
Ele foi preparado às pressas, ao lado da menina agonizante, e espetaram-lhe uma agulha na veia. Ele mantinha-se quietinho e com o olhar fixo no tecto. Passado algum momento, deixou escapar um soluço e tapou o rosto com a mão que estava livre. O médico perguntou-lhe se estava a doer, e ele disse que não, mas não demorou muito a soluçar de novo, contendo as lágrimas. O médico ficou preocupado e voltou-lhe a perguntar e novamente o menino negou. Os soluços ocasionais deram lugar a um choro silencioso, mas ininterrupto. Era evidente que alguma coisa estava errada.
Foi então que apareceu uma enfermeira vietnamita de outra aldeia. O médico pediu-lhe que ela procurasse saber o que se estava a passar com Heng. Com voz meiga e doce, a enfermeira foi conversando com ele e explicando-lhe algumas coisas. E o rostinho do menino foi se aliviando. Minutos depois ele estava novamente tranquilo.
Nestes tempos em que o egóismo dança descontrolado em tantos corações, dando voz a afirmações perigosas como " já não há amigos, tenho é muitos conhecidos", "não podemos confiar em ninguém, temos de contar é connosco" " primeiro eu, depois eu, a seguir eu e então..." e outras similires que vão abrindo a fossa, cada vez maior, entre nós e os outros, apeteceu-me partilhar a pureza do doce Heng.
Sinto-me menos pequena cada vez que leio esta história porque vivo num sítio onde há quem dê todo o seu sangue para que um amigo viva.
O relato dizia ser verídico.
Resta-me acrescentar:
Quando conseguirmos dar todo o nosso sangue por alguém,
Quando conseguirmos, apesar da dor, manter o braço esticado,
Quando conseguirmos nos rostos do mundo ver o nosso amigo,
Quando finalmente nos lembrarmos que nós somos todos