setembro 06, 2011

Desculpa lá

Ela ainda não sabia nada acerca de renúncia e já tinha renunciado a quase tudo. Habituou-se a perder. O que até poderia ser positivo se em alguma dessas vezes tivesse equacionado a hipótese de ganhar. Se na outra ponta do arame se tivesse visto a conseguir.
Quando a conheci pensei que todos nós deveríamos andar com um espelho num bolso. Assim, a jeito de porta-chaves, sempre à mão, pronto a devolver a imagem diante dele. E no outro bolso, um livro de notas onde pudéssemos apontar o que tínhamos visto. Era capaz de se revelar interessante reler os nossos apontamentos um ano depois de os termos iniciado. O que seríamos capaz de ler e de retirar? O que encontraríamos nas entrelinhas do nosso jornal diário? A mesma pessoa de sempre? As mesmas situações de sempre com personagens diferentes? Ciclos?

Estou a desviar-me. Mas ela tem esse efeito em mim, desvia-me. Disperso-me entre as mil pessoas dentro dela, perco-me sem saber qual delas está ali comigo. Conhecia-a. Uma pessoa incapaz de dizer que não e de gritar o seu sim. Aquelas que rearranjam a sua agenda, movem para cima e para baixo a sua lista de "coisas para fazer” consoante a lista dos outros. Tão solícita a todo o tempo que as pessoas começaram a esquecer-se de lhe perguntar se pode. Pior, se quer. Acho que isso acontece quando nos esquecemos de nós, o mundo ocupa o nosso apertado metro quadrado e, sem querer, pisa-nos…Não reparam que estamos ali.
Não tenho por ela a menor empatia. Faz-me lembrar as protagonistas dos filmes de terror que eu gosto, a mulher mártir do marido ignóbil, de dia boazinha e à noite ocupada a enterrar cadáveres na cave, à frente do vizinho deficiente que mantém refém na mesma cave.
Assustam-me as pessoas que não lutam pelos seus sonhos. E assustam-me ainda mais as que não sonham. A terra faz-nos coisas esquisitas se nos mantivermos presos a ela. Até apaga a memória da nossa origem e prende-nos na ilusão de que não somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade. Ou infelicidade.

Com o tempo e o convívio fui percebendo que a disponibilidade dela não é inocente, nem desinteressada. É a sua moeda de troca. Ela permuta o seu tempo pelo afecto que de outro modo, julga ela, não teria. Faz-se amar às custas da falta de amor por si. Ainda que contrariada, ainda que cansada, ainda que desfeita por dentro depois de um dia daqueles, se lhe pedirem que passe pelo infantário para ir buscar o filho de uma amiga que tem cabeleireiro àquela hora, ela vai. Ainda que tenha conseguido, ao fim de três anos, combinar cinema com o colega de trabalho por quem nutre a mais acalorada e secreta atracção, desiste se a mãe lhe pedir para ir instalar a televisão nova que a Worten acabou de deixar lá em casa. Portanto só vive nos intervalos da vida dos outros.

Esta poderia ser só a minha percepção, alimentada pelo mau génio, ao que parece, genético, a retirar conclusões afiadas sobre o que considero fraqueza de espírito. Mas acontece que ela chorou. Calou a multidão dentro de si e permitiu-se chorar. De dor. Dói-lhe o coração. Finalmente. E as cortinas caíram. O teatro fechou por dor de coração da artista convidada.
Puxei-a para mim a rebentar de Amor por ela:
-“ Ninguém gosta de ti porque ninguém sabe quem és. Gostam da pessoa que lhes faz os favores, que está sempre pronta para ajudar, que não se exalta, que não diz “ vai tu”. Eu mesma só hoje estou a ver-te. Pela primeira vez, ao fim destes anos todos. Afinal és terráquea como eu! Juro-te que cheguei a pensar que tinhas vindo do espaço! Andava a estudar uma maneira de te ver o umbigo!”
O choro misturou-se com o riso na confirmação evidente que assim é a vida, nem muito isto, nem muito aquilo, mas uma receita onde se mistura um pouco de tudo. Daí o seu sabor agridoce...

Arrasou com a minha fantasia e explicou-me que não tem super-poderes. Que não consegue esticar o tempo, nem estar em vários lugares ao mesmo tempo. Nem sequer consegue adivinhar o que cada um quer ou busca  dela. Habituou-se a habituar os outros a precisar dela. Para isso, foi aos poucos desabituando-se de si mesma. Diluiu-se na corrente. A gota deixou de se ver maré.
Indagou-me sobre o motivo dessa necessidade de agradar a todos, da incapacidade de negar um pedido, do medo de ofender alguém se o fizesse. Não lhe soube responder porque não sei que pão ela já comeu. Certas respostas escondem certas recompensas, que nos cabe só a nós encontrar.
Pedi com toda a força ao meu Deus que tendo-lhe dado a lucidez para detectar o problema, lhe desse a sabedoria para criar a solução.
"Faz com que não seja vitimizar-se.Faz com que não seja vitimizar-me"- pedia eu cheia de fé, mais nela do que em Deus, a quem tanto faz como e quando chegamos até Ele.
Do outro lado do arame estamos muitos, os que ganham simpatia pela indiferença. Os que não fazem nada por ninguém a não ser por eles mesmos.
Algures no meio, onde os pássaros poisam para conversar uns com os outros, deve estar a formula para a  paz que foge dos extremos.
Idomind.
about balance

10 comentários:

Shin Tau disse...

Este texto lido com esta música, fica assim uma coisa fora deste mundo. Espero que não fosse este o texto a que te referias ontem...simplesmente divino :)

É difícil trilhar nestas coisas o caminho do meio, ouvir a nossa necessidade e conjugá-la com a dos outros. saber ser e estar a todo o momento no nosso melhor... mas com texto destes fica mais fácil não desanimar.

Obrigada e balancemos sempre juntos

IdoMind disse...

Ola Shin!

Há quanto tempo não te via no nosso jardim :)

Era este era. Deu-me aquela insegurança, achei que estava feio e violento...Ainda bem que gostaste..Obrigado..
É mesmo. Ficas meio dividida entre o egoísmo e falta de amor próprio. Acho que se acertam umas e se perdem outras, esperançosamente que se aprenda e se avance com todas.
Adoro-te mana e fácil fácil é jacizzi! Isso sim traz equilibrio!

beijosssssssssss

Estrela.Dourada disse...

Como nos poderá dar tanto geito "esbarrar" na vida com uma pessoa assim,que não nos diz um simples não a nada! Mas ... e onde está o equilibrio? Dar sim, mas sem nunca nos esquecer de nós próprios. Porque dar dessa forma não é amor, mas sim dependência!
Beijos "cintilantes"

IdoMind disse...

Estrelinha

Parece tão simples não é? Mas não é.
Como esta mulher, habituamo-nos a agir de uma determinada maneira e acabamos por nos tornarmos o fruto das nossas acções.
E tens razão, se uma não está bem ao dar sem pensar em si, os que esperam que ela dê nessas condições também não estão melhor. Andamos todos a ajudarmo-nos uns aos outros a lembrar a liçaõ básica - amarmo-nos.

beijos e obrigada pela tua presença neste jardim

mdulcepbento disse...

Olá Shin, ainda não tinha passeado por aqui e hoje vim aqui ter... e li este texto que se cola um pouco....ao que sou!

Mas já fui diferente!!!! E no balanço não sei qual modus vivendus é o melhor..é de facto num meio termo que nos devemos situar. Mas as pessoas sempre esperam de nós o melhor....é isso que todos precisam. Que alguém lhes dê o seu melhor :-) e há tão pouca gente a saber "dar ".....que quando aparece alguém somos sugados...

gostei muito...vou continuar a passear por aqui! Beijinho

Dulce Bento

Shin Tau disse...

Dulce,

este é o blogue da IdoMind, minha irmã, uma mestre na escrita. Fazes muito bem vir aqui mais vezes pois ela parece que tem um micro nas nossas casas e almas e sabe sempre o que estamos a precisar de ouvir (ler).

Beijcoas

Onda Encantada disse...

Verdade verdadinha!

Porque precisamos perder-nos tantas vezes para nos conseguirmos encontrar outras tantas?

às vezes tenho tantas duvidas de tanta coisa...
e... Hoje de manhã ouvi na rádio uma frase que me fez sorrir:"Duvida sempre, porque é na dúvida que te tornas mais criativo" ou algo semelhante.

Mas bom bom mesmo, é termos a capacidade imensa de abraçar as nossas sombras e as amar e as integrar...

Abracinho grande minha querida :)

IdoMind disse...

Olá Dulce
Esclarecido o erro de identidade espero que mantenha a opinião. E que continue a vir regar o nosso jardim :))

Concordo consigo. Mas às vezes um " não" é a melhor ajuda que podemos prestar...

É importante perceber porque queremos dar, parece-me.
Cada um sabe de si, é como eu disse, não sei que pão cada um já comeu e por isso são diferentes os reajustes que já nos demos.
Se nos fizer feliz, mas mesmo feliz, não apenas aliviados...é o caminho...o nosso caminho...
um beijinho e obrigado

IdoMind disse...

Ondinha...

Vivam as dúvidas...
Mesmo e talvez sobretudo as que nos fazem chorar.

Uma curiosidade, na parte do texto onde digo " que lhe dê a sabedoria para encontrar a solução" era para ser " que lhe dê a criatividade..." LOLOLol a sério! Estamos lá!

Perde-te Onda e volta sempre linda, magnânime, clarinha como tu és...~

Mil beijossss

IdoMind disse...

mana,

só uma abraço GRANDE e com todo o meu amor...

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