Era só uma questão de orgulho. De muito, muito medo de voltar ao meu ermo vestida de patinho feio.
Foi preciso consciência. Foi preciso humildade. Foi preciso chamar a coragem que tinha guardada para usar um dia. Aquele dia, que parece sempre tão longe de hoje. Teve de ser, esgotei a dose da bravura que estava reservada e perguntei-me:
A situação é simples. Alguém que eu gostava muito, sem qualquer motivo ou explicação deixou de me falar. Ainda enviei uma mensagem a pedir desculpa se tinha feito algo que tivesse magoado e que nunca tive tal intenção.
Do outro lado – silêncio. Deste lado – “ Que raio…?”
Também deixei de falar. Fui mais longe e fugi. Deixei de ir onde gostava de ir apenas para não me cruzar com a pessoa. No domingo à tarde fiquei sem andar. As pernas simplesmente pararam. Não há qualquer metáfora escondida. Pararam mesmo. Não as conseguia mexer. Percebi de imediato e disse baixinho “ Está bem, amanhã eu vou lá.”.Segunda-feira levantei-me completamente recuperada…
Encontrei a pessoa e a coisa ficou para o estranho. Dois beijinhos educados na face e falar que é bom, nada. Resignei-me e embarquei no teatro. Até ontem. A verdade é que andava triste, constrangida. A falta de conhecimento traz sempre inquietude. E eu andava inquieta.
Contrariando então a natureza torta com que fui agraciada, depois fortalecida pela família “especial” que escolhi, pus o orgulho a dormir e tentei de novo.
Num rasgo (raro) de lucidez entendi que eu estava a ser igual à pessoa: irredutível na minha posição. Fosse ela devida a dor, a mágoa, a birra. O que fosse, eu estava de pés fincados na minha razão.
Noutro rasgo (ainda mais raro) de intrepidez, enviei nova mensagem “ Não me atrevo a ligar-te porque não sei o que se passa contigo mas se precisares de alguma coisa em que possa ajudar, eu estou aqui. Sabes que isto é sincero. Até amanhã”.
Foi com todo o amor que tentei desta forma esticar a minha mão e o meu coração até à outra margem. Que continuou e continua em silêncio.
Mas agora já não faz mal. Senti-me mais mulher. Um ser humano a procurar realmente ser melhor.
Senti todo o carinho que sinto por essa pessoa, a abraçar-me… A recompensar-me.
Sei que foi um acto importante no sentido da cura das feridas que julguei cicatrizadas.
Mas que não estão.
IdoMind





