Disseram assim:
- Olha para a dor de frente e a
dor vai desaparecer, como um muro que se desmorona.
Pensei de imediato “como diabo
isso se faz?? Eu quero!”
Fiquei curiosa por saber como realizar
esta magia e continuei a ouvir, na esperança que fossem dadas instruções para a
aplicação prática desta máxima, que me pareceu a cura milagrosa de tantas, se
não todas, as patologias emocionais.
Tenho o privilégio de constatar, praticamente todos os dias, que a doença tomou conta da cabeça e do coração das
pessoas. Se perguntados porque querem ou precisam de agir de determinada forma
para obter determinado resultado, a resposta, quase invariavelmente, acusa dor.
É o Medo de sofrer que (n)os leva a magoar. E o círculo fecha-se.
Se ao primeiro porquê se
sucederem mais porquês, a resposta final, já irritada, acaba por ser - porque
eu tenho razão! Gente grande a responder como rapazes pequenos. Será isto fugir
de olhar a dor de frente e fazer com que continue a doer?
Com todas as implicações que traz, há muito que eu escolho o meu trabalho e não aceito patrocinar todos os litígios que me são
apresentados.
Lembro-me do momento exacto em que tomei verdadeira consciência
da importância da minha conduta profissional. Tinha acabado de tomar o comprimido vermelho e ainda andava a cambalear
entre o deslumbre e a heresia. Não me pareceu muito distante a entretanto
abundante literatura que já havia na área do desenvolvimento pessoal e
espiritual, da ficção científica que estava habituada a ler e que continuo a devorar.
Uma amiga emprestou-me então “ Muitas Vidas Muitos Mestres” do Brian Weiss. Para quem
não conhece, trata-se de um psiquiatra reconhecido, formado na Faculdade de Medicina
de Yale e portanto um académico. A minha amiga conhecia-me bem... Se fosse um
tolinho qualquer de branco a falar-me de visões que tinha tido durante um jejum,
na altura nem sequer tinha tocado no livro e reconsideraria manter a amizade.
Decorria o ano de 1980 e o Dr.
Weiss foi trabalhar como de costume. Aconteceu que durante uma sessão de
hipnose, a cliente que estava a tratar de acessos de pânico, medos e fobias inexplicáveis, vai tão para trás na raiz dos seus traumas que começou a descrever uma vida passada, narrando inclusivamente detalhes do que estava a
experienciar que seriam impossíveis
dela saber no contexto da sua vivência actual. De repente, a reencarnação reencarnou no gabinete do reputado médico, que por muitos anos manteve este episódio em segredo, receoso de como seria recebida a sua descoberta pela comunidade
científica, pelos amigos e até pela família. Continuou porém a desenvolver esta
terapia, conduzindo aquela, e outros pacientes, a vidas passadas. O livro é o
relato de algumas destas sessões.
Numa nota, a determinada altura,
o Dr. Weiss menciona que de todos os pacientes que em estado de hipnose descreveram
experiências de vidas passadas, bem como o que acontecia logo após a morte nessas vidas,
que chamam de “ espaço entre vidas”, apenas um descreveu a experiência de ter
morrido e ter ido para um “lugar” correspondente ao que imaginamos ser o inferno
– um advogado!
Caí em mim!
Tive noção naquele momento que
TUDO o que faço tem uma consequência. Quando morreu na vida que foi levado a relembrar em estado de hipnose, aquele advogado deve ter partido em tal estado de desconformidade com os
desígnios da sua alma (ou da sua moral) que morreu julgando ser merecedor do
inferno. Condenou-se assim em vida a alimentar o verdadeiro inferno - viver na luta consigo mesmo, pois haverá pior castigo que não ter paz? Haverá pior condição que a falta ou a perda de amor por nós mesmos? Haverá pior violência que a praticada contra a nossa essência? Dia após dia após dia...Haverá pior inferno?
Percebi então que tinha a
responsabilidade, não de evitar o inferno, mas de usar a minha vida para
construir nela o Céu. O meu trabalho constituía uma ferramenta valiosa para esta
Obra. Não é só um trabalho. Nenhum trabalho é só um trabalho. O
nosso trabalho é a matéria-prima onde mostramos de que matéria somos feitos. É
uma terra por arar os frutos que haverá de dar.
A minha postura mudou muito desde então. Cada
pessoa sentada à minha frente, no escritório, deixou de ser um cliente para
passar a ser Eu à procura da minha ajuda. Afinal de entre milhares de colegas, foi a mim que recorreram.
Aproveitei-os então, e sempre que consegui, para colocar janelas
bonitas no meu Céu, dar um jeito nas varandas ou arranjar o jardim da frente.
O inferno é a ilusão de que estamos separados...
Fui estendendo este entendimento
ao resto. Quanto mais me responsabilizei pelos meus actos, menos os actos dos outros me foram doendo. É que ninguém me faz nada que eu não tenho feito antes…
Sabendo
e acreditando que assim é, passei a estar atenta às minha reacções "normais", automáticas, instintivas. Geralmente defensivas. De que me defendia eu? O passo seguinte foi então descobrir
onde e porque doíam os ataques dos quais precisava de me defender.
Parece-me que não há grandes
dúvidas que foi de quem mais confiávamos, que apanhámos a bactéria alojada em
nós a deitar ovos até hoje. São antigas as memórias que ainda hoje nos manobram os passos.O nosso passado contamina-nos o Presente. Passado este que pode ir tão longe como os
passados dos pacientes do Dr. Weiss ou bater já ali, na infância difícil e nuns
pais impreparados para o Amor.
Uma vez que estou numa de
confessionário, as minhas dores, as que consigo reconhecer pelo menos, devo-as a
um início de vida hostil, que me levaram a arranjar uma maneira de sobreviver à
carência de afecto. E de muito mais.
Primeiro que aqui chegasse…Tive
de passar pelos clientes que eram Eu à procura de ajuda.
Também os meus pais (pai) era Eu
a aprender a pôr comida na mesa para quatro. A dizer não aos amigos para ir ajudar nos exercícios de matemática e colocar a mesma pergunta mil vezes até perder
a paciência e esticar da mão contra uma coisa pequena que não queria fazer contas, queria ir ver “ O fugitivo”.
Vim para dizer
àquelas pessoas que a vida deles nunca mais ia ser igual e é natural que não se
consiga logo acertar nisto de ser um pai que não deixa marcas…
Se está tudo resolvido e hoje é
só beijos e abraços? Não!! Ainda preciso de aprovação, ainda me doí tanta
parvoíce, ainda não sou Livre.
Ouvindo dizer que bastava olhar de frente e a dor desaparecia, é claro que pus nisso toda a minha atenção. Queria tanto saber como, que esqueci a timidez e expus a minha dúvida:
Sabemos que é aconselhável enfrentar os nossos medos.Isso é fácil. Se tenho medo, por exemplo, do escuro, posso fechar-me
num quarto e passar uma, duas, três, muitas noites às escuras até deixar de
temer a escuridão ou ter um enfarte. Se tenho medo do abandono, posso ir dizer
tudo que tenho engasgado a quem tenho medo que me abandone e esperar que a pessoa fique e me ame ainda mais ou vá embora de vez.
É-me mais fácil identificar o
medo, que a origem da dor. Por conseguinte, é-me mais simples saber o que fazer
para acabar com o medo do que com a dor.
Soma-se que acontece vencer o medo e nem por isso acabar com a dor.
Como se faz então?
Como é que se olha uma dor nos
olhos? Tantas vezes nem sequer sabemos qual é órgão que se está a queixar.
Eu perguntei a um monge como se olhava de frente para um coração partido.
A vós, o que vos dói? Porquê?
Conseguem dizer?
Conseguem dizer-me?
Também esperam que seja o tempo a cura-la...?
É que estou cansada de algumas dores e gostava mesmo que magicamente desaparecessem como um muro que desmorona…
IdoMind
About easing this soul of mine…