela fulminantemente naquele instante, pedindo-lhe que ficasse comigo para sempre e me ensinasse a Ver.


- Cortei o cordão com as marcas que me fizeram a cópia e tenho andado a lapidar-me noutra obra. Original. Autêntica. Nunca vou ser perfeita para todos portanto vou-me fazendo gira para mim. Deixei de me querer misteriosa para me ir encontrando completa. Hoje ninguém precisa de me adivinhar e, casualmente, falhar porque optei por ser honesta. O mais que consigo e sei. A honestidade às vezes não é assim tão honesta. Ou talvez seja apenas ignorante…Uma aluna permanente.
Acho que o trabalho que nos compete é só mesmo este, dizer quem Somos. Mudar se deixamos de ser aquilo e ir sendo depois o corpo confortável com a alma a que dá boleia. Não é nada de especial, de grandioso, de televisivo. É um trabalho privado, diário, árduo, consciente, de nos perguntarmos “ Quem sou eu e este sou mesmo eu?” Ir atrás, à frente, a todos os lados para ver em que terra de alguém trouxéssemos o que não era nosso. Vermo-nos livres dessas cargas e reaprender a dar passos sem muletas. Nem desculpas…

Decidir num dia qualquer ressuscitar sem morrer.

As mágoas são espertas. Sabem esconder-se e mudam de nome. É difícil descobri-las. Curá-las então…Há que ter mesmo muita vontade de fazer o melhor possível as pequenas missões de todos os dias para que a vida se revele naquilo que é – um processo. Contínuo. Sequencial.
Infalivelmente justo. 
Demorou-me anos, algumas relações, uma solidão que não te consigo nem qualificar, nem quantificar tal foi o seu tamanho, até me ter encontrado pequenina, embrulhada, cheia de nódoas negras num canto escuro do meu estômago. Tem demorado outros tantos a sair de lá e revelar à luz do dia que não sou diferente de ninguém. Só mais uma pessoa armada em arquitecta com um único projecto em mãos - Eu mesma. Como é que me faço? Com um toque aqui, outro toque ali, conforme os toques que me vão dando. Estou toda retocada
Hoje sei, nunca irrepreensivelmente acabada.

O meu amor por ela deu uma explosão que deve ter curado, feito crescer ou parido alguma coisa algures neste universo infinito de Deus feito de linhas cruzadas.
Ela reparou.
- Ainda não me calei! Hoje tenho a língua destravada! Obrigado. Obrigado por este café na taberna mais ranhosa cá do sítio! Não te vou pedir desculpa pelo monólogo esquizofrénico. Estive a rezar contigo este tempo todo e a prece foi ouvida. Obrigado, minha querida, por esta revisão da matéria dada.
Rimos. Rimos sem ruído. Despedimo-nos sem leveza. 
A vida também tinha massa. Para ser trabalhada. Como quiséssemos.
A liberdade era possível. Mas será que a queríamos mesmo?

IdoMind
About… I forgot what

julho 25, 2012

Nós importamos



- Estás tão calada. O que achas? Duvido que não tenhas opinião sobre o tema. Isto deve mexer com essas tuas convicções, que tão fogosamente defendes – desafiou com o ar- de- alfinete, como que a querer uma reacção, uma qualquer, mas uma reacção.
Já havia, é claro, pensado sobre o assunto. Ele tinha razão. Muitas e muitas vezes. Todas as conclusões a que chegara, travaram à porta dos domínios do inexplicável. Aceitara-o. Há campos onde crescem mistérios conforme amadurece a fé de cada um e a vontade, também ela nem sempre explicável, de perguntar porque temos pernas e não patas, jardins-de-infância e não campos relvados de perder de vista. Porque é que temos culpa a tingir-nos o instinto. Quem foi afinal que deu à luz, dentro de nós, aos sentimentos? Já vêm agarrados a uma célula rebelde qualquer ou são plantados a cada colherada de sopa, às letras que se aprendem a juntar e aos saltos altos que se calçam? Onde e quando nos separámos do resto da criação e decidimos desenvolver uma consciência de quem somos. Como foi que isto que isto aconteceu e, talvez mais importante, para quê?

Nunca chegou a saber bem se dormir pouco era um poder, como aqueles dos super-heróis, que os tornam pessoas melhores e ao serviço dos outros ou se era uma doença, dessas esquisitas que criam um sentido de divisão tão grande entre o doente e o resto do mundo, que à medida que a doença avança, fica mais difícil regressar ao sítio onde não estão as coisas selvagens.

Porque ainda precisava de comer e pagar mensalmente ao banco a concha na qual se recolhia para filosofar consigo mesma, guardava para si a maior parte das questões, tocando, nalgumas noites mais compridas, a compreensão de que é sabedoria e não elitismo preservar em arcas fechadas alguns conhecimentos. Seria cobardia disfarçada? Medo camuflado?
É que na falsa Era da Liberdade, a única que existe é a de ser igual a toda a gente. Há uma normalidade padrão que acusa a diferença, como um alarme sonoro, muito ruidoso, que só se cala quando todos decidirem como é cada um deve viver a sua experiência única. Tão pessoal. Todos os dias ocorrem atropelamentos e, quer por acção, quer por omissão, os registos criminais da humanidade estão manchados pelo desrespeito pelo próximo. É assim, a correr em círculos sobrepostos que nunca se sabe onde se está, o que se quer e se esquece porque viemos até cá. A atenção ainda fica presa em quem pergunta e não na própria questão, em quem afirma e não na afirmação. 

Não. Não era cobardia. Não era medo. Apenas espírito prático. Desenvolvera a sensibilidade de falar menos e ouvir mais para discernir quando iria honrar a magia das palavras ou só usá-las em benefício próprio.Como acontecia naquele momento. 

Falava-se de suicídio. E falava-se de suicídio como se falava das últimas medidas governamentais. Talvez fossem similares, de facto… A doutrina pós-farto jantar e “vamos lá falar de qualquer coisa e servir como sobremesa uma solução instantânea para os problemas mundiais” dividia-se entre os que achavam um suicida alguém muito corajoso e os que quase rezavam para que a ressurreição fosse verdade só para esse medroso (ou merdoso, não entendera bem) nascesse de novo para ser castigado por tão vil acto.
Preferia ter ficado calada, mas só o iria conseguir depois falar porque pararam à espera da sua opinião.

- Não me compete julgar as escolhas dos outros, apenas reflectir nas minhas próprias.
Não acho que alguém acorde, se espreguice, levante da cama, olhe pela janela e pense para si:
- “ Que belo dia para me matar.”

Excepto casos patológicos, acredito que o suicídio é o culminar de um estado de profundo desespero interior. E se estão numa de ir mesmo, mesmo ao fundo da questão, é, sem rodeios,  a solidão que conduz ao frasco de veneno, ao gatilho nervoso, à corda que faz o nó.
Por isso, o que quer que pensem do suicida é o que devem pensar de vós mesmos. Em que medida é cobarde ou corajoso viver com olhos tão pregados no umbigo que não se vê o que está à frente. Ou não se quer ver… Essas pessoas dão sinais.
O sentimento de separação, de rejeição, de impotência ou qualquer outro que a tenha levado a considerar pôr termo à própria vida como a única alternativa, é responsabilidade de todos. Do peso que descarregamos nos outros, das expectativas, quase cruéis, com que os investimos. Da falta de amor, de interesse. Da ausência da palavra simpática, do gesto carinhoso, do “parabéns, excelente trabalho” que fica por dizer, do “ vem até lá a casa” que nunca arranja tempo para ser verbalizado. Ou realmente desejado.

Juro, não estou a criticar. Eu já tive vergonha por estar tão distraída fora de mim, a visitar motivações alheias, que me esqueci de perguntar se eles próprios precisavam de alguma coisa. Companhia, talvez. Às vezes é quanto basta…Por isso, quem sou eu para qualificar uma decisão tão atroz em termos de sofrimento pessoal, como desistir de viver…?

E já agora, quem somos nós para obrigar alguém a continuar? Pior, a condená-lo por isso.
A nossa obrigação termina na amizade, na mão estendida e nos ouvidos disponíveis. O resto não é connosco. É respeito.

E sabem que mais, o suicídio não aparece adulto. É semeado, é nutrido, é vigiado. É uma ideia que cresce e um dia, como uma erva daninha, o suicídio matou a vida dentro da gente. Prefiro ter boas ideias, boas conversas, boas atitudes. É assim que mantemos a nossa plantação sadia.
Vamos por isso brindar à vida, aos laços que não nos deixam cair, ao silêncio onde falam os anjos dos outros e à coragem… à coragem de assumir que conseguimos mais que pagar impostos e fazer reciclagem. E fazê-lo.

IdoMind  
About true honesty

julho 13, 2012

Danças?


Apesar de saber que já deveria estar a caminho, o corpo discordava recusando-se ao mais pequeno movimento para iniciar a marcha. Ficou um bom quarto de hora sentada no carro com as mãos no volante. Viu o casal da frente, na ginástica matinal do costume, a arrumar os três filhos dentro do valente Renault Clio, há muito a merecer um enterro digno.
No jardim ao lado, o Sr. Vítor resmungava do mundo, sobre o mundo, para todo o mundo. Nem ela, nos cinco anos a que ali morava, tinha conseguido largar uma singela gota de mel na disposição daquele viúvo, que ao contrário do Clio do casal da frente, já se havia enterrado vivo à nascença. 
Ainda conheceu a esposa, a Dona Laura, e muitas vezes se perguntou se seriam do tempo dos casamentos arranjados pois estavam um para o outro como Vénus estava para Plutão. Sem ser inconveniente, perguntara-lhe certa vez como fazia para não se deixar atingir pelo mau-humor do marido. Respondera a rir que a felicidade se cozinha com a dose certa de cegueira e falta de audição. E que o sexo era razoável…As gargalhadas explodiram, é claro. A Dona Laura era uma pessoa-primavera. Agradável, bonita, com uma frescura que preenchia cada uma das suas muitas rugas com flores e com sol. Exalava o ar puro de quem se basta a si mesmo para encontrar todos os bons motivos para estar vivo. Gostava-se de estar perto da Dona Laura. Partira para florir o céu há uns meses, após uma gripe mal curada que se transformou noutra coisa e no pretexto que foi preciso para justificar a missão cumprida e a necessidade de ir cumprir outra.
Estava tão atrasada!!
Regressou à Terra e percebeu que tinha mesmo de tomar uma decisão. Agora! Ou a decisão seria tomada de qualquer maneira porque a vida tem horários para cumprir. 


Se por um lado lhe agradava a ideia de pular para dentro do sonho, por outro lado os sonhos têm isso de desfechos imprevisíveis. Têm desvios esquisitos para terras nunca vistas. Personagens que não conhecemos de lado nenhum que nos dão conselhos, enviam mensagens estapafúrdias e, às vezes, só estão ali, connosco, como se afinal nos conhecessem desde o tempo das fraldas. Ou mesmo antes. Do tempo que não se mede pelo relógio porque não tem uma hora a partir da qual se contam todas as outras horas. 
Os sonhos são perigosos. Como portas entreabertas daquela divisão que nos advertiram para não abrir e não espreitar…

Ir para Moçambique como voluntária era o sonho a pedir o pulo. A proposta para ir em Setembro era a porta aberta. Escancarada. Mas ela ainda estava na parte da advertência.
Sempre fora obediente e pouco dada a meter os dedos nas tomadas eléctricas para descobrir se davam esticões. Comedida e prudente, grande parte do conhecimento adquirido proviera mais da observação, do que da experiência directa. Será razoável dizer que a sua personalidade era produto da soma de 70% de ver e aprender e 30% de fazer e saber. Sim, também gostava de cálculos. Contas com resultados positivos. Encontrava paz em operações matemáticas inteligíveis e cristalinas. Aborrecidas para muitos talvez, mas para ela absolutamente necessárias ao seu sono e à sua saúde física e mental. Calculou a idade com que estava, os preços das suas responsabilidades, o já conseguido e o a conseguir. Calculou o a perder... 
Porém, a regra dos três simples não estava a resultar. Nem qualquer outra regra. Percebeu mais tarde porquê. A fé não entrava na equação. A fé era a equação.  
“Mas porquê é que eu fui àquele jantar - chegou a perguntar-se num misto de arrependimento e fatalismo bom – Se tivesse ficado quietinha em casa a ver os Simpsons ou ido à praia, nada disto estava a acontecer”.
Mas não tinha ficado e não tinha ido. O jantar acontecera e o convite do Presidente da Associação de Ajuda Humanitária que promovera o evento, para ser voluntária em Moçambique a partir de Setembro, também.
A ponte do mundo dos sonhos para o mundo do Homem tinha sido estendida e cabia-lhe agora escolher em que margem continuar a contar as horas do relógio que não marca o tempo.
A indecisão arrasava com ela. Não era o aceitar ou o recusar que a consumia. Isso era simples. Penoso era o calvário até pedir que lhe marcassem a viagem ou antes informar  que agradecia muito, mas que ficava para uma próxima oportunidade. 
Todo aquele processo de prós e contras, de “o que tens a perder” e o “estás doida?” era muito desgastante. Já tinha passado por aquilo uma vez - uma decisão que não era uma simples decisão, mas uma Senhora Decisão. Com letra grande. A negrito!

“Se estás à espera que te dê uma palmada nas costas e diga que deves, sem qualquer relutância, arriscar, não vieste procurar a pessoa mais indicada. Antes de escolher a estrada pergunta-te porque precisas da viagem. É tudo o que tenho a dizer-te. Querida, a resposta está no motivo e é o motivo que te vai levar a fazer a verdadeira pergunta – quero fazer isto por este motivo?

Deu à chave, engatou a primeira e arrancou com um sorriso infantil cinzelado na alma. Agradeceu em pensamento àquela amiga e àquelas palavras entornadas anos antes numa esperança, para hoje regarem providencialmente uma outra.
Queria ir por Aquele motivo. Queria muito.

IdoMind
About where we should be

julho 10, 2012

Saltos de Fé

Para onde pensavas que ias? Pára, para que a lembrança de que o mundo é redondo te apanhe e te faça rir. Em que canto julgaste ser possível observar a vida passar, sem dar por ti, ali, sentado e sozinho sem ter vontade de inventar uma nova viagem e um novo destino?

O que fizemos este tempo todo? Andámos às voltas. Com as mesmas coisas. As mesmas pessoas mas com outros rostos. As mesmas dores nos mesmos sítios. As mesmas perguntas feitas de muitas formas diferentes. A mesma resposta. Andaste a fazer o mesmo que eu – atrás do teu Lugar. Aquele Lugar. Com sombra e água perto. Com os pássaros a falar sobre a felicidade na língua que os pássaros falam. O Lugar onde se entra nú e assim se fica porque não é preciso esconder nada. Nem há frio. Ou vergonha. Basta chegar. Querer ficar. E depois basta ser.

Andei, como tu, a aprender que o Lugar não existe. Constrói-se. De sins e de nãos e de talvezes. De cedências e desistências. De adeus que não se dizem, executam-se. Fria, dolorosamente. Ou não. De sacríficos afinal só estúpidos, desnecessários e prorrogados para lá do prazo razoável a entender que não há dignidade no martírio. E que é só isso que a Vida espera de nós. Que sejamos dignos dela, vivendo-a com a mesma Graça com que nos é oferecida.
Esta foi a lição mais complexa. E tive mesmo de parar. A pergunta era demasiado séria para ser feita em andamento ou a correr. Estava a questionar o meu direito à Liberdade.


Quando parei, percebi que Deus era ridículo. Despejei Deus do meu Lugar e deixei o espaço aberto e limpo para O que viria amorosamente pedir-me apenas que fosse feliz. O que não fica contente se eu não estou. Que não me pede feridas em troca de uma absolvição que só Ele precisa, já que sou Sua criação. O que nunca ouviu falar doutro pecado que não o de desconhecer o Amor. Ou de não o levar connosco e apregoá-lo em toda a parte, a todas as nossas partes. 
A minha primeira volta aconteceu com este divórcio do Deus dos outros para descobrir o meu próprio.
Não te iludas. Não ficou mais fácil. As decisões estavam agora por minha conta e deixou de haver recompensas para depois da morte, só colheitas em vida. Como sou regrada e ainda preciso de um fio que me guie até onde a luz se acende, segui a Lei que manda amar os outros como a mim mesma e, pelo menos tentar, não lhes fazer o que não gostaria que me fizessem. 


Não tem corrido sempre sempre bem, mas sei que tem sido sempre para meu bem. Como é que sei? Porque me sinto bem. Bem melhor. E porque faço o Bem, não por medo, porque tem de ser ou sei lá porquê. Faço o Bem porque me faz bem.
Sei, porque escrevo com a mão solta sobre a leveza que me vai no coração. Na alma. Perdi peso nestas minhas voltas e até a alma ficou em forma. Estamos as duas muito bem. Falamos e tudo. Às vezes até a percebo. Fazer o que me sugere, o que me berra, por vezes, isso é outra questão.... Ainda tenho dietas a fazer e regimes a seguir. Depois do Verão… Quando começar outra volta. 
Eu e a minha alminha, juntas no regresso às aulas para um ano cheio de lições para o Grande Livro da minha humilde, bonita e cada vez mais abençoada Existência.


O que fizemos este tempo todo? Dissemos adeus. Esgotámos prazos. Chegámos a conclusões quase clarividentes enquanto conduzíamos. E abanámos a cabeça no “como é que eu fui capaz de achar que aquilo era o melhor” um pouco incrédulos connosco mesmos e com os limites que se foram alargando sem darmos conta ,até que os limites deram conta de nós…
Andámos a mover acções de despejos ao Deus de toda a gente e de ninguém.
Estivemos a arranjar espaço, a criar cores, a chamar os passarinhos.
Estivemos a construir o Nosso Lugar.

IdoMind
About...not minding

junho 14, 2012

Não Se desistam

Hoje queria ser capaz de escrever uma coisa que tocasse num sítio tão escondido dentro de ti que fosse mais ou menos obrigatório chorares. De emoção. Lágrimas boas que te lembrassem, quem sabe, ao que vieste. E porque vim contigo. Era o que gostava de conseguir hoje, tocar-te. Ir onde só uma Parte está autorizada a ir quando a Outra pára na Ilusão de que chegou. Quando confunde o Fim, que nem sequer é feliz, com um intervalo. Só um pequeno intervalo. Mais um. De tantos que se fazem porque a certa altura, depois de certos erros, dói mais falhar do que fazer de conta que acertámos. E então faz-se de conta. É aí que estou. No limiar da tua desistência a pedir-te que venhas. Que voes para aqui, para casa. Que, por favor, não te esqueças de mim. Do acordado. Tenho saudades tuas e ao ninho que fui ajeitando no meio do meu peito, falta a tua metade. 
Vem…


Espero por ti no lugar do costume. Acendi a fogueira para estar quentinho quando chegares. Espero por ti numa destas manhãs a acordar-me com um beijo e um pedido de desculpas pela demora. Espero por ti para te dizer com alívio que não faz mal e que ainda bem que chegaste. Vou abraçar-te até te sentir real e soltar-te só quanto te ouvir a rir enquanto me prometes que no dia seguinte e no outro e no outro ainda vais estar ali, comigo, debaixo da nossa árvore à beira do rio.
Descansaremos finalmente. Arrumados um no outro perceberemos que seria impossível cabermos noutro lado. Noutro alguém. Foi por isso que apesar de todo o esforço, da vontade sincera de fazer com que resultasse e de alguma dose de preces quase mordidas, nunca na verdade coubemos. Nem ninguém teve a medida exacta do nosso espaço por ocupar. É que os nossos recortes são gémeos. Ímpares. Filhos das mesmas despedidas que nos separam à nascença para que nos procurássemos. Nos reconhecêssemos e fosse cumprida em nós a palavra do profeta que anuncia que o que Deus juntou nada pode separar. Nada. Nem o tempo. Os outros. A vida que se complica. Que ajudamos a complicar. Tudo servirá esse momento celeste da fusão destes dois nossos corpos em nome da unidade do espírito. Teremos o céu inteiro a celebrar connosco porque conseguimos. E as estrelas irão descer sobre nós para nos dizer obrigado por as termos seguido.
Não te vou mentir. Tenho receio que não estejas desenvencilhado do mundo quando nos avistarmos. Que andes distraído a ser marido. Pai, sei lá. Responsável Respeitável. Homem sério a acreditar que o que existe é o que se vê. Que isso dos sonhos é para as mulheres e os tolos. E se não te apetecer abandonar o que conheces para te entregares a uma desconhecida, com o mesmo tipo de fé guardada para os amores incondicionais, intemporais. Podes ignorar-me. Permanecer igual e seguro longe das nuvens para onde aponto. Podes recusar o meu convite…
Também receio por mim. Daquilo que te digo debaixo da coberta e que não entendo nem me lembro. Depois disso não te vejo mais. Temo partir. De novo. Ir embora sem me importar com o vazio impreenchível que sei que vai ficar. Eu já não sei ser feliz e posso não querer o presente que tens para mim. Se estás a ler isto, guarda. Pode chegar a altura de seres tu a pedir-me para não me esquecer de ti. Do acordado. Não me deixes ir assim. Segura-me contra ti. Cola-me ao teu coração e diz-me para não ir. Com os teus braços fundidos à minha volta, relembra-me onde pertenço. Diz-me baixinho que estás cansado de sentir a minha falta e de me procurar por aí. De sonhares comigo à tua espera algures… do toque, do cheiro, de todos os meus centímetros que já conheces e que darias tudo para contar mais uma vez.

Se estás a ler isto, e se és tu, talvez tenha conseguido tocar-te.
Espera por mim…Numa destas voltas havemos de nos encontrar porque a força que nos empurra é a mesma que nos junta.
Guarda isto para lermos os dois, enrolados um no outro, no sítio do costume iluminado pela fogueira que não vou deixar que se apague.
IdoMind
about happy endings and happy lives

maio 21, 2012

Lê-me




Faz de conta que é proibido pedir.
Como um feitiço lançado à voz,
Um travão à queixa a querer fugir
Diante da lâmina veloz,
colada na língua feroz,
Pronta para ferir.
E cortar-me toda, antes de partir.

Faz de conta que não aprendi a chorar,
Se sentia fome, sede ou uma dor.
E que ainda mal sabia andar,
Quando o colo se fez vapor
Ensinando-me o valor
da arte de largar
o que quer ir e o que não é para ficar.

Faz de conta que não cresci mal.
E num desses sítios onde se sente,
Sem pecado, peso ou moral.
Livre e diferente,
No meio da gente,
Cheia de medo afinal
Do que veio e do que se faz desigual.

Não faças de conta…

E não me faças envelhecer
Muda, atrás desta montanha.
Atravessa-a para me dizer:
- Anda daí estranha,
completar A campanha
Desta vez não te vou perder
Outra vez, sem te ter...

IdoMind
about The Box
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