setembro 06, 2010

Sempre em frente



Este Verão foi comprido. Muito mais comprido que todos os outros Verões. E esquisito. O passado veio a correr lá de trás e sentou-se ao nosso lado na praia. Toalha com toalha, forçando conversas que tinham ficado esquecidas entre uma noite mal dormida ou outra. Entre uma ferida ou outra. Entre um “ não faz mal”, “paciência” “ou outro.
O passado estendeu-se ao sol connosco e tornou-se presente.

O meu veio aos gritos. Parece que já tinha tentado falar antes, mas o barulho dos meus planos calou-o. Queria dizer-me que sou o que sou por tudo o que já fui. E que é verdade, também sou o que deixei que fizessem de mim. Lembrou-me do silêncio que sempre preferi porque algumas palavras foram, simplesmente, demasiadamente dificeis de ouvir. Foram palavras terremoto que me estremeceram e abriram fendas do tamanho da indiferença com que passei a defender-me. E que esta solidão onde tanto gosto de me perder, tornou-me mais pobre porque não enriqueci nem fiz enriquecer. O passado mostrou-me que a solidão é um vício – satisfaz corroendo por dentro. E afastando-nos do que está fora.


Fiz muito mal os meus enterros. Percebi-o na noite deste Verão comprido em que desci do castelo para jantar com a vida. Apanhei desprevenidos uns amigos habituados aos meus muros. Ali, naquela noite, com aquelas pessoas fui quem sou antes das noites mal dormidas, das feridas e dos “ não faz mal”.Nunca o meu coração apanhou tanto ar. Todas as portas foram abertas e lançado o convite para entrarem.

Estive muito tempo sem escrever no Jardim. Quis que o primeiro artigo depois das férias fosse para eles. Foi a primeira vez que consegui falar com sobre algumas experiências que mudaram o rumo da minha vida e da minha familia. O que senti com isso. Como foi doloroso. Nem eu, até àquele momento tinha percebido como foi de facto doloroso. Ouviram-me. Calados. Impressionados. Estupfactos. Era fácil ler nos olhos deles a surpresa, enquanto pensavam “fogo..”.Eu,  era como se estivesse a ser atropelada por um camião. Sentia a força do embate enquanto lhes contava quem era eu afinal. Claro, chorei. Muito. E choraria mais porque naquela noite aproximei-me um pouco mais de quem quero ser.
Tive direito a um curativo no dedo, de fazer inveja a muito enfermeiro. Tive amor do melhor que há – aquele que nos aceita tal como somos. E tive o respeito de pessoas que admiro. Até parece conversa de revistas cor-de-rosa ou destes livros que agora andam na moda, mas há coisas que temos realmente de senti-las na pele para percebermos que as verdades mais simples, são as únicas verdadeiras.

Eles não sabem mas eu vou aqui dizer que aquela noite só foi possível por causa dos mexilhões. Ainda que viva 100 anos vou lembrar-me sempre da satisfação do meu Amigo a atirar-me com um saco de mexilhões aos pés. Foi pescar todo o dia enquanto ficámos na praia. Havíamos comentado que o que sabia bem eram uns mexilhões para petisco, mas isso não ia ser possível por um motivo qualquer que não me recordo.
No final do dia lá começa a desenhar-se no horizonte o perfil do nosso pescador enquanto se dirigia a nós com o equipamento todo (há coisas com que não se brinca). Trazia alguns peixes e…um saco cheio de mexilhões!
 “ Era isto que querias?” E atira com os mexilhões aos meus pés. Todo satisfeito. Ficou feliz por nos poder fazer feliz. Ele nem gosta de mexilhões…
Guardarei sempre a expressão dele e este gesto de quem se preocupa. De quem está atento. De quem ama amar. E cuidar...
Nunca ninguém seria tão digno dos meus segredos como estas pessoas. Partilhei, por isso, o impartilhável com elas. O passado ainda não passou. Talvez não passe.
Passei eu.
Alguma coisa mudou. Apetece-me ficar por aqui, fora do castelo, a apanhar mexilhão…


IdoMind

about cleansing


8 comentários:

Shin Tau disse...

Parabéns -_-

de facto, se te fizeram fazer o que fizeste (grandes repetições propositadas) é porque te merecem. Grande mania a de testar o valor das pessoas para se entregar...isso tem de mudar!!! Mas cada coisa na sua vez....

Hoje estás de parabéns pelas mudanças enormes que sofreste e que tão bem espelhaste no Jardim! Está lindo...às vezes vejo coisas lá atrás nas árvores, crianças a quererem sair LOL é muito mágico este jardim/floresta!

Beijocas e estou muito feliz por ti, é bom dar liberdade ao nosso coração. As mágoas saem e cria-se espaço para que entrem coisas boas!

Até já

Fada Moranga disse...

Parabéns IdoMind!!!
Já és menos Maria Rabina ;-)

E que beleza nesta casa... Os frutos do mar, de Neptuno, são milagreiros. Come mais ;-)
Um grande beijo*deFada

Viajante disse...

Tá no ir, comer ums mexilhões fresquinhos na tasca da "Moura encantada" logo à esquerda de quem sai do Castelo da Princesa IdoMind.
O ambiente é bom temos revelações à sobremesa.
Ainda bem que baixaste a ponte e resolveste vir até nós comuns mortais que só te viamos das ameias.
Agora só tens de resistir à tentação

Beijo

O Viajante

IdoMind disse...

Pois é Shin

E a tua irmã (a eremita dos livros e do TPC sexta-feira à noite)morreu!
Melhor que ninguém percebes o que aqui esteve em causa.

Sim, fiz o que senti. Aquele era o momento e aquelas eram as pessoas.
Que exorcismo...Não sei se os fantasmas voltarão mas sei que não voltarão a assombrar-me. Se vierem é para me lembrar que tudo é: PASSADO. O que me trouxe aqui desta maneira.

O Jardim está..sugestivo, não achas? Tipo refugio secreto. A casa da árvore onde só cabemos nós.
Obrigado pela ajuda.
Estava a ler os comentários e a pensar " O jardim está mesmo tranquilo, silencioso" Pois!!! Esqueci-me da música! Com as trocas e baldrocas apaguei o mixpod!!lol
Mas gosto dele assim - calado.

beijos minha irmã e tens razão, sou mesmo lenta a processar as emoções, foram precisos 16 anos para isto!!

love ya

Maria de Fátima disse...

Olá querida Ido, já tinha saudades de ler os teus textos.E que lindo que está o Jardim, parece uma floresta encantada, cheia de encantos e de mistérios.No final da leitura até fiquei emocionada.Beijocas.

IdoMind disse...

Fada

Até tenho medo! Marisco só para o ano!! :))

Gostaste do Jardim? Está muito...feminino.Demasiado harmonioso.
Também veio nesta nova fase pós-mexilhão!

fada linda obrigado pela tua presença sempre mágica neste jardim aflorestado ;)

IdoMind disse...

Ai Viajante

lololol

Já tinha ouvido falar em alergia ao marisco mas nunca que desse para soltar a língua e abrir o coração..

Resistir à tentação?! É mais meio quilo de mexilhão e digo-te o resistir á tentação!

beijos meu amigo

IdoMind disse...

Mimi, doce Mimi

Eu é que tinha saudades desta tua maneira singela de espalhar amor.
O jardim ficou muito diferente do que tinha planeado fazer com ele mas confesso que ficou muito mais IdoMind..;)

gosto muito muito de ti Fatinha e ía comentar o teu post sobre as festas de S. António quando recebi no mail o teu comentário no jardim. Por isso, até já
beijos

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