agosto 13, 2012

Quem Conta um Conto



- Eu era a excepção. Quando os meus peitos começaram a ficar atrevidos e as minhas coxas impossíveis de ignorar, dos trezentos mil pensamentos ondulantes que por dia se me espraiavam na cabeça, nenhum deles era acerca de casar, de ter um casalinho de filhos e um emprego numa repartição pública ou numa empresa de renome nos circuitos comerciais. Nada disso.
Nada disso, não como uma manifestação simplória de oposição só pela oposição. Nada disso, porque isso era sinónimo dos silêncios da minha mãe. Daqueles que velavam uma espécie de raiva metabólica que em alguns dias a transformava numa mulher qualquer que levava a minha mãe para longe e ficava a fazer as suas vezes. Nos olhos daquela estranha ardiam dois fogos feitos de sombra e de veneno. Ora, a minha mãe tinha olhos aveludados. Com umas cortinas opacas. Só se abriam quando o meu irmão mais velho lhe entrava pela alma adentro pois nunca precisou de autorização para encharcar de alegria o dia de alguém, nem os da nossa mãe. Penso que foi a única forma de amor que ela conheceu. Quando o meu irmão não estava, as cortinas dos olhos aveludados da minha mãe estavam corridas. Depois aparecia esta outra pessoa a quem a minha mãe parecia ter arrendado um bocado de espaço dentro de si. Eu temia esta. Era como certos animais com pêlo sedoso em tons de malícia paciente, esperando atrás de arbustos o momento perfeito do ataque mortífero para voltarem a desaparecer na mesma penumbra tenebrosa que os vomitou.

No primeiro, e muito insuspeito, domingo do mês de Maio, testemunhei um ataque feroz da pessoa-animal que levava a minha mãe de vez em quando. Estávamos na cozinha, nós as mulheres, falando de coisas de mulheres. A minha mãe não falava muito e sobre coisas de mulheres não falava nada, cumpria o seu destino e executava-as. Apenas. Com os olhos a arder em sombra e veneno, claro.
Queixava-se a minha tia, casada com o irmão do meu pai, das manias do marido, dos roncos do marido, do detestável hábito de obrigar toda a família a juntar-se ao pequeno-almoço antes do início “das glórias de um novo dia”- disse parafraseando-o – no mais agoniante desprezo pelo matutino ritual migratório, instituído pelo doce e, inegavelmente, único tio Carlos. Na casa do tio Carlos tomava-se o pequeno-almoço às sete horas da manhã e terminava-se às oito menos quinze. E fora sempre assim.
- Estou tão saturada! – soltou com enfado, virando-se para a janela com o mesmo drama corporal ensaiado e encenado no teatro baptizado de casamento em cena há quinze anos.
Sem erguer a cabeça do forno onde o almoço se desmanchava em odor pecaminoso, a mulher, que às vezes era a minha mãe, fez-se águia e num voo rasteiro sobre o espírito da minha tia, cravou-lhe as unhas sem piedade:
- Suponho que ainda assim te cansou mais viver em humildade que viver sem virtude. Afinal é uma troca sensata, não é? A honra por lençóis de cetim. O mesmo marido ignóbil (e abastado) que tanto te cansa é o mesmo que te abriu as portas depois de o teres deixado para ires conhecer de forma mais…intima, os meandros da lei com o Dr. Teles. Não te parece, francamente, que devias estar caladinha? Na minha casa, pelo menos, agradeço que o faças.

O silêncio tem peso e quem disser o contrário é porque não sabe nada de pessoas-animais combatendo-se sem intervalos para que não pereça nem o homem, nem a besta. Naquele domingo, na cozinha da casa dos meus pais, eu podia ter cortado um bocado de silêncio depois do ataque da mulher- águia e guardado numa caixa só para provar que as palavras têm massa. E a sua ausência também.



Esta era a minha mãe.
Um ser indecifrável em estado puro de qualquer coisa que assustava e atraía simultaneamente. Misteriosa, com aquele quê de inacessibilidade provocador. A presença distante da minha mãe suscitava o desejo quase masoquista de tentar aceder às suas riquezas interiores ocultas, que pontual e brevemente saiam para arejar. Apetecia subir as escadas invisíveis que levavam até ela e espreitar para ver o que lá estava a circular-lhe pelo sangue dissimulado de frio. A minha mãe era terrivelmente fascinante na seriedade fugidia e no rigor irresistivelmente fora de moda a pedir que o testassem. Em segredo admirava-a e cresci a querer ser sua cópia. Eu queria ser Intocável. Como ela. Ostentar o mistério a olho nu sem porém permitir jamais que o desvendassem. O “estou aqui mas nunca na verdade me verás, nunca me alcançarás” chamariz dos intrépidos, dos ocos, dos mal-tratados e da eterna incompletude.

Foi já tarde que vim a entender que secretismo e charme são outros nomes para manipulação. Que funcionam. Mas sobre isso podemos falar noutra altura.

Estava a dizer-te que eu era a excepção. Eu não ansiava segurança. Pelo contrário, ficava insegura com as implacáveis exigências da segurança. Com o que era necessário entregar para garanti-la. A segurança era fraudulenta, não se ganhava, comprava-se. Havia gente por todo o lado a vender-se para a obter. Eu estava disposta a pagar qualquer preço, sim, mas pela minha liberdade. Ainda que insegura, inconstante, incompreendida. Tinha era de ser livre. Fiz disto a minha causa e, sem desatar a correr por campos de batalha afora de bandeira hasteada, acabou por ser como eu quis e como fiz para que fosse. A minha emancipação foi reputada de desobediência e durante mais de dois anos após ter saído de casa dos meus pais, estes não quiseram ter o mínimo contacto comigo. Entenda-se, o meu pai proibiu e a minha mãe que, com os olhos em fogueiras de sombra e muitos venenos, cumpriu as ordens dadas.
Não deixa de ser curioso que tanto e nada mudou. Estes anos todos depois, este progresso todo depois e tantos electrodoméstios, ginásios e formas alternativas de estar depois, ainda haja pessoas à venda por segurança. Homens e mulheres. Os homens vendem-se a homens e as mulheres vendem-se a tudo. Vejo a minha mãe em tantas… Na mesma resignação efervescente. Corrosiva. Já dei por mim a pensar se não demos a volta toda para voltar ao princípio e regressarmos a casa. Ao lar. Ao nosso Gral vazio esperando que lhe vertamos valores, amor...tempo. 
Ser mulher não é para todos. E não é sempre ser gente.



Lembrou-se que eu estava ali e constatou com agrado que recebi com serenidade e respeito o que acabara de professar.  
- Fico contente que não te tenham chocado as minhas afirmações. Hoje em dia é praticamente ofensivo sustentar este tipo de ideologia, como se ser apenas mulher fosse redutor. Eu não acho que seja e tu, pelos vistos, também não. Vejo cada mulher como o bailado simbiótico da Imperatriz com a Alta Sacerdotisa, alterando o avental com o vestido preto curto, no cumprimento honroso dos nossos votos eternos e isso é algo magnifico...
Perante a minha surpresa, inclinou-se e fixando-me nos olhos com ternura (que aposto nunca viu nos olhos da sua mãe) disse-me que só estava a permitir-me que a Visse. Que aproveitasse porque ninguém se deixa Ver e que é por essa razão que temos de voltar ao mesmo sítio tantas vezes. Tão magoados.

Se aquela mulher fosse um homem, ter-me-ia apaixonado por ela fulminantemente naquele instante, pedindo-lhe que ficasse comigo para sempre e me ensinasse a Ver.


- Cortei o cordão com as marcas que me fizeram a cópia e tenho andado a lapidar-me noutra obra. Original. Autêntica. Nunca vou ser perfeita para todos portanto vou-me fazendo gira para mim. Deixei de me querer misteriosa para me ir encontrando completa. Hoje ninguém precisa de me adivinhar e, casualmente, falhar porque optei por ser honesta. O mais que consigo e sei. A honestidade às vezes não é assim tão honesta. Ou talvez seja apenas ignorante…Uma aluna permanente.
Acho que o trabalho que nos compete é só mesmo este, dizer quem Somos. Mudar se deixamos de ser aquilo e ir sendo depois o corpo confortável com a alma a que dá boleia. Não é nada de especial, de grandioso, de televisivo. É um trabalho privado, diário, árduo, consciente, de nos perguntarmos “ Quem sou eu e este sou mesmo eu?” Ir atrás, à frente, a todos os lados para ver em que terra de alguém trouxéssemos o que não era nosso. Vermo-nos livres dessas cargas e reaprender a dar passos sem muletas. Nem desculpas…

Decidir num dia qualquer ressuscitar sem morrer.

As mágoas são espertas. Sabem esconder-se e mudam de nome. É difícil descobri-las. Curá-las então…Há que ter mesmo muita vontade de fazer o melhor possível as pequenas missões de todos os dias para que a vida se revele naquilo que é – um processo. Contínuo. Sequencial.
Infalivelmente justo. 
Demorou-me anos, algumas relações, uma solidão que não te consigo nem qualificar, nem quantificar tal foi o seu tamanho, até me ter encontrado pequenina, embrulhada, cheia de nódoas negras num canto escuro do meu estômago. Tem demorado outros tantos a sair de lá e revelar à luz do dia que não sou diferente de ninguém. Só mais uma pessoa armada em arquitecta com um único projecto em mãos - Eu mesma. Como é que me faço? Com um toque aqui, outro toque ali, conforme os toques que me vão dando. Estou toda retocada
Hoje sei, nunca irrepreensivelmente acabada.

O meu amor por ela deu uma explosão que deve ter curado, feito crescer ou parido alguma coisa algures neste universo infinito de Deus feito de linhas cruzadas.
Ela reparou.
- Ainda não me calei! Hoje tenho a língua destravada! Obrigado. Obrigado por este café na taberna mais ranhosa cá do sítio! Não te vou pedir desculpa pelo monólogo esquizofrénico. Estive a rezar contigo este tempo todo e a prece foi ouvida. Obrigado, minha querida, por esta revisão da matéria dada.
Rimos. Rimos sem ruído. Despedimo-nos sem leveza. 
A vida também tinha massa. Para ser trabalhada. Como quiséssemos.
A liberdade era possível. Mas será que a queríamos mesmo?

IdoMind
About… I forgot what

8 comentários:

Onda Encantada disse...

About curing deep injuries...

LYA

Marcia Toito disse...

SÓ HOJE PUDE LER COM CALMA ESTE TEXTO!!COMO SEMPRE, ME FEZ RIR E CHORAR!!GOSTO TANTO DO JEITO QUE ESCREVE E DAS COISAS QUE ESCREVE QUE AS VEZES ME PERCO NO CONJUNTO DA COISA PARA APENAS APRECIAR A BELEZA DA PALAVRA QUE COMO VOCÊ MESMO DISSE,TEM MASSA. PASSO PARTE DO DIA PENSANDO NAS FORMAS DA SUA PALAVRA E CONFESSO QUE GUARDO DENTRO DE MIM AQUELAS QUE NÃO QUERO E NEM POSSO ESQUECER!AGRADEÇO POR TÊ-LA CONHECIDO,NEM IMAGINA O BEM QUE ME FAZ!!!

Marcia Toito disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcia Toito disse...

REMOVIDO PQ O AUTOR DO COMENTÁRIO POSTOU DUAS VEZES A MESMA COISA!!!HEHEHHEHEH

IdoMind disse...

Ondinha

Deep is the key word :)

love ya

IdoMind disse...

Minha Márcia, minha Márcia

Há quanto tempo, fiel ao Jardim e ombro com ombro com a Jardineira...

Obrigado não é suficiente por tudo...Tudo.

Um abraço

p.s. estou quase normal e vou voltar a escrever bonito, sobre o amor e outras drogas :)))

Maria Izabel Viégas disse...

Ido Mind,
creio que tu não sabes, mas amo de paixão a tua escrita, o como passas e defendes a tua idéia, os teus ideais custe o que custar. Incomodem-se os tolos, incomodem-se os hipócritas pois lá vem Ido Mind!!!!
Não sei se está tua mãe é real, se não acrescentaste um ponto para aqui escrever.
Não tive uma mãe assim, tive uma bem diferente, mas diferente não significa ser boa.
Era livre demais. Dominava-me quando criança. Até que dissse-lhe, bem de frente, o que eu achava dela.
E o que ouvi de volta foui uma gargalhada, ela gostou que eu falasse de igual para igual. Loucamente real.
Eu me entrsitecia muito pois admitir que se ama e odeia ao mesmo tempo aquela que nos gerou é fatal para uma jovenzita.
E, em alguns pontos, eu cresci com medo destes seios e coxas. Pois eu não queria ser como ela, nem como aquelas mulheres embrulhadas em papel celofane nem em papel de pão, as duas eram terríveis. Nas reuniões da família, sentava-me aos pés do meu pai, fugia dos papos das mulheres(que eu amava mas só falavam em tolices) e aos pés do pai ouvia conversas ditas de "homem", clutura, notícias, política . meu paia e meus tios não se compraziam a falar piadinhas chocantes nem sobre mulheres. Creio que meu pai, o mais velho, criva essa aura de respeito.
E outra, me achavam dócil, quieta, obediente, todos, sem saber o vulcão que havia em mim. O não permanente áquelas idéias obsoletas de "como ser mulherzinha".
Não nasci para ser uma mulherzinha. E nem sonhava em casar-me, queria ser tb livre.
Casei-me após ter saido correndo de algunszinhos pentelhos, que minha lua scorpio sentiu que rm prisão.
Mas aos 21 "foi", encontrei o o moço. E embora tenh aplutão na 7 até hoje estamos juntos, e ainda sou a mesma, livre.
Pura sorte... se fosse outro, já estaria separada. Amor sem companheirismo, sem um sexo fiel e apaixonado não mesmo.
Mas, como já vi em regressões, custei a ficar com este amado. Nesta vida era para ser!!!
Ah, Ido Mind.... como é bom ler -te!
A citação da Alta Sacerdotiza foi divina. Fiquei aqui a imaginar a cena. E apaixonei-me por vcs duas!!!
Beijos, querida!!!!!!

IdoMind disse...

:))))

Aparece, desaparece, aparece...
Alguma coisa neste comentário que devo prestar atenção e o meu subconsciente (matreiro) quer evitar :)

E ao ler isto...tchiii
Fiquei com inveja. Fiquei com inveja por ter encontrado, por ter ficado, por haver Amor a sério. É esse que aguardo..mas faz-se tarde e os amores fazem-se raros...

:) Minha querida...que bom que Deus é organizado e não se esquece de, junto com as provas, com as dores, com as quedas, enviar quem fique ao nosso lado esse tempo todo :)) parabéns. Do fundo do meu coração.

Os pais.Os pais...
Os primeiros a ensinar-nos que nada é de graça, não é?

Encontrei na astrologia respostas para perguntas que eu nem sabia fazer. Que tinha. Foi o mais importante instrumento de auto-conhecimento que veio ao meu caminho e foi incrível perceber de onde vinham certos padrões (que existiam padrões), certas reacções e as frustrações do costume.

Este trabalho é essencial e ir à infância é incontornável. Parece que é lá que moram as histórias das nossas mazelas e das que fazemos aos outros.

Aiiiiiii

Obrigado por este momento de reflexão. De desabafo. De amizade :)
Um abração de Imperatriz para Imperatriz.

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