setembro 19, 2012

Lótus nos Pântanos



Numa manhã clara, muito mais clara que todas as outras manhãs desse ano, enquanto  encaixava na respectiva casinha, o último botão da camisa branca de linho, a que tinha pelo menos duas histórias interessantes para contar, sentiu-se despida. Com frio até. Um arrepio invasivo apalpou-lhe a pele e foi como se tivesse deixado de estar sozinha. Havia mais alguém ali. O espelho mostrava a mulher composta do costume, pronta para colocar o pé fora da porta e, sem embaraços, enfrentar a avalanche de reuniões, telefonemas e aquele almoço para cujo adiamento já não havia mais desculpas.Porém, nessa manhã clara, nasceram olhos ao espelho e diante de si viu-se morta.

Recuou um passo. Não se assustou, assombrou-se…Tinha falecido sem perceber.

Por baixo da roupa a condizer, dos adereços que lhe conferiam o toque de distinção e do aspecto sempre cuidado, jazia uma defunta já sem cor a implorar o enterro. O descanso merecido. Cumprira com mérito a sua função e gostaria de partir com a dignidade de não andar arrastada e a deitar cheiro.
Ao contrário do que acontecera noutras manhãs, que não tiveram a claridade daquela, não passou o lip-gloss rápido e foi embora. Não. Ficou. Para onde iria naquele estado? Será que alguém já havia percebido que carregava um cadáver? Com frequência somos os últimos ver o óbvio no que nos diz respeito. Porque fizera para manter a sua vida privada, muito privada, seria natural que mesmo que tivessem reparado, ninguém lhe tivesse dito que estava a cair aos bocados. A sua personalidade forte criava um círculo bem definido dos limites permitidos. E da área extensa, protegida da presença alheia, inteiramente impenetrável. Qualquer personalidade forte sofre de solidão e tem de aprender a lidar com isso. Umas tornam-se mais fortes e mais sozinhas. Outras traçam novos círculos. Outros limites. Mas nunca é simples para quem é forte vencer a sua própria força. Entregar, sem resistir, o corpo ao movimento perpétuo e invencível dos ciclos da vida. Dói tanto a metamorfose aos fortes.

Foi no limbo entre o que tem de ser e a verdade que sobreviveu. Até ter morrido. Deve ter sido de tristeza. Morrera triste e rouca. Pobre alma aos berros por socorro, refém de uma trapaceira bem-disposta e sem um único problema neste mundo. Arranjara sempre forma de colocar toda a gente no topo das suas prioridades para não ser obrigada a fazer alguma coisa por si mesma. Além de triste e rouca, partiu exausta com toda a certeza. Como conseguira chegar tão longe sem pedir ajuda...Onde fora ela buscar os mantimentos, assim sitiada em si…
Talvez os fortes sejam afinal imbecis.

Tinha andado a viver ao avesso. O que não é aceitável é ignorar as nossas necessidades mais íntimas, condenando-as à cave da nossa essência. Procurar falar com elas. Estudá-las. E depois satisfazê-las. Ou não.  Inadmissível é suster e silenciar aqueles minutos de desespero latente, inoportuno, até que caiam no esquecimento, substituídos por outras preocupações, por esta ou aquela exigência urgente e impreterível. Por um desespero renovado. Isto é que é inaceitável.
Recebera parabéns por condutas das quais tinha agora vergonha. Que vitória ter morrido sem ter desapontado ninguém. Que orgulho ter conseguido, independentemente da contrapartida, estar à altura do que esperavam de si. Pode-se sempre ruir mais tarde. Pode ficar para depois o já não aguento mais porque, com o sacrifico que redime, se aguenta mais um quilo ou dois. Toneladas, se for preciso para não expôr os nossos calcanhares enfraquecidos pelas emoções.

Se não nos dominarmos alguém o fará. A morta sabia-o. Controlava-se por isso. E controlava. Tudo quanto fosse controlável. Apesar de ambiciosa, esta tarefa era executada com relativa facilidade, uma vez que vinha equipada com a sensibilidade necessária para quase imediatamente identificar o tipo de combustível com que cada um se abastecia. Agradecia esse dom. Fizera um bom uso do mesmo levando entendimento onde a intolerância queria fazer estragos. A pouca paz na passagem para a que havia de vir no lugar daquela, residia nas raivas que aplacou com a brandura das suas palavras e o convite sempre estendido a visitar as aflições que moravam do outro lado da guerra. Tinha sido uma boa mensageira. Sem controlo teria sido impossível fazer chegar a mensagem intacta. Chegaria corrompida pela desordem das próprias fragilidades. Amassada e deturpada pelos próprios medos e inseguranças. Estas fraquezas tinham de ser controladas. O que ela conseguira com sucesso.
Que pena não ter percebido que a sua própria reserva estava com a luz vermelha acesa. A dar alarme…

Não havia nada a fazer. Morrera. Tinha de deixar ir a pessoa do espelho. Coitada. Que diabo de purgatório ser obrigada a morrer todos os dias. A perder todos os dias…E fingir que não.
Como a manhã estava muito clara, passou na mesma o lip-gloss e saiu. Foi investigar a causa da sua morte para poder começar a pensar em nascer outra vez.

IdoMind
about  the  8th House

6 comentários:

Lu Cavichioli disse...

Boa tarde!

Excelente texto, moça, você usa de artifícios e recursos inteligentes e irrecusáveis onde nós, leitores, não conseguimos parar de ler.
Esta é uma das característica de um bom escritor.

Escreves muito bem, pausadamente , sem ser verborrágica nem tediosa- Muito pelo contrário - é contagiante e intensa.

Entendo que a essência desse texto seja o que todos temos dentro de nós a cada dia numa luta incansável pela sobrevivência, pois não?

Te sigo e levo teu link para meu blog Escritos na Memória pra não te perder de vista.

*Este teu jardim tem ainda, muito que mostrar. Quero mais!

beijos pra ti
:D

Lu Cavichioli disse...

Ah, esqueci de dizer que o título do texto é de uma ousadia fantástica. Gosto disso, mesmo porque os títulos é que acalentam a fome da leitura.

bj

IdoMind disse...

Bom dia Lu,

E eis que outra manhã acaba de clarear :).

Obrigado pelas palavras gentis para as quais fiquei sem resposta. Quando me dá vontade de escrever, simplesmente escrevo. Escrever acontece-me...

Quando vejo comentários como o seu, fico a olhar e a pensar que talvez esta seja a minha forma de construir a ponte entre mim e os outros, sem me dar conta disso.
De novo obrigado e ainda bem que gostou.
Talvez fiquei com o link dos Escritos na Memória e já andei a passear por lá. Ali sim Escreve-se.

O título prende-se com a parte feia que temos de largar para a nossa Beleza se revele.

um grande beijinho e a gente vai-se visitando ;)

Marcia Toito disse...

‎"E ela sorriu para não parecer triste e deixou de sorrir para não parecer falsa. E ficou por um bom tempo sem expressão, pensando na vida, catatônica. Ela não queria que a vissem daquela maneira e se isolou em um canto onde não precisava inventar mentiras para os outros e sobre tudo pra si mesma, e por lá ficou até a saudade passar, até darem por falta dela, até o seu corpo ser encontrado já sem vida. Ao fim, ninguém soube ao certo a real causa da morte, mas todos concordaram que ela já estava morta antes mesmo do fim. Pobre coitada... Entre tantos, foi-se entregar justo a solidão." - Luan Emiilio Faustino

LEMBREI DO SEU TEXTO QUANDO LI ESTE E QUIS COMPARTILHAR COM VC.BJ

IdoMind disse...

Que curioso Márcia!
Quem é este Luan? É escritor?

Estou a ficar pouco original pelos vistos... :)

Muitos muitos Beijinhos

Marcia Toito disse...

http://dascartasquenuncamandei.blogspot.com.br/

o blog do moço!!!!belo blog

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