julho 25, 2012

Nós importamos



- Estás tão calada. O que achas? Duvido que não tenhas opinião sobre o tema. Isto deve mexer com essas tuas convicções, que tão fogosamente defendes – desafiou com o ar- de- alfinete, como que a querer uma reacção, uma qualquer, mas uma reacção.
Já havia, é claro, pensado sobre o assunto. Ele tinha razão. Muitas e muitas vezes. Todas as conclusões a que chegara, travaram à porta dos domínios do inexplicável. Aceitara-o. Há campos onde crescem mistérios conforme amadurece a fé de cada um e a vontade, também ela nem sempre explicável, de perguntar porque temos pernas e não patas, jardins-de-infância e não campos relvados de perder de vista. Porque é que temos culpa a tingir-nos o instinto. Quem foi afinal que deu à luz, dentro de nós, aos sentimentos? Já vêm agarrados a uma célula rebelde qualquer ou são plantados a cada colherada de sopa, às letras que se aprendem a juntar e aos saltos altos que se calçam? Onde e quando nos separámos do resto da criação e decidimos desenvolver uma consciência de quem somos. Como foi que isto que isto aconteceu e, talvez mais importante, para quê?

Nunca chegou a saber bem se dormir pouco era um poder, como aqueles dos super-heróis, que os tornam pessoas melhores e ao serviço dos outros ou se era uma doença, dessas esquisitas que criam um sentido de divisão tão grande entre o doente e o resto do mundo, que à medida que a doença avança, fica mais difícil regressar ao sítio onde não estão as coisas selvagens.

Porque ainda precisava de comer e pagar mensalmente ao banco a concha na qual se recolhia para filosofar consigo mesma, guardava para si a maior parte das questões, tocando, nalgumas noites mais compridas, a compreensão de que é sabedoria e não elitismo preservar em arcas fechadas alguns conhecimentos. Seria cobardia disfarçada? Medo camuflado?
É que na falsa Era da Liberdade, a única que existe é a de ser igual a toda a gente. Há uma normalidade padrão que acusa a diferença, como um alarme sonoro, muito ruidoso, que só se cala quando todos decidirem como é cada um deve viver a sua experiência única. Tão pessoal. Todos os dias ocorrem atropelamentos e, quer por acção, quer por omissão, os registos criminais da humanidade estão manchados pelo desrespeito pelo próximo. É assim, a correr em círculos sobrepostos que nunca se sabe onde se está, o que se quer e se esquece porque viemos até cá. A atenção ainda fica presa em quem pergunta e não na própria questão, em quem afirma e não na afirmação. 

Não. Não era cobardia. Não era medo. Apenas espírito prático. Desenvolvera a sensibilidade de falar menos e ouvir mais para discernir quando iria honrar a magia das palavras ou só usá-las em benefício próprio.Como acontecia naquele momento. 

Falava-se de suicídio. E falava-se de suicídio como se falava das últimas medidas governamentais. Talvez fossem similares, de facto… A doutrina pós-farto jantar e “vamos lá falar de qualquer coisa e servir como sobremesa uma solução instantânea para os problemas mundiais” dividia-se entre os que achavam um suicida alguém muito corajoso e os que quase rezavam para que a ressurreição fosse verdade só para esse medroso (ou merdoso, não entendera bem) nascesse de novo para ser castigado por tão vil acto.
Preferia ter ficado calada, mas só o iria conseguir depois falar porque pararam à espera da sua opinião.

- Não me compete julgar as escolhas dos outros, apenas reflectir nas minhas próprias.
Não acho que alguém acorde, se espreguice, levante da cama, olhe pela janela e pense para si:
- “ Que belo dia para me matar.”

Excepto casos patológicos, acredito que o suicídio é o culminar de um estado de profundo desespero interior. E se estão numa de ir mesmo, mesmo ao fundo da questão, é, sem rodeios,  a solidão que conduz ao frasco de veneno, ao gatilho nervoso, à corda que faz o nó.
Por isso, o que quer que pensem do suicida é o que devem pensar de vós mesmos. Em que medida é cobarde ou corajoso viver com olhos tão pregados no umbigo que não se vê o que está à frente. Ou não se quer ver… Essas pessoas dão sinais.
O sentimento de separação, de rejeição, de impotência ou qualquer outro que a tenha levado a considerar pôr termo à própria vida como a única alternativa, é responsabilidade de todos. Do peso que descarregamos nos outros, das expectativas, quase cruéis, com que os investimos. Da falta de amor, de interesse. Da ausência da palavra simpática, do gesto carinhoso, do “parabéns, excelente trabalho” que fica por dizer, do “ vem até lá a casa” que nunca arranja tempo para ser verbalizado. Ou realmente desejado.

Juro, não estou a criticar. Eu já tive vergonha por estar tão distraída fora de mim, a visitar motivações alheias, que me esqueci de perguntar se eles próprios precisavam de alguma coisa. Companhia, talvez. Às vezes é quanto basta…Por isso, quem sou eu para qualificar uma decisão tão atroz em termos de sofrimento pessoal, como desistir de viver…?

E já agora, quem somos nós para obrigar alguém a continuar? Pior, a condená-lo por isso.
A nossa obrigação termina na amizade, na mão estendida e nos ouvidos disponíveis. O resto não é connosco. É respeito.

E sabem que mais, o suicídio não aparece adulto. É semeado, é nutrido, é vigiado. É uma ideia que cresce e um dia, como uma erva daninha, o suicídio matou a vida dentro da gente. Prefiro ter boas ideias, boas conversas, boas atitudes. É assim que mantemos a nossa plantação sadia.
Vamos por isso brindar à vida, aos laços que não nos deixam cair, ao silêncio onde falam os anjos dos outros e à coragem… à coragem de assumir que conseguimos mais que pagar impostos e fazer reciclagem. E fazê-lo.

IdoMind  
About true honesty

julho 13, 2012

Danças?


Apesar de saber que já deveria estar a caminho, o corpo discordava recusando-se ao mais pequeno movimento para iniciar a marcha. Ficou um bom quarto de hora sentada no carro com as mãos no volante. Viu o casal da frente, na ginástica matinal do costume, a arrumar os três filhos dentro do valente Renault Clio, há muito a merecer um enterro digno.
No jardim ao lado, o Sr. Vítor resmungava do mundo, sobre o mundo, para todo o mundo. Nem ela, nos cinco anos a que ali morava, tinha conseguido largar uma singela gota de mel na disposição daquele viúvo, que ao contrário do Clio do casal da frente, já se havia enterrado vivo à nascença. 
Ainda conheceu a esposa, a Dona Laura, e muitas vezes se perguntou se seriam do tempo dos casamentos arranjados pois estavam um para o outro como Vénus estava para Plutão. Sem ser inconveniente, perguntara-lhe certa vez como fazia para não se deixar atingir pelo mau-humor do marido. Respondera a rir que a felicidade se cozinha com a dose certa de cegueira e falta de audição. E que o sexo era razoável…As gargalhadas explodiram, é claro. A Dona Laura era uma pessoa-primavera. Agradável, bonita, com uma frescura que preenchia cada uma das suas muitas rugas com flores e com sol. Exalava o ar puro de quem se basta a si mesmo para encontrar todos os bons motivos para estar vivo. Gostava-se de estar perto da Dona Laura. Partira para florir o céu há uns meses, após uma gripe mal curada que se transformou noutra coisa e no pretexto que foi preciso para justificar a missão cumprida e a necessidade de ir cumprir outra.
Estava tão atrasada!!
Regressou à Terra e percebeu que tinha mesmo de tomar uma decisão. Agora! Ou a decisão seria tomada de qualquer maneira porque a vida tem horários para cumprir. 


Se por um lado lhe agradava a ideia de pular para dentro do sonho, por outro lado os sonhos têm isso de desfechos imprevisíveis. Têm desvios esquisitos para terras nunca vistas. Personagens que não conhecemos de lado nenhum que nos dão conselhos, enviam mensagens estapafúrdias e, às vezes, só estão ali, connosco, como se afinal nos conhecessem desde o tempo das fraldas. Ou mesmo antes. Do tempo que não se mede pelo relógio porque não tem uma hora a partir da qual se contam todas as outras horas. 
Os sonhos são perigosos. Como portas entreabertas daquela divisão que nos advertiram para não abrir e não espreitar…

Ir para Moçambique como voluntária era o sonho a pedir o pulo. A proposta para ir em Setembro era a porta aberta. Escancarada. Mas ela ainda estava na parte da advertência.
Sempre fora obediente e pouco dada a meter os dedos nas tomadas eléctricas para descobrir se davam esticões. Comedida e prudente, grande parte do conhecimento adquirido proviera mais da observação, do que da experiência directa. Será razoável dizer que a sua personalidade era produto da soma de 70% de ver e aprender e 30% de fazer e saber. Sim, também gostava de cálculos. Contas com resultados positivos. Encontrava paz em operações matemáticas inteligíveis e cristalinas. Aborrecidas para muitos talvez, mas para ela absolutamente necessárias ao seu sono e à sua saúde física e mental. Calculou a idade com que estava, os preços das suas responsabilidades, o já conseguido e o a conseguir. Calculou o a perder... 
Porém, a regra dos três simples não estava a resultar. Nem qualquer outra regra. Percebeu mais tarde porquê. A fé não entrava na equação. A fé era a equação.  
“Mas porquê é que eu fui àquele jantar - chegou a perguntar-se num misto de arrependimento e fatalismo bom – Se tivesse ficado quietinha em casa a ver os Simpsons ou ido à praia, nada disto estava a acontecer”.
Mas não tinha ficado e não tinha ido. O jantar acontecera e o convite do Presidente da Associação de Ajuda Humanitária que promovera o evento, para ser voluntária em Moçambique a partir de Setembro, também.
A ponte do mundo dos sonhos para o mundo do Homem tinha sido estendida e cabia-lhe agora escolher em que margem continuar a contar as horas do relógio que não marca o tempo.
A indecisão arrasava com ela. Não era o aceitar ou o recusar que a consumia. Isso era simples. Penoso era o calvário até pedir que lhe marcassem a viagem ou antes informar  que agradecia muito, mas que ficava para uma próxima oportunidade. 
Todo aquele processo de prós e contras, de “o que tens a perder” e o “estás doida?” era muito desgastante. Já tinha passado por aquilo uma vez - uma decisão que não era uma simples decisão, mas uma Senhora Decisão. Com letra grande. A negrito!

“Se estás à espera que te dê uma palmada nas costas e diga que deves, sem qualquer relutância, arriscar, não vieste procurar a pessoa mais indicada. Antes de escolher a estrada pergunta-te porque precisas da viagem. É tudo o que tenho a dizer-te. Querida, a resposta está no motivo e é o motivo que te vai levar a fazer a verdadeira pergunta – quero fazer isto por este motivo?

Deu à chave, engatou a primeira e arrancou com um sorriso infantil cinzelado na alma. Agradeceu em pensamento àquela amiga e àquelas palavras entornadas anos antes numa esperança, para hoje regarem providencialmente uma outra.
Queria ir por Aquele motivo. Queria muito.

IdoMind
About where we should be

julho 10, 2012

Saltos de Fé

Para onde pensavas que ias? Pára, para que a lembrança de que o mundo é redondo te apanhe e te faça rir. Em que canto julgaste ser possível observar a vida passar, sem dar por ti, ali, sentado e sozinho sem ter vontade de inventar uma nova viagem e um novo destino?

O que fizemos este tempo todo? Andámos às voltas. Com as mesmas coisas. As mesmas pessoas mas com outros rostos. As mesmas dores nos mesmos sítios. As mesmas perguntas feitas de muitas formas diferentes. A mesma resposta. Andaste a fazer o mesmo que eu – atrás do teu Lugar. Aquele Lugar. Com sombra e água perto. Com os pássaros a falar sobre a felicidade na língua que os pássaros falam. O Lugar onde se entra nú e assim se fica porque não é preciso esconder nada. Nem há frio. Ou vergonha. Basta chegar. Querer ficar. E depois basta ser.

Andei, como tu, a aprender que o Lugar não existe. Constrói-se. De sins e de nãos e de talvezes. De cedências e desistências. De adeus que não se dizem, executam-se. Fria, dolorosamente. Ou não. De sacríficos afinal só estúpidos, desnecessários e prorrogados para lá do prazo razoável a entender que não há dignidade no martírio. E que é só isso que a Vida espera de nós. Que sejamos dignos dela, vivendo-a com a mesma Graça com que nos é oferecida.
Esta foi a lição mais complexa. E tive mesmo de parar. A pergunta era demasiado séria para ser feita em andamento ou a correr. Estava a questionar o meu direito à Liberdade.


Quando parei, percebi que Deus era ridículo. Despejei Deus do meu Lugar e deixei o espaço aberto e limpo para O que viria amorosamente pedir-me apenas que fosse feliz. O que não fica contente se eu não estou. Que não me pede feridas em troca de uma absolvição que só Ele precisa, já que sou Sua criação. O que nunca ouviu falar doutro pecado que não o de desconhecer o Amor. Ou de não o levar connosco e apregoá-lo em toda a parte, a todas as nossas partes. 
A minha primeira volta aconteceu com este divórcio do Deus dos outros para descobrir o meu próprio.
Não te iludas. Não ficou mais fácil. As decisões estavam agora por minha conta e deixou de haver recompensas para depois da morte, só colheitas em vida. Como sou regrada e ainda preciso de um fio que me guie até onde a luz se acende, segui a Lei que manda amar os outros como a mim mesma e, pelo menos tentar, não lhes fazer o que não gostaria que me fizessem. 


Não tem corrido sempre sempre bem, mas sei que tem sido sempre para meu bem. Como é que sei? Porque me sinto bem. Bem melhor. E porque faço o Bem, não por medo, porque tem de ser ou sei lá porquê. Faço o Bem porque me faz bem.
Sei, porque escrevo com a mão solta sobre a leveza que me vai no coração. Na alma. Perdi peso nestas minhas voltas e até a alma ficou em forma. Estamos as duas muito bem. Falamos e tudo. Às vezes até a percebo. Fazer o que me sugere, o que me berra, por vezes, isso é outra questão.... Ainda tenho dietas a fazer e regimes a seguir. Depois do Verão… Quando começar outra volta. 
Eu e a minha alminha, juntas no regresso às aulas para um ano cheio de lições para o Grande Livro da minha humilde, bonita e cada vez mais abençoada Existência.


O que fizemos este tempo todo? Dissemos adeus. Esgotámos prazos. Chegámos a conclusões quase clarividentes enquanto conduzíamos. E abanámos a cabeça no “como é que eu fui capaz de achar que aquilo era o melhor” um pouco incrédulos connosco mesmos e com os limites que se foram alargando sem darmos conta ,até que os limites deram conta de nós…
Andámos a mover acções de despejos ao Deus de toda a gente e de ninguém.
Estivemos a arranjar espaço, a criar cores, a chamar os passarinhos.
Estivemos a construir o Nosso Lugar.

IdoMind
About...not minding

junho 14, 2012

Não Se desistam

Hoje queria ser capaz de escrever uma coisa que tocasse num sítio tão escondido dentro de ti que fosse mais ou menos obrigatório chorares. De emoção. Lágrimas boas que te lembrassem, quem sabe, ao que vieste. E porque vim contigo. Era o que gostava de conseguir hoje, tocar-te. Ir onde só uma Parte está autorizada a ir quando a Outra pára na Ilusão de que chegou. Quando confunde o Fim, que nem sequer é feliz, com um intervalo. Só um pequeno intervalo. Mais um. De tantos que se fazem porque a certa altura, depois de certos erros, dói mais falhar do que fazer de conta que acertámos. E então faz-se de conta. É aí que estou. No limiar da tua desistência a pedir-te que venhas. Que voes para aqui, para casa. Que, por favor, não te esqueças de mim. Do acordado. Tenho saudades tuas e ao ninho que fui ajeitando no meio do meu peito, falta a tua metade. 
Vem…


Espero por ti no lugar do costume. Acendi a fogueira para estar quentinho quando chegares. Espero por ti numa destas manhãs a acordar-me com um beijo e um pedido de desculpas pela demora. Espero por ti para te dizer com alívio que não faz mal e que ainda bem que chegaste. Vou abraçar-te até te sentir real e soltar-te só quanto te ouvir a rir enquanto me prometes que no dia seguinte e no outro e no outro ainda vais estar ali, comigo, debaixo da nossa árvore à beira do rio.
Descansaremos finalmente. Arrumados um no outro perceberemos que seria impossível cabermos noutro lado. Noutro alguém. Foi por isso que apesar de todo o esforço, da vontade sincera de fazer com que resultasse e de alguma dose de preces quase mordidas, nunca na verdade coubemos. Nem ninguém teve a medida exacta do nosso espaço por ocupar. É que os nossos recortes são gémeos. Ímpares. Filhos das mesmas despedidas que nos separam à nascença para que nos procurássemos. Nos reconhecêssemos e fosse cumprida em nós a palavra do profeta que anuncia que o que Deus juntou nada pode separar. Nada. Nem o tempo. Os outros. A vida que se complica. Que ajudamos a complicar. Tudo servirá esse momento celeste da fusão destes dois nossos corpos em nome da unidade do espírito. Teremos o céu inteiro a celebrar connosco porque conseguimos. E as estrelas irão descer sobre nós para nos dizer obrigado por as termos seguido.
Não te vou mentir. Tenho receio que não estejas desenvencilhado do mundo quando nos avistarmos. Que andes distraído a ser marido. Pai, sei lá. Responsável Respeitável. Homem sério a acreditar que o que existe é o que se vê. Que isso dos sonhos é para as mulheres e os tolos. E se não te apetecer abandonar o que conheces para te entregares a uma desconhecida, com o mesmo tipo de fé guardada para os amores incondicionais, intemporais. Podes ignorar-me. Permanecer igual e seguro longe das nuvens para onde aponto. Podes recusar o meu convite…
Também receio por mim. Daquilo que te digo debaixo da coberta e que não entendo nem me lembro. Depois disso não te vejo mais. Temo partir. De novo. Ir embora sem me importar com o vazio impreenchível que sei que vai ficar. Eu já não sei ser feliz e posso não querer o presente que tens para mim. Se estás a ler isto, guarda. Pode chegar a altura de seres tu a pedir-me para não me esquecer de ti. Do acordado. Não me deixes ir assim. Segura-me contra ti. Cola-me ao teu coração e diz-me para não ir. Com os teus braços fundidos à minha volta, relembra-me onde pertenço. Diz-me baixinho que estás cansado de sentir a minha falta e de me procurar por aí. De sonhares comigo à tua espera algures… do toque, do cheiro, de todos os meus centímetros que já conheces e que darias tudo para contar mais uma vez.

Se estás a ler isto, e se és tu, talvez tenha conseguido tocar-te.
Espera por mim…Numa destas voltas havemos de nos encontrar porque a força que nos empurra é a mesma que nos junta.
Guarda isto para lermos os dois, enrolados um no outro, no sítio do costume iluminado pela fogueira que não vou deixar que se apague.
IdoMind
about happy endings and happy lives

maio 21, 2012

Lê-me




Faz de conta que é proibido pedir.
Como um feitiço lançado à voz,
Um travão à queixa a querer fugir
Diante da lâmina veloz,
colada na língua feroz,
Pronta para ferir.
E cortar-me toda, antes de partir.

Faz de conta que não aprendi a chorar,
Se sentia fome, sede ou uma dor.
E que ainda mal sabia andar,
Quando o colo se fez vapor
Ensinando-me o valor
da arte de largar
o que quer ir e o que não é para ficar.

Faz de conta que não cresci mal.
E num desses sítios onde se sente,
Sem pecado, peso ou moral.
Livre e diferente,
No meio da gente,
Cheia de medo afinal
Do que veio e do que se faz desigual.

Não faças de conta…

E não me faças envelhecer
Muda, atrás desta montanha.
Atravessa-a para me dizer:
- Anda daí estranha,
completar A campanha
Desta vez não te vou perder
Outra vez, sem te ter...

IdoMind
about The Box

abril 17, 2012

Parágrafo

Havia um homem que podia tudo. O que queria obtinha. O que sonhava concretizava. O que pedia aparecia-lhe quase do ar. Não tinha explicação para o facto, só uma vida desobstruída por pura sorte. É claro que não equacionava o seu êxito nestes termos. Limitava-se a fazer como o resto das pessoas e levantava-se, trabalhava, comia, dormia… No final do dia o resultado era invariável: perfeito.

Mas este homem que podia tudo tinha vergonha da sua dávida. Não exibia o menor orgulho em obter sem esforço o que outros perdiam noites a preparar, que derretiam velas a suplicar. Ele nunca tinha acendido nenhuma e no entanto, se essa fosse a moeda de troca dos desejos, era como se o pavio da vela acesa quando nasceu, fosse inapagável. Encontrou na mediocridade a forma de compensar a indignidade da sua boa fortuna. Sim, sentia-se indigno. O mínimo que podia fazer era minimizar-se. Reduzir as suas acções às indispensáveis a manter o frágil equilíbrio entre ser ignorado e temido. Aprendera a fazer-se ignorar. Não era difícil, sobretudo quando havia fila para os lugares dos pódios premiados a medalhas de uma proeminência qualquer e regalias salariais. Cedia o direito à participação na corrida sempre que conseguia, sem levantar suspeitas, garantir a imagem que criara a partir da cadeira. Para si era justo que assim fosse. Deixar os outros correr, perder as suas noites e acender as suas velas. A pouca tranquilidade que tinha era esta - poder não fazer nada por si.

Entre as alternativas disponíveis escolhia a mais baixinha, como aconteceu com o gabinete. Podia ter ficado com o maior ao fundo do corredor mas pediu o que asfixiava junto ao elevador. Perante a surpresa, expectável, dos colaboradores rapidamente inventou uma dor crónica nos joelhos que a deslocação diária até ao gabinete mais afastado iria agravar. Mas até punir-se parecia uma tarefa impossível já que o seu gesto foi considerado de tamanha modéstia que obteve a simpatia generalizada do escritório, assegurando-lhe café fresco pela manhã, uma casa de banho transformada em privativa, como compensação, e uma citação fixada atrás da porta, com um penso rápido colorido e diferente todos os dias, por uma admiradora secreta. Assinava LL.

Os seus superiores, orientados por princípios diferentes, consideravam a humildade no caso do homem que podia tudo, um desperdício. Recusara o cargo que lhe foi proposto e no qual teria feito diferença, atenta a capacidade invulgar de casar com equidade interesses divergentes, obtendo acordos tão originais quanto surpreendentes. Depois dos primeiros acordos, que conseguira resolver com duas singelas reuniões, os seus chefes deixaram de tentar perceber a estratégia comercial, ou outra, ou sequer se havia estratégia, conducente à formalização das parcerias que se iam somando, passando a atribuir-lhe apenas as situações mais delicadas. Deixaram também de tentar perceber porque preferia manter-se na penumbra dos triunfos nos quais o seu contributo havia sido determinante. 

Chegaram a recorrer a informação privilegiada e sigilosa do homem que podia tudo, vasculhando-lhe secreta e prudentemente o passado. Assim como o registo criminal, já que andar fugido da justiça afigurava-se a razão plausível para tanta discrição. Não encontraram nada além de um percurso tão normal que chegou a deprimir o sócio maioritário, fã de teorias da conspiração rocambolescas, alimentadas por personagens de fazer inveja ao óbvio e ganancioso mordomo, afinal ressentido filho bastardo, ou a míuda gorda da terceira classe entretanto crescida, magra e avinagrada pelo ódio (ou pelas dietas).

Nada. Nada de excepcional Nada de anormal. Nada de ilegal. Um tédio. O homem que podia tudo permaneceu um mistério.Talvez fosse só tímido. Não lhes ocorreu, por ser tão fantástico como as fadas dos dentes, e igualmente ingénuo, que há pessoas sem ambição. Pessoas numa relação pacata e estável com o mediano desde que suficiente. A quem não desassossega e não seduz o cargo mais cobiçado, holofotes sobre a cabeça e toda a espécie de excentricidades que a perda de respeito pelo dinheiro, por haver em excesso, possibilita. Escapou-se-lhes aquela percentagem da gente na base da pirâmide e que, salvo um pico ou outro de desvario emocional, estão bem consigo na vida que aceitam proporcional às suas capacidades e aos limites dos esforços que estão dispostos a empreender. Era isso, o homem que podia tudo não era ambicioso. Ao fim de tantos anos aos serviço da companhia não havia notícia de ter tentado trapacear alguém, valer-se da sua competência para passar três degraus de uma só vez ou de qualquer outra atitude que indiciasse intenções veladas de ameaçar, em benefício próprio, a ordem estabelecida. 

Com esta conduta reservada e de bastidores, constituía um trunfo a ter à mão, de modo que a sua presença era solicitada, quer em assembleias, quer em reuniões, nas quais a importância dos assuntos na dinâmica e nos destinos da sociedade requeresse um parecer isento e inteligente. A sua neutralidade, a par da recusa sistemática à sua fatia do bolo, valera-lhe o apreço sólido dos sócios. A sorte de novo…
A sorte não o acompanhava, perseguia-o. Apesar das diversas manobras, não havia como a despistar.

O homem que podia tudo estava cansado de não sonhar com nada.

IdoMind
about  weirdness


Para quem quiser cantar:
I keep my head uptight
I make my plans at night
And I don't sleep I don't sleep I don't sleep 'til it's light
Something's flowing, someone buried alive
There is an awful sound
This haunted town
And it will not it will not it will not just be quiet
Some ghosts sing. Someone get called to the life

Spend boring hours in the office tower
In a bus on a bus back home to you and
That's fine I'm barely alive
It's just a matter of time
No one gets out alive
And I'm content I'm content I'm content to be quiet
It's only six. Someone get called to the life

You know our hearts beat time out very slowly
You know our hearts beat time
They're waiting for something that'll never arrive

I keep my head on tight
I make my plans at night
And I don't sleep I don't sleep I don't sleep 'til it's light
Pulse flowing, someone buried alive
And if that head opens we built a life of work
Where we're chain chain chain chain, chained to the life
But that's fine, our blood is alive

You know our hearts beat time out very slowly
You know our hearts beat time
They're waiting for something that'll never arrive

abril 09, 2012

O Tempo perguntou ao Tempo...

Mas precisas de mais tempo para quê? Não entendo. Disseste-me que estavas pronta. Disseste-o com tanta certeza que na minha certeza de querer estar contigo comecei a separar roupa e arrumar as malas. Não queria estar desprevenido quando me ligasses a dizer “ Vamos?”
Não havia a menor sombra nos teus olhos enquanto me falavas dos fios que prendem os pés, dos fios que nos ligam à luz e de como pela primeira vez conseguiste arrancar uns, sem trazer atrás os outros. Não te interrompi apesar de não ter acompanhado sempre os teus raciocínios porque me apercebi que estavas numa conversa monologada e séria contigo. Mas ouvi-te. Ouvi-te muito claramente a estender-me a mão na chamada a repartir comigo isso em que acreditas, de vidas que se suspendem para continuarem noutra vida. Recuei na cadeira e tudo. Não te lembras? Estavas a levar-me para territórios que nunca considerei pisar, diabos, que nem sabia existirem! Não soube que fazer ou dizer. Depois olhei para ti e de algum modo isso deixou de importar. 



Estão em causa duas felicidades e talvez este seja o meu último teste. Largar os restos do homem que me treinei a ser para dar provas da minha lealdade com o compromisso de nascer outra vez. Julguei que seria eu a fraquejar porque venho sozinho. Tu trazes Deus e a fé inabalável, que já assisti a pegarem-te ao colo e largarem-te na outra margem. Seca e segura. Trazes conhecimento. Vislumbro-o nessas duas passagens para dentro de ti e que viram o que não vi e vêem o que eu não vejo. Tu trazes essa força que me assusta tanto. É como se não houvesse nada que temesses perder. Como se passasses bem sem aquilo que o mundo tem para oferecer. Terás tu uma capacidade imensurável de suportar dor ou uma incapacidade tremenda de amar? 
Assumo o risco de descobrir a resposta ao teu lado. Assumo o risco de me largares onde e quando menos esperar porque és assim, tão rigorosa contigo que prossegues desamparada, para que não te vejam os fardos atrás dos sorrisos. Que ingrato o caminho que escolheste. Nem todos te despem como eu e não compreendem que para te ter é preciso largar-te. Constantemente. Só nisto és coerente. Tenho-o observado e assumo o risco de partir contigo. Não nos falhes agora que estávamos tão perto.
Queres dizer para que precisas de tempo? E de quanto tempo? 
Sentes o meu coração? Ouve-o. Não disparou. Bate tranquilo. Estás a ensinar-me a confiar e ainda que fosse só por isso, que não é, já estaria compensado do que deixo, para me ir buscar em ti e contigo. Não nos fujas. 



- Sentes o meu coração? Ouve-o. Disparou. Bate descontrolado. Dei-me conta que o tinha naquela manhã, com aquela frase. Preciso de tempo para me convencer que o meu tempo chegou. Que mereço isto... Preciso de tempo para desfazer o que foi feito. Voltar atrás e partir com palavras novas as que foram firmadas sob o testemunho dos elementos. Preciso de tempo para me reconhecer digna de parar um bocado e permitir o afago da paz. É dela que fujo. Não tens culpa da culpa que preciso para me sentir viva. Dá-me tempo para me libertar dela.

Se for agora, incerta do que é egoísmo e do que é Caminho, é certo que te vou largar, porque não fiz por nos merecer e castigo-me assim. Preciso de tempo para converter a responsabilidade no rasgo da teia que é preciso rasgar.Vejo-me enredada e não podes ajudar-me. Não há saída fáceis nem elegantes das dependências que se criam e que alimentam colherada a colherada, renda a renda, domingo a domingo. Preciso de tempo para me desenredar. Ou para me continuar a enrolar.
Estou tão perdida…Entre a vontade e o dever preciso de tempo para encontrar a luz que me leve daqui para aí. Para ti.

- Estamos no meio meu amor e é aqui que o tempo se faz maré ou o próprio mar. 

Afastou-se. Ela ficou. Dessa praia imaginária onde o tempo acerta os ponteiros com a eternidade, só era capaz de ver o imenso areal entre eles.
IdoMind
About too much

abril 04, 2012

Planagens


Mais um almoço animado. Toda a gente com uma opinião a dar, uma posição a defender ou, como agora se diz, algo para partilhar. Fosse qual fosse o assunto a ser servido já alguém o havia provado antes, noutra casa, noutras férias, noutra discussão. Estava farto das bocas cheias sem espaço para garfadas de uma iguaria diferente, doutro tempero. Ocorreu-lhe que ainda tinham muito por provar e muitas digestões a fazer. Penitenciou-se no mesmo instante. Quem se julgava para julgar? Também tinha a boca cheia…
Penitenciou-se de novo por se ter contrariado e estar ali. Há muito tempo que não o fazia, que não estava contrariado onde e com quem quer que fosse. A solidão é um lugar perigoso onde nos desabituamos a nos habituarmos aos outros. Sabia-o. Porém, os outros ainda eram necessários e havia uma capa de normalidade a ser polida ainda que ocasionalmente. Para não o verem tinha de estar à vista. Também o sabia. Devia ter prestado mais atenção àquelas divagações soltas dela. Agora desejava tê-lo feito. Sentia a sua falta. Tanto. Era mais suportável o esforço de pertencer quando a tinha por perto. Até estes fins-de-semana haviam perdido o paladar enriquecido pelo toque dela.   

Deixou de ouvir o ruído e de pensar em bocas cheias. Estava a vê-la entrar pelo escritório de óculos, os boxers às riscas, que já eram mais dela que dele, e peúgas. A divina trindade como lhe chamava às risadas. As risadas… Se soubesse que ia precisar tanto de as ouvir de novo, teria gravado umas quantas para dias como este. Ter-lhe-ia dado razões para continuar a rir. Deixou o trabalho todo do lado dela e investiu-a da obrigação de inventar maneiras, renovadas a cada barreira, de os manter coesos, independentemente dos puxões exteriores. Assumiu que a força dela era mais forte que a dele e também inesgotável. Não era.

O que sabia sobre o amor tinha aprendido com ela. Aliás, a primeira vez sequer que o pronunciou, foi sem querer a meio de uma troca de impressões sobre um método controverso de tratamento da patologia objecto da sua investigação. Deu por si a falar de amor enquanto falava de trabalho. O amor tornou-se vulgar à mesa, no quarto, nas compras, na roupa para lavar. Quase equiparável a “ passa-me o sal” ou “que horas são” e igualmente proveitoso. O amor estava em todo o lado. Antes dela havia vocábulos ridículos e amor era um deles. Dor era outro. Não se amava nem se sofria. Não abertamente. Não expressamente. Dava-se um grito com mais facilidade que se dava um abraço e a critica afiada ultrapassava sempre a queixa sentida. Com a presença dela, a necessidade de defesa vigilante foi sendo dispensada pela ausência de qualquer ataque. Compreendera que ridículo é usar capacete, joelheiras e luvas dentro de casa.

Fora de casa também. Mas ela já ali não estava para lhe mostrar como é sair sem protecção. Também ainda precisava de sorrisos amestrados, dos sins neutros, de desculpas credíveis para as suas preferências que pareciam nunca coincidir com as dos demais. Só agora compreendia que ficou pelo primeiro nível de leitura e interpretou imprudência onde se falava de coragem. Só agora compreendia que ser genuíno é ser inteligente. Aparentar implica o esforço repetido de manter a aparência. É mais ou menos impossível fingir só por uma vez. Quando se finge vai ter de se fingir mais para escorar o fingimento. Vai ter de se continuar a sorrir, a dizer sim, a apresentar desculpas por tudo e por nada. Quer apeteça ou não. Talvez ao fim de alguns reconhecimentos profissionais, de umas amizades convenientes ou de problemas estrategicamente adiados, se perca o rasto à verdade a favor do que se chama saber-viver. Ela não. O rasto dela era íridescente. Ela sabia bem onde estava. Como voltar quando se afastava.

Não era como ele, ali hoje, deslocado. As pessoas que se vão colocando no lugar estão sempre bem colocadas. Quando não estão ou deixam de estar, deslocam-se de novo. Procuram outro lugar. Mesmo que muito muito deslocado do lugar de onde o querem colocar. Ouvira-a dizer várias vezes que o caminho do eremita é para alguns e do louco para a maioria mas que o Diabo nos prendia a todos enlouquecendo os eremitas e amadurecendo os loucos. Era por isso que uns nunca partiam e outros nunca ficavam. Poucos estavam. O segredo era estar.
Ele não Estava. Não queria ser louco, nem eremita e com o Diabo não queria mesmo nada. Queria só Estar. No seu lugar. Onde seria o seu lugar?

"A cada um de nós é confiado um extracto das nossas autobiografias. Só nos completamos na posse das partes dispersas, por aí, sob a guarda de quem menos esperas. Ou de quem esperas. Foi a forma que Deus arranjou dos irmãos falarem uns com os outros. Faz parte da nossa missão devolver essa parte ao seu dono. Ouve por isso com atenção os teus irmãos, procurando no que entregam o que te completa. E não retenhas o que não te pertence, vai fazer falta a alguém.”

Regressou à mesa, mais completo, porque aqueles irmãos lhe estavam a devolver a parte que contava da ilha longínqua onde há muito não se faziam entregas.

IdoMind
about places

março 29, 2012

Parar sem congelar

- Eu enfrento o medo. Não te enerves. Mas não te parece razoável que primeiro conheça a cara do inimigo? Se sair por aí a esgrimir contra tudo o que me exige algum trabalho interior posso acabar por ferir de morte o que me sustenta na hora da luta. Lembras-te do vick vapospray? Horrível! Dormir com o mentol aos pontapés no nariz e aquele frio pavoroso no peito. No entanto, de manhã, estávamos tão frescos como o vick para irmos para escola, mal nos lembrando das dores de garganta e a abusar do ar aspirando-o nas doses xxl, que antes do creme só entrava na versão xs.
- Tu és impossível! Eu estava a falar a sério de coisas sérias e era vick vaporub!
- Só porque tem graça não pode ser sério? Se engraçássemos com as coisas sérias da nossa vida, viveríamos em Graça.
- Eu estou mais para o desgraçado. Queria tanto ter a certeza que estou a agir correctamente. Pelos motivos certos e não por medo.
- Queres-me séria, não é? Vamos então a isso que ficas muito mais engraçado sem sombra. 


Não tenho talento para psicóloga e chego a duvidar se tenho jeito para ser pessoa mas, uma vez que pedes, dar-te-ei a minha opinião honesta e, provavelmente, vais concluir que quem precisa de ajuda profissional sou eu. Só te posso falar de mim e repartir contigo como é que foi seguir em frente com aquilo que ficou lá trás. Com o que decidi trazer e com o que veio sem convite. A mulher que tens diante de ti, considera o que acabaste de dizer bastante infantil.
Não tens dez anos para precisares de supervisão para viver. De uma validação exterior para os teus actos. Só as crianças que ainda não tiveram nem tempo, nem espaço para irem construindo o seu próprio quadro de valores,  necessitam de conformar as suas decisões pelo que lhes dizem os adultos. Por aqueles que já tiveram muito tempo e muito espaço para distinguir o trigo do joio e transformar um em pão e outro em lume. Mas até as crianças crescem e o quadro de valores dos pais, dos avós e de gente com réguas, a melhor razão  e todas as respostas, fica apertado e deixa de servir. Grande parte da nossa existência, se não mesmo toda, é passada entre o esboçar e o apagar das nossas heranças morais. E imorais.



Os míudos tipo aqueles do fundo da sala, libertam-se do quadro ao murro. À rebeldia, à desobediência, ao aleijar o mais possível porque agora é a minha vez e à minha maneira. Têm graves problemas auditivos, do pouco uso que dão aos ouvidos, e estilhaçam o quadro com os pulmões. Muitas destas crianças não chegam a crescer. Não se soltam do quadro nem constroem o seu próprio. Vivem desenquadrados.
Os míudos da fila da frente, esses tomam antidepressivos. Levam uma vida a libertar-se do quadro, do qual pensaram ter saltado fora com o primeiro emprego ou a primeira casa. Ao quinto emprego ainda não são capazes de dizer que não, de  pedir um divórcio, de partir de propósito o copo no restaurante. Têm problemas de expressão. Questionam o quadro. Odeiam o quadro. Culpam o quadro pela inércia e pela cobardia que os mantêm enquadrados. Acabam quadrados.
Conheci um caso triangular, porém. Foi para o Egipto porque estava convencido de ter sido sepultado numa pirâmide com o Faraó e precisava de lá voltar para perder o medo reverencial que tinha pelo pai actual. Pois...

Essa certeza que queres, és tu à procura da porta, dentro do teu quadro, para o corredor a seguir. Não tenho a certeza que a alcances enquanto não abrires outra porta, a da saída.


É preciso correr, cair, abrandar e cair na mesma porque há pedras com o nosso nome inscrito. É preciso aprender a saltar… Estender as mãos, largar outras, dar os ombros e pedir por um. É preciso ficar sozinho. Abandonar e ser abandonado. Terias de ter sido pai e filho, preto, chinês, gostado de homens, mulheres e tudo à mistura. Terias de ter sido mal-entendido e entender mal. Não te quereres dar a entender. Precisavas de ter entrado em todas as casas e ficado uns tempos. Sentares-te na sala de estar doutros quadros e ficar à conversa sobre a correcção e incorrecção do que por lá se pratica.

É louvável a vontade de agir bem. É a mesma que me motiva. Tens aí a tabela que me emprestes? Essa das duas colunas com um risco de alto a baixo a separar o mau do bom. Já agora, como é que te veio parar ao colo?

Para teres  “certeza” é preciso ires à Origem. Se lá chegares a única certeza que encontrarás é que não há uma certeza mas tantas quantas as almas e quantos os caminhos e quanto as dores e quantos o melhor que se conseguiu, a coabitar nesta bola forrada com uma noite e um dia a revezar-se, no mesmo beijo fugaz de olá e adeus.
Percebes o que te quero dizer? A certeza com dois lados ainda é certeza?

Eu enfrento o medo. Claro. Já me basta ser teimosa. Não quero ser maricas. Enfrento o medo se for de falhar. Se for de perder. Se for de não gostarem de mim. De decepcionar ou de dar um beliscão em expectativas estrangeiras. Enfrento todos os medos que estrangularem a liberdade de me experimentar ser todas as coisas que precise de ser para chegar à origem e constatar que estive sempre certa…

Entretanto, sem certezas, vou escolhendo, de entre todas as escolhas, a que se aproximar mais daquela que eu gostava de ser se, em vez de humana e ainda por cima mulher, fosse perfeita. Angelical..
Como seria eu de asas em vez de génio? E tento sê-lo, um verdadeiro anjo.
Tinha de acabar com graça… ;)

IdoMind
about not being paralyzed by doubt

março 26, 2012

Mercúriozinho

Ele de novo. Já o tinha visto ali algumas vezes. Entra com as mãozitas nos bolsos e nunca se senta no mesmo lugar apesar dos bancos estarem praticamente todos vazios. Umas vezes fica ao fundo, outras nas filas da frente. Raramente no meio. Fica sentado a olhar como se estivesse numa sala de aulas, atento, sereno, com as pernas a balouçar, ouvindo o professor a ensinar uma maravilha qualquer que ele nunca havia reparado ou pensado ter uma explicação bem mais plausível que as fantásticas que lhe ocorriam para justificar certos fenómenos.
Lembro-me que houve apenas uma ocasião em que saí antes dele. Costuma ficar cerca de vinte e trinta minutos, dá um pulo do banco e vai embora com o mesmo ar imparcial e indescortinável com que chega. Para alguém tão baixinho tem uma presença notável. Passa por mim à saída e tem-me lançado um rascunho de sorriso. É desconcertante. É quase hilariante.
Numa destas quartas-feiras, autorizei-me o impulso de me dirigir a ele e sentei-me ao seu lado. Agarrou-me com os olhos gigantes, negros, pestanudos e mostrou-me os livros guardados à volta da íris. Acho que ele também viu os meus. Mas na altura não pensei nisso. Nem em nada. Deixei-o ver-me. Se o tivesse impedido com os subterfúgios habituais, quem perderia era eu porque aquela criança tinha coisas para me dizer. Um recado para me entregar. Soube-o no instante em que me sentei com ele.
- Ando a escolher um Deus. Ainda não me decidi com qual dividir os meus segredos e os meus sonhos. Preciso de um em que possa confiar e que não me falhe quando precisar mesmo da ajuda dele. A minha avó diz que antes de pararmos num sítio temos de correr o mundo inteiro porque só assim é que sabemos que não há sítio melhor em lado nenhum para nós. Com Deus é igual. Ando a ver qual é o melhor para mim. Cada Deus tem seis meses para me dizer o que tem para me oferecer. No fim vou escolher. Preciso de um Deus porque quando for grande vou ser viajante e assim não vou nem sozinho, nem sem protecção.

Das milhares de razões que me poderiam ter ocorrido para aquele menino vir à capela meio esquecida numa das poucas ruas da aldeia também ela calcada por uma contemporaneidade pouco dada à nostalgia de compassos antigos, eis a que jamais constaria da lista.

- Antes de ter escolhido os meus dois amigos tive muitos. Fui à procura dos diferentes de mim porque ser como eu sou já sei como é. Só consegui fazer amizade com uma menina. Elas são mais difíceis. Mas a minha avó disse-me para não me preocupar muito porque as meninas são diferentes dos meninos e diferentes umas das outras. Que eu teria de dar três voltas ao mundo para encontrar a melhor menina para mim. Mas que iria valer a pena. Não percebi bem mas a minha avó fala apenas quando está certa do que diz. Tem acertado comigo e por isso acredito, por agora, nas palavras dela. Ela podia ser o meu Deus. Perguntei-lhe se queria. Se aceitava ser o meu Deus. Riu-se tanto que até uns passarinhos vieram à janela ver o que passava. Depois ficou séria e respondeu-me que somos emprestados pelas nuvens aos Homens para fazer da terra outro céu. Que o nosso Pai é feito de estrelas e a nossa Mãe da luz que as faz brilhar. Para a gente não se esquecer onde pertencemos, os nossos Pais dos céus deram-nos as lágrimas. Quando a gente chora é a nossa parte de nuvem a chover uma coisa importante. Não sabia? Devemos ficar quietos quando choramos para ouvir o que diz a chuva que vem dentro de nós. Da nossa parte de nuvem.

A minha avó também tem nuvens que chovem dentro dela. É por isso que não pode ser o meu Deus.

Venho aqui há quatro meses. O tempo deste Deus está quase a acabar. Ainda não me disse nada. Fico aqui calado à espera que fale comigo. Nem sempre vou mesmo até aos seis meses, ao fim de dois ou três percebo logo que nunca vou perceber alguns deuses e vou-me embora. Este, deste sítio, ainda não falou apesar de eu me esforçar e mudar até de lugar porque pode querer falar baixinho só para mim ou sem ser com a voz. Deus usa tudo o que a dá vida para falar em seu nome. Todos os deuses fazem isto, de acordo com a minha avó.
Mas até agora nada. Até hoje. 

Não é só a senhora que olha para mim e pensa. Eu também já olhei para si e fiquei a pensar.  
Já me distraí consigo e espero que Deus não me tenha falado dessas vezes em que começava a imaginar porque é que senhora estaria aqui. As outras pessoas que encontro cá são todas como a minha Flor, de cabeça esbranquiçada e muitos traços na cara, que ela diz que são mapas. Mapas das viagens que mais marcaram. Se quisermos saber com foi é só olhar bem o desenho da marca. Ela conta. Se foi a direito, se teve curvas, se acabou de repente. Onde acabou, se perto dos olhos, dos lábios… A minha Flor anda a escrever a história das suas linhas e disse-me que um dia vou lê-las mas que primeiro, eu mesmo tenho de ganhar alguns traços, os que ensinam a ler os mapas da face.
Para além das pessoas velhas com medo de morrer, só vem cá outra que não é muito velha mas que não anda. Também a viu. É aquela da cadeira de rodas que fica com a cabeça para baixo até ir embora. Faz-me impressão. Como é que ela sabe se Deus está a olhar para ela se ela está a olhar para a barriga? Um dia pergunto-lhe.
Reparei em si porque trazia uma rosa enorme na camisa e fez-me pensar na minha avó, a Flor. Também gosto daqueles sapatos que trouxe com um laço verde, os seus pés pareciam duas prendas. São muito giros. A senhora não tem marcas na cara. É nova. E é bem bonita. Consegue andar. Porque é que precisa de ouvir Deus? Este Deus?
No outro dia, à mesa com a minha avó, contei-lhe sobre si. Quer saber o que ela disse?
A tentar com toda a força travar a minha parte de nuvem a querer chover, respondi-lhe que sim.
- A Flor disse que a senhora sabia qual era o melhor sítio do mundo para si e que estava a pedir desculpa a Deus por não ir. Ou coragem para o fazer.

Virei-me para a frente e chovi... 

IdoMind
About God´s funny ways

março 20, 2012

"A" Primavera

Pensavas que era só conversa? Não era. Olha à tua volta e vê. Está a acontecer. Estamos a mudar. Mas ainda não mudámos. Desconfio que não vamos sequer a meio. Está a custar muito, bem sei. Também a sinto, a infindável maré vazia dentro de nós a levar-nos tudo. Como é que se agarram as ondas? Como é que se pára o mar? Consegues…?
No outro dia, num daqueles em que me apetece escavar o fundo do poço de joelhos, acabei por desenterrar a responsável pelos crimes que nos fazem penar. É a liberdade.
A Humanidade experimenta hoje uma liberdade histórica. Entre nós e a vida que sonhamos está apenas a vontade de a criar. De começar, pelo menos. Nós estamos nas nossas mãos. Inteiramente por nossa conta. 


Os nossos dedos viram-se é para nós agora que a sorte e o azar se reformaram. Foram com eles a indiferença, a maldade, o poder dos outros. O conhecimento expulsou toda a gente e fez-nos ficar sozinhos com os efeitos das nossas decisões. Do que fizemos e deixámos por fazer, sabemos lá porquê. Do que sabemos porquê mas que ainda não foi desta que conseguimos fazer de outro modo.  O nosso inimigo, os insucessos, toda a nossa infelicidade somos nós com medo. E com culpa. Muita culpa.Se nos encostarmos por um momento, nos aliviarmos por um momento, nos perdoarmos por uns breves instantes por termos carne que pede carne, ossos que não aguentam tudo e corações que partem e param, talvez arrisquemos olhar no espelho e ver que estamos a envelhecer sem nos termos estreado…


A vida está a acontecer-nos  a todo o momento, em todos os instantes que se despedem assim que chegam. Do tempo só ficam as rugas na face se não cuidarmos de deixar outras marcas na alma. É preciso cuidado a viver. Sobretudo connosco. É preciso cuidarmos de nós, para, se quisermos, estarmos em condições de cuidar de outros. 

Está à mostra o que resulta de nos forçarmos a aceitar o que as nossas entranhas repudiam, aos berros. O drama está na consciência desta nossa cobardia de ser egoísta o bastante para sairmos à nossa procura. Falta-nos exercer o direito à felicidade e a faculdade de errar nas tentativas. A  margem de engano inibe-nos de experimentar. Pouco mudámos e ainda nos julgamos o centro de muitos sistemas solares. Que tudo depende de nós. Comida na mesa, tecto na cabeça, sorrisos na cara, um futuro melhor… Troca por troca, a tua vida como mereces vivê-la, por outras vidas como achas que é melhor serem vividas. No entanto, até esta data, conheço apenas um caso de alguém que morreu por amor. De saudades…A vida continua mesmo quando nós já não estamos. As soluções aparecem. Buscam-se. Descobrem-se capacidades que estavam toldadas pelas tuas. Tantos começam a viver quando outros decidem morrer. Não é crueldade. É assim. A vida encontra mesmo uma maneira de prosseguir. Independentemente de ti.

Estas e outras revelações encontram-se hoje em qualquer prateleira de supermercado ou expositor giratório de uma papelaria. O acaso afinal não existe e está previsto. Ou é previsível. Deus olha por nós mas não se importa connosco. O céu não é o limite. E na terra os limites não estão do lado de fora. Até as fronteiras se mexem para que o Homem caminhe. Livre. Por onde entender. Por onde decidir ir. Ficar.

Hoje não se pagam formas de pensar com a própria cabeça. Não é preciso esconder um amor, porque todos os amores deixaram de ser proibidos. Hoje podemos nascer pobres e governar um país. Inventar uma fórmula para as laranjas serem todas doces, as batatas-fritas boas para a saúde e o chocolate adelgaçante. Hoje não há mulheres nem homens, há pessoas. A poder fazer tudo igual. O bem e o mal reconheceram-se irmãos e hoje existem apenas escolhas…


Hoje posso estar a jantar contigo. Ou a tomar o pequeno-almoço amanhã. Posso largar a toga e vestir um avental. Posso ir atrás da minha visão no Brasil. Posso permanecer onde estou e dar a volta. O que não posso é matar-me nas suaves doses diárias de resignação.

Hoje é bom para o que quisermos. Ontem também foi e amanhã será de novo. Qualquer dia será bom para Te escolheres. Para começares, pelo menos. Mas hoje é Primavera!
Há um Equinócio enamorado pela luz que faz os dias maiores só para a ter mais um bocadinho. Hoje é dia de sair ao jardim e plantar as sementes da tal vida sonhada. O solo está fértil e o sol carinhoso. Hoje é dia de ir às estrelas e lá deixar desejos. Projectos. Ideias para ser feliz. Alcançar a tal paz . Descobrir o tal Amor. Reconhece-lo...
Hoje o Universo tem os portões abertos e a esperança está a ser oferecida. É só levá-la. Mantê-la perto de nós para quando a noite nos puxar para si.

Na minha estrela deixo desejos para ti também. Queres saber quais são? 
Anda até cá. Sobe. Vem deixar os teus e podemos ir falando no regresso de como vamos marcar a alma. Cortar a fita vermelha e dar o primeiro passo num novo caminho ou outro passo noutro e novo caminhar.

IdoMind
                                                                            about Spring, flowers, butterflies, hope and lots of love
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