Por pouco não chegava a tempo de vos falar como vi Deus.
Será a rubrica das quartas-feiras. Já vos falei desse meu hábito de escrever no diário aquele momento que por um motivo qualquer me tocou particularmente e onde “Vi Deus”.
Hoje Ele esteve comigo por todo o lado. Deus tirou folga do Céu e veio até ao Oeste.
Começou cedo a sua visita turística.Logo pelas sete e pouco da manhã, a carregar mobília guardada na garagem de um amiga. A mobília do meu primeiro escritório. A que comprei logo após o estágio, com os poucos trocos que tinha, há tanto tempo atrás. Hoje voltei ao início. De novo a minha mobília se viu de pé, desimpedida dos papéis, plásticos e fita adesiva que a protegeram todo este tempo. Orgulhosa e resistente. Para minha surpresa, também bastante actual. Móveis montados, foi a vez de desempacotar processos, papelada e trinta mil quilos de inutilidades que acumulei nestes anos de profissão.
Tudo para o lixo. Estou tão contente comigo. Fui capaz de rasgar, de amassar e de deitar fora…
Encontrei vestígios de uma vida anterior, aquela que vivi antes de saber quem era. Registos da mulher que fui antes de me tornar criança e doida.
Uma colecção de multas de estacionamento do meu ex-marido, religiosamente guardadas na esperança que ele um dia me devolvesse o dinheiro. Cartões de Natal de alguns clientes, agradecendo ter sido alguém como eu a ajudá-los.Um desenho do amor da minha da vida, a minha priminha, que me pintou cheia de corações atrás da secretaria no meu primeiro escritório. Mantive este desenho pendurado todo o tempo que lá estive e que depois guardei quando sai e fui para outras paragens.
Vi Deus em todas aquelas fases da minha vida. Na paciência com “aquele cujo nome não dizemos” (o meu ex-marido), na confiança e no carinho dos clientes que se tornaram amigos até aos dias de hoje. Na ligação intemporal com a minha menina.
Já vivi tanto… Hoje apercebi-me disso. E agradeci.

Enquanto punha ordem no meu novo lar profissional, dei de caras com uma coincidência extraordinária: faz precisamente hoje nove anos que fiz a prova que me permite o exercício do meu ofício. Há nove anos atrás estava diante de um júri a tremer e a rezar para poder ser o que sempre sonhei ser. E que consegui. Nove anos depois desse dia tão especial, estava de chave de fendas na mão a lutar contra uma estante no meu novo escritório. Achei incrível. Vi um sinal do céu a dizer-me que tudo estava no devido lugar. Assim que acabei de ter este pensamento, e enquanto continuava a ordenar a papelada, dou com um envelope com 30 Euros dentro. O dinheiro que algum cliente me enviou mas que me já esqueci para que seria. Ri comigo e pensei “Estás certa, tudo está no devido lugar. Por pensares bem toma lá esta recompensa.”…
Voltei a ver a Deus. A mostrar-me os ciclos das coisas. Que por vezes andamos à roda para voltar ao ponto de partida, mas com um entendimento maior. Compreendendo e aceitando o que nos acontece. Aprendendo acerca do propósito de tudo. Voltei a agradecer.Agora comovida.
Cansada, toda suja, empoeirada, mas leve como uma pena, fui surpreendida pela visita de dois amigos.
Sabiam que estava de mudanças e antes de irem jantar, mesmo depois das muitas horas de trabalho, foram ter comigo para me ajudar. Sem que eu pedisse ou dissesse o que quer que fosse… Sorridentes e com a boa vontade que há muito tomou os seus corações de arrendamento, arregaçaram mangas e carregaram caixas do arquivo morto, livros, códigos, varreram o chão e ainda me levaram a jantar.
Três doses de sardinhas e duas garrafas do tinto da casa… Viva a Vida! Viva a Vida que será sempre abençoada para quem tem amigos de verdade.
E vi Deus. Neles vi Deus na sua expressão mais pura: na dávida desinteressada. Na amizade sincera. Nas mãos que nunca estão cansadas para ajudar.
Vocês não vão ler este texto, mas escrevo-o para que testemunhe o meu eterno agradecimento pelo vosso gesto e por esse amor que têm por mim. Obrigada, meus queridos amigos.
Com eles brindei ao meu novo início. Uma esperança inexplicável embalou-me de tranquilidade. Depois de muita água engolida, da cabeça partida e bastante ginástica, percebi que a corrente, até a mais violenta, serve apenas nos empurrar até ao nosso destino. Podemos cansar-nos e remar ao contrário. Ou descontrair e aproveitar a boleia…
Hoje, Deus tirou o dia para mim. E eu tinha que vos dizer.
IdoMind
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