11 Janeiro 2012

Cinco Tempos

Nem o ar era o mesmo. Sabia a ar. Dantes não sabia a nada. Era só ar. E estava ali. Por todo o lado. Para respirar e deitar fora. Agora não. Tinha gosto a ar. Eu sentia-o. Entrava por mim adentro anunciando-se. Sem querer, apercebi-me que estava a inspirar mais devagar. A expirar também. Como se num sinal de respeito pela substância invisível que me mantinha viva sem que eu lhe pedisse esse favor. Quando me fui embora não se ligava muito à vida. Era isso, vivia-se. Respirava-se. Não se dispensava grande atenção ao que me parece ser agora reconhecido como um milagre. Desde que se abrandou a respiração, viver ficou mais importante. Com essa noção, muitas outras sofreram alterações. Ainda há pouco me cruzei com duas mulheres que caminhavam lado a lado e pude ouvir uma delas dizer à outra que necessitava de acalmar-se para evitar a produção de veneno no organismo. Pegou-lhe na mão e virou-a para si. Começaram então a respirar ao mesmo ritmo, numa espécie de operação de resgate da respiração alterada de volta à regularidade. Tive de parar e ficar a observar o que deveria ser um procedimento normal em casos de descontrole emocional. Expectável até, já que só eu ficara imóvel e estupefacta, a admirar duas mulheres de mãos dadas no meio da rua a acertar respirações… Não fosse o Palácio Nacional de Mafra, julgava ter-me enganado de planeta, tão diferente que encontro esta nossa Terra. E os seus habitantes. Se pudesse conversar com alguém que me explicasse o que aconteceu enquanto estive ausente…


Vagueio perdida por aí a sentir-me um David Attenborough da espécie humana. Camuflada nas árvores a observar e a registar um meio de vida totalmente novo e desconhecido.
A questão da respiração é o elo original da cadeia de comportamentos na base desta forma de estar que por enquanto ainda não consigo qualificar de tão atordoada que me deixam os ritos praticados espontâneamente a todo o instante. Talvez esse seja um bom adjectivo. Esta sociedade que encontrei é ritualista.

Durante o dia há três períodos nos quais todos param para respirar. Toda a gente sabe que toda a gente está parada a respirar naqueles intervalos de tempo. Ficam assim uns quinze, vinte minutos. Nos primeiros dias tive tanto medo! Não sabia que estavam a fazer e olhava sempre para o céu esperando ver raios hipnóticos verdes florescentes ou uma assembleia de velhinhos de barbas brancas a pairar envoltos numa luz, a falar directamente para as mentes dos humanos. De todas as vezes que paravam eu pensava “ É agora!”  
Mas não. Ficam só parados a respirar ao mesmo tempo. Foi assim que começaram a dar valor à existência. Afinal, bastava ficarem sem ar para que deixassem de existir. A qualidade do ar passou a ser um assunto prioritário então. Grandes medidas foram tomadas face à impossibilidade química de transformar papel e metal em Oxigénio. Se tiver tempo, um dia, conto como foi que o Dia 5.   
Durante a Religação (nome destas paragens colectivas) as pessoas visualizavam o ar a entrar e a passar pelas vias respiratórias até aos pulmões, retinham-no por uns segundos e depois libertavam-no visualizando-o a sair, já como dióxido de carbono e levando consigo pedacinhos de toxinas e outros detritos que andavam por ali, dentro de cada um, a circular. Faziam isto várias vezes. Pausada e conscientemente. Percebiam a sacralidade do processo e sabiam-se eles próprios sagrados. Viam depois o ar a oxigenar todo o corpo, a levar-lhe a energia vital que tudo sustinha. Aproveitavam ainda para agradecer. Cada um sabia das suas bênçãos.
Achei interessante o facto de ninguém dirigir quaisquer pedidos à Entidade a que se Religavam. Dizia-se apenas obrigado.
Os últimos minutos da Religação eram destinados a uma reflexão comum. A cada quinhentos metros havia um dispositivo, o Cálix, onde se colocavam as mãos e se pensava numa intenção especial. Os pensamentos particulares deixados no Cálix eram coligidos e todos os dias era anunciado O Propósito. A parte final das Religações era então dedicada ao Propósito anunciado. Vim a saber mais tarde que, no inicio da nova Era, durante três anos o Propósito não mudou – curar a Terra.
IdoMind
about what you´re about to say about this

22 Dezembro 2011

Feliz Natal? Que dizes...?

Não há dinheiro. Não há prendas.
Não há prendas, não há correrias nos shoppings, hipermercados e companhias.
Não há gritos, nem “ não penses que para o ano vai ser assim!”.
Não há dinheiro para gastar. 
Há tempo para parar. 
Há uma casa nova, sem caixas de vários tamanhos debaixo da árvore, mas com uma nova postura em cima da mesa.
Há pais novos a aprender e a ensinar uma nova tabela de prioridades. E de valores.
Há filhos que vão crescer. 
Sem dinheiro, o Natal vai revelar a sua verdadeira magia - o Amor que nos une aos nossos.
E que não tem preço...

Vai demorar, mas um dia haveremos de entender como andámos desviados do que importa. Está a doer, mas lá mais à frente, compreenderemos que tínhamos tanto e éramos tão pouco…Tomara fosse mais suave a transformação. Que a pele estivesse só a cair ao invés de nos estar a ser arrancada.

É do fundo do meu coração, meio partido, que escrevo hoje. Particularmente hoje.
Nos últimos dois anos não me lembro de um só dia em que não tenha lidado com a perda. Não só de pessoas próximas, mas sobretudo em virtude do meu trabalho. Tem feito parte das funções assistir à ruína de famílias inteiras. De empresas. De sonhos. Pessoas e vidas destroçadas que me deixam a perguntar sobre o propósito deste sofrimento todo.

(um novo começo)

E lembro-me do momento em que o Sr. Joaquim perdeu a fé. Diz ele que foi numa noite na guerra do Ultramar. Com o cheiro da morte a intoxicar a esperança e os jovens, como ele, aos bocados por ali espalhados, viu-se a dar um ultimato a Deus: “ Se Existes, este é o momento de Te mostrares…”
É fácil deixar de acreditar no que quer que seja quando a dor nos parece só absurda. Imerecida…Estupidamente gratuita.

É então que empurro o Sr. Joaquim com a memória da cliente que um dia, em que a aflição dos de hoje ainda não se fazia adivinhar, me pediu para terminar a reunião mais cedo porque precisava de ir a casa, a cerca de 15 quilómetros, trocar a carrinha que conduzia, pelo Mercedes da família. É que não podia ir buscar o filho ao colégio, (mesmo ao lado do meu escritório) com a viatura de trabalho…Por isso, preferia “ir num instante” percorrer aquela distância, depois voltar e tornar a fazer os mesmos 15 quilómetros de regresso a casa… Na altura, este comportamento chocou-me de tal forma que comentei com a minha colega e lembro-me do que lhe disse: “ Ela está a dizer àquela criança que há algo de tão vergonhoso em ter menos que um Mercedes, que nunca será aceite se não tiver sempre o último modelo. Que herança pesada…”

É assim que temos vivido. A aparentar. Só que a aparência de repente ficou demasiado cara para nós e deixámos de ter como a manter. Fica a verdade. Ainda somos alguém mesmo sem Mercedes ou casas de mais assoalhadas dos que as que utilizamos.

Não. Não me perdi. Estava a falar do Natal. E das prendas emagrecidas pela dieta forçada que a viragem implica. Da fome imposta às carteiras. E do medo… de não ter o que ter.
Pode não haver dinheiro. Mas continua a haver Natal. Ou, finalmente, há Natal…Em que o abraço e o copo de vinho ganham muito mais valor que as coisas que se compram porque parece mal não dar uma lembrança a quem não tem importância nenhuma. A ceia vai saber a aprendizagem…a lições de coragem, de força e de saber largar.
Este ano será para muitos, o primeiro Natal, do verdadeiro Natal. E isto merece celebração.
IdoMind
About freedom

14 Dezembro 2011

Não é porque estão a pedi-las que devemos dá-las



Estavas longe de imaginar quando saíste hoje de casa que não voltarias a entrar a mesma pessoa. Estou imensamente orgulhosa de ti. Até me apetece deixar escapar algumas lágrimas por fazer parte da tua vida e ter estado aqui para te ver a desembrulhar as asas amarrotadas que escondias. Ou protegias…
Podias ter ido. Podias ter corrido. És bom nisso. Em fugir sem olhar para trás e largar para quem fica o trabalho de apanhar os pedaços partidos da alma que não volta a ficar a mesma. Há uma cola que devia ter o teu nome. Usa-se a chorar. Usa-se a jurar que nunca mais.

Podias ter feito igual. Pensar em ti. Só em ti. Não julgues que estou a julgar-se. Não estou. Tenho a minha própria conta para acertar. Os meus minutos estão contados e não tenho a mais para dispensar noutro conto que não o meu. É que já te vi daqui a fingir a tua altura apenas para diminuir o tamanho de outros. Baixaste-te para te dares com os mais baixos e ergueste-te para chegar ao que estava fora do teu alcance. O que poderia ter feito de ti maior ainda, se não te fizesse feito só egoísta. Entraste por vidas adentro sem limpar os pés e deixaste tudo sujo de pegadas. Podias ao menos ter pedido desculpa e, já agora, aprendido a tirar os sapatos…só para não magoar nem deixar marcas de lama no que encontraste imaculado.

Não baixes os olhos. Dá-me um abraço. Ninguém consegue caminhar sem pisar alguma coisa. Ou alguém. Mas tu tens abusado do privilégio, meu amigo… Para que conste “ tu sabias que sou assim” não faz ficar tudo bem nem retira um grau de dor ao teus golpes.
Sabes, há para todos nós um dia e uma pessoa que nos levam a fantasiar que “comigo vai ser diferente”. Um pirlimpimpim a serpentear pela barriga acima na certeza de que somos especiais. O ou A tal que vai mudar uma maneira de estar. Ou de não estar. Baptizamo-nos de novo como Luz que se vai acender para alguém num género de redenção providencial. Isto acontece. Acreditarmos que temos o poder de modelar a essência do Outro. De lhe meter as mãos na espinha e pô-lo a caminhar. Numa certa direcção…Por nós. Connosco.

É fácil sonhar isso contigo. Em redimir-te. Iluminar-te. Tens a rebeldia que apetece dominar. Exibes uma liberdade que convida a pagar para ver. E esses olhos…Carregas nesses olhos a solidão infinita a pedir um fim. Quem te pode resistir? Arruínas com o resto no sorriso perfeito que abres e outra bandeira branca é hasteada em rendição. Não te rias. A tua doçura pode vir a amargar-te. Também se paga pelo aluguer dos Dons. Do aproveitamento que deles retiramos. Qualquer um pode manipular. Apenas alguns conseguem ensinar…

O que não serve o Amor serve para nos condenar. A repetir. A não chegar. A perder.
Até servir para nos transformar. De dentro para fora…
Talvez te tenha acontecido o vazio. Aquele buraco que nada enche. Não sei. Quem sabe deixaste de achar graça a não te deixares conhecer. Pode ser que tenhas precisado de ouvir “ vamos passar isto os dois” e tenhas perdido a vontade de passar por isso sozinho. Se calhar encontraste, ou reconheceste, alguém mais importante para ti que tu mesmo. Não sei. Sei que te vi feliz a fazer por outro apenas para o fazer feliz.
E bastou-me para te saber a transformar. No que És.
IdoMind
About not taking advantage

06 Dezembro 2011

E agora?

Sou muito mais antiga do que os teus olhos possam deduzir quando me miram à procura de um sinal qualquer do sim que precisas para avançar. Não te deixes iludir pelos ares que dou. Cá dentro, estrelas nascem e morrem em silêncio para me darem à luz. Constantemente. Mas é um processo secreto. Só meu. Engulo-lhes por isso o brilho de todas as vezes para que não me percebas outra. Já mudada. Por nós mudo o que começou por ti. Tu és a pergunta difícil que Me questiona. Que fica e recusa calar-se mesmo depois de uma resposta idónea que arranjei ali assim, no meio dos princípios e dos valores que me convém fingir continuarem a ser meus. Parece que me pressentes para lá do que pareço. Como um espelho das minhas caducidades a denunciar versões ultrapassadas, adulteradas, repetidamente copiadas, de mim própria. Tu não me permites falsificar-me. Não sem reconhecer que essa é a minha opção. Minha. E que podia ser outra. Se eu quisesse. Se eu me achasse capaz de suportar certos pesos sem lamentos. Sem arrependimentos. Ressentimentos. Sem ferimentos…

É que as minhas memórias vão muito mais longe que o primeiro “olá, como está? É o meu corpo que o diz. São os sonhos que o confirmam. Estive aqui antes. Lembro-me que amar era mais simples. Muito menos vergonhoso. E a felicidade era isenta da taxa de culpa que hoje a agrava. Que lhe põe um preço tão alto que a maior parte de nós não se dispõe a pagá-lo. Venho de um tempo em que as mulheres e os homens se encontravam para dignificar a Vida. Sabiam-se eternos pelo que o adeus ainda não tinha sido inventado. Nem outro pronome possessivo além do Nosso. Porque o Meu e o Teu ainda não existiam os homens e as mulheres eram livres. Uns dos outros…

Estranhas agora o meu diálogo mas esta já foi a linguagem que entendíamos. A única. Quando nos deitávamos debaixo das árvores deslumbrados com a Criação. E o Céu ainda não era alcançável. Era só azul e bonito… A fruta sabia a sentimentos. Sem o pecado. Tinha gosto de inocência. E inocentes permanecíamos depois a provar. De a trincar. Morder. De a comer com prazer porque há fomes que são sagradas. E nunca podem deixar de o ser. O cheiro da terra tinha poder na altura. Celebrávamos o Mistério e com gratidão aceitávamos o Seu convite para a Grande Festa. Éramos iguais então…
Olha o que o fizemos ao Amor neste intervalo entre o estado puro e os instintos metidos num fato com gravata. Virámos o mundo ao contrário e é claro que andamos perdidos às voltas com a impressão de nunca chegar a lado nenhum. De não haver mais para onde ir. Ou fugir. Mexemos na Ordem a que tudo obedece e condenámo-nos com isso à procura que não acaba. Aos encontros que não satisfazem. Aos comprimidos que adormecem o Apelo…

Vieste lembrar-me que embarquei nesta evolução esquisita. Carcereira de almas e de caminhos. Também eu virei a minha natureza do avesso e uso-a com acessórios para esconder suas vontades. Anda contrariada e por uma vez ou duas dei por ela a tentar arrancar os não devos e os não posso que lhe visto. Foi por um triz que não se despiu diante de ti e disse o que não devia. O que não podia…
Fui para a casa de banho pôr-lhe as roupas de volta pedindo a Deus um Novo Começo.
Outra Eva. Outro Adão. Outro testamento.
Um que permita o Amor e não que o proibia…
IdoMind
about skins that meet  

15 Novembro 2011

Concentrado para mim, se faz favor

Fatigada desses amanhã-é-outro-dia, não-merecias-nada-que-isso-acontecesse ou aqueles deixa-lá-que-foi-melhor-assim, sempre à mão para nos salvar de uma intimidade que não pedimos. A cábula comum, de expressões-marcadores de linhas entre o espaço onde simplesmente queremos que nos deixem em paz e o espaço onde aparentemente essa paz tem de ser mantida.  Mais cedo ou mais tarde, temos de vir à rua e há sempre alguém por lá desejoso por falar. Por partilhar. Por nos convidar para qualquer coisa porque precisa de desabafar ou porque diz que tem saudades de estar connosco. É claro que não vamos negar o par de ouvidos. Nem responder que não sentimos o mesmo. Que por acaso até apreciaríamos, mais, estar sozinhos. Passear ao longo da Foz à hora de almoço, abandonados a pensamentos aleatórios, à fala do mar, a nós…
Não seria elegante afirmar “Fala menos e escuta-te mais. É o que estou a tentar fazer. Se me deixares…Não me leves a mal, mas há dois anos que tens o mesmo problema. Já paraste para perguntar se o problema não és tu?”


No gesto automático de sacar da cábula, acabamos por declamar “Tens de ter paciência. Continua a fazer um bom trabalho que alguém um dia vai reparar.” Ou, umas linhas mais abaixo “ Dá-lhe um tempo que vais ver é só uma fase, as mulheres são assim.” E o clássico, mas, nem por isso em desuso “Não ligues, isso passa.”
Ao longe, do mar uns vislumbres de azul e a hora de almoço já passou…

Não. Não é egoísta escolher ao que dar atenção. A quem. É lealdade.
Desleal é cabular…
Trezentos amigos e naquela noite ligaste ao teu irmão. Ao pai que sabes que, independentemente de todas e as mais dolorosas diferenças, vai a nado ter contigo à outra extremidade do planeta. Ligaste, ironicamente, a quem não ligas nenhuma. Naquela noite, foi um estranho que ficou contigo sentado na beira do passeio…
Não te faz pensar? A Lei é infalível na retribuição. Isso não te faz pensar? Isso não te faz parar?
De falar. De espalhar. De rir. Como um golfinho amestrado. Tão apropriadamente. E lá recolhes as tuas palmas. Pára de perguntar. Estás sempre a perguntar quando não queres ser questionado. Não há bichos-papão no silêncio, sabes…? Fica. Acalma esse impulso de te dispersares por aí. De enfraquecer a tua essência diluindo-a por copos alheios. Misturada com açúcar. Corantes e conservantes. Bebida às pressas, sem lhe tomarem o sabor. Deixada no fundo…
A qualidade é cara porque se escolhe a matéria-prima superior e depois trabalha-se com tempo, com dedicação, os detalhes que fazem o resultado ser diferente do vulgar. É o preço do excepcional. Do único…Do que dura.

Não sei se já te perdeste nas minhas divagações ou se estás encostado na cadeira do computador aos suspiros, mais ou menos abafados, porque te estás a ler nas minhas jardinagens. E agora a rir e a pensar que não te apetece nada ir buscar as calças à 5 á Sec. Sabes porque sei isto? Porque te seleccionei. És da melhor matéria-prima que existe. Autêntica. E dediquei-me. Trabalhei-nos. Dei-nos tempo.Por isso duramos.

Agradece-me não usar cábulas. Amar, por vezes, é não dizer nada. Ser amigo também é ir embora e fechar a porta do teu lugar sagrado onde todas as tuas respostas podem ser encontradas. Ter o egoísmo suficiente para pedir que nos deixem ir falar com o mar. Sozinhos..
Estamos aqui hoje porque Eu quero estar aqui hoje. Contigo. Eu e a minha lealdade.
No bom e no mau. É como tu, autêntica. E por isso única...
Pagas o preço? Tenho troco.
IdoMind
about shitty relationships

11 Novembro 2011

11-11-11: Porque não me lembro de outro título e porque hoje é 11-11-11


A roda girou. Completou uma volta perfeita. Tão redonda. Rodou por nós e connosco. Rodou-nos…Foi quando ficámos de cabeça para baixo. Lembram-se? Dos dias em que andámos ao contrário dos outros e foi difícil fazer e ter sentido. Arranjar um. Ou pelo menos um motivo, ainda que sem qualquer sentido. Às vezes o telhado inclina-se muito e é no beirado que suspendemos a nossa queda. Até ao limite da resistência que até julgávamos que não tínhamos. Pendurados e indecisos entre ascender, de novo, ou derrapar, finalmente.

Estive pendurada. Vim por aí abaixo e cai. Nem sempre de pé. Deixei-me ficar caída, a tentar agarrar o céu com as mãos cravadas na Terra. Procurando ouvir os ecos da linguagem desconhecida, subtil, a acontecer a todo o tempo que Eu não entendo o tempo todo porque ainda não sou só Alma. Ainda desejo. Desespero. Gosto e deixo de gostar. Ainda me faz diferença a indiferença. A dor… Importa-me o Mundo. As crianças que morrem. As lanças que se atiram de olhos vendados. Os peitos blindados. Importa-me quem não se importa. E abandona. Fere. Marca. Ainda me esqueço que o que está escrito deve acontecer. E que somos todos necessários. Até quem abandone, fira e marque.

Eu própria o fiz. É assim que a Roda se mexe. Muda-nos de sítio. De roupa. E depois dás-nos a Estação que precisamos para aprendermos acerca de julgamentos rápidos, de negligência e, por fim, sobre humildade, porque cada dia é todos os dias o primeiro dia.
Isto foi o que aprendi até aqui. Vim com uma caneta mágica para escrever uma história. A minha história. Reescreve-la. Fazer umas emendas. Dar-lhe um Fim. Ou uma continuação…

Posso, neste minuto, daqui a pouco, amanhã ou para o mês que vem, fazer um ponto final paragrafo e começar outro capítulo. Outro livro até. Nada me impede de nada. Excepto o medo.
Quando penso que já ouvi alguém confessar que não terminava com a sua própria vida porque temia depois não ter paz! Depois? Depois de quê? O depois só existe na medida deste Agora. Criado. Vivido. Sofrido, é verdade, algumas vezes. Mas apenas se quisermos. No Agora seguinte, meio Alquímico, podemos transmutar o sofrimento em sabedoria. A revolta em aceitação. As doenças em compreensão. Podemos confiar no Propósito em vez de pensar em morte. Ou noutras coisas que nos matam aos poucos…

A pergunta que se impõe é simples: quero, verdadeiramente, mudar?
E se, verdadeiramente, concluirmos que já chega, avisar a Vida que estamos prontos para outras brincadeiras. Como? 
Acordados, antes de mais. Evoluir faz-se de olhos abertos. É necessário olhar bem para dentro e para fora de nós para descobrir as deformidades mascaradas quase sempre de virtudes. Não é boa educação fazer o que os outros querem. Não é responsável viver infeliz porque há uma casa para pagar. Nem digno ficar para não fazer sofrer. 

Cada um só pode escrever com a sua própria caneta. Viver é um acto pessoal.
E quando decidirmos viver a NOSSA vida é aí que os nossos pensamentos, os nossos sentimentos e as nossas acções devem encontrar-se e partir na mesma direcção.
Este é o sinal de que estamos prontos. Para o que quer que seja. É nosso...
IdoMind
about  energies set in motion

04 Outubro 2011

Fronteiras

Oiço falar muito de apego. E da necessidade de o dominar a fim de alcançarmos estados de espírito próximos da perfeição. Li muitos livros. Aprendi exercícios. Magias. Truques para me desapegar. Desde desapertar fios a ver-me levitar. Não funcionaram lá muito bem. Parece que não mudei assim tanto desde os meus tempos de menina em que precisava de compreender para reter. Para apreender. E não compreendo a urgência do desapego como condição para ser perfeita.

Sou apegada. Não sei se muito. Se pouco. Se na medida certa para cada situação ou na dose exacta para cada pessoa. Sei que me preocupo. Que quero saber. Que oro e peço pelos meus apegos. Para que tenham sorte, sejam felizes, fortes, audazes o bastante para não se deixarem morrer entre as dez, doze ou mais horas de trabalho e outras tantas entre dar banho aos miúdos, fazer o jantar e varrer a cozinha. Fora as contas que engolem o pouco que fica para pequenos mimos. E fico ali, por perto dos meus apegos vigiando para que a esperança não os abandone porque tudo é necessário. Mas tudo é temporário. Sim, importam-me as suas lutas. E os respectivos desfechos.

Eu conservo o fio que me faz chorar e revoltar e revolver com as tristezas da minha irmã. E a comungar da alegria dos seus sucessos. Escolho quase levantar voo de tão insuflada pela vaidade de a ter aqui, como a minha companheira, com o mesmo sangue a circular-nos de alto a baixo até ao coração e do coração de alto a baixo, neste movimento que faz de nós as Catita. Escolho irritar-me com as imprudências do meu melhor amigo que o levam uma e outra e outra vez a rachar a cabeça mesmo ao meio. A sangrar muito. A sarar apenas para voltar a ser imprudente. Escolho ter saudades, tantas, de algumas pessoas e, superando o que as decepções me ensinaram sobre manter orgulho, telefonar só para saber como estão. Porque o meu maior desejo é que estejam bem. Independentemente do desejo delas quanto a mim…
Não foi sempre assim. Outrora julguei-me desapegada. Descobri que afinal era medrosa. A nossa coragem também se mede pela quantidade de nós que entregamos na mão do Outro e da quantidade do Outro que aceitamos nas nossa próprias mãos. Esta é a ciência do Caminho: percorrê-lo sozinho mas em partilha. Sincera e Amorosa. Total. A partilha com “P” grande só é grande porque não se divide. Não dá para partir e ir abonando em suaves e convenientes e razoáveis porções. Ou damos por inteiro ou o que fazemos não é Dar. Não é Entregar. Não é Partilhar. Geralmente não é Caminhar. Pelo menos, não o caminho com o “C” grande. Aquele que empresta os passos e empresta o ombro, que cola a outro, por um certo tempo em certas provas.

Este é o meu apego. O que ama. E por isso não vai embora, não enfraquece com algumas fraquezas, não se ofende com algumas ofensas e fica. Mesmo ao longe observa confiando que o “ era uma vez” acabará com o “ foram felizes para sempre”. O meu apego não me põe de caneta na mão a escrever a história de ninguém. Nem me dá o trabalho dobrado de fazer a minha parte e a parte de outros. Não sufoca. Não poupa. Não manda. Não sabe tudo. O meu apego não se avoca a justa causa para viver vidas que não me pertencem. Muito menos para impedir o seu legítimo proprietário de lhe dar o uso que entender no exercício sagrado do nosso do maior e único bem: a liberdade.

Não, não. O meu apego não se esconde, não se cala, não finge, não sabe jogar esses jogos esquisitos em que ganha quem mais constrange o outro a expectativas veladas. Tácitas. Forçando-o a agir como queremos e não de acordo com a sua própria vontade. Todas as mulheres magoadas sabem do que falo porque com mágoa todas jogam jogos esquisitos. E perdem com o tempo. Todos os pais e mães contrariados sabem do que falo porque usam o respeito e a autoridade para tolher o livre-arbitrio dos filhos, esperando deles o que eles ainda ou nunca querem na verdade para si. E é grande o sofrimento. Todos os amigos cobardes sabem do que falo porque oprimem com exigências e carências que eles mesmos são incapazes de suprir. E ficam sozinhos.

Nunca é amor se forçamos alguém às nossas escolhas. Nem de um lado, nem de outro. Esse apego é como um nó. Não é o meu apego. O meu apego é um laço. É isso mesmo. Eu não sou apegada, enlaço-me… 

Não sei se faço bem ou se faço mal. Ouvi dizer que isso das emoções também não é recomendável a quem quer ser perfeito. E ter o tal acesso estados maravilhosos de existência. Também sobre este assunto li muitos livros, aprendi exercícios, magias. Truques para dominar as emoções até as erradicar. De novo não compreendi. Logo não apreendi. E continuo a emocionar-me. A enlaçar-me com emoção. Concluo, que me prefiro apegada.

A minha paz visita-me quando me ligo e me vejo no Outro que, de alguma maneira e que por algum motivo, que nem sempre são o mais importante, aguardam por mim no meu Caminho, que tento caminhar com “C” grande.
Faço-o através do Apego desapegado por tudo o que Amo. É como consigo. É como sinto que está Bem. Para mim.
Que cada um descubra como está Bem, para si. E ouse caminhar em grandeza.

IdoMind

about feeling life, others and myself