setembro 28, 2009

A Extraordinária História de um Lugar Deveras Extraordinário - blogonovela por IdoMind

Capítulo I
Sustus

Foi apenas com os seus tenros 10 anos de idade e no despontar da sua primeira crise existencial, que Benjamim descobriu o conforto de ser deixado sozinho. Era filho único mas tinha uma mãe siamesa. Onde quer que fosse, o que quer que fizesse, lá estava a sua sombra em forma de mulher.

Um dia Benjamim começou a correr. Há medida que se afastava de casa, transformava-se numa corrente de ar empurrada pelo vento. Era o Benjamim Leveza e sentia-se tão bem! Só uma hora depois de ter levantado voo e a uma distância considerável de casa (na medida de quem tem 10 anos de idade, claro), começou a sentir o peso das pernas a pedir terra sólida, de preferência um pedaço de relvado verde e fresco onde pudessem recuperar até a próxima partida.


Ofegante, deu por si num cemitério. Não daqueles em que há mortos, mas um cemitério de bocados de vidas. O último lar dos despojos, que a dado momento e com um determinado objectivo, passaram pela vida de alguém, para terminar ali, num amontoado confuso de plásticos, pedaços dilacerados de roupa e papéis, onde as palavras outrora dignas de registo esvoaçavam agora sujas e perdidas - a lixeira. Melhor dizendo, o espaço onde havia funcionado a lixeira, agora transferida, sob um nome muito mais pomposo, longe de fazer lembrar lixeira, para os confins de uma terra fronteiriça, mais pequena e quase desabitada.


Era ali que Benjamim se refugiava desde então. Fez da ex-lixeira o seu recatado jardim, ainda que o único vestígio de vida vegetal fosse o velho carvalho que, resistindo com inigualável valentia às incessantes e esforçadas tentativas da Junta de Freguesia de o decepar, permanecia, teimosamente, de raízes bem fincadas no solo castanho que o lixo tornara estéril.

A batalha judicial havia sido longa, desgastante e apaixonada. A questão sobre o abate ou não do voluntarioso carvalho acabou por ser ganha por Joaquim Belverde, o proprietário do terreno, que conseguiu convencer o Sr. Presidente da Junta a reconsiderar a sua decisão. Recorreu para o efeito, não uma qualquer artimanha jurídica, mas à sobejamente conhecida superstição do autarca.

Acontece que uma criança estava refém do carvalho.
Numa noite abafada de Verão, libertando a inquietude que o calor parece causar, sobretudo nos mais pequenos, José e Tomás foram até ao seu sítio favorito – “O Reinado”.

Os cerca de dois hectares de terra dourada outrora camuflada por longos e densos braços de feno, eram desde sempre, ou pelo menos desde que se lembravam de existir, a segunda casa dos dois amigos. O lugar que era só deles, onde engendravam os esquemas que punham em acção no dia seguinte na escola, onde trocavam as experiências das suas curtas, mas já riquíssimas, vidas e partilhavam as parvoíces que acreditavam ser as verdades mais absolutas sobre o funcionamento do universo. Claro que como qualquer esconderijo digno desse nome, foi também no “Reinado” que deram os primeiros bafos nos cigarros corajosamente roubados ao temível talhante da rua onde moravam.

José subiu então à árvore para verificar se o perímetro estava livre. Sem que ninguém previsse, uma forte chuvada fustigou a vila e ao sinal do primeiro relâmpago Tomás pediu-lhe que descesse, o que este recusou respondendo-lhe:
- “ A chuva não me molha e os raios não me podem atingir aqui. Já te esqueceste, esta é a nossa casa Tomás e os ramos do “Sustus” são o nosso telhado. "
Assim haviam baptizado o carvalho depois de terem afugentado um pastor, que ao invés da sombra da árvore, encontrou cerca de uma dezena de esquelos de vaca ao redor do tronco. Escondido num dos oríficios do Sustos estava um gravador, que os amigos accionaram quando no horizonte viram o pastor a aproximar-se. E foi como se um coro de seres bestiais tivesse emergido da terra gritanto " Claro que estamos loucas. Parem de nos comeeeeer!". O pastor voltou a desaparecer, agora mais rápido, do horizonte.

Quando voltou mais tarde, desta vez acompanhado, não havia vestígios das ossadas, nem ecos das vozes.
As últimas notícias que tiveram, davam conta que tinha aberto uma ervanária na cidade.

A chuva engrossava e o céu vestira-se de luto, mas o jovem José, que ainda se via infinito, empoleirado no Sustos assistia do seu camarote ao espéctaculo da natureza, respondendo ao seu amigo:

" - Aqui nada nos atinge. Nem mesmo os gritos de Deus. E riu.”
Neste instante, um trovão ensurdecedor acompanhado de uma luz brilhante que clareou toda a noite com uma intensidade invulgar, fulminou José, que morreu a sorrir e a acreditar.

to be continued...

IdoMind

about story telling

setembro 24, 2009

Entende, se quiseres

A luta pelo mundo começa pela luta por mim.
De que adianta partir sem saber porquê. Que causa vou eu defender, aqui, onde todos somos heróis de uma história. Aqui, onde os certos e os errados têm a duração de um folêgo. Onde o bem e o mal são as mãos do mesmo corpo.

Os vilões extinguiram-se numa ressureição. Hoje somos todos santos a renegar a nossa herança.

Contra quem empunhar a espada, se do outro lado do campo também lá estou eu.Revejo-me no fogo que o coração ateia nos olhos. Na força das palavras que ainda ninguém domou. Na vontade de lutar porque a causa é justa. E deste lado também sou assim, com o mesmo fogo, a mesma força, a mesma vontade. Sou diferente na cor. Acredito noutras coisas. Noutros Deuses. Às vezes não acredito em nada. Tenho outras prioridades. Uma personalidade que me dá as vértebras para caminhar direita. Sou diferente nas escolhas.


Mas somos filhos do mesmo Pai e voltaremos ambos à Casa de onde partimos à nossa Procura.
Por isso, não lutes contra mim e eu não luto contra ti. Que os nossos espíritos guerreiros conquistem em amor e pelo amor que nos trouxe até cá. Só. Que a nossa liberdade liberte.
Os campos de batalha estão onde quisermos vê-los. Os jardins também.
O inimigo podes ser tu com amnésia.Dorido e cansado disparando em todas as direcções.
Eu vejo-te uma árvore de raízes profundas cravadas na Terra que é o teu lar, crescendo quase impercetivelmente rumo às nuvens. Vejo-te a comer do chão mas a beber do céu.

Vejo-te um, dividido por muitos.Que cumpras a tua parte. E eu cumpra a minha, para que mais um regresso seja celebrado.
Porque alguém o consegue dizer melhor, deixo-te com as suas palavras:


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”

IdoMind
about Us

setembro 21, 2009

A Cama

Haverá limites para o amor que se sabe indomável,incorrentável, que se enraíza a cada voo.
Para esta vontade de experimentar. De sentir o sabor. De agarrar um adeus. De tocar os corpos nús, com peles que não mentem.
Gosto de arrepios. Dos que partem depois de nos deixarem num reboliço. De mãos destemidas que tacteiam a vida. E as mulheres. Que lhes adivinham as curvas com suavidade. As mãos gentis de uma alma à descoberta da outra.

Com chocolate ou sem chocolate, seguindo um rasto de velas, pétalas de rosa ou a correr porque já não apetece mais esperar, encontrar a cama onde os segredos se revelam.
Falar. Sem me preocupar em fazer sentido. Permitir que me vejam porque sou bonita.Voltar a rir por todas as vezes que me encolhi e escondi o sol atrás da vergonha.Das oportunidades perdidas de ter me ter conhecido mais cedo. De dizer o que quero ouvir. E depois deixar-me ir pelas palavras para aquele sítio onde já não se ouve muito bem.

Entender que não há pecado. Trancar os errados do lado de fora da porta e levar para os lençóis apenas a pessoa que quero ser. Respeitar-me.
Onde o humano e o anjo se encontram, perguntar que parte de mim ergue mais alto a sua voz. A sua vontade. Ou que parte minha quero calar por aquele momento em que não vou estar sozinha. A que preço estará o amordaçar do ser? Quanto vale a viagem para fora de mim?


Paga-se para manter o que não se quer perder. Mas as perdas não se seguram é por isso que as perdemos. Não se evitam, por isso acontecem. As perdas são as estradas a reencontrar-se. No meu quarto não se constroem atalhos porque sou livre e porque confio. A cada um, a estrada traz o que lhe pertence.


Dar-me é não ter medo. De mim. Do outro. De ir na direcção que escolho.De escolher outra.
Só os corajosos fazem amor. Os outros… não sabem o que fazem.
IdoMind


About love making

setembro 17, 2009

Hojes

Porque não?
Encher os pulmões e receber a vida. Deixando o que foi para trás com a certeza nos novos começos. Gloriosos, esperando por nós já ali a tão poucos metros do sítio onde parámos.
É tirar a terra que pesa sobre os ombros e respirar à superfície.




Porque não saltar de um avião. Enviar um telegrama de chocolate ao chefe pedindo aumento ou ficar a ver o por do sol depois do trabalho. Deixar de ser mãe por umas horas para ser apenas mulher. Ficar calada um dia inteiro e somente ouvir. Os outros, o silêncio e nós mesmos. Consentir que o vazio nos encha.
Porque não usar palavras doces para dizer o que se quer. Falar com as mágoas para as compreender. Rir depois do diálogo porque eram afinal nadas que o medo tornou um Tudo.



Porque não partir a casca do ovo. Somos todos pequenos a aprender a andar. É bom estar quentinho no conforto de uma casa onde não cabe mais ninguém. Mas porque não apanhar frio para descobrir o amor de uma manta alheia ou de um abraço dado com a alma.
Porque não ficar feliz com as coisas simples?

Acreditar que é impossível a infelicidade. Que todas as lágrimas são o coração a dizer que entendeu e que fará melhor a partir de agora. De hoje. Desde instante sagrado.
Ser diferente sempre que os sorrisos fugirem dos nossas faces. Procurá-los de novo. A dor só faz doer. Que sejam breves os nossos lutos para a cor de novo regresse.


Porque não andar de baloiço no meio das crianças. E se o guarda vier, porque não andarmos os dois de escorrega. Levar uma flor à professora do nosso filho porque lhe está a ensinar coisas importantes. Premiar um funcionário ou colega com o prémio da simpatia. Sei lá, porque não ser uma pena numa grande almofada emplumada.


Viver em alegria. Somos graças únicas.
Porque não comemorar esta existência como um milagre que não se repetirá.
Porque não rodar o mundo e fazer do chão o nosso céu.

Porque não?

IdoMind

about all the why´s



Porque alguém faz circular o AMOR.

Porque alguém nos enlaça como um só.

Porque alguém se importa.

Porque alguém é alma assumida.

Hoje dou mais um passo em direcção a todos e digo com o coração destapado quem sou.


Estou numa Cova, a viver o meu momento. Podem lá ir. É só clicar aqui.

IdoMind


about you António



setembro 15, 2009

Blup Blup

"Num aquário, um peixinho dourado pergunta ao outro:
- Acreditas em Deus?
- Mas é claro que acredito! Quem é que achas que muda a água?


Se calhar nós somos peixes com óculos. Peixes espertos. Com a mania da intelectualidade. Mas apenas peixes.
Às voltas num aquário tão grande que chegamos a pensar que é infinito. Deve ser por isso que batemos tantas vezes com a cabeça. Os limites da nossa liberdade estão lá, mas invisiveis aos nossos olhos.
Também explicaria a nossa fraca memória e a tendência natural para cometer os mesmos erros. Várias vezes.


Nadamos e nadamos. Sem parar. Mesmo com o cansaço a puxar-nos para o fundo. Se por medo ou mero por instinto, apelamos, às vezes, a restos de força para continuar a dar à nossa pequena cauda, rumo à tona. Sempre para cima. De onde vem a comida.
Navegamos em círculos, em roda das mesmas águas límpidas que vamos sujando. Voltando de onde partimos num movimento contínuo. Mas como somos peixes e as lembranças são efémeras, é como se fosse a primeira vez. Tudo é então divertido. Tudo é novo. Tanto por explorar. Tantos lugares para ir. Tantos peixes para conhecer. Ser peixe e esquecido é uma bênção.
E damos mais uma voltinha.

O aquário é um sítio estranho para se estar. A luz e a escuridão sucedem-se sem que eu perceba como. Agora é de dia, de repente é noite. Quem comandará o interruptor? Sou um peixe curioso…
Sou sereia a tentar entender. Com as escamas arrepiadas, nado um bocadinho mais além. Violo as fronteiras do conforto que anestesiam o meu espírito eternamente jovem e espreito o abismo à minha frente. Já fiquei muitas horas a olhar, apenas. Tinha esperança que o desconhecido viesse até mim. O que aconteceu, depois de eu ter ido até ele. Aceitei o convite e encontrámo-nos a meio.


Ainda não me revelou quem muda a água. Vou continuar a nadar.
Agora que não receio a profundidade, ainda que nunca venha a saber a resposta, sinto-me o mais feliz dos peixes, por me ir descobrindo na pergunta.
IdoMind

about the big, deep, blue sea

setembro 09, 2009

Dormir aqui e amanhecer em outro lugar

Graças ao António escrevi uma carta de amor. Nem sequer sabia que tinha aquilo dentro de mim para transformar em palavras.Fiquei rendida à iniciativa.
Esta será a segunda vez que participo no Vou de Colectivo e tal como da primeira, com um prazer enorme. Obrigada por nos permitires exercitar a fantasia.



Dormir aqui e amanhecer em outro lugar:


"Dia 1
Que frio! Meu Deus, que frio! Parece que fui deixada nua em pleno deserto antárctico. Alguém por favor me ponha uma trapinho em cima, qualquer coisa que faça o meu sangue circular de novo.

E tu? Quem és tu? Senhora, desculpe, quem é você? Não! Deixe-me! Chegue-se para lá.Não me aperte se faz favor! Quero ir para casa! Deixe-me, já lhe disse!
Mas ninguém me ouve? Estarei a falar chinês?
Não entendo porque me ignoram. O que me aconteceu?
Será uma partida do meu filho mais velho? É bom rapaz mas às vezes não sabe quando parar.Se foi ele me me pôs aqui vai ter que ter muito cuidadinho com o carro novo…

Respira. Vá, respira. Tenta lembrar-te da última coisa que fizeste.
Estava a tomar banho quando a água quente faltou.Enrolei-me no roupão já gasto do meu marido mas que, talvez devido ao uso e por muitas lavagens que tenha, preserva o cheiro daquele que foi o amor da minha vida. Às vezes tomo banho só para vestir o roupão e ficar ali perdida naquele emaranhado de 50% algodão, 50% polyester a lembrar-me dos anos de felicidade que vivi junto dele. Vê-lo partir foi o começo da minha espera. Todos os dias que passam são menos um para reencontrar o resto da minha alma. Desde então, toda a dor passou a ser tolerável.

Desci as escadas e telefonei ao Sr. Graciano para que me trouxesse uma bilha de gás. O gás canalizado nunca subiu o monte onde plantámos o nosso ninho. Viver no campo tem destas contingências. Mas também tem Senhores Gracianos, por isso, nunca nada é absolutamente bom ou mau.
Enquanto esperava fiz um chá e sentei-me no pátio. Está lindo o meu pátio, colorido pelas túlipas que me relembram sempre toda a beleza sabiamente distribuída pelo mundo fora. Este pedaço da Holanda no meu jardim já me fez chorar de emoção diante da sua simplicidade celeste. Quem terá feito as túlipas? E as nuvens brancas que parecem dizer que estão lá para amortecer a nossa queda.O céu. Quem se lembraria de um tecto mais perfeito?
Lembro-me de estar nestas divagações quando a campainha tocou.Fui atender.


Depois há um enorme vazio na minha cabeça. Não me lembro de mais nada. Quando voltei a mim estava neste sítio, com estas pessoas que não conheço.

Estou cansada. Vou dormir talvez acorde e perceba que estou a viver um pesadelo muito real.

Dia 2
Não resultou. Continuo presa aqui. Estou pesada, não me consigo movimentar com liberdade. Custa tanto. Vou voltar a dormir.

Noite do dia 2
Acordei encharcada num liquido qualquer. Arde. Ajudem-me! Senhora, por favor ajude-me!
Obrigada. Já estou melhor mas agora não consigo adormecer. Que saudades do meu monte. Da minha estufa. Será que os meus rapazes estão a tratar das plantas. As orquídeas não se vão aguentar sem ouvir Anthony and the Jonhsons. Espero que se lembrem de ligar a música para elas. Que sono…



Terceiro mês
Continuo sem perceber o que me está a acontecer. Noto que as minhas memórias estão a enfraquecer. Há detalhes que já não me lembro. Tentei por exemplo visualizar a vila e as pessoas mas não consegui. Lembro-me apenas da igreja onde passei várias horas a tentar compreender porque Deus achou que precisava mais do meu José do que eu. Lembro-me também do padre. Jovem e com ar bondoso. Fala-se de um romance entre o querido pároco e a filha mais nova da padeira. Também me pergunto porque não pode um homem de Deus ter sexo. Será o sexo pecado? Então não alcanço qualquer motivo para o Criador de Tudo nos ter feito capazes de ter sexo mesmo quando não podemos procriar.E acima de tudo, porque fez o sexo tão bom.Há muitos mistérios que gostaria de ver respondidos, mas com a minha forma de pensar parece-me que vou obter as minhas respostas no Inferno…É melhor tentar dormir.Curioso, durmo cada vez menos.

Décimo mês
Toda a gente gosta de mim. Continuam a ignorar a minha vontade mas dão-me muitos carinhos e parecem ficar rejubilantes cada vez que dou uma gargalha na cara deles.Gostam de me ver feliz. Para começar podiam dar-me outro tipo de comida, conforme já estou farta de pedir…Ainda não consigo dominar a língua indígena.


Primeiro ano da minha estranha experiência de sequestro
Hei! Ninguém vai atender? Estão a bater à porta.
Não acredito! Não acredito!Pai! É o meu Pai! Mas…não entendo, está ao colo de alguém.
Espera aí…Eu também! Tenho pouco mais de meio metro!

Agora lembro-me! Lembro-me de tudo!
Quando fui atender a porta naquele dia há muito tempo atrás, não foi o Senhor Graciano que me levou a bilha do gás. Foi um rapaz. Lindo! Moreno, olhos grandes, negros salpicados de pintas cor de mel. Se tivesse uma oficina ele seria o rapaz do calendário.Acho que o meu coração finalmente cedeu perante a visão do menino da bilha do gás.
Lembro-me de fechar os olhos e sentir-me a voar.Um leve aperto no peito seguido de uma sensação de grande liberdade.
Eu morri…
Isto muda tudo.
Morrer é afinal apenas um leve adormecer e acordar. A vida num piscar mágico de olhos.
Gostava de me lembrar disso da próxima vez que adormecer para uma vida. E de todas as vezes que vir outros a adormecer. Na verdade estarão só a acordar. Para outra vida. Para outra aventura. Para a uma nova e magnifica oportunidade de se recriarem.
Como esta que agora tenho. O meu pai está cá. Será que o José também?"

IdoMind
about awakenings

setembro 08, 2009

A Vida Pensada

Nasci pobre. Numa casa rica. Nunca faltou teimosia. A nenhum dos elementos do meu especial agregado familiar. Os almoços de domingo facilmente podiam resvalar para acesas batalhas verbais. Geralmente resvalavam. Ver um episódio dos Sopranos é sempre um doce regresso ao passado.
Também houve sempre muita força em todos nós. Desistir foi uma palavra que vim a conhecer apenas com a assinatura da acta da conferência do meu divórcio. Há desistências boas.


Cresci mais ou menos como quis. Nunca houve grandes imposições, excepto passar de ano e manter em ordem a casa… e a minha irmã. Esta mostrou-se a mais dura das tarefas e que nunca consegui realmente cumprir.
Não foi uma infância fácil. Responsabilidades a mais. Algumas carências de vária ordem e toda uma série de circunstâncias que me colocavam na lista das prováveis beneficiárias do rendimento mínimo.
Mas como em casa ninguém desiste, sem me aperceber, fiz dessas circunstâncias o post-it que se coloca na porta do frigorífico para que olhemos para ele todas as manhãs e não nos esqueçamos do nosso objectivo.
E é disto que quero falar – de objectivos.
Por muito loucos, por muito impossíveis, por muito irresponsáveis que possam parecer, agarrem-se aos vossos objectivos e NÃO DESISTAM.


Traçar metas, saber o que se quer e fazer por acontecer – outro legado importante que recebi e ao qual, quando em quando, pareço renunciar.
Uma amiga, uma vez perguntou-me quais seriam os meus três desejos se algum encontrasse um génio da lâmpada. Para meu grande choque, não consegui lembrar-me de um só. Eu não tinha desejos! Ainda me foquei por alguns minutos na esperança de alguma coisa se desenhar na minha cabeça, algo que eu ansiasse muito para pedir ao génio. Mas nada. Nada.
Essa minha ausência de objectivos atingiu-me o estômago com violência. Foi o inicio da compreensão que a raiz dos meus problemas era eu.
Os eternos empates da minha vida, os “ porque é que comigo nunca resulta”, a constante falta de “sorte” eram apenas o fruto da minha lamentável forma de pensar.
Desde então, não parei de sonhar. De ter pensamentos construtivos sobre o que quero para mim. Da minha verdade. Despedi-me do cargo de servente. Sou hoje pedreira da minha casa.


Este post foi inspirado pela recente experiência da minha irmã, também ela destinada a partilhar a mesma fila que eu na Segurança Social de acordo com as probabilidades trágicas do destino, mas que não desistiu e hoje é uma professora realizada que conquistou o seu desejo de ficar a leccionar na mesma escola onde trabalhou no ano lectivo anterior. Esse era o apelo e o desejo maior da sua alma. E conseguiu.
É com o coração repleto de orgulho e de felicidade que olho para a minha irmã mais nova, o membro mais rebelde, indisciplinado, desobediente e amoroso da família, a cumprir o seu sonho.


Sabem porquê? Porque acreditou.
Marcou um objectivo, agiu como se fosse uma certeza e o Universo simplesmente colaborou.
Foi o mais lindo trabalho de co-laboração com o céu que vi a minha mana fazer.
A todos desafio para um concurso em que não haverá vencidos: digam o que querem.
Digam-no com a mesma convicção com que respiram o ar que não se vê. Confiem que estão a ser ouvidos. E vistos. Por isso ajam também como se o resultado fosse certo.
Depois…depois é só esperar.
Atrevam-se a desejar. Para nós está reservado o que o que nós quisermos reservar.


IdoMind



About believing

setembro 07, 2009

"Quem canta..."

Ajuda-me a cantar nestes dias sem ritmo.
Que as nossas vozes juntas possam fazer nascer a vontade de pular porque é bom viver.
Nestes últimos dias de Verão, com o sol enfraquecido, apetece-me um fado. Mas não deixes. Não permitas que a nostalgia do Outono que se avizinha, apague a força de tudo o que tenho para fazer. Canta-me qualquer coisa imbuída de alegria. Atira neste espaço que não existe, palavras que dançam e fazem dançar. Mostra-me como é dar liberdade ao corpo para correr atrás dos sons.
Estou rígida. Os membros prenderam-se novo à mobília e preciso mesmo de me levantar para ver que o horizonte é um pouco mais além.


Vamos fazer uma música sobre os sonhos. Se eles nos fazem sorrir quero pagar-lhes cada minuto em que me arrancaram os pés do chão e me levaram a passear. Sim, vamos cantar sonhos porque a vida é a melodia que cada um de nós compõe.
Ajuda-me a encontrar rimas para coragem, leveza, perseverança, gargalhada. Para obrigado…
Vou inventar a minha música do acordar e do deitar. Uma espécie de prece a mim, que escolhi tão sabiamente quem sou.Vou cantá-la para não me esquecer que esta é a minha canção.
Hoje mesmo, vem ter comigo para nos consagrarmos a cantar ao que quer que seja que nos espera.
Cantarei para ti sobre o amor que há em tudo. Sobre mãos que não se largam.
Tu, faz-me uma canção sobre pisar nuvens. Sobre os olhos que se viram para o alto. Sobre ser grande. Canta-me a pessoa que posso ser.
Que as nossas canções sejam hinos de relembrança.
IdoMind
about getting stronguer

agosto 17, 2009

Porque também mereço


Beijos a todos e até Setembro

agosto 07, 2009

A Carta de Amor Perfeita...para Mim

Inspirada pelo António, o Hermes da Blogesfera, resolvi participar no Vou de Colectivo escrevendo uma carta de amor.

Não sou eu a escrever a alguém. Sou eu a escrever POR alguém. Esta é a carta de amor que eu gostaria de receber...



"Minha IdoMind,


Hoje é um dia em que me deixei de importar com tudo aquilo que sempre considerei tão importante. Hoje não me faz diferença o que possam pensar de mim. Também não tem qualquer relevância garantir que o dia de amanhã virá como todos os outros – sem surpresas, controlado e controlável. Hoje, o homem que dei a conhecer ao mundo deixou cair a roupa e mostrou-se.


Sabes porquê?
Porque te vi.



Mais bonita que nunca. Estavas a sorrir, com esse teu sorriso de menina que nos faz acreditar em coisas boas. Seguravas as mãos de alguém. Vi-te, como te vejo sempre, a dar. Com honestidade. Com pureza. Quase chorei ao olhar para ti a seres tu. Tive vontade atravessar a estrada a correr só para te abraçar. Para te sentir por um instante. Para respirar a tua luz.

Mas não atravessei a estrada. Não corri, nem te abracei. Nem sequer te falei. E fui para casa a sentir-me menor. Trouxe uma tristeza que me atirou para dentro de mim.
Que tinha eu a perder em falar contigo. Porque não dizer-te simplesmente que devolveste a vida ao meu coração.
Que mudei.Que voltei a ser adolescente.Que passei a fazer tontices como ir almoçar mais cedo apenas para me cruzar contigo nas escadas. Que disse a todos que fumava para poder fazer mais pausas, que aproveito para te ir espreitar. Que flutuo o resto do dia depois de me cumprimentares com os dois beijinhos que deixam o sol a brilhar no meu rosto.

Que adoro o teu perfume. Adoro. Há noites em que me deito com esse odor. Parece que estás ali. Às vezes acho, que há força de te desejar tanto, que uma destas manhãs quando abrir os olhos, tu vais estar deitada a meu lado. E eu vou ficar quieto a sonhar com o poder de parar o tempo para que fiques mais um bocado com a tua pele misturada na minha.

Gosto tanto de ti. Da tua diferença. Dizes o que pensas e o que sentes. Sem medo. Não deixas que a vida te polua. Resistes imaculada às subtilezas dos relacionamentos humanos. E respeito-te por isso. Não temes assumir-te. No bom e no mau. És uma mulher valente, que idealizo a combater comigo, de mão dada,tudo o que turva a verdade da alma.

E quando falas de sinais, das coincidências que nos levam ao encontro das nossas verdadeiras escolhas, da lua em peixes ou “ se não aconteceu é porque há outros planos preparados para nós”, fico completamente extasiado. Nunca acreditei em grande coisa, mas confesso-te que me apetece ir para esse teu mundo de realidades mágicas e de energias divinas generosas.Tenho vontade de conhecer esse teu Deus bem disposto, Pai compreensivo e atento. Queria pedir-te que me levasses a voar contigo e me mostrasses o que está para lá da terra onde me construi.

Como vês, estou apaixonado…

Hoje resolvi ser um pouco tu e deixar que as minhas palavras fossem ditadas apenas pelo amor. Por este amor desarmado, desinteressado e tão grande que tenho por ti.
És uma romântica. Eu sei. Vais gostar de receber esta carta. Não sei se vais gostar que seja minha. Mas por mim, por nós e por tudo o que é possível, hoje não me importa.

Acredito em imortalidade desde que vi o meu reflexo nos teus olhos. Estava a olhar para mim, mas não era eu. Percebi que há muito és o amor das minhas vidas.Tenho andado à tua procura em muitos sítios. Em vários tempos. Em mais braços do que devia.

Encontrei-te, finalmente. E isso é tudo o que me importa."


Gostaria por fim de dizer que nenhuma carta de amor deve ficar por escrever.Por tudo o que é possível...

IdoMind

about love letters

julho 29, 2009

A puxar ao sentimento

"Numa aldeia vietnamita, um orfanato dirigido por um grupo de missionários foi atingido por um bombardeamento. Os missionários e duas crianças tiveram morte imediata e as restantes ficaram gravemente feridas. Entre elas, uma menina de oito anos, considerada em pior estado. Era necessário chamar ajuda por um rádio e, ao fim de algum tempo, um médico e uma enfermeira da Marinha dos EUA chegaram ao local.
Teriam que agir rapidamente, senão a menina morreria, devido aos traumatismos e à perda de sangue. Era urgente fazer uma transfusão, mas como?

Reuniram as crianças e, entre gesticulações, arranhadas no idioma, tentavam explicar o que se estava a passar e que precisariam de um voluntário para doar sangue. Depois de um silêncio sepulcral, viu-se um braço magrinho levantar-se timidamente. Era um menino chamado Heng.

Ele foi preparado às pressas, ao lado da menina agonizante, e espetaram-lhe uma agulha na veia. Ele mantinha-se quietinho e com o olhar fixo no tecto. Passado algum momento, deixou escapar um soluço e tapou o rosto com a mão que estava livre. O médico perguntou-lhe se estava a doer, e ele disse que não, mas não demorou muito a soluçar de novo, contendo as lágrimas. O médico ficou preocupado e voltou-lhe a perguntar e novamente o menino negou. Os soluços ocasionais deram lugar a um choro silencioso, mas ininterrupto. Era evidente que alguma coisa estava errada.

Foi então que apareceu uma enfermeira vietnamita de outra aldeia. O médico pediu-lhe que ela procurasse saber o que se estava a passar com Heng. Com voz meiga e doce, a enfermeira foi conversando com ele e explicando-lhe algumas coisas. E o rostinho do menino foi se aliviando. Minutos depois ele estava novamente tranquilo.

A enfermeira então explicou aos americanos:
- Ele pensou que ia morrer, não tinha entendido o que vocês lhe disseram e pensava que iria dar todo o seu sangue para a menina não morrer.
O médico aproximou-se dele e, com a ajuda da enfermeira, perguntou:
- Mas, se era assim, porque se ofereceu para dar sangue?

E o menino respondeu, simplesmente:
- Porque ela é minha amiga..."

Li este relato há alguns anos atrás, não me lembro onde, e tocou-me de tal modo que o guardei.

Nestes tempos em que o egóismo dança descontrolado em tantos corações, dando voz a afirmações perigosas como " já não há amigos, tenho é muitos conhecidos", "não podemos confiar em ninguém, temos de contar é connosco" " primeiro eu, depois eu, a seguir eu e então..." e outras similires que vão abrindo a fossa, cada vez maior, entre nós e os outros, apeteceu-me partilhar a pureza do doce Heng.

Sinto-me menos pequena cada vez que leio esta história porque vivo num sítio onde há quem dê todo o seu sangue para que um amigo viva.

O relato dizia ser verídico.

Resta-me acrescentar:
Quando conseguirmos dar todo o nosso sangue por alguém,

Quando conseguirmos, apesar da dor, manter o braço esticado,

Quando conseguirmos nos rostos do mundo ver o nosso amigo,

Quando finalmente nos lembrarmos que nós somos todos


Virá a paz...

IdoMind

about all the gardeners aroud the world












julho 28, 2009

Manas Catita contra o Apocalipse!

A vontade de trabalhar era pouca. Não podemos esquecer que era segunda-feira (um dia escrevo sobre este dia da semana e porque é tão mal amado).
Facto é que a telha com que tenho andado, atingiu o seu expoente máximo e era quase um telhado. Liguei à mana…que está de férias.
Poucos minutos depois estava a desligar o computador e a caminho de uma tarde, que eu ainda não sabia, mas que suspeitava, seria de loucura.
Almoço, vinho, boa conversa, desconversa, mais vinho e pelas 15 horas já estávamos a duas a rebolar no chão a rir. Literalmente. Não sob o efeito do álcool (bom, talvez um pouco), mas porque quando as nossas energias se encontram é sempre uma grande festa.

Uma vez que no leque das coisas normais da vida, como o companheiro, a casa e o emprego, também os blogs passaram a ocupar uma fatia importante da nossa rotina diária, trocámos impressões sobre os temas que têm andado em discussão, um ou outro comentário, as nossas próprias opiniões e chegámos até a algumas conclusões pertinentes.

Dizia-me a Shin que a Internet está a ser bombardeada com artigos sobre o fim do mundo, o profetizado 2012 que se aproxima a passos largos trazendo o anúncio da morte de muitos e talvez mesmo no nosso planeta azul.
Não sei o que acontecerá e se acontecerá algum tipo de evento catastrófico à escala global na referida data. E sinceramente, não me interessa. Não tenho um vaivém para fugir para um dos anéis de Saturno. A banca não me dá crédito para a construção de um bunker. Na minha casa não há espaço para latas de atum e água engarrafada em quantidades industriais. E não sei se queria ficar sozinha num planeta destruído e despovoado. Não posso fugir. Resta-me, portanto, viver. E viver bem, já que vou morrer dentro de 3 anos…

Constato, mais uma vez, que não passamos de teóricos. À semelhança da beata católica que põe o pé fora da igreja e já está a chamar nomes à vizinha do 2.º esquerdo, também quem se dedica à espiritualidade, na hora da verdade, quando chamados a acreditar e a colocar em prática o conhecimento legado de todos os Mestres, esquecem quem são e de onde vieram.
Conscientes do nosso poder criador, cedemos a visões apocalípticas, enchemos o nosso coração de pânico e alimentamos o medo plantado por alguns homens ( sim eram só homens) e perpetuados por outros até hoje.
Não sabemos nós nada acerca do subconsciente colectivo? Não sabemos nós que somos o que pensamos? Estarei errada em pensar que podemos mudar o curso dos acontecimentos se fizermos um esforço nesse sentido. O passado em que se escravizavam seres humanos, diz-me que sim. O presente, em que milhares ainda morrem à fome, diz-me há trabalho a fazer. As mudanças colectivas têm sido paulatinas mas uma constante.E acontecem quando nos juntamos e queremos melhor, diferente.
Se todos pensarmos que o mundo vai acabar, então o mundo vai mesmo acabar porque é essa a realidade que estamos a criar.
Não é assim que funciona? Andarei eu a ver tudo ao contrário e afinal estamos aqui por acaso ou ao gosto de alguma coisa perversa que nos despejou neste calhau para brincar connosco e faz de nós o que quer, quando quer? Talvez seja assim.
Não é no que acredito.
Que importa se há uma Nova Jerusalém? Temos uma Casa linda, com vista para muitos oceanos e mares, pintada de verde, pulsante de vida. Dá-nos tudo o que precisamos.
Porque não cuidar dela ao invés de inventarmos outra, que inevitavelmente também vamos destruir porque será sempre mais fácil que manter.

O positivo disto tudo? Acreditando que já um novo planeta à nossa espera, estamos a criá-lo e a tal Nova Jerusalém leva mais um tijolo a cada artigo, a cada pensamento, a cada bocado de fé na sua existência.
Vou ter saudades da Terra. Deixo-lhe aqui os meus agradecimentos pelo tecto de estrelas que me deu e as minhas desculpas por ser tão lenta a aprender acerca do cuidado diário com tudo aquilo que nos cerca.
A loucura? Somos nós a desperdiçar a vida que pode ser.
As manas comprometeram-se a cada instante, em cada pessoa, a promover a esperança, a alegria, o amor… talvez os 3 anos que restam passem a 4 ou a 5…quem sabe?
IdoMind
about what I can do

julho 27, 2009

Causas, efeitos e defeitos


Não me sinto uma folha e sei que a vida não é o vento que me empurra ao acaso.
Não vou cair naquele lugar onde o seu sopro deixa de ter alcance. E também não vou permanecer lá caída até que a direcção mude e uma brisa ou uma ventania venham de novo, erguendo-me do chão.

Não me sinto uma boneca emaranhada em cordéis, manobrada e comandada por mãos que não as minhas próprias. Os meus risos e os meus choros encontro-os na volta dos meus gestos. Das minhas palavras. Das minhas omissões.

O sol e a chuva dos meus dias revezam-se ao ritmo dos meus tempos. Daquele em que agradeço, comovida, por ser parte. O tempo em que sou mais pequena. Em que me encolho sobre mim e volto à posição fetal. A cabeça dobrada atrás de um par de braços cruzados, aguardando o inevitável nascimento. E vem o medo. Do que está lá fora. O medo de não conseguir. O medo de esquecer o caminho para casa. O medo de nunca, verdadeiramente, nascer.

Estes são os tempos em que me convenço que sou um pirilampo sozinho numa noite escura. Mantendo a minha luz apagada porque quem sabe o que pode ela iluminar ou revelar.

O medo mais uma vez. E lá vou esvoaçando, como acho que posso, tropeçando nas árvores e magoando as asas. Frágil e às cegas, lá vou eu sozinha, negando a claridade. A mim e ao que no escuro caminha igualmente aos tropeços porque eu não cumpro a minha tarefa. Que é simples. É só acender a lâmpada.

Eu sou o que quero ser. Eu vou para onde quero ir. Chego como quero chegar. Com quem quiser vir comigo. Eu sou as paragens. Eu sou a dor nas pernas e o desalento escondido nas subidas íngremes. Eu sou as decepções.
Eu sou o recomeçar. Eu sou os mil despertares depois de cada parto difícil. Eu sou a cria e o criador.
E é por isso que sou o beijo depois da discussão. A desculpa depois da ofensa. A carta perfumada no pára- brisas depois das palavras agrestes. O jantar de família depois do orgulho estúpido.

Eu sou o barquinho que depois da tempestade se vê navio.
Eu sou um pirilampo que se iluminou e afinal só viu AMOR…


IdoMind
about growing up

julho 17, 2009

Por dizer

Tenta fechar os olhos e sentir-me. Não me vejas. Não olhes para esta pessoa que demorei um vida a construir, porque essa não sou eu. Precisei de me armar. De reunir instrumentos para a luta que imaginei existir. Precisei de criar defesas.
Mantive o castelo limpo de adversários. E de tudo o resto também.


Fui percebendo que era um castelo triste e vazio, assombrado pelos ecos de todos que gritaram lá fora para entrar. Não era seguro abrir os portões da fortaleza. Que cavalos de Tróia poderiam estar preparados para mim? À cautela fui mantendo a porta fechada e o chão da minha casa intacto a pés alheios.

Se eu soubesse que a casa é a soma das pegadas dos que amamos e deixamos de amar. Dos que nunca vamos esquecer. É o último degrau que range e denuncia o nosso regresso tardio. É o lugar que guarda as memórias das palavras precipitadas. Das lágrimas sentidas. Da queda que deixou aquela cicatriz. Da tarde em que me rendi ao mundo e adormeci num colo.
Quero-te aqui comigo, no alpendre, a beber vinho e a falar da vida. Mas ainda não consigo receber-te. Pudera eu explicar esta fronteira invisível que demarca os limites de mim. E vivo assim em conflito comigo, desejando mas resistindo. Querendo mas negando. Amando mas afastando…
Pudera eu falar-te como escrevo, com a alma.
Tu de olhos fechados e eu de alma solta. Perceberias então que a cabeça que não repouso no teu ombro, só pensa em ti. Que o coração que não te dou, já é teu. Que está a ser difícil…
Atrás de todas as gargalhadas descontraídas, que uso para me distrair da força que me chama para ti, atrás delas, estou lá eu a pedir-te que me abraces. Rápido. Por favor. Que me abraces como se tivéssemos nascido embrulhados um no outro. E que me deixes ficar assim, embrulhada a ti, apenas por mais algum tempo. A sentir-te.

Pudera eu dizer-te todas estas coisas. Mantenho-te na ignorância do que passa dentro de mim e faço-te perder nas dúvidas e no medo. Eu sei.
Porque também tu estás a aprender a abrir portas, do teu castelo vejo apenas a torre, onde estás tu, largado, à minha procura. Ou à minha espera…
IdoMind
about you...

julho 13, 2009

" Caminhante não há Caminho..."


Porque me importa este sol que me aquece a pele.
Porque o céu inalcançável não me deixa esquecer que nada acaba nunca.
Porque a cada passo me movo nalgum sentido.
Porque apesar de tudo continuo a acordar. A respirar. Às vezes com a vontade de aspirar o mundo para dentro do peito. Outras vezes com uma dor na garganta. Mas não páro de respirar. Mesmo podendo fazê-lo. E dou mais um passo.

Porque lá à frente, tempos depois, entendo os porquês que o agora me impede de aceitar com mansidão. Porque sou teimosa e faço perguntas à vida. Porque acho que tenho direito a respostas. Porque acredito que alguém as tem e as quer partilhar. Mas aos poucos, como convém a alunos despreparados para as lições mais difíceis de compreender. Confio no professor. Acompanha-me desde a primeira vogal e sabe a exacta medida da minha força. Da minha inteligência. Da resistência das minhas pernas.

Porque cá dentro me dizem que estou a ir bem. E que posso ir muito melhor. Que tudo está aqui para me levar onde sempre quis chegar. Onde devo chegar. Onde mereço. Que pode ser mais fácil. Porque acredito que sim. Porque peço e sou ouvida.
Porque já testemunhei o maravilhoso.

Por tudo não desisto. Mesmo quando a luz custa a entrar pela janela. Quando já não apetece empunhar a espada. Ou um sorriso. Nesses dias em que não vejo o amor.
E peço, mais uma vez, que me ajudem, a segurar esta mão pronta a matar os sonhos. A por um cadeado no coração. A agir sob as ordens da razão. Só.
Que, por favor, não me deixem cair na ilusão que estou sozinha. Que abrandem as certezas que preciso de cravar à beira do caminho para me sentir menos perdida. Que o cansaço serene para que venha mais uma vez a esperança e a capacidade de sonhar.
Hoje sonho comigo a não desistir dos sonhos.

IdoMind


about keep on going...no matter what





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