janeiro 22, 2013

When the going gets tough, the tough get going




Sei que a terra é redonda porque corro meio mundo sozinha e encontro-te aqui de novo. Neste sítio entre o nada e o agora, vejo-te e pergunto se estiveste sempre aí…
Quando te perco de vista, por onde andas? Atrás, a guardar-me os passos que se arrastam quando me arrasam ou à frente, esperando-me com água e outra porta por abrir?
Desapareces por tanto tempo que dás espaço às montanhas de crescerem e ficarem tão grandes que só fazem sombra e me fazem medo. Sinto-me mais fraca hoje do que quando comecei e acreditava na bondade. Vou porque sei que é escusado tentar ficar quando a hora é de ir, mas já não parto a sorrir, despeço-me a rezar. Peço que as pernas não me falhem nem que mas cortem. Que não dê por aí com alguém que goste de rasteiras e de rir com quedas…
Antes de ter provado terra, todas as casas eram um lar. Pudera eu voltar a ver abrigos onde hoje pressinto, bem disfarçado, um inimigo. Tenho saudades da beleza tímida debaixo de aparentes egoísmos. Onde anda a humildade que conduz à reinvenção? Tenho saudades de nós a caminho para a escola, quando ainda não sabíamos tudo e tínhamos perguntas para nos fazer.
Sinto tanta falta de sentir esperança no foram felizes para sempre que afinal nem todos querem…
É que,
há quem ache que se pode andar sem verdade, 
há quem ache que até se deve. 
Há quem ache que não diz tudo. 
Há quem ache que não tem de fazer nada. Nem nada para fazer. 
Há quem fuja e leve a pista que alguém terá de procurar noutro lado. Noutro tempo. 
Há quem se desculpe, com o que for melhor, para não pedir licença e ir viver o seu sonho.
Há cegos que não querem ver…
Há poetas que não sabem sentir…
Há profetas que não se conseguem ouvir...
Há tantos sem nada para dar
e ainda poucos aprenderam a receber.

Sinto falta de anjos nos estranhos. E em todos os outros.
Onde estão as penas que nos dão asas?
Eu mesma ando tão esquecida de voar, que me apaixonei pela gaiola. Prendi-me do que te peço hoje para me libertares porque não me lembro como fazê-lo sem me magoar.
Ajuda-me a largar a parte que engana e fere. Aquela que me venda a ti na perda que eu não queria mas que precisava. 
Livra-me da tentação de ser vítima e gostar. 
Do vício feio de apontar para o outro sem antes me aceitar. Sequer reconhecer. 
Salva-me da arrogância do "não mereço" que não sei se veio salvar-me de mim a ser menor. Em desamor. Não sei nada.
Ajuda-me a lembrar-me do meu tamanho e do meu papel que é só um papel.

Leva-me a ti quando estiver difícil estar aqui, mas sem ser para me afastar do resto.
Onde tu também brincas e me pedes que seja Deus contigo.
Está na altura de te pedir desculpa outra vez. Também eu acho muita coisa e achei que me tinhas deixado. Finalmente desistido de mim. Ou que me tivesses feito a vontade e largado a mão para ver como me saía a atravessar a Estrada sem ti.
Mas já chega. Vem comigo. Fica ao meu lado.
Eu Confio-te o mapa.
Eu aceito que me conduzas, mesmo se para longe dos lugares que eu acho que tenho de ir. 
Eu permito que me avises que estou a perder-me, negando-me ou tirando-me o que eu acho que me traria felicidade.
Eu convido-te à minha Vida e arrisco chegar a um Destino muito diferente daquele que eu acho que é o meu.
Eu Entrego-te a mulher para que se cumpra a Alma. 
Onde, como e quando for, certa que hoje estou da certeza da minha avó:
" onde tens de ir jamais poderás fugir."

IdoMind

about acceptance, the real one, not the "I don´t care anymore,the hell with it" one

janeiro 18, 2013

Voltas?


Já sabiam tudo quando se conheceram. Talvez o problema tenha sido esse, sabiam demasiado. Estavam de tal forma preenchidos de sabedoria, que não havia por onde entrar ou se arrumar sequer uma única novidade. Nem dentro, nem entre eles.
Ele era mais velho e era homem. Sabia, portanto, tudo sobre mulheres. Que eram iguais. Que sentiam o mesmo e mais ou menos por volta das mesmas idades. Que tinham desejos parecidos e o mesmo filme implantado no cérebro, accionado automaticamente perante certas, e as mesmas, circunstâncias.
Assim, quando a conheceu, já julgava que a conhecia. Não seria por isso preciso perder muito tempo a ouvi-la. A Ela. Era mulher e o seu género era o seu cartão-de-visita. O resto eram pormenores com pouca influência na opção do modo de operar com os seus mecanimos. Tratava-se apenas de selecionar o programa e a velocidade.
Esta era intelectual. Rotulou-a assim. Reservada. O que constituía o principal desafio. Teria de arranjar forma de chegar ao painel de controlo antes de ser expulso e de impedida permanentemente a sua entrada. Com esta teria de ter arte...
Era a segunda vez que tinham estado juntos. Achou-lhe graça e achou-lhe força. Ali à mão mas inacessível. Uma espécie de praia privada. Ficou curioso e com vontade de um mergulho.
Sentou-se diante do computador e fez uma busca rápida pelas redes sociais. Uma análise oblíqua do perfil do seu objecto de estudo iria ajudar a traçar a melhor aproximação. Enganou-se porém e teve de fazer à maneira antiga: convidá-la para jantar. Gostou disso. Soube-lhe bem ir às escuras ter com uma mulher sem saber sequer como lhe chegar à boca.


- Um engate vintage – pensou e riu, enquanto dava os últimos retoques na aparência que, esperava, fosse do agrado da sua companhia.
Tempos mais tarde, na cama, confessou-lhe que antes de a conhecer ela já lhe tinha dado o que pensar. Constatou naquela noite que não tinha um estilo. O seu guarda-roupa era uma espécie de encontro ecuménico da indumentária. Não se tinha apercebido, até àquele momento em que estava a escolher o que vestir para o jantar, que não se vestia para si, apenas para os outros. Conforme a música, assim a dança… Preocupava-o mais a impressão que queria causar, do que o conforto de ser ele mesmo. Pela primeira vez sentiu-se uma farsa. E muito feminino também, emaranhado em dilemas sobre o que vestir.
Telefonou ao irmão e pediu-lhe roupa emprestada. Disse-lhe exactamente o que queria. Adorava vê-lo  com aquelas calças de corte irregular e a t-shirt com mau feitio a perguntar “ o que é que foi?” de nariz empinado. Só o casaco que usou nessa noite era sua propriedade, o resto da roupa foi-lhe entregue pelo irmão, à porta, sem perguntas e com uma expressão engraçada entre o curioso e o esperançado.
Ele contou. Ela ouviu. Não ouve riso. Não houve conversa. Antes ficaram quietos, olhando-se, sem conscientemente conseguirem, ou sequer tentarem, compreender a importância do que acabara de ser partilhado, mas sentindo-o intuitivamente muito importante para o que seguiu.
É verdade tudo o que dizem sobre alguns silêncios, falam mais do que tudo quanto possa ser dito.

Quando saíram do restaurante, ele soube que não queria que ela saísse da sua vida. Não para já pelo menos. Queria mais jantares às escuras ou à luz da lua que ela mordera, irradiando, desde essa dentada original, igual mistério. E distância. Ela tinha isso de estar sem ficar, o que o desorientava mas lhe mantinha a órbita alinhada em torno dela.  
Agora já conseguia dizer o que o tinha maravilhado. Perdido. Maravilhado outra vez. Transformado, para sempre. Ela tinha estilo. Sabia quem era sem nunca fechar a porta a ser outra coisa qualquer. Permanentemente impermanente, como uma vez lhe disse com a tristeza poética de quem já tocara alguns limites sem contudo os desafiar.
Mas como é que se lida com a impermanência? Ele queria um apartamento cheio de raízes no centro da cidade. Ela vivia num barco.


Ali estava ele, em terra segura, no apartamento no centro da cidade. Ela, só Deus sabia.
Serviu-se de mais uísque e para a ter de volta naquela noite saudosa, no sofá onde adormeceram tantas vezes embrulhados a ouvir música, colocou “I am a bird now” e ficou a beber ambos.
"Deve ser isto a que o Rui se referia no outro dia quando falou de inteligência emocional"  pensou para si depois de lhe ocorrer que quis tanto controlar o tempo, que o Sol desapareceu. Exigiu  entrega sem se doar e do que a acusava, ele mesmo era culpado. Com medo de perder o controlo, perdeu tudo.
O que é que tinha custado ter as mãos disponíveis para ir com ela ou para a esperar do outro lado dos túneis por onde se metia para ir ver o que via nas suas próprias trevas. Ele podia ter sido a luz firme lá ao fundo. Julgou-a quando só precisava de a amar.
Foi apanhado desprevenido porque não esperava que uma mulher não esperasse nada. Dele. Com ele. Confundiu-se por isso e tomou por leviandade a certeza na Perfeição. Cheio de medo, escondeu-se. Refugiou-se nas trincheiras onde guardava as armas do costume e cujo uso frequente lhe deu mestria. Neste não digo isto, para não provocar aquilo e faço assim porque sempre fiz, deixou-a ir embora sem nunca se ter apresentado. Nem ter tido o prazer de a conhecer de verdade. Para não chorar com ela, chorava agora por ela…
É assim que se impede a vida de nos fazer viver, amputando-a da surpresa de se ir revelando no que acontece e no que deixamos que aconteça.Se não soubesse tanto quando a conheceu, ter-se-ia mostrado e talvez ainda estivessem a crescer entrelaçados no sofá e pela vida, ajustando-se cada um para caber o outro.
Quem lhe dera poder voltar a Montauk pela primeira vez, outra vez, e encontrar lá a sua Clementine.
Onde andaria ela…?

(to be continued)
IdoMind
About... a lot.

janeiro 17, 2013

Diques e Truques



Disseram assim:

- Olha para a dor de frente e a dor vai desaparecer, como um muro que se desmorona.
Pensei de imediato “como diabo isso se faz?? Eu quero!”
Fiquei curiosa por saber como realizar esta magia e continuei a ouvir, na esperança que fossem dadas instruções para a aplicação prática desta máxima, que me pareceu a cura milagrosa de tantas, se não todas, as patologias emocionais.

Tenho o privilégio de constatar, praticamente todos os dias, que a doença tomou conta da cabeça e do coração das pessoas. Se perguntados porque querem ou precisam de agir de determinada forma para obter determinado resultado, a resposta, quase invariavelmente, acusa dor. É o Medo de sofrer que (n)os leva a magoar. E o círculo fecha-se.
Se ao primeiro porquê se sucederem mais porquês, a resposta final, já irritada, acaba por ser - porque eu tenho razão! Gente grande a responder como rapazes pequenos. Será isto fugir de olhar a dor de frente e fazer com que continue a doer?

Com todas as implicações que traz, há muito que eu escolho o meu trabalho e não aceito patrocinar todos os litígios que me são apresentados.
Lembro-me do momento exacto em que tomei verdadeira consciência da importância da minha conduta profissional. Tinha acabado de tomar o comprimido vermelho e ainda andava a cambalear entre o deslumbre e a heresia. Não me pareceu muito distante a entretanto abundante literatura que já havia na área do desenvolvimento pessoal e espiritual, da ficção científica que estava habituada a ler e que continuo a devorar. Uma amiga emprestou-me então “ Muitas Vidas Muitos Mestres” do Brian Weiss. Para quem não conhece, trata-se de um psiquiatra reconhecido, formado na Faculdade de Medicina de Yale e portanto um académico. A minha amiga conhecia-me bem... Se fosse um tolinho qualquer de branco a falar-me de visões que tinha tido durante um jejum, na altura nem sequer tinha tocado no livro e reconsideraria manter a amizade.
Decorria o ano de 1980 e o Dr. Weiss foi trabalhar como de costume. Aconteceu que durante uma sessão de hipnose, a cliente que estava a tratar de acessos de pânico, medos e fobias inexplicáveis, vai tão para trás na raiz dos seus traumas que começou a descrever uma vida passada, narrando inclusivamente detalhes do que estava a experienciar que seriam impossíveis dela saber no contexto da sua vivência actual. De repente, a reencarnação reencarnou no gabinete do reputado médico, que por muitos anos manteve este episódio em segredo, receoso de como seria recebida a sua descoberta pela comunidade científica, pelos amigos e até pela família. Continuou porém a desenvolver esta terapia, conduzindo aquela, e outros pacientes, a vidas passadas. O livro é o relato de algumas destas sessões.
Numa nota, a determinada altura, o Dr. Weiss menciona que de todos os pacientes que em estado de hipnose descreveram experiências de vidas passadas, bem como o que acontecia logo após a morte nessas vidas, que chamam de “ espaço entre vidas”, apenas um descreveu a experiência de ter morrido e ter ido para um “lugar”  correspondente ao que imaginamos ser o inferno – um advogado!

Caí em mim!

Tive noção naquele momento que TUDO o que faço tem uma consequência. Quando morreu na vida que foi levado a relembrar em estado de hipnose, aquele advogado deve ter partido em tal estado de desconformidade com os desígnios da sua alma (ou da sua moral) que morreu julgando ser merecedor do inferno. Condenou-se assim em vida a alimentar o verdadeiro inferno - viver na luta consigo mesmo, pois haverá pior castigo que não ter paz?  Haverá pior condição que a falta ou a perda de amor por nós mesmos? Haverá pior violência que a praticada contra a nossa essência? Dia após dia após dia...Haverá pior inferno?

Percebi então que tinha a responsabilidade, não de evitar o inferno, mas de usar a minha vida para construir nela o Céu. O meu trabalho constituía uma ferramenta valiosa para esta Obra. Não é só um trabalho. Nenhum trabalho é só um trabalho. O nosso trabalho é a matéria-prima onde mostramos de que matéria somos feitos. É uma terra por arar os frutos que haverá de dar.

A minha postura mudou muito desde então. Cada pessoa sentada à minha frente, no escritório, deixou de ser um cliente para passar a ser Eu à procura da minha ajuda. Afinal de entre milhares de colegas, foi a mim que recorreram.
Aproveitei-os então, e sempre que consegui, para colocar janelas bonitas no meu Céu, dar um jeito nas varandas ou arranjar o jardim da frente.
O inferno é a ilusão de que estamos separados...

Fui estendendo este entendimento ao resto. Quanto mais me responsabilizei pelos meus actos, menos os actos dos outros me foram doendo. É que ninguém me faz nada que eu não tenho feito antes…
Sabendo e acreditando que assim é, passei a estar atenta às minha reacções "normais", automáticas, instintivas. Geralmente defensivas. De que me defendia eu? O passo seguinte foi então descobrir onde e porque doíam os ataques dos quais precisava de me defender.

Parece-me que não há grandes dúvidas que foi de quem mais confiávamos, que apanhámos a bactéria alojada em nós a deitar ovos até hoje. São antigas as memórias que ainda hoje nos manobram os passos.O nosso passado contamina-nos o Presente. Passado este que pode ir tão longe como os passados dos pacientes do Dr. Weiss ou bater já ali, na infância difícil e nuns pais impreparados para o Amor.

Uma vez que estou numa de confessionário, as minhas dores, as que consigo reconhecer pelo menos, devo-as a um início de vida hostil, que me levaram a arranjar uma maneira de sobreviver à carência de afecto. E de muito mais.
Primeiro que aqui chegasse…Tive de passar pelos clientes que eram Eu à procura de ajuda.
Também os meus pais (pai) era Eu a aprender a pôr comida na mesa para quatro. A dizer não aos amigos para ir ajudar nos exercícios de matemática e colocar a mesma pergunta mil vezes até perder a paciência e esticar da mão contra uma coisa pequena que não queria fazer contas, queria ir ver  “ O fugitivo”.
Vim para dizer àquelas pessoas que a vida deles nunca mais ia ser igual e é natural que não se consiga logo acertar nisto de ser um pai que não deixa marcas…
Se está tudo resolvido e hoje é só beijos e abraços? Não!! Ainda preciso de aprovação, ainda me doí tanta parvoíce, ainda não sou Livre.

Ouvindo dizer que bastava olhar de frente e a dor desaparecia, é claro que pus nisso toda a minha atenção. Queria tanto saber como, que esqueci a timidez e expus a minha dúvida:

Sabemos que é aconselhável enfrentar os nossos medos.Isso é fácil. Se tenho medo, por exemplo, do escuro, posso fechar-me num quarto e passar uma, duas, três, muitas noites às escuras até deixar de temer a escuridão ou ter um enfarte. Se tenho medo do abandono, posso ir dizer tudo que tenho engasgado a quem tenho medo que me abandone e esperar que a pessoa fique e me ame ainda mais ou vá embora de vez.
É-me mais fácil identificar o medo, que a origem da dor. Por conseguinte, é-me mais simples saber o que fazer para acabar com o medo do que com a dor.
Soma-se que acontece vencer o medo e nem por isso acabar com a dor.
Como se faz então?
Como é que se olha uma dor nos olhos? Tantas vezes nem sequer sabemos qual é órgão que se está a queixar.

Eu perguntei a um monge como se olhava de frente para um coração partido.

A vós, o que vos dói? Porquê?
Conseguem dizer?
Conseguem dizer-me?

Também esperam que seja o tempo a cura-la...?

É que estou cansada de algumas dores e gostava mesmo que magicamente desaparecessem como um muro que desmorona…

IdoMind
About easing this soul of mine…

janeiro 16, 2013

De Mago a Louco, vai só um pouco



Estou para florir há três semanas. Há coisas a empurrarem-me de dentro e com tamanha vontade que já começaram a partir-me a pele. Devem ter pressa ou um prazo qualquer porque desde ontem que me sinto a estalar por todo o lado. Estão incansáveis a abrir uma saída. Sinto-o em especial na zona do coração. Deve ser onde estão a pôr mais empenho. Faz sentido começarem por me destruir pelo meio, rebentarem-me o centro para que o resto se desfaça como uma figura na areia engolida pela maré que enche e leva.

Andava eu sossegada a tratar da minha vida, quando me senti empurrada pela primeira vez há cerca de dois atrás. Não sei por onde começaram a querer a nascer, sei que devem ter mexido no que até então tratava da simples missão de dividir o branco do preto e mandar o resto para reciclagem. Um dia, que parecia normal, tentei agir de acordo com o que era correcto e soube-me tão mal como se estivesse a pecar de olhos bem abertos. Até me deu uma tontura. Iludida que era recta, não passava afinal de uma cobarde. Toda a vida, com a vida. Tinha andado metida no comércio da felicidade. A minha pela de outros, a de outros pela minha, a depositá-la aqui e ali e a penhorá-la a favor do que não tinha qualquer valor até ser capaz de voltar para a resgatar e compensá-la pela má decisão.

Tentei lembrar-me quando e como foi que fiz do meu bem-estar pessoal uma moeda de troca e acho que foi sempre assim. Só com a minha irmã tudo foi de graça, o demais chegou e partiu num negócio, só variável no volume maior ou menor de transacções. Porém, e apesar do sucesso de todas estas operações comerciais, eu era única que não ficava feliz com as minhas próprias escolhas.
Eis o cavalo de Tróia,  que de mansinho e de pantufas, me trouxe a anarquia para dentro de casa. Antes de me empurrarem, eu não sabia que tinha Escolha. Pensava que viver era respirar… e reagir. Habituada a pagar o bilhete, não me tinha apercebido dos remos encostados às mãos. 
De que me queixava eu, se embarcava sem me sonhar.
Deixei então de encontrar paz na ausência do conflito. Eu não era pacifista, havia permanecido passiva para não acordar os animais de estimação de ninguém. Sem querer levantar poeira, nunca a varri de debaixo dos meus pés. Inevitavelmente, aconteceu um grão ou dois entrarem nos sapatos. Causando feridas ao fim de uns quilómetros. Imprevisivelmente, uma ventania ou outra trouxe com ira o pó contra os olhos. Fazendo-os chorar. 
Ignorar as minhas necessidades não fez com que fossem menos necessárias. Ou realmente importantes.
Parecia que tinha descoberto que era adoptada, depois de ter andado a enxotar vezes sem conta a sensação teimosa de não pertencer a um lugar. Foi assim que senti as estaladas da verdade a despertar-me do sonambulismo.

Sem rebeldia, vi-me na adolescência do meu Destino. Eu não sabia nada e tinha a gestão do meu Caminho para reaprender. As regras que havia seguido, com incontestada obediência, violavam a Lei e era por isso que eu colhia tempestades quando me semeava de resignações. Abusos. Medos. 
Foi assim que começou a minha crise. E já lá vão dois anos de medidas de austeridade. De cortes...
Impus-me a solidão e o silêncio para ver me encontrava depois do ruído que quase me deixou surda aos ecos da minha eternidade. Precisava ver-me e abraçar-me. Despedir-me do que estava a mais e só pesava. Prendia. E asfixiava a audácia de pelo menos tentar.  
Tenho levado este tempo a perceber por que águas quero remar o meu rumo. E a abastecer-me em terra para não morrer no mar. Pus tudo em dia e até renovei a fé, que entretanto tinha caducado, para poder passar as fronteiras que fossem aparecendo. Andei a tomar banho a cada palavra e a cada gesto, vendo bocados meus a ir pelo ralo. E outros, tão bonitos, a despontar. Há dois anos que me ando a limpar e sinto-me, por fim, gira e pronta para ir para a rua.
Oiço o meu nome a ser chamado. Desconheço o que aí vem, mas reconheço quem lá vai e isso basta-me para saber que vai tudo correr bem…
IdoMind
about harvesting


dezembro 17, 2012

Depois da tempestade



Acontecia estar ainda a pousar o telefone e as saudades estarem já, do seu lado da linha, prontas para agredir. Respirava-se a presença constante daquela ausência que doía. Mas estava prestes a acabar. O espaço por ocupar iria morrer no abraço filmográfico entre bagagens e sorrisos molhados. O abraço ansiado, sabia-se lá há quanto tempo, feito para acontecer. Suspenso num tempo qualquer em que as coragens eram diferentes e não havia ainda o direito de escolher sempre a felicidade nem o que nos faz bem.

Ia fazer cinema. Já ouvia os aplausos. É que havia também uma contagem. Riscos num calendário enfeitado da cumplicidade cor-de-rosa e azul-bebé na declaração implícita de terem chegado. Ela tinha chegado.
Tão lindo o seu castelinho nas nuvens com almofadas brancas pelo chão, muitos livros nas estantes, a cozinha grande, permissiva e confidente. Quanta harmonia. Ali o amor não era ideia. Uma coisa que se diz e que se escreve em forma de poesia mas que morre nas mesmas linhas em que é falada sem no entanto chegar a ver-se a ser… a sério. No castelinho nas nuvens, o amor era um facto. Existia. Tinha corpo e tinha mais coisas. Levou-se toda e tola a morar lá. E era lá que ela e as suas malas diriam adeus. Na porta da frente, erguia-se o horizonte desenhado por Deus para si. Oferecido, porque sabia quem ela era e sabia que merecia. Fora assim aos seus olhos, a terra e o céu encontraram-se a meio do caminho para que ela pudesse receber o que era dela.
Nunca mais se lembrou da vida real. Dos medos reais. Nem da outra realidade na ponta da corda, amarrada ao chão numa pedra fixa.
Ela fora o doce segredo que na sombra dera de comer, às escondidas, ao sonho de voar.
Quando aterrou, fez-se assassina e aprendeu a matar. Silenciosamente. Cravou-lhe uma faca bem fundo, na mesma cozinha, onde ele continuava de copo na mão a distraí-la com o humor mordaz e as mãos indecentes que a faziam errar na medida do sal. Mas custava a matar o sonho. Todas as noites tinha ainda de o sufocar com a almofada que antes servia para lhe marcar o lugar no faz-de-conta que estava ali. E onde o via tranquilo a dormir ao seu lado, observa-o agora a perder a vida dentro de casa dela. Dentro se si.
De facto, quando olhamos o abismo, o abismo também olha para nós e ela não era a mesma. As nuvens desfizeram-se e o castelo deixou de ter onde se manter de pé. Aí veio disparada das alturas, às cambalhotas, de encontro à vida. Na queda perdera a bússola. Ou deixara-a cair intencionalmente. Não se lembrava. Pela primeira vez, perdera-se. Não porque não sabia onde estava, mas porque não sabia para onde ir. Como.
Como é que se extraem vidros do coração, sem que ele pare? Sem lhe causar aquele tipo de danos permanentes que causam paralisia. Teria de ser com cuidado. Era isso. Com cuidado. Com disciplina. Colar a cabeça ao pescoço de novo e dela retirar todos os vestígios de castelos com cozinhas grandes onde se fez amor e se cometeu homicídio.
Ainda havia muito por colher no atalho que a tinha levado para longe do permitido. Sabia-o porque metia a cara entre as mãos, cheia de vergonha, por ter querido baralhar-se tanto. Vergonha por ter mingado.Por um tempo tivera quinze anos, usara duas tranças e andara num campo de trigo dourado de mãos dadas a um sonho a falar de pertencer. Também houvera borboletas. Afinal qualquer ilusão só é capaz de iludir te houver borboletas…Tivera muitas, a fazer-lhe cócegas nos princípios, nas metas e na personalidade.
Que ano cheio de tudo. Perto do fim e das suas habituais avaliações, agarrou o Destino e perguntou-lhe com alguma dor “Ainda estás a meu favor?”
A resposta tardou. Gostava de pensar que não por abandono ou desinteresse de quem a estivesse a Ouvir, mas antes por falta de espaço na agenda cósmica do seu Guardião. Em tempos de tão grandes transformações em tantas vidas, há que esperar a vez do que eclode antes de nós, para e por nós. Também. Ela eclodiria depois, para e por si, para e por alguém. Era assim que era desde a primeira insatisfação de Deus.

Não podia deixar de rir de si mesma. Apesar de tudo, como uma chamazinha numa noite chuvosa e fria de Inverno, o resquício da infantilidade que lhe fazia tranças e a levava para campos de trigo dourado, recusava-se a desistir e a tornar-se adulto. Que assim fosse para que ela não se esquecesse de quem Era. Apesar de tudo.

"Os sonhos são cenouras" -concluiu. Os sonhos são cenouras penduradas à frente do nariz e que nos fazem andar, continuar, optar, enganar e fazer tudo outra vez. Os sonhos são cenouras que não se trincam, mantêm-nos a fome.E a criança que não quer crescer.
Há destas fomes, como a que sinto, que são como castelos nas nuvens – só nossos. Cuidado por isso com os sonhos, com certas fomes e todos os castelos.


IdoMind
About… 2013 

dezembro 03, 2012

Respirar



Achas que se pudesse, não parava? Parava. Descalçava os sapatos, atirava-os ao ar e corria a saltar-te para o colo. Depois fechava os olhos para te poder ver e autorizava-te a dar-me beijinhos na alma até que a última lágrima caísse e o último corte se fechasse. Pedia-te para ficares. Que esquecesses tudo o que julgas que sabes e que viesses comigo aprender de novo a encher a taça. Despia-me para que me visses sem mangas onde esconder truques, nem véus a abrandar a minha verdadeira vontade. Era assim, com o corpo à mostra, que te perguntaria se querias ir até ali, à beira de nós, tocar o precipício ou agarrar uma escada. Se eu pudesse, parava.

Tu e eu, intrepidamente Vivos, a pulsar no dorso do nosso destino. Já imaginaste? Desafiava-te a não ter medo de nada além da mentira em que te aninhas para desviares as tempestades. Os dois, a rodopiar, centrifugados num tornado de luz a espremer-nos do que nos apaga o brilho.Tu e eu num único raio, um só Sol. Já imaginaste?

Se eu pudesse parar, dava-te tudo.Tudo!Dava-me.Nunca mais precisava de usar palavras. Nem tu. Só lá fora, quando chamassem por nós para mostrar como tínhamos feito. E nós viríamos. Tu e eu, numa voz a falar sobre o que tem de ser e do tempo que não corre enquanto as pessoas não param. Para respirar. Para recuperar, se por acaso ou por fraqueza andaram a gastar-se para lá da medida que distingue a honra do martírio. Se eu pudesse, parava para te contar uma história... E talvez continuássemos outra a partir dali. Uma daquelas que não têm fim. Sem foram felizes para sempre porque nós fomos e somos felizes desde sempre. Desde o princípio de que nos desprendemos para descobrirmos um novo regresso. Os dois, a romper o céu, as estrelas, as tripas da Criação, o caminho todo até chegarmos e nos largarmos outra vez à procura um do outro. 

Se eu pudesse parar, gritava por ti.Gritava tanto!Muito alto, para que me ouvisses onde quer que estivesses e viesses depressa socorrer-me do vazio que vicia. Entravas em mim, devagarinho, para não magoar mais e suavizavas as saudades soprando-me nos lábios "cheguei meu amor..." Ajeitavas-te cá dentro com carinho até que eu deixasse de me lembrar que um dia tive frio.
Eu nunca gritei. Mas se pudesse parar, o meu grito teria o teu nome. Sarada da mudez podia mostrar-te que do avesso sou frágil. Apresentava-te aos fantasmas que me impedem de dormir como toda a gente dorme. Entregava-te o meu coração para que lhe sentisses o ritmo e a canção suave que entoa ao contar como ficou tão pesado.E porque continua a bater.
Já me fizeste querer parar para me emprestar a ti e abrir-te o que encontrasses trancado. Ir, sem pensar, onde me quisesses levar para vencer o que me assusta. E que parece que sabes o que é, mesmo que não saibas. Eu não sei.Tenho este andar solitário, infatigável, que repousa apenas quando todos desistiram de o seguir. Venho com um gosto por cavernas.

Se eu pudesse parar-me, parava. Travava-me de imediato de ser Eu para que nós fossemos possível. Mas eu não posso parar. Corro o risco de morrer e agora não posso. Nem parar, nem morrer. Nem matar...
Todos os beijinhos que me deres hoje vão chamar-me de egoísta. Eu parada e tu aos beijos. Já imaginaste? Eu, ao teu colo, descalça e parada a receber do que ando esquecida. Tu, a segurar-me com cuidado para chegarmos os dois inteiros a Casa. Equilibrados...Como esperas voar com duas cargas?

Se eu pudesse parar, aliviava-me.
Diluía-me em ti cheia de leveza e numa dança éramos uma estrada outra vez.
Já imaginaste? Conseguirmos. De vez...

IdoMind
about  trying

novembro 21, 2012

Nuns e noutros, nós




Na linha estreita onde a vida simplesmente lhe ia acontecendo, sapateava, há cerca de uma semana, a indecisão entre aceitar e prosseguir, pacificada com a consciência treinada para o bem, ou dar-se ao luxo de pela primeira vez odiar. Não lhe apetecia compreender mais. Apetecia-lhe ter nojo. Deixar-se tomar por todas as emoções equivalentes em força àquelas que o amor produz, mas brotadas do mais profundo desprezo por alguém. Estava com vontade de trocar de equipa para experimentar jogar do lado dos adversários. Dos maus. Dos egoístas. Dos que não se importam. Dos que não se desviam para evitar o choque mas antes cerram as mãos, rangem os dentes e endireitam o peito diante do embate. Que derrubam. Tudo e todos para poderem passar. No fundo, apetecia-lhe ser livre…
Amarrotar e deitar fora uma educação inteira, completamente estéril;  a herança moral que no fim das contas não levava ao céu, nem a nenhum outro lado; o aprendizado social, que tirados os enfeites e eufemismos, a fez apenas cínica. Estava com vontade de meter a Fé num saco, como se faz aos animais nas férias, e abandoná-la num baldio qualquer.
Não lhe apetecia nada, mas mesmo nada, perdoar. Aliás, nunca acreditara no perdão até aquela visita inesperada do passado, que sacudido da terra que ela lhe tido deitado em cima, lhe tocou à campainha pedindo-lhe que lhe abrisse a porta e o convidasse para um chá, como se vinte e dois anos tivessem sido ontem, vinte e quatro horas e não vinte e dois anos. Uma vida. A vida toda da filha que o mesmo passado escolhera ignorar e deixar para trás porque não estava pronto para uma responsabilidade tão grande. Como ela estivesse!
Quem está? Quem é que está pronto para gerar um ser humano e depois assumir o compromisso da sua sobrevivência? Ninguém está. Nunca. Vai-se estando. Vai-se ficando.A cada choro que se vai conhecendo. A cada corrida para o hospital ou para o armário dos medicamentos. A cada pequena habilidade. À esperança da vitória. Às várias derrotas. A cada sacrifico que se faz a sorrir porque o amor é uma espécie de Jesus a transformar água em vinho e a fazer das provas duras, uma festa no nosso coração. 
Este é o milagre do amor – transforma-nos.Torna-nos prontos para sermos outros. 
Evidentemente melhores, porque o Amor não combina com mediocridade.

A filha, incapaz de aprender, tinha-lhe ensinado esta extraordinária lição.
A Maria tinha nascido com uma paralisia cerebral que afectava as suas capacidades motoras e cognitivas. A Maria não andava nem controlava os movimentos dos membros superiores. A Maria não falava e o grave atraso mental impedia-a de aprender, reter, reconhecer ou de qualquer outro acto de natureza intelectual. Maria era um mistério.
O pai não conseguiu aguentar a notícia e menos ainda abraçar a abnegação que criar esta filha implicaria. Partiu por isso. 
Ficaram a Helena e a Maria a arranjar maneira de não morrerem, uma de desespero e a outra da doença. Conseguiram. Ambas. Juntas.
Por muito que se esforçasse e ainda que procurasse usar o mais rico dos vocabulários, Helena não seria jamais capaz de explicar que foi uma honra e não um horror ter tido e criado a filha.
Esta criança, sem nada para dar e sem saber sequer o que é retribuir, enchera de significado a existência da mãe, que tratava o Amor por tu sem que este algum dia lhe tivesse dirigido a palavra. 
Helena nunca ouvira um "obrigado", "por favor"," vá láááá", "és a melhor mãe do mundo" ou "adoro-te mãezinha" mas não conseguia sequer adormecer antes de dizer a Maria "Amo-te tanto, filha. És o meu coração." 
E era mesmo...
Duas vidas fundiram-se e fizeram-se apenas Uma. E se isto não é Amor, então o Amor não existe.

Agora, madura e Mulher (com letra muito grande) conseguia confessar sem remorsos que é claro que teve dias em que pensou em desistir. Entregar a filha a uma instituição qualquer ou terminar de forma dramática com o drama das duas. Sim. Teve dias pesados. Dias insuportáveis que nem mesmo ela sabe como suportou. E que superou.
Afinal ela tinha apenas vinte anos quando deixou de ter futuro. Pelo menos aquele tipo de futuro que aos vinte anos se tem. Deixou de ter um futuro e passou a ter dois presentes.
Também não estava pronta para tamanha responsabilidade, mas teve de ficar. Teve de crescer. Teve de lidar com a ignorância, com a carência de meios e de tudo o resto. Teve de fazer amizade com a solidão porque ser sua inimiga teria sido heróico e ela precisava de todos os poderes para cuidar da Maria. Não tinha uma gota de força para desperdiçar com sentimentos pequenos, problemas pequenos ou pessoas minúsculas.
Devia à filha todas as escolhas saudáveis que a levaram a ter os dois amigos de confiança, tempos livres ocupados com voluntariado, porque os nossos problemas não são sempre os maiores do mundo mesmo que pareçam, e uma alma agradecida pelos ensinamentos que mil vidas não seriam suficientes para ensinar.

Um dia talvez se sentasse com tempo e reduzisse a escrito o vasto menu de episódios que ser mãe de uma criança como a Maria lhe havia proporcionado, bem como as incontáveis e valiosíssimas demonstrações do mais básico funcionamento da natureza humana. 
Por exemplo, Helena representava um teste muito difícil para os homens que se haviam aproximado dela. Era indisfarçável o desconforto deles quando lhes apresentava a Maria. Ela podia ser perfeita, aquilo que esperaram anos e anos a fio, exactamente, sem tirar nem pôr, a mulher da vida deles, mas tinha uma filha deficiente... Sem contar, viam-se assim de repente enredados num dilema moral que os confrontava com uma verdade ou duas sobre aquilo que pensavam de si mesmos. Acabavam, sem surpresa, por desaparecer.
Depois havia quem, pretensamente solidário, gostava de se comparar com ela, confidenciando-lhe que também eram obrigados a abdicar da sua felicidade pela felicidade dos seus filhos. Contavam-lhe tudo de como sofriam e de como toleravam esta ou aquela situação em nome do bem das crianças, concluindo que esse sofrimento necessário, algo apaziguador, constituía a maior de prova de amor de qualquer bom pai ou boa mãe. Aqui, e sem sequer responder, era ela quem desaparecia. Na linha das escolhas saudáveis, havia discursos que evitava.
Havia porém algo que lhe doía um pouco,o pânico das outras mães. Podia ler-lhes o pensamento nos olhos repletos de comiseração quando Helena passava com a Maria na cadeira-de-rodas - "Coitada..." 
A isto ainda não conseguia ser indiferente.

Se eles soubessem… Meu Deus, se eles soubessem que somos todos anjos capazes de tornar água em vinho e cada provação numa bênção, nunca mais seriam infelizes. 
Parariam de se prejudicar uns aos outros porque estariam ocupados a fazer bem a si mesmos.Nunca mais precisariam de ouvir ou de receber nada em troca da bondade. Deixariam se sentir pena e dariam apoio.
Se eles soubessem que a paz está ao alcance de um ponto de vista…
A filha continuava a ensiná-la. A sua divida de gratidão aumentava ao segundo e nem que fosse só por estes momentos de lucidez meio divina, já tinha compensado ter deixado de ter futuro aos vinte anos.
Ela não tinha a nada a perdoar ao pai da Maria. O único mal que ele algum dia fez foi a si próprio quando virou as costas a um Amor Incondicional que talvez em mil vidas não volte a encontrar…
Nem volte a ter a oportunidade de sentir.

- Entra. A Maria está no quarto e eu estou feliz por te ver - disse, com sinceridade, enquanto lhe abria a porta da casa onde só havia espaço para sentimentos grandes, almas a aprender e anjos.

IdoMind
About True Love

novembro 13, 2012

13 da Sorte

Sob o Sol Escondido e a Lua Transparente, o Recomeço manifesta-se.



Pela mão de Escorpião nos levará a limpar a alma, no mesmo poço em que tentamos afogá-la.
Lavados e nus, entregar-nos-à diante da porta que espera para ser aberta.
E corajosamente transposta.
Não há que temer o que a terra deixará ou não de nos dar, mas sim o que vamos receber se nos negarmos ao Renascimento.


Eu permito-te que me desamarres de todas as correntes espetadas a consequências terríveis, ou só incómodas, a que me agarro para ficar sentada.
Eu permito-te que me partas o cimento com beijos nos pés, ainda que ferozes, para me libertares do medo de descobrir ao que sabe a vida.
Eu permito-te que me salves de não cumprir o meu Destino.
Eu aceito o teu Baptismo e o nome novo, no caminho renovado, que tens para mim.
Eu aceito este Recomeçar.

IdoMind
about serious stuff, like real happiness

novembro 06, 2012

Antes de ir




Por três semanas não me compreenderás. Falarei, no entanto, não ouvirás o que estou a dizer-te mas sim o que já foi dito. Ainda que vista as palavras com roupas novas, para ti estarão a usar os trajes de sempre e perderás de vista a mudança que tento, mas não consigo, mostrar-te.
A culpa não é tua. Viemos mesmo assim. Parte esperança, parte memória. Uma manda acreditar e a outra aprender. Ao meio estamos nós com um corpo para proteger. Uma vida. Achamos nós. Pergunto-me se ainda é vida o que se faz todos os dias sem amor. O que “tem de ser” ou “que é melhor assim”. Ainda é vida quando não dá vida…?
Mas eu questiono muito. Também tenho uma vida para viver e foi-se tornando importante saber se é a minha. Ou não.
Por três semanas me calarei. Vou ver se me oiço ou o que me falará na pausa do ruído. É nesse silêncio habitado que estão as direcções da minha alma. É lá que ela fala de como me estou a sair e do que é preciso largar para que vida deixe de ter peso para ganhar significado. Tenho de me encontrar com ela para perceber se estou a aprender acreditando ou a acreditar sem aprender nada.

Ontem perguntaste-me como é que sabemos se estamos a cumprir o nosso Projecto. Se estamos onde devemos estar. Onde pertencemos… Não fui capaz de te responder porque ando exausta das últimas lições e a tua pergunta acordou-me lembranças. Penosas. Tu percebeste. Obrigado pelo abraço... E pelo silêncio que se seguiu. Obrigado por leres tão bem todos os meus espaços em branco e os deixares assim, intactos. És o único que não me julga a mudez. Nem me julgou o sonho.

Queres saber como eu sei se estou onde devo? No sossego do meu coração…
Eu oiço-o melhor à noite. O prédio pára, como se fosse tudo para a cama mais cedo, para eu ir ter comigo àquele sítio onde me dispo e me olho sem vergonha de admitir que sou mulher. Que preciso de coisas. Que colecciono cá dentro mágoas e medos e razões à porrada, na água, com o amor. Ele precisa tanto de Parceiro nesta luta desigual,cobarde e tem-lhe faltado o meu ombro. Deixo-o sempre a lutar sozinho e ponho-me do lado dos monstros porque sou boa aluna e não gosto de chorar.
E é assim que sei se estou onde devo. Se fui até ao fim e se dei tudo de mim, assim, só por Amor. Se no meio das saudades ou da dor ou da incompreensão, ouvir a paz dizer-me baixinho que fiz a minha parte. Se falei toda a Verdade e sem sujidade disse o que sentia. O que queria. Se desconhecendo o futuro o arrisquei escolhendo o presente, que em nome da minha felicidade, me levava para mais perto dela. Sei que estou onde devo se não houver mais nada que dependa de mim fazer para estar onde desejo. Como e com quem Amo. A viver a vida que me dá mais Vida.
Sabes se estás onde deves quando na ausência do mundo ficas onde estás. E ficas bem. Cuidado se vais para longe quando tudo está quieto e no intervalo dos barulhos segues a voz que te leva para onde o teu coração repousa. E bate mais forte. Bate...Eu sei que estou onde devo se não sinto o que é a falta...

É para isto que preciso de me calar. Não sei se estou onde devo. Ainda não sei bem de onde acabei de vir. O que foi aquilo e quem fui eu no tempo em que lá estive. O que sobrou…e o que isso significa. Para que não me pese. Nem me torne pior…
Estarei calada mas estarei aqui. Tu sabes. Se por acaso vieres, não te tragas. Deixa o homem em casa e traz apenas a Essência. Quem te achas ser não me compreenderá mas quem tu És vai voltar a abraçar-me. E a silenciar-se porque me ouvirá a ser rígida comigo negando-me o perdão pelo desvio que me fez perder por onde não sei se devia ter ido.Ou se de lá sairei algum dia.

Não me leias nas linhas nem em nenhum sinal enquanto descubro se estou onde devo.
E se há onde eu pertença.
Por três semanas, confia que estou ao lado do Amor a vencer os meus monstros.

IdoMind

About weird, dangerous dances in the sky  

outubro 26, 2012

O Guia


As suas primeiras palavras eram invariavelmente pedidos de desculpa quando ali ia daquela maneira.  "Desculpa! Desculpa! Desculpa!" dito a valer, com os olhos quase a tocar a nuca de tão cerrados que os punha. Pesados. Com a culpa pelas distâncias que achava que percorria sozinha e desligada. Para bem longe de todos e para muito longe de si. 
Havia dias, convertidos em meses, em que não queria saber se era infinita ou se tinha um prazo improrrogável a pender-lhe na consciência e a mandá-la viver em condições. Com juízo. Com respeito. Sempre. Em toda A Parte. Mas que não se esquecesse da audácia que chuta os pernas para a fronteira entre os abismos e o aprender a voar. Guardara sempre um ou dois quilómetros confortáveis entre o agora e o abismo. Ela não sabia se voava.
Que vergonha. Uma mulher feita que não sabia voar. 
Estava-lhe a dar para se contrariar com a vida e o seu despropósito. Estava a dar-lhe forte nestes dias convertidos em meses. De tal ordem que chegou a desejar que não existisse nenhum Além, além dela, para que ela existisse como quisesse. Sem se policiar. Nem sentenciar. Sem se interessar por ouvir a voz dos céus nas pequenas geometrias com caras e relógios que lhe iam indicando se as suas vontades eram coincidentes no passo que ela estava prestes a dar. Nunca ia a lado nenhum sem atenção. Foi por isso que só aprendeu a andar.
Belo lugar para o qual havia sido conduzida pelas suas convicções. Quem lhe dera ser livre do espírito. Poder terminar o namoro com a alma para ficar a viver apenas com a inteligência. Davam-se tão bem.
Sim. De tão cansada, estava especialmente parva. Reconheci-o naquele momento sem norte ou qualquer outra direcção que lhe desse um encontrão no ombro gritando "Na minha luta está a minha Glória. Agradeço-te Senhor por me mandares a guerra e me dares a Espada" como gritavam os guerreiros antigos doando o corpo ao Fado, sempre de pé.
A dúvida levou à crise que levou à pobreza que a levou a ela. Estava tudo em questão, susceptível de ser discutido, revogado, substituído ou mantido depois de reforçado. Sincera e brutalmente validado. O que ficaria depois desta Entrega?


Vivera iludida na escolha que na verdade nunca teve. O alcatrão é afinal feito de água e escorre obediente a desaguar-se pelo curso invisível que conhece desde o Princípio de tudo. Indiferente às represas levantadas pela vontade medricas de manter os pés secos.
Vira muitas casas firmemente casadas com o chão, a estremecer com a corrente. Caíram inteiras e nem os dedos de todas as mãos bastaram para suster o choro jorrado pelas paredes. As fundações afundaram-se. O solo rijo tornou-se mole e fez-se barro. Ou lama. Uma vontade alagada nem sempre consegue distinguir o que é aquilo que fica depois da catástrofe. São os escombros a esconder as margens lavadas e prontas para de novo se moldar o dali para a frente.
Por isso não se escolhe, aceita-se o Desafio sem saber como e quando e em quem acaba.
Há três catástrofes atrás, lembrava-se de ter falado consigo para que da próxima não se esquecesse de pedir que lhe ligassem as luzes da Estrada para ver melhor o estado do piso. Detectar obstáculos. Para destapar os acessos e as saídas e os lugares a que iam dar. Mas o tempo acontece. As decisões sobre o que fazer para jantar e o melhor seguro de saúde atravessam-se, atirando o lembrete sobre a Iluminação que em tudo é essencial, para último lugar da pilha na sua secretária mental.
Via-se sem nada para dizer excepto “Desculpa... Desculpa... Desculpa...”.
Mordera o berro do guerreiro e negou-se à luta. E com isso à Glória.
Acreditou-se autónoma. O medo havia-a tornado arrogante. Convenceu-se que tinha um autocarro por sua conta e não viu que ia lotado. As paragens em que não saiu, e cujo sentido lhe escapou, foram importantes para alguém. Houve um homem, houve uma mulher, houve um homem com uma mulher, houve uma criança, várias, com o pai, com a mãe, só com a avó, houve quem precisasse de abandonar aquele destino. Ou descansar por um bocado. Andar a pé...Esperar que a Estrada recebesse Luz para ver por onde ir. 
Na dela brilhava um holofote e a seguir às desculpas houve um agradecimento.Tão sentido. 
Havia uma paragem na qual muitos passageiros se juntaram para lhe traçar um novo rumo.Grata, redigiu com a mão direita outro lembrete a dizer " Confia."

IdoMind
about sudden and quite disturbing movements of the earth around Ericeira

outubro 23, 2012

Valeu a pena?



Pressinto-te o inferno no sangue. Outra vez. Sinto-te infectado na força e na fé. Não, não é essa fé. Essa que faz olhar para cima é a minha. A tua é outra e faz-te olhar para a frente. Está na certeza que não confessas e que só para seres pior contigo não admites, de que estás destinado a outra coisa. A outra vida porque na que vives já lá não estás. Se é que algum dia por lá andaste.
Hoje sou a voz na tua cabeça à solta num Jardim. O nosso. Hoje sou a música de fundo que te pergunta o que viste quando o oceano conheceu o céu. E te fala do que perdeste.
Hoje sou tu na versão generosa consigo mesma a dizer-te: tu não és um erro.
Errados estiveram o que te fizeram sentir assim e que sem levantar a cabeça para te ver, te tornaram invisível. Agora, inalcançável...
Foste-te retirando até deixares de aparecer. Mas meu amor, tu nunca estiveste a mais. O que tiveste foi a menos do pouco que já pedias. Até que te calaste de todo. Até hoje.
Onde estás tu? Onde posso encontrar o homem com as entranhas que falam? Onde está o meu igual? O que entende mesmo o que eu não digo e adivinha-me as montanhas para lá da rua plana, na vida lisa que aparentemente habito. 
Para onde levaste a tua lua a chorar? 
Tu não tens de esconder a noite, que em ti é tão estrelada. 
Onde sufocas tu a tua própria luz? Dói muito?
Sai daí. Podes parar de ter medo de nós. Não permitas que te assustemos ao ponto de andares fugido de ti. Somos nós que te tememos. Julgas que não ouvimos o ladrar feroz da tua diferença astutamente domesticada? Ouve-se. Ouve-se ao longe a promessa de guerra e de morte antes que os teus joelhos encontrem o chão e os teus olhos se curvem sobre os  sapatos de alguém. Dizes isto tudo sem pronunciar um som. Isso assusta. Ao ponto de fugirmos de ti.
Perdoa. 
Todas as portas violentas, polidas, com licença ou sem ela, que te fecharam na cara. 
Todos os afectos que te negaram só para ver se a tua pele também rasgava. 
Perdoa o veneno que ainda te escorre pela estima própria abaixo. 
A ignorância… 
Se fores capaz, perdoa também a maldade. Ainda acredito que se apanha por aí entre um pontapé e uma desilusão. Ensinada e não gerada. Ainda acredito que não há gente má, apenas pessoas mal-amadas.
Deixa partir as almas verdes, imaturas ou podres e deixa-as levar os seus ovos.
Não apanhes maldade por aí, entre um ressentimento e um assunto mal resolvido.
Há sítios onde nos aleijam a que só nós chegamos. Nesses albergues das feridas que viram chagas, para curá-las é preciso querer entrar, sentar e ter aquela conversa connosco. A que deixámos para depois de culpar os outros. De os responsabilizar pelos actos que consentimos e outros tantos que solicitamos, no silêncio cobarde de lutarmos por nós a inventar de sermos felizes. 
O inimigo não se esconde nas fraquezas que quem também ainda está a arrepiar caminho. Com tanto custo. Como nós. Só que com outro corpo. Com nódoas negras à mostra e outras tapadas. Como as nossas. 
Pára por isso de os perseguir na incompreensão,  na ausência de calor, na ingratidão ou na miséria interior que te são impossíveis de alterar. Sequer de entender enquanto não souberes quem és. O que queres…
Cuida de ti. Estarás a cuidar de todos.
Trata-te, memória a memória, com as mãos ungidas de carinho pela pessoa maravilhosa que és. 
Acredita em ti se não quiseres acreditar em mais nada. Por favor, ajuda-te.
Se permitires, noutros sítios podem aplicar-se outros curativos. 
Abraços apertados. Amigos que aparecem. Amo-tes…
Esperança.
Eu espero que consigas.
Eu espero que venças.
Eu espero por ti.

IdoMind
about my best friend in the world, you.

outubro 05, 2012

Histórias de Piqueniques




De braços cruzados, olhava do passeio o reboque a raptar-lhe o carro. Nada a fazer. Nem aquele pestanejar meloso que sempre quisera experimentar, surtiu algum efeito e foram-lhe negados os dias que implorou para resolver a situação
Este é o início do que seria uma história simples sobre uma mulher complicada. Mas complicou-se. Parece que isso acontece muito quando as mulheres se envolvem nas histórias. Um dia têm de aprender a passar pelos campos sem estender logo a toalha para fazer um piquenique. Naquele sítio onde a relva parece mais verde. É aqui que se complica. Se calha de ser bom, no dia a seguir a mulher traz mais comida. Perde horas atrás do fogão. Dá-lhe para cantar e  põe todo o amor na mais humilde das tartes. A toalha já não é uma qualquer. Tem de ser aquela! A bonita que a tia que mora no estrangeiro lhe deu quando fez dezasseis anos. A irmã diz-lhe que é mal- empregada. A amiga pergunta-lhe se não está a ir depressa. Quer lá ela saber? A partir daquele momento, dividir sonhos, mesmo que a comer sentada no chão, deixou de ser um mero piquenique e tornou-se o princípio de uma história.

Que podia ser simples. Mas as mulheres não sabem fazer piqueniques…

Esta é a história da Martinha, uma mulher que saltou a fase da toalha e passou directamente para a mesa de jantar no 2.º andar esquerdo da sua parcela de ilusão. Acreditou e abriu todas as portas à frescura da esperança de, agora é que era, ter acertado na parte que lhe faltava.
Estendeu, feliz, a sua vida naquele pedaço de relva que nem sequer era muito verde. Não era definitivamente a mais verde. Mas acontece de facto qualquer coisa aos olhos das pessoas quando se apaixonam porque vêm o invisível e não enxergam o evidente. As cores também se baralham um pouco e os tons tornam-se meio indefinidos. Para Marta era verde alface. O resto do mundo jurava que era amarelo desfalecido. Todavia, sabido que é, que com maior ou menor gravidade, intensidade e duração já todos padeceram deste mal oftalmológico, ninguém contestou o que Marta via naquela espécie de homem.

Lamentável, mas não surpreendentemente, o sonho começou a perder cor. E o homem a revelar que não tinha nenhuma. Pelo menos, não tinha UMA cor  Tinha muitas, todas desmaiadas. Não havia nele um tom mais forte, que sobressaísse. Que no fundo, o definisse. Ser incolor não seria problema se a falta de vértebra não enfraquecesse,  com a lentidão mortífera de tão lenta, o que precisa de dois pares de mãos para sobreviver. Havia  dois pares de mãos naquela casa mas cada um a empurrar o seu lado da parede. 
E se há dias em que se acorda com a determinação imatura de fazer com que tudo volte a ser como era antes, ao tempo do “para sempre” sem ponto de interrogação, na maioria dos dias o mundo anda de caneta a jeito para corrigir e pontuar devidamente as nossas certezas... Às vezes Marta acreditava que aquele amor todo não podia ter acabado. De todas as vezes que olhava para ele, sabia que sim. Sabia igualmente o que tinha de ser feito. Seria simples. Mas esta é a história de uma mulher complicada. Marta era responsável pela felicidade de toda a gente no planeta e estava proibida de causar tristeza a quem quer que fosse. Muito menos aceitável seria contribuir para a infelicidade dos que lhe eram mais próximos. 
Não podia simplesmente abandonar aquela pessoa. Marta não abandonava. Fora ela quem trouxera a toalha e seria indelicado da sua parte levantar os pratos e ir embora, decidindo por isso ficar a colorir o desenho que só ela via.

Decorreram dois anos. Não aprendeu a refazer desenhos e não conseguiu pintar um sorriso sequer. Mas começou a ver melhor e aprendeu português. Descobriu que cobarde não quer dizer vitima. Nem alguém com azar. Que frieza não é um sinónimo de timidez, nem insensibilidade outro nome para distracção. Marta aprendeu também que o egoísmo é diferente de coragem e que trauma não pode ser usado em vez de estupidez.
Demorou muito a saber distinguir os verbos encobrir e proteger... 
Abandonou. Quando aprendeu que abandonar significava Crescer. Só quem é muito grande consegue perceber a diferença entre largar e temer perder. Largou. Deixou a toalha como estava e foi a chorar fazer o luto de um sonho.

Ainda mal havia desempacotado os restos de uma vida velha na sua casa nova e já o seu  altruísmo lhe estava a valer o carro. Parece que há contas que se pagam em prestações e aquela relação era uma dessas.
Lembrou-se que tinha de juntar bondade ao seu dicionário e fazer corresponder este substantivo à compreensão de si mesma, para que o acto de ser generosa não voltasse a ser confundido com falta de amor próprio.

Sentia-se adulta e esperta. Capaz de tomar conta de si. Com muita competência. Não havia revolta nem abrigava no coração sentimentos menores, apenas uma imensa lucidez quanto às regras mais ou menos mágicas que mantinham a vida a circular. As coisas a acontecer-LHE. Levando e trazendo. Oferecendo e tirando. Mostrando e recompensando.
A percepção destes movimentos tornava menos violento acompanhá-los.
Estaria mais atenta, sobretudo quando estivesse mais triste. Anotaria as desilusões, as preocupações e o que a irritava. Manteria um registo do que não lhe havia agrado, quer nas coisas, quer nos outros. 
Depois, à noitinha, com as emoções a descansar, tentaria destapar-se para se ver mãe daqueles filhos e os  lábios na origem daqueles ecos.  

Questionou se voltaria a cometer os mesmos lapsos linguísticos.
É que esperava voltar a sofrer da vista mas gostava de aprender palavras novas…

IdoMind

About …let me see...

setembro 28, 2012

Entrecortes



As árvores pararam de conversar e fecharam os galhos aos pássaros, que naquele fim de tarde tiveram de procurar outro sítio onde passar a noite. Uma dor forte no coração obrigou-a a procurar a cadeira mais próxima, conforme a luz lhe fugiu dos olhos empurrando-a para a negridão agoirenta que conhecia tão bem. Desejou com toda a força estar enganada desta vez. Só desta. Faria como o resto das mulheres e passaria a ir à missa. Todos os dias. Entregaria tudo quanto possuía à Igreja, aos pobres, a alguém, se isso contentasse Deus e O demovesse de lhe roubar o único bem de que precisava. Odiou Deus por nunca desistir dela.
O rio descalçou-se para passar sem fazer barulho. O sol despediu-se em silêncio levando o último raio numa carícia amiga pelo seu rosto. Tudo estava tragicamente imóvel e ela soube que ele partira. De novo.
Adeus aos abraços de até logo e de bem-vindo, dados com a mesma alegria à porta de casa. Adeus ao cheirinho a floresta no pescoço do seu homem e à maciez das mãos fortes que a mantinham onde era o seu lugar. Adeus às flores selvagens colhidas com respeito, para oferenda à vida simples, suficiente e abençoada que encontraram juntos. Adeus.
- Ate já meu amor – disse pela manhã, num murmúrio vencido, olhando as mesmas árvores caladas, o mesmo rio descalço e o mesmo sol mudo. Levantou-se e desapareceu no interior, muito escuro, da casa.

Andou o resto do dia angustiada e nem o livro dos sonhos que mantinha sempre perto da cabeceira, acordara simpático, negando-lhe a pista que geralmente lhe concedia sobre as viagens estranhas que fazia enquanto dormia. Procurou desligar o botão que mantinha as imagens nítidas daquela espécie de pesadelo, a passar-lhe na cabeça. Todavia sem sucesso. Se tivesse talento, conseguiria desenhar com detalhe a cabana e as montanhas altas que se deixavam avistar da entrada, do quarto do casal e da divisão onde ela se entregava à preparação de umas misturas procuradas pelas gentes da cidade. Eram as únicas visitas que recebiam. Ocasionalmente alguém subia a ladeira íngreme para falar com ela e pedir-lhe um dos seus preparados. Também conseguiria desenhar os frascos. Com uma precisão perturbadora. Podia fazer um quadro das mãos dele… Que bizarro.

"Acorda!"ordenou-se. Procurou articular factos num requerimento e dar-lhe uma moldura jurídica a combinar, porque era para isso que lhe pagavam. Tinha trabalho para fazer e tinha também vindo a aprender que sonhar é um luxo reservado a um punhado de eleitos. De protegidos. Ela não era uma eleita. E a sua protecção partira num fim de tarde deixando-a partida ao meio. Ela era só alguém com um trabalho para fazer. Concreto. Real. Impresso em papel. É quando a imaginação supera a realidade que viver começa a tornar-se incomportável. Experimentara recentemente a diferença entre acreditar e o delírio e fixou-se de imediato no monitor onde a versão de um acidente esperava para ser contada.
Foi assim, com a tenacidade característica, que procurou ensurdecer-se àquilo que nitidamente queria fazer-se ouvir naquele dia. E que dia! O livro dos sonhos mal-humorado, o céu com um ataque de teimosia e ela cheia de medo sabia lá de quê. Tinha um peso nos ombros.  

“Muito antes de os padres terem sido inventados e de as leis terem condenado o amor a viver com elas dentro do mesmo livro, nós já éramos um só sacramento. Foi o que te quis mostrar ontem, porque te sinto mesmo quando dormes. Sei que está a ser difícil. Falhei-te. Eu sei da pedra e sei da praga.”

Aquele pensamento que lhe falou para lá da carne, despoletou uma injecção impiedosa dos últimos sete anos da sua vida. A dose circulava-lhe descontrolada nas veias inibindo-a de racionalizar. Percebia agora que tinha os ombros pesados porque tinha as costas carregadas. De lixo. De pontas soltas. De rendições.  Nunca se fez uma limpeza lá atrás e as costas não tinham nem espaço, nem força para mais carga. Seria impossível continuar sem tirar aquilo tudo dali.
Era preciso arranjar onde arrumar a felicidade, caso, por um acaso, a encontrasse por aí à sua procura.

A pressa do mundo não era um refúgio, mas sim um esconderijo. Tinha andado escondida na marcha de passos acertados numa direcção comum e a um ritmo coincidente. Que descanso não andar desgarrada e saber que havia cães ao longo do caminho. Chegar a casa todos os dias ilesa do ataque de alguma mudança maluca ou muito cara. 
Mas alguma coisa mudara. Deixara de conseguir fazer de conta que não era nada aquele vazio constante sobre o qual já lera centenas de descrições literárias. Era mesmo assim como se escrevia por aí, sentia uma falta. Havia uma ausência.

Para se desviar de si mesma e do embaraço destes sentimentos demasiado femininos, fingia que era apenas a vida e as suas coisas pequenas mas gordas. Pesadas. Não andava triste, estava preocupada. Havia contas com prazos limite. A saúde do pai que gradativamente se tornava mais débil. Tinha problemas para resolver e tinha descoberto uma linha enorme de cabelos brancos no topo da cabeça!

Não queria sentir nada, queria o mundo! Por favor. Disputas pelo melhor lugar na empresa ou num estacionamento. Queria o ruído da ignorância, o puto dos vizinhos que não via varandas, via balizas. A conversa inútil e neutra a circular sem sair do sítio, nem ampliar nada além da mesquinhez e o jacto de veneno. Queria o trivial dentro e fora, à volta e por cima de cada segundo da sua vida apenas para que não houvesse a menor abertura por onde pudessem entrar... as saudades.
Viu-se de novo, largada e esquecida, numa pedra à espera.

IdoMind
about ending 

setembro 19, 2012

Lótus nos Pântanos



Numa manhã clara, muito mais clara que todas as outras manhãs desse ano, enquanto  encaixava na respectiva casinha, o último botão da camisa branca de linho, a que tinha pelo menos duas histórias interessantes para contar, sentiu-se despida. Com frio até. Um arrepio invasivo apalpou-lhe a pele e foi como se tivesse deixado de estar sozinha. Havia mais alguém ali. O espelho mostrava a mulher composta do costume, pronta para colocar o pé fora da porta e, sem embaraços, enfrentar a avalanche de reuniões, telefonemas e aquele almoço para cujo adiamento já não havia mais desculpas.Porém, nessa manhã clara, nasceram olhos ao espelho e diante de si viu-se morta.

Recuou um passo. Não se assustou, assombrou-se…Tinha falecido sem perceber.

Por baixo da roupa a condizer, dos adereços que lhe conferiam o toque de distinção e do aspecto sempre cuidado, jazia uma defunta já sem cor a implorar o enterro. O descanso merecido. Cumprira com mérito a sua função e gostaria de partir com a dignidade de não andar arrastada e a deitar cheiro.
Ao contrário do que acontecera noutras manhãs, que não tiveram a claridade daquela, não passou o lip-gloss rápido e foi embora. Não. Ficou. Para onde iria naquele estado? Será que alguém já havia percebido que carregava um cadáver? Com frequência somos os últimos ver o óbvio no que nos diz respeito. Porque fizera para manter a sua vida privada, muito privada, seria natural que mesmo que tivessem reparado, ninguém lhe tivesse dito que estava a cair aos bocados. A sua personalidade forte criava um círculo bem definido dos limites permitidos. E da área extensa, protegida da presença alheia, inteiramente impenetrável. Qualquer personalidade forte sofre de solidão e tem de aprender a lidar com isso. Umas tornam-se mais fortes e mais sozinhas. Outras traçam novos círculos. Outros limites. Mas nunca é simples para quem é forte vencer a sua própria força. Entregar, sem resistir, o corpo ao movimento perpétuo e invencível dos ciclos da vida. Dói tanto a metamorfose aos fortes.

Foi no limbo entre o que tem de ser e a verdade que sobreviveu. Até ter morrido. Deve ter sido de tristeza. Morrera triste e rouca. Pobre alma aos berros por socorro, refém de uma trapaceira bem-disposta e sem um único problema neste mundo. Arranjara sempre forma de colocar toda a gente no topo das suas prioridades para não ser obrigada a fazer alguma coisa por si mesma. Além de triste e rouca, partiu exausta com toda a certeza. Como conseguira chegar tão longe sem pedir ajuda...Onde fora ela buscar os mantimentos, assim sitiada em si…
Talvez os fortes sejam afinal imbecis.

Tinha andado a viver ao avesso. O que não é aceitável é ignorar as nossas necessidades mais íntimas, condenando-as à cave da nossa essência. Procurar falar com elas. Estudá-las. E depois satisfazê-las. Ou não.  Inadmissível é suster e silenciar aqueles minutos de desespero latente, inoportuno, até que caiam no esquecimento, substituídos por outras preocupações, por esta ou aquela exigência urgente e impreterível. Por um desespero renovado. Isto é que é inaceitável.
Recebera parabéns por condutas das quais tinha agora vergonha. Que vitória ter morrido sem ter desapontado ninguém. Que orgulho ter conseguido, independentemente da contrapartida, estar à altura do que esperavam de si. Pode-se sempre ruir mais tarde. Pode ficar para depois o já não aguento mais porque, com o sacrifico que redime, se aguenta mais um quilo ou dois. Toneladas, se for preciso para não expôr os nossos calcanhares enfraquecidos pelas emoções.

Se não nos dominarmos alguém o fará. A morta sabia-o. Controlava-se por isso. E controlava. Tudo quanto fosse controlável. Apesar de ambiciosa, esta tarefa era executada com relativa facilidade, uma vez que vinha equipada com a sensibilidade necessária para quase imediatamente identificar o tipo de combustível com que cada um se abastecia. Agradecia esse dom. Fizera um bom uso do mesmo levando entendimento onde a intolerância queria fazer estragos. A pouca paz na passagem para a que havia de vir no lugar daquela, residia nas raivas que aplacou com a brandura das suas palavras e o convite sempre estendido a visitar as aflições que moravam do outro lado da guerra. Tinha sido uma boa mensageira. Sem controlo teria sido impossível fazer chegar a mensagem intacta. Chegaria corrompida pela desordem das próprias fragilidades. Amassada e deturpada pelos próprios medos e inseguranças. Estas fraquezas tinham de ser controladas. O que ela conseguira com sucesso.
Que pena não ter percebido que a sua própria reserva estava com a luz vermelha acesa. A dar alarme…

Não havia nada a fazer. Morrera. Tinha de deixar ir a pessoa do espelho. Coitada. Que diabo de purgatório ser obrigada a morrer todos os dias. A perder todos os dias…E fingir que não.
Como a manhã estava muito clara, passou na mesma o lip-gloss e saiu. Foi investigar a causa da sua morte para poder começar a pensar em nascer outra vez.

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